{"id":28064,"date":"2026-07-23T13:49:19","date_gmt":"2026-07-23T16:49:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=28064"},"modified":"2026-07-23T13:49:19","modified_gmt":"2026-07-23T16:49:19","slug":"beckett-o-esgotamento-e-a-cena-com-nanini-weber-helena-ignez-e-ary-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/beckett-o-esgotamento-e-a-cena-com-nanini-weber-helena-ignez-e-ary-franca\/","title":{"rendered":"Beckett, o esgotamento e a <\/br> cena com Nanini, Weber, <\/br> Helena Ignez e Ary Fran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_28068\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Fim-de-Partida-Credito-Annelize-Tozetto-2-e1784822302693.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28068\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28068\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Fim-de-Partida-Credito-Annelize-Tozetto-2-e1784822302693.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28068\" class=\"wp-caption-text\">Marco Nanini e Guilherme Weber em <strong>Fim de Partida.<\/strong> Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 perturbadoramente atual a condi\u00e7\u00e3o de corpos confinados num espa\u00e7o claustrof\u00f3bico, dependentes uns dos outros para a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, diante de um mundo exterior que pode n\u00e3o existir mais. Samuel Beckett escreveu <strong><em>Fim de Partida<\/em><\/strong> nos anos 1950, sob a sombra ainda fresca da Segunda Guerra Mundial, e descreveu esse cen\u00e1rio com a precis\u00e3o cir\u00fargica de quem dissecou o s\u00e9culo 20 e encontrou, no fundo, apenas destro\u00e7os. Mais de sete d\u00e9cadas depois, a pe\u00e7a&nbsp; parece ter esperado o mundo alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>Com Marco Nanini como Hamm e Guilherme Weber como Clov, o espet\u00e1culo chega ao Teatro Luiz Mendon\u00e7a, no Recife, para quatro apresenta\u00e7\u00f5es de quinta a domingo (entre os dias 23 e 26 de julho de 2026), ap\u00f3s temporadas aclamadas em S\u00e3o Paulo, Bras\u00edlia e Fortaleza.<\/p>\n<p>Nanini j\u00e1 alimentava o desejo de encenar Beckett quando Weber lhe fez a provoca\u00e7\u00e3o de voltarem a dividir o palco, vinte anos ap\u00f3s <em>A Morte do Caixeiro Viajante<\/em> (2004) e mais de duas d\u00e9cadas desde <em>Os Solit\u00e1rios<\/em> (2002), ambos marcos da cena brasileira. A qu\u00edmica entre os dois atores \u00e9 apontada com um dos alicerces que sustentam a produ\u00e7\u00e3o.&nbsp;S\u00e3o profissionais que acumulam d\u00e9cadas de palco e levam para a cena o peso de uma experi\u00eancia que dialoga diretamente com a exaust\u00e3o, a repeti\u00e7\u00e3o e a paralisia que estruturam o universo beckettiano.<\/p>\n<p>Ao lado da dupla central, duas presen\u00e7as carregadas de hist\u00f3ria conferem ao espet\u00e1culo uma dimens\u00e3o de reencontro afetivo. Helena Ignez, \u00edcone do cinema brasileiro, com quem Nanini contracenou no in\u00edcio da carreira, vive Nell &#8211; apari\u00e7\u00e3o breve, por\u00e9m luminosa, confinada numa lata de lixo ao lado de Nagg, interpretado por Ary Fran\u00e7a, parceiro de Nanini no premiado <em>O Burgu\u00eas Rid\u00edculo<\/em> (1996). Quatro corpos que carregam a mem\u00f3ria do teatro brasileiro e, ao mesmo tempo, encarnam personagens despidos de praticamente tudo &#8211; exceto da teimosa insist\u00eancia em continuar existindo.<\/p>\n<div id=\"attachment_28066\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Editedimage_1784654620777-1-e1784822951250.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28066\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28066\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Editedimage_1784654620777-1-e1784822951250.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28066\" class=\"wp-caption-text\">Helena Ignez e Ary Fran\u00e7a. Foto: Fernando Young \/ Diulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Portella chega a esta montagem em momento de consagra\u00e7\u00e3o profissional, com espet\u00e1culos recentes como <em>Tom na Fazenda<\/em>, <em>Fic\u00e7\u00f5es<\/em>, <em>Um Ensaio sobre a Cegueira<\/em> (Grupo Galp\u00e3o) e <em>Ray<\/em>. A partir dessa trajet\u00f3ria, prop\u00f5e para <strong><em>Fim de Partida<\/em><\/strong> uma leitura estruturada em tr\u00eas fluxos de sentido que se sobrep\u00f5em sem se anular.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre Hamm e Clov &#8211; depend\u00eancia f\u00edsica e emocional atravessada por viol\u00eancia cotidiana, jogos de poder e uma crueldade que se disfar\u00e7a de rotina. O segundo \u00e9 uma alegoria pol\u00edtica: Hamm como tirano arbitr\u00e1rio, figura que alude \u00e0 l\u00f3gica da guerra e do militarismo, cuja autoridade se funda no poder b\u00e9lico e opressivo; Clov como corpo submisso, soldado em vig\u00edlia permanente, sempre de p\u00e9, incapaz de repouso, a servi\u00e7o de uma engrenagem que n\u00e3o faz nenhum sentido. O terceiro \u00e9 o metateatro.<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o metalingu\u00edstica encontra, na concep\u00e7\u00e3o cenogr\u00e1fica arquitetada por Daniela Thomas, sua materializa\u00e7\u00e3o mais eloquente. A diretora de arte instala no palco uma esp\u00e9cie de caixa c\u00eanica retangular dentro do qual Hamm e Clov se movimentam. Acima, duas janelas no teto. Trata-se de um palco dentro do palco. Clov \u00e9 o clown, o operador da cena, o rid\u00edculo; Hamm \u00e9 o ator principal, o narrador canastr\u00e3o que se sustenta na fabula\u00e7\u00e3o de si mesmo. O teatro se dobra sobre si pr\u00f3prio &#8211; e essa dobra \u00e9, talvez, a afirma\u00e7\u00e3o mais esperan\u00e7osa (ou mais desesperada) que a montagem promete: mesmo reduzido a escombros, o gesto art\u00edstico insiste em se fazer.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o visual do espet\u00e1culo &#8211; ilumina\u00e7\u00e3o de Beto Bruel projetada para recortar o espa\u00e7o c\u00eanico, figurinos de Antonio Guedes concebidos para transportar os personagens a um universo devastado de tecidos recortados e sobrepostos, trilha original de Federico Puppi que pontua com discri\u00e7\u00e3o os momentos de maior tens\u00e3o &#8211; tem provocado, desde a temporada paulistana, um debate cr\u00edtico que merece registro.<\/p>\n<p>Gustavo Assano, em texto publicado em junho no site <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/a-releitura-sem-coragem-de-fim-de-partida\/\"><em>Outras Palavras<\/em><\/a>, sustentou que a montagem &#8220;abusa de recursos visuais e tenta embelezar o que deveria permanecer inquietante e vazio de sentido&#8221;. Para ele, Beckett teria brigado com encena\u00e7\u00f5es que tentassem criar alegorias com o espa\u00e7o, e a opul\u00eancia c\u00eanica representaria um recuo diante do insuport\u00e1vel da obra &#8211; uma domestica\u00e7\u00e3o do horror.<\/p>\n<p>Contrasta com essa leitura a percep\u00e7\u00e3o registrada em maio, no blog <em>Mise-en-sc\u00e8ne<\/em>, da<em> Folha de S.Paulo<\/em>, de que o espet\u00e1culo constitui &#8220;um acontecimento teatral de rara for\u00e7a e intelig\u00eancia&#8221; que n\u00e3o apenas revisita o cl\u00e1ssico com o respeito que a obra-prima exige, mas o revitaliza ao propor uma leitura contempor\u00e2nea afiada. Nessa perspectiva, a riqueza visual evidencia o absurdo ao traz\u00ea-lo para novas perspectivas, transformando o cen\u00e1rio de devasta\u00e7\u00e3o em constructo c\u00eanico que coloca a plateia como observadora de um mundo imposs\u00edvel de localizar.<\/p>\n<div id=\"attachment_28067\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Fim-de-Partida-Credito-Annelize-Tozetto-e1784824634528.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28067\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28067\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Fim-de-Partida-Credito-Annelize-Tozetto-e1784824634528.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28067\" class=\"wp-caption-text\">A montagem de Beckett permanece resistente a leituras un\u00edvocas. Foto: Annelize Tozetto \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Fim de Partida<\/strong><\/em> \u00e9, como observou Theodor W. Adorno, o retrato de um impasse. O t\u00edtulo \u00e9 ir\u00f4nico; pois n\u00e3o se trata da conclus\u00e3o de uma partida, mas do fechamento fatal das possibilidades de que ela ocorra. Hamm e Clov perguntam ou afirmam, repetidas vezes, se est\u00e3o diante do t\u00e9rmino: &#8220;acabou, est\u00e1 acabando, quase acabando, deve estar quase acabando.&#8221; Mas nada se conclui. A a\u00e7\u00e3o continua, com menos mundo. A fala continua, com menos confian\u00e7a. O corpo continua, com menos promessa.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia de Adorno est\u00e1 em seu ensaio &#8220;Versuch, das Endspiel zu verstehen&#8221; (<em>Tentativa de compreender Fim de Partida<\/em>), publicado originalmente em 1961 e inclu\u00eddo na colet\u00e2nea Noten zur Literatur (<em>Anota\u00e7\u00f5es sobre Literatura<\/em>); com edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas pela Editora 34. Nesse texto, o fil\u00f3sofo sustenta que o objeto de Beckett n\u00e3o \u00e9 a cat\u00e1strofe em si, mas a vida que continua ap\u00f3s ela, num mundo em que nem mesmo os sobreviventes conseguem sobreviver. Adorno identifica uma tens\u00e3o estrutural, ou seja, a puls\u00e3o de morte de Hamm coincide com seu pr\u00f3prio princ\u00edpio vital, ao passo que a vontade de viver de Clov talvez venha a provocar a morte de ambos.<\/p>\n<p>Beckett n\u00e3o oferece atenuantes. N\u00e3o h\u00e1 reden\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 sequer a dignidade de um sofrimento personalizado. Hamm e Clov s\u00e3o figuras despidas de individualidade que espelham um processo mais amplo. A viol\u00eancia despersonalizada e an\u00f4nima do capitalismo tardio, ou, em termos mais imediatos, a persist\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es de poder mesmo quando n\u00e3o existe mais nada a dominar.<\/p>\n<h2>Servi\u00e7o<\/h2>\n<p><strong>Fim de Partida<\/strong><br \/>\n<strong>Local<\/strong>: Teatro Luiz Mendon\u00e7a \u2014 Parque Dona Lindu (Av. Boa Viagem, s\/n, Boa Viagem, Recife)<br \/>\n<strong>Datas e hor\u00e1rios: <\/strong>23, 24 e 25 de julho (quinta, sexta e s\u00e1bado), \u00e0s 20h<br \/>\n26 de julho (domingo), \u00e0s 19h<br \/>\n<strong>Classifica\u00e7\u00e3o indicativa<\/strong>: 16 anos<br \/>\n<strong>Ingressos<\/strong>: R$ 75 a R$ 200 (inteira) \/ R$ 100 (meia-entrada)<br \/>\nVendas: teatroluizmendonca.byinti.comFicha t\u00e9cnica<\/p>\n<h2>Ficha t\u00e9cnica<\/h2>\n<p><strong>Texto<\/strong>: Samuel Beckett<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Rodrigo Portella<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o<\/strong>: F\u00e1bio de Souza Andrade<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de Arte e Cenografia<\/strong>: Daniela Thomas<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o<\/strong>: Beto Bruel<br \/>\n<strong>Trilha Original e Dire\u00e7\u00e3o Musical<\/strong>: Federico Puppi<br \/>\n<strong>Figurino<\/strong>: Antonio Guedes<br \/>\n<strong>Assist\u00eancia de Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Z\u00e9 Mancini<br \/>\n<strong>Visagismo<\/strong>: Leila Turgante<br \/>\n<strong>Comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>: Pedro Neves<br \/>\n<strong>Ger\u00eancia de Projetos<\/strong>: Carolina Tavares<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o Executiva<\/strong>: \u00c1rtemis<br \/>\n<strong>Produtor<\/strong>: Fernando Libonati<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: Pequena Central de Produ\u00e7\u00f5es<br \/>\n<strong>Instagram<\/strong>: @pequenacentral_<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 perturbadoramente atual a condi\u00e7\u00e3o de corpos confinados num espa\u00e7o claustrof\u00f3bico, dependentes uns dos outros para a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, diante de um mundo exterior que pode n\u00e3o existir mais. 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