{"id":28071,"date":"2026-08-06T14:34:39","date_gmt":"2026-08-06T17:34:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=28071"},"modified":"2026-08-06T17:04:25","modified_gmt":"2026-08-06T20:04:25","slug":"o-corpo-que-danca-ate-cansar-o-cansaco-juliana-linhares-no-recife-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-corpo-que-danca-ate-cansar-o-cansaco-juliana-linhares-no-recife-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"O corpo que dan\u00e7a <\/br>at\u00e9 cansar o cansa\u00e7o <\/br> Juliana Linhares no Recife<\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_28089\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Editedimage_1786017377419-e1786031412240.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28089\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28089\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Editedimage_1786017377419-e1786031412240.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"762\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28089\" class=\"wp-caption-text\">Apresenta\u00e7\u00e3o no Teatro de Santa Isabel, no dia 2 de agosto. Foto: Jessica Mendes \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_28090\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Editedimage_1786017369837-e1786031595350.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28090\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-28090 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Editedimage_1786017369837-e1786031595350.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"436\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28090\" class=\"wp-caption-text\">Show integrou programa\u00e7\u00e3o do <strong><em>Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz. <\/em><\/strong>Foto: Jessica Mendes<\/p><\/div>\n<p>O corpo cansado que dan\u00e7a \u00e9 a po\u00e9tica que Juliana Linhares p\u00f5e em movimento no palco do Teatro de Santa Isabel, lotad\u00edssimo na noite de domingo (02\/08). <em><strong>At\u00e9 Cansar o Cansa\u00e7o<\/strong><\/em> (segundo \u00e1lbum transformado em espet\u00e1culo) parte do estado de exaust\u00e3o da era da hiperconex\u00e3o e responde com o que parece contradit\u00f3rio: em vez de repouso, mais corpo, mais presen\u00e7a, mais movimento. A artista potiguar, formada no teatro, faz do palco um campo de for\u00e7as onde a can\u00e7\u00e3o \u00e9 cena, a voz \u00e9 gesto, e o cansa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 o fim; \u00e9 o ponto de partida.<\/p>\n<p>Artista jovem, sim, mas com trabalho maduro, urdido durante anos em elabora\u00e7\u00e3o criativa com profissionais de diferentes campos &#8211; do teatro \u00e0 neuroci\u00eancia, da can\u00e7\u00e3o popular \u00e0 dramaturgia contempor\u00e2nea. J\u00e1 se tornou uma das maiores artistas da cena, da m\u00fasica e do teatro surgida nos \u00faltimos anos. A mo\u00e7a j\u00e1 ganhou um espa\u00e7o imenso, mas tem tudo para voar muito mais alto.<\/p>\n<p>Magnetismo e humanidade. Brilhantismo e humildade &#8211; qualidades que parecem combinar com Juliana. H\u00e1 conceito, espessura e paix\u00e3o na alegria que desperta e compartilha neste espet\u00e1culo. \u00c9 impressionante a presen\u00e7a, a performance, o fasc\u00ednio; \u00e9 acalanto e cutucada a arte dessa mo\u00e7a.<\/p>\n<p>No Carnaval deste ano, vi Juliana em a\u00e7\u00e3o duas vezes. No palco do Marco Zero, no centro do Recife, como convidada do Maestro Forr\u00f3 e da Orquestra Popular da Bomba do Hemet\u00e9rio, cantando <em>Frevo Mulher<\/em>, quando levantou a galera j\u00e1 acesa. E na Pra\u00e7a do Arsenal, num espet\u00e1culo in\u00e9dito que reuniu a paraibana C\u00e1tia de Fran\u00e7a, a baiana Josyara e Linhares potiguar; tr\u00eas figuras do Nordeste no palco. O show percorria os mais de 50 anos de carreira de C\u00e1tia, al\u00e9m de can\u00e7\u00f5es do repert\u00f3rio autoral de Juliana e Josyara. Era um mergulho afetivo e pol\u00edtico na trajet\u00f3ria da paraibana; uma artista que atravessa d\u00e9cadas de experimenta\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. Juliana brilhou nessas passagens, mas no Santa Isabel seu trabalho se revelou em outra dimens\u00e3o: com densidade art\u00edstica, constru\u00e7\u00e3o c\u00eanica e repert\u00f3rio que as participa\u00e7\u00f5es no Carnaval insinuavam.<\/p>\n<p>O p\u00fablico reconhecia o que via. Quente, empolgado, participante; em grande parte j\u00e1 acompanhava a carreira de Linhares de outros carnavais e do \u00e1lbum anterior, <em>Nordeste Fic\u00e7\u00e3o<\/em>(2021), que dialoga intimamente com identidades, territorialidades e representa\u00e7\u00e3o cultural do Nordeste.<\/p>\n<p><em><strong>At\u00e9 Cansar o Cansa\u00e7o<\/strong><\/em> estreou recentemente no Rio de Janeiro, em 16 de julho, no Teatro Claro Mais, com recep\u00e7\u00e3o entusi\u00e1stica do p\u00fablico e da cr\u00edtica. No Recife, a apresenta\u00e7\u00e3o ocorreu dentro da programa\u00e7\u00e3o do <strong><em>Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>O repert\u00f3rio vibra na inquietude e na fadiga coletiva da era da hiperconex\u00e3o, forjado no esfor\u00e7o de traduzir o nosso tempo sem desistir. Tem c\u00e9lulas das pesquisas do neurocientista Sidarta Ribeiro sobre os sonhos e do cruzamento de Juliana com o dramaturgo e encenador Marcio Abreu, da companhia brasileira de teatro; cujo texto <em>Linha da vida<\/em> ela interpreta no meio do show, afirmando que o sonho, a f\u00e9 e a vida vivida s\u00e3o as mat\u00e9rias-primas do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Para atravessar tudo isso, ela faz do corpo o centro da cena. Pula. Dan\u00e7a. Faz piruetas. Canta deitada no ch\u00e3o. Desce \u00e0 plateia, dan\u00e7a com uma espectadora, recita versos, subverte rimas numa movimenta\u00e7\u00e3o que mistura o articulado dos bonecos de mamulengo, a irrever\u00eancia dos brincantes de circo, o ritmo dos dan\u00e7antes contempor\u00e2neos. \u00c9 uma danada essa Juliana! Perform\u00e1tica, ela mastiga a pol\u00edtica e cospe feito fogo no j\u00e1 citado mon\u00f3logo de Abreu, que expande, no palco, as narrativas do disco.<\/p>\n<div id=\"attachment_28082\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Editedimage_1786015755732-e1786016575752.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28082\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28082\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Editedimage_1786015755732-e1786016575752.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"900\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28082\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo de Juliana Linhares empolgou a plateia pernambucana. Foto: Jessica Mendes \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_28083\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC06519.jpg-scaled-e1786016489120.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28083\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28083\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC06519.jpg-scaled-e1786016489120.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28083\" class=\"wp-caption-text\">Juliana Linhares ganha espa\u00e7o na cena nacional. Foto: Jessica Mendes \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O teatro \u00e9 o tronco na trajet\u00f3ria de Juliana. Desde os 9 anos no grupo teatral da escola, passando pela forma\u00e7\u00e3o na faculdade de Artes C\u00eanicas, na UniRio e pela estreia profissional em 1995, ela construiu uma identidade c\u00eanica que vibra em cada gesto no palco musical. Do trabalho com a core\u00f3grafa Angel Vianna em <em>O Tempo N\u00e3o D\u00e1 Tempo<\/em>&#8221; (2018), de Duda Maia, que celebrava os 90 anos de Angel, \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o do corpo em cena na companhia brasileira de teatro, onde assinou a trilha sonora de <em>Sonho El\u00e9trico<\/em>, de Marcio Abreu e fez participa\u00e7\u00f5es especiais como atriz. Com Jo\u00e3o Falc\u00e3o, atuou em <em>A \u00d3pera do Malandro<\/em> e <em>Gabriela, um musical<\/em>. Atualmente est\u00e1 em cartaz com <em>As Centen\u00e1rias<\/em>, de Newton Moreno, com can\u00e7\u00f5es de Chico C\u00e9sar e dire\u00e7\u00e3o de Luiz Carlos Vasconcelos, ao lado de Laila Garin.<\/p>\n<p>O figurino faz extens\u00e3o desse corpo talhado no teatro. Concebido em camadas por Jailson Fernandes, vai sendo revelado, transformado, desfeito, como a pr\u00f3pria jornada do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>O show chega com a faixa-t\u00edtulo, <em>At\u00e9 cansar o cansa\u00e7o<\/em> (Juliana Linhares e Jeff Lyrio, 2026), cantada com travesseiro como adere\u00e7o c\u00eanico e olhos que se agigantam para potencializar o sentido dos versos. \u00c9 a cena-funda\u00e7\u00e3o: o corpo que cansa, o canto que resiste, o sonho como ato pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia, <em>O rabo do jumento<\/em> (Elino Juli\u00e3o, 1967), est\u00e1 carregada de humor nordestino. Supostamente baseada num fato real (um jumento que invadiu o ro\u00e7ado do vizinho Nascimento, comeu um p\u00e9 de coentro, e teve o rabo cortado como castigo), a can\u00e7\u00e3o exp\u00f5e a hist\u00f3ria de um homem que recusa o dinheiro da indeniza\u00e7\u00e3o e exige o imposs\u00edvel: &#8220;Eu n\u00e3o quero pagamento, Nascimento \/ Eu quero \u00e9 outro rabo no jumento&#8221;. Juliana canta como quem conta um causo que ainda d\u00f3i: h\u00e1 comicidade no absurdo, mas h\u00e1 tamb\u00e9m o retrato de uma rela\u00e7\u00e3o de poder; o vizinho brabo que pune, amea\u00e7a e depois tenta comprar o sil\u00eancio. Riso e soco no mesmo gesto.<\/p>\n<p>Em <em>Conseguiram, parab\u00e9ns<\/em> (Manduka), o narrador bate palmas com sarcasmo para quem conseguiu o que ele jamais conseguiria: matar o pr\u00f3prio querer, sublimar a paix\u00e3o, esquecer. No contexto do show, a m\u00fasica toca o nervo central: o que exaure \u00e9 o esfor\u00e7o di\u00e1rio de ser quem n\u00e3o se \u00e9, de desintegrar no ar as montanhas de paix\u00e3o para caber no que se espera. Questiona o pre\u00e7o de se encaixar. No palco, Juliana d\u00e1 voz a quem se recusa a pagar.<\/p>\n<p>Do pernambucano Juliano Holanda, criador de poesia urbana que enreda as rela\u00e7\u00f5es humanas em imagens de rara densidade, vem <em>Emaranhada<\/em> (2024). A can\u00e7\u00e3o que tece um jogo de fios: &#8220;passando dedo por dedo, formando novo quadrado, losango feito de el\u00e1stico&#8221;. A vida \u00e9 jogo, e os fios que se cruzam nos arriscam: &#8220;o risco de amar no m\u00ednimo, risco de amar no m\u00e1ximo&#8221;.<\/p>\n<p>No bai\u00e3o <em>Vida virada<\/em>, a artista canta parte da m\u00fasica deitada no palco, de costas para a plateia, com as pernas para cima e a cabe\u00e7a virada &#8211; invers\u00e3o que subverte a frontalidade do palco e reinventa a rela\u00e7\u00e3o com quem assiste. Ela quebra conven\u00e7\u00f5es e o p\u00fablico segue encantado.<\/p>\n<p><em>Chama da crian\u00e7a<\/em> (Juliana Linhares e Demarca, 2024), do \u00e1lbum <em>Nasci no Brasil<\/em> (2024) da Piet\u00e1 (banda que a revelou), se entrela\u00e7a ao conceito do espet\u00e1culo em n\u00famero que costura cita\u00e7\u00f5es de <em>Salve as folhas<\/em> (Ger\u00f4nio e Ild\u00e1sio Tavares, 1989), <em>Vapor barato<\/em> (Jards Macal\u00e9 e Waly Salom\u00e3o, 1971) e <em>A mulher do fim do mundo<\/em> (Romulo Fr\u00f3es e Alice Coutinho, 2015). &#8220;Nessa solid\u00e3o desenfreada \/ Sigo me apoiando em quem tem f\u00e9 \/ E acredito em for\u00e7as encantadas \/ Chama da crian\u00e7a que ainda \u00e9&#8221;. Cada cita\u00e7\u00e3o traz, em outra pulsa\u00e7\u00e3o, o que o show inteiro sustenta: que a vida insiste.<\/p>\n<p>E <em>A palo seco<\/em>&nbsp;(Belchior, 1973) traz um momento arrebatador do show: um chute coreogr\u00e1fico no ar corta o verso <em>&#8220;Eu quero \u00e9 que esse canto torto \/ Feito faca, corte a carne de voc\u00eas&#8221;<\/em>. Sob ecos e reverbs que seguram a voz depois do \u00faltimo f\u00f4lego, ela fala em democracia e liberdade. Escrita em 1973, sob ditadura, a can\u00e7\u00e3o chega inteira a 2026: a provoca\u00e7\u00e3o do corte na carne continua.<\/p>\n<div id=\"attachment_28084\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/juliana-linhares-foto-Ivana-Moura-e1786026822127.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28084\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28084\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/juliana-linhares-foto-Ivana-Moura-e1786026822127.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"741\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28084\" class=\"wp-caption-text\">Cantando na plateia. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>&#8220;Maravilhosa!&#8221; soltou uma voz da plateia. Ao longo do show vieram outras &#8211; elogios, exclama\u00e7\u00f5es, devo\u00e7\u00f5es, sauda\u00e7\u00f5es &#8211; at\u00e9 uma &#8220;Perfeita!&#8221; O que se vive no Teatro de Santa Isabel \u00e9 um estado de entusiasmo, de comunh\u00e3o coletiva. N\u00e3o por acaso: o trabalho de Juliana Linhares \u00e9 maduro, provocador, redondo, contagiante, ao mesmo tempo cr\u00edtico e de bem com a vida. Arrebata o p\u00fablico e gera uma energia que \u00e9 o reconhecimento partilhado de que algo est\u00e1 acontecendo com todos, ao mesmo tempo, na mesma sala. O consenso, aqui, n\u00e3o \u00e9 problema; \u00e9 fen\u00f4meno.<\/p>\n<p><em>Tesoura do desejo<\/em> (Alceu Valen\u00e7a, 1991) (no arranjo de El\u00edsio Freitas, com a sanfona de Paloma Ronai) marca o momento em que Juliana desce do palco e canta no corredor do Santa Isabel, no meio da plateia pernambucana, bastante aplaudida. \u00c9 a magia que se forma entre a artista, a banda e um p\u00fablico amante da arte de Linhares. Ela emenda com <em>Balanceiro<\/em> (Juliana Linhares, Khrystal, Moyseis Marques e Sami Tarik, 2021). E canta &#8220;Eu n\u00e3o posso mudar o mundo, mas eu balan\u00e7o&#8221;; dan\u00e7a com uma espectadora, avisa que o corredor est\u00e1 liberado, e alguns se animam para dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ao lado dessa arquitetura c\u00eanica, uma banda precisa. A dire\u00e7\u00e3o musical \u00e9 do multi-instrumentista El\u00edsio Freitas, arranjador do show e guitarrista da banda formada por Julia Rodrigues (bateria), Lucas Videla (percuss\u00e3o), Paloma Ronai (sanfona) e Nathanne Rodrigues (baixo). A sanfona de Paloma Ronai e a guitarra de El\u00edsio Freitas entram numa conversa com os outros instrumentos em texturas que v\u00e3o do bai\u00e3o ao rock, do frevo \u00e0 balada, sem nunca perder o suingue nem o chamego sobre o que \u00e9 ser nordestino. Teve tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o de Helder Vasconcelos, que desenvolveu uma coreografia solo, e Linhares saudou as muitas parcerias com artistas pernambucanos.<\/p>\n<p>A luz do espet\u00e1culo esculpe zonas de sombra e fulgor que acompanham os deslocamentos de Juliana pelo palco, potencializando o encontro entre o que se canta e o que se dan\u00e7a, entre a artista e a plateia.<\/p>\n<p>No encerramento, Juliana fala emocionada. Cita o l\u00edder ind\u00edgena e pensador Ailton Krenak: &#8220;a gente n\u00e3o pode perder a capacidade e a habilidade de sonhar, porque s\u00f3 sonhando a gente pode reinventar a vida&#8221;. Lembra de Angel Vianna, que lhe ensinou que podia se chamar de bailarina. Evoca Ariane Mnouchkine, diretora francesa do Th\u00e9\u00e2tre du Soleil: &#8220;o teatro \u00e9 o lugar onde os mortos veem os vivos&#8221;. Agradece ao neurocientista Sidarta Ribeiro, cujas pesquisas sobre os sonhos atravessam o espet\u00e1culo desde a primeira cena. E sintetiza: &#8220;eu sou o corpo. E atrav\u00e9s dele a gente pode tudo&#8221;. Diz que estava muito nervosa para o show e que preparou o seu melhor: &#8220;Espero que voc\u00eas saiam daqui um pouco menos cansadas, um pouco mais vivas e conectadas. E eu agrade\u00e7o imensamente por sonhar acordada por causa de voc\u00eas.&#8221;<\/p>\n<p>O p\u00fablico n\u00e3o arredava o p\u00e9 e Juliana n\u00e3o economizava o verso. O espet\u00e1culo se prolongou depois do an\u00fancio do fim. Ainda rendeu <em>Tareco e mariola<\/em>(Petr\u00facio Amorim, 1995) e outras can\u00e7\u00f5es tocadas no bis. Juliana Linhares est\u00e1 ocupando um territ\u00f3rio que conquistou e nele fincando a bandeira de uma artista que n\u00e3o pede licen\u00e7a para ser grande.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Ivana Moura<\/strong> \u00e9 artista-pesquisadora, jornalista, dramaturga e cr\u00edtica das artes vivas. Doutora em artes c\u00eanicas pela USP (Universidade de S\u00e3o Paulo). Idealizadora, editora e cr\u00edtica na plataforma <strong>Satisfeita, Yolanda?<\/strong>. Foi editora e rep\u00f3rter no Diario de Pernambuco. Integrante da se\u00e7\u00e3o brasileira da IATC\/AICT (Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Cr\u00edticos de Teatro).<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O corpo cansado que dan\u00e7a \u00e9 a po\u00e9tica que Juliana Linhares p\u00f5e em movimento no palco do Teatro de Santa Isabel, lotad\u00edssimo na noite de domingo (02\/08). 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