{"id":28003,"date":"2026-06-30T17:50:07","date_gmt":"2026-06-30T20:50:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=28003"},"modified":"2026-06-30T17:50:07","modified_gmt":"2026-06-30T20:50:07","slug":"jorge-lafond-e-a-memoria-adiada-critica-e-bate-papo-jorge-pra-sempre-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/jorge-lafond-e-a-memoria-adiada-critica-e-bate-papo-jorge-pra-sempre-verao\/","title":{"rendered":"Jorge Lafond e a mem\u00f3ria adiada <\/br>Cr\u00edtica e bate-papo: <\/br> Jorge pra Sempre Ver\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_28005\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Jorge-pra-Sempre-Verao-Foto-Guara-Siqueira-Divulgacao-e1782848047324.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28005\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28005\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Jorge-pra-Sempre-Verao-Foto-Guara-Siqueira-Divulgacao-e1782848047324.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"350\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28005\" class=\"wp-caption-text\"><strong><em>Jorge pra Sempre Ver\u00e3o<\/em><\/strong>. Em primeiro plano Aretha Sadick e Alexandre Mitre. Foto Guar\u00e1 Siqueira \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Poucos espet\u00e1culos recentes do teatro brasileiro assumem com tanta frontalidade a tarefa de disputar a mem\u00f3ria quanto <em><strong>JORGE pra Sempre VER\u00c3O<\/strong><\/em>. A pe\u00e7a dirigida por Rodrigo Fran\u00e7a, com dramaturgia de Aline Mohamad e Diego do Sub\u00farbio, surge da vontade de homenagear Jorge Lafond, eternizado no imagin\u00e1rio popular como Vera Ver\u00e3o. Mas parte, antes, de uma esp\u00e9cie de atraso hist\u00f3rico de um pa\u00eds que consagrou a imagem do artista em hor\u00e1rio nobre, transformou seu corpo em signo reconhec\u00edvel da cultura de massa, mas n\u00e3o converteu essa centralidade em um esfor\u00e7o de preserva\u00e7\u00e3o e reconhecimento \u00e0 altura da complexidade de sua trajet\u00f3ria, nem em vida nem depois da morte. Mais do que relembrar um \u00edcone c\u00f4mico dos anos 1990 ou promover uma justi\u00e7a sentimental em torno de um artista querido, a montagem interroga os mecanismos que fazem certos corpos virarem patrim\u00f4nio e outros, caricatura. Nesse sentido, a pe\u00e7a acerta ao recolocar Jorge Lafond para al\u00e9m da moldura estreita do bord\u00e3o, da gargalhada f\u00e1cil e da mem\u00f3ria televisiva achatada. A encena\u00e7\u00e3o insiste em perguntar quem foi esse homem negro, afeminado, popular, inteligente e solit\u00e1rio &#8211; e o que a sociedade brasileira fez com ele.<\/p>\n<p>Mas a pe\u00e7a n\u00e3o escolhe o caminho mais \u00f3bvio. Em vez de construir uma biografia convencional, organizada em marcos de vida, ascens\u00e3o, fama e queda, opta por uma dramaturgia de mem\u00f3ria fragment\u00e1ria e biografia coletiva. Essa \u00e9 uma de suas escolhas mais potentes. Aline n\u00e3o pretende falar em nome total de Jorge, nem reconstituir uma verdade definitiva sobre ele. O espet\u00e1culo prefere assumir o recorte, a falta, o fragmento, a mem\u00f3ria incompleta. E, com isso, realiza um movimento particularmente interessante: desloca Jorge do lugar de indiv\u00edduo isolado e o reinscreve numa constela\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias negras, suburbanas, LGBTQIA+, afeminadas e perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p>\u00c9 da\u00ed que vem a for\u00e7a mais pol\u00edtica da pe\u00e7a. Jorge n\u00e3o aparece apenas como \u201cele mesmo\u201d, mas como ponto de converg\u00eancia de muitas hist\u00f3rias. A ofensa \u201cVera Ver\u00e3o\u201d como apelido de humilha\u00e7\u00e3o, a vergonha de ser associado a um corpo afeminado, o processo de ressignificar isso como pot\u00eancia, o conv\u00edvio com a exclus\u00e3o dentro e fora de casa, a tentativa de sobreviver a uma sociedade racista e homof\u00f3bica: tudo isso \u00e9 convocado para que o espet\u00e1culo fale n\u00e3o s\u00f3 de Jorge, mas a partir de Jorge. A recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico confirma esse movimento. Repetidamente, surgem relatos de identifica\u00e7\u00e3o &#8211; menos no sentido de reconhecer apenas a trajet\u00f3ria de uma figura p\u00fablica e mais no de se perceber na cena em peda\u00e7os de si, de suas feridas, da inf\u00e2ncia e das pr\u00f3prias experi\u00eancias de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>No plano art\u00edstico, a montagem tamb\u00e9m encontra solu\u00e7\u00f5es expressivas. A divis\u00e3o entre Jorge e Vera em corpos distintos \u00e9 uma escolha feliz, porque dramatiza o desdobramento entre sujeito e entidade, pessoa e figura p\u00fablica, homem e s\u00edmbolo. Em vez de repetir a m\u00edmica da personagem televisiva, o espet\u00e1culo a desloca para outro plano. Vera deixa de ser somente caricatura humor\u00edstica e ganha espessura m\u00edtica, pol\u00edtica e afetiva. A presen\u00e7a de Aretha Sadick nesse eixo \u00e9 decisiva. Ao assumir Vera como uma mulher preta e trans, a pe\u00e7a atualiza o debate sobre g\u00eanero e dissid\u00eancia, como prop\u00f5e uma leitura cr\u00edtica daquilo que Jorge talvez n\u00e3o pudesse nomear ou viver publicamente em seu tempo. Essa decis\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada por um projeto de cena coerente: corpos pretos retintos no palco, figurinos e dire\u00e7\u00e3o de arte que n\u00e3o banalizam a imagem de Lafond, uso de imagens de arquivo que ajudam a contextualizar sua trajet\u00f3ria e uma ilumina\u00e7\u00e3o que costura, com precis\u00e3o, os movimentos entre documento, evoca\u00e7\u00e3o e rito.<\/p>\n<p>Outro ponto alto est\u00e1 na forma como a montagem l\u00ea o desamparo estrutural de Jorge Lafond como condi\u00e7\u00e3o persistente de um artista que ocupava um lugar ao mesmo tempo central e sem amparo. Jorge foi um rosto nacionalmente reconhecido, um corpo que sustentou humor, audi\u00eancia e impacto popular por anos. Ainda assim, a pe\u00e7a insiste em mostrar que ele seguia s\u00f3. O epis\u00f3dio relacionado \u00e0 entrada de Padre Marcelo Rossi no programa em que Lafond atuava \u00e9 tratado como s\u00edntese desse mecanismo: a dor maior n\u00e3o est\u00e1 na exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica em si, mas na descoberta de que a estrutura que lucra com voc\u00ea n\u00e3o necessariamente o sustenta. O espet\u00e1culo \u00e9 especialmente forte quando identifica que o sofrimento de Jorge vem do preconceito da sociedade, mas tamb\u00e9m da aus\u00eancia de respaldo das engrenagens que se beneficiaram de sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o a maneira como a obra se posiciona no debate sobre apagamento hist\u00f3rico. O espet\u00e1culo j\u00e1 realizou mais de 100 apresenta\u00e7\u00f5es, circulou por diferentes cidades e chega ao Recife carregando a marca de uma trajet\u00f3ria de resist\u00eancia material. N\u00e3o por acaso, o tema do financiamento aparece com for\u00e7a no bate-papo. A compara\u00e7\u00e3o feita por Aline Mohamad com o reconhecimento p\u00f3stumo dado a Paulo Gustavo \u00e9 inc\u00f4moda, mas eficaz. Enquanto alguns artistas se tornam rapidamente nome de rua, musical, filme, lei e grande projeto de mem\u00f3ria, Jorge Lafond precisou esperar d\u00e9cadas por uma pe\u00e7a montada com or\u00e7amento muito mais prec\u00e1rio. A observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o vale como competi\u00e7\u00e3o simplista entre trajet\u00f3rias, e sim como den\u00fancia da desigualdade racial na administra\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria cultural brasileira.<\/p>\n<div id=\"attachment_28004\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/entretenimento-jorge-laffond-jorge-pra-sempre-verao-1708767011-e1782849503764.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28004\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-28004 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/entretenimento-jorge-laffond-jorge-pra-sempre-verao-1708767011-e1782849503764.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28004\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo tamb\u00e9m exp\u00f5e os limites, as lacunas e os impasses de uma obra que tenta devolver humanidade a ao artista Jorge Lafond. Foto Guar\u00e1 Siqueira \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>E \u00e9 justamente por ser forte que a pe\u00e7a tamb\u00e9m pede leitura cr\u00edtica. E aqui vamos pensar em suas zonas mais tensas. A primeira delas est\u00e1 no tratamento dado ao sub\u00farbio, \u00e0 fam\u00edlia e ao entorno social. O espet\u00e1culo tem raz\u00e3o ao reivindicar a cultura suburbana carioca como matriz sens\u00edvel e pol\u00edtica. Mas acontece que, em alguns momentos, essa reivindica\u00e7\u00e3o parece excessivamente protegida pela pr\u00f3pria dramaturgia. H\u00e1 afeto, h\u00e1 pertencimento, h\u00e1 mem\u00f3ria coletiva &#8211; mas nem sempre h\u00e1 fric\u00e7\u00e3o suficiente. O resultado \u00e9 que certas dimens\u00f5es da viol\u00eancia cotidiana, da homofobia dom\u00e9stica, do conservadorismo comunit\u00e1rio e das ambiguidades familiares surgem suavizadas em excesso. Em vez de expor plenamente essas rachaduras, a pe\u00e7a por vezes prefere uma forma de acolhimento que as amortece.<\/p>\n<p>Mais do que individualizar a viol\u00eancia em figuras isoladas, a pe\u00e7a parece interessada em mostrar como racismo, homofobia e apagamento circulam de forma difusa, atravessando linguagem, afetos, institui\u00e7\u00f5es e sociabilidades. Esse enfoque tem for\u00e7a, porque impede uma leitura simplificadora em que bastaria localizar &#8220;culpados evidentes&#8221; para dar conta do problema. Ao mesmo tempo, essa op\u00e7\u00e3o faz com que, em certos momentos, a viol\u00eancia apare\u00e7a mais como atmosfera hist\u00f3rica e social do que como conflito efetivamente tensionado em cena.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m passagens em que a pe\u00e7a parece reencenar, sem atrito suficiente, res\u00edduos de viol\u00eancia internalizada. Isso aparece, por exemplo, na conversa entre Jorge e Vera sobre a cor do batom &#8211; \u201ccharque\u201d ou \u201ccarne de sol\u201d &#8211; e no gesto usado para indicar que uma tia era \u201csapata\u201d. Nos dois casos, a cena pode ser lida menos como simples reprodu\u00e7\u00e3o de uma fala social e mais como reativa\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio preconceituoso que a montagem nem sempre desarma por completo. S\u00e3o momentos breves, mas significativos, porque introduzem uma ambiguidade importante: a pe\u00e7a critica a viol\u00eancia, mas, em alguns instantes, tamb\u00e9m deixa escapar tra\u00e7os dela sem submet\u00ea-los a maior tens\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o \u00e9 a reitera\u00e7\u00e3o. Mesmo que, em alguma medida, a repeti\u00e7\u00e3o pare\u00e7a deliberada &#8211; ao insistir na dor, no insulto, no apagamento e na exclus\u00e3o, como quem sabe que uma \u00fanica formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta para enfrentar a amn\u00e9sia social -, h\u00e1 trechos em que a \u00eanfase retorna mais como reafirma\u00e7\u00e3o do j\u00e1 dito do que como desdobramento novo.<\/p>\n<p>Tudo isso mostra que <strong><em>JORGE pra Sempre VER\u00c3O<\/em> <\/strong>\u00e9 um espet\u00e1culo vivo, que admite disputa, leitura e tens\u00e3o. Sua for\u00e7a est\u00e1 tamb\u00e9m em n\u00e3o se esgotar na rever\u00eancia. A pe\u00e7a busca restituir complexidade a Jorge Lafond e ao mesmo tempo discutir o pa\u00eds que o transformou em sucesso e o deixou \u00e0 margem de sua mem\u00f3ria oficial. Ao fazer isso, revela que a cultura brasileira ainda escolhe com profunda desigualdade quais mortos quer monumentalizar e quais prefere apenas recordar de maneira superficial. O teatro, aqui, n\u00e3o reverte sozinho a viol\u00eancia hist\u00f3rica. Mas contribui para desnaturaliz\u00e1-la.<\/p>\n<div id=\"attachment_28007\" style=\"width: 910px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Editedimage_1782850986652-e1782851263499.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28007\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28007\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Editedimage_1782850986652-e1782851263499.png\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Editedimage_1782850986652-e1782851263499.png 900w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Editedimage_1782850986652-e1782851263499-300x200.png 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Editedimage_1782850986652-e1782851263499-768x512.png 768w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Editedimage_1782850986652-e1782851263499-624x416.png 624w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-28007\" class=\"wp-caption-text\">Aline Mohamad (autora, prima de Jorge e atriz), Alexandre Mitre (ator) e Aretha Sadick (atriz). Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>A voz dos criadores<\/h1>\n<p>Principais pontos do bate-papo com a plateia e a equipe da pe\u00e7a &#8211; Aline Mohamad (autora, prima de Jorge e atriz), Alexandre Mitre (ator) e Aretha Sadick (atriz) ap\u00f3s a sess\u00e3o de 26 de junho, na Caixa Cultural Recife. Mais do que celebrar Jorge Lafond, a conversa evidencia que o espet\u00e1culo se prop\u00f5e a disputar a mem\u00f3ria p\u00fablica em torno de sua trajet\u00f3ria, interrogando quais nomes o Brasil escolhe preservar, sob quais enquadramentos os preserva e por que certos artistas ainda precisam lutar contra o apagamento para permanecer na hist\u00f3ria cultural do pa\u00eds.<\/p>\n<h2>A pe\u00e7a nasceu de um pedido de perd\u00e3o<\/h2>\n<p><strong>Aline Mohamad: <\/strong>\u201cTudo come\u00e7ou com uma carta. Uma carta de pedido de perd\u00e3o que escrevi para o Jorge depois que ele j\u00e1 tinha falecido. Eu mandei para algumas pessoas, incluindo o Rodrigo Fran\u00e7a, e cheguei a apagar, mas o impacto foi imediato. Cinco pessoas me disseram que t\u00ednhamos a obriga\u00e7\u00e3o de montar essa pe\u00e7a. Demoramos cerca de dois anos e meio para captar recursos, enfrentando todas as barreiras poss\u00edveis, at\u00e9 que conseguimos realizar em 2022. A pe\u00e7a nasce desse desejo de cruzar hist\u00f3rias, porque descobrimos que todos n\u00f3s temos uma grande hist\u00f3ria com o Jorge, tenhamos conhecido ele pessoalmente ou n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<h2>A recusa da biografia tradicional<\/h2>\n<p><strong>Aline Mohamad:&nbsp;<\/strong>\u201cEu tinha uma \u00fanica certeza: n\u00e3o seria uma biografia estrita. Eu n\u00e3o tinha o direito de tentar fazer isso. O que quer\u00edamos era construir a nossa biografia. A biografia de quem foi xingado de \u2018Jorge Lafond\u2019 ou \u2018Vera Ver\u00e3o\u2019 na inf\u00e2ncia. Para muitos de n\u00f3s, esses nomes eram usados como ofensa. O texto, escrito com o Diego do Sub\u00farbio, mistura as viv\u00eancias das \u2018bichas pretas\u2019 urbanas com a minha hist\u00f3ria familiar. \u00c9 uma costura de mem\u00f3rias fragmentadas, fotos e relatos orais para preencher os vazios que a hist\u00f3ria oficial deixou.\u201d<\/p>\n<h2>O crit\u00e9rio das escolhas dramat\u00fargicas<\/h2>\n<p><strong>Aline Mohamad:&nbsp;<\/strong>\u201cA gente foi descobrindo que todos n\u00f3s t\u00ednhamos uma grande hist\u00f3ria com o Jorge, independente de ter conhecido ou n\u00e3o. Ent\u00e3o a dramaturgia foi sendo montada a partir dessas viv\u00eancias cruzadas. Era a minha hist\u00f3ria, a do Diego, a de outras pessoas, e tudo isso foi costurado para virar uma biografia coletiva.\u201d<\/p>\n<p><strong>Alexandre Mitre:&nbsp;<\/strong>\u201cMuitas vezes, na leitura do texto, eu travava porque aquilo me tocava num lugar muito pessoal. E isso acontece tamb\u00e9m com o p\u00fablico. Muitas pessoas chegam e falam: \u2018voc\u00ea estava falando do que aconteceu comigo\u2019.\u201d<\/p>\n<h2>A solid\u00e3o e a viol\u00eancia institucional<\/h2>\n<p><strong>Alexandre Mitre:&nbsp;<\/strong>\u201cA viol\u00eancia f\u00edsica que mostramos no palco n\u00e3o \u00e9 maior que a dor da rejei\u00e7\u00e3o. Imagine um artista negro, nos anos 1990, sustentando sozinho o peso de ser o \u00fanico corpo daquele tipo em um programa de humor l\u00edder de audi\u00eancia. Quando ele precisou de apoio, ap\u00f3s ser retirado do palco por uma press\u00e3o institucional externa e branca, ele se viu s\u00f3. A emissora onde ele se fez n\u00e3o o protegeu. Essa falta de acalanto \u00e9 o que desmonta o artista. Por que voltar para o camarim? Qual o fundamento de continuar se tudo o que voc\u00ea construiu cai diante da decis\u00e3o de outro homem?\u201d<\/p>\n<h2>A mem\u00f3ria como quebra-cabe\u00e7a e responsabilidade coletiva<\/h2>\n<p><strong>Aretha Sadick: <\/strong>\u201cA vida pessoal dele foi muito pouco registrada. Ent\u00e3o o espet\u00e1culo tamb\u00e9m \u00e9 um recorte de mem\u00f3rias. Tem o que algu\u00e9m contou, tem o que apareceu numa foto, tem um relato daqui, outro dali. Isso faz com que a pe\u00e7a tamb\u00e9m compartilhe com o p\u00fablico a responsabilidade de manter essas hist\u00f3rias vivas, para que os pr\u00f3ximos Jorges n\u00e3o sejam esquecidos da mesma forma.\u201d<\/p>\n<h2>Corpos negros e trans no centro da cena<\/h2>\n<p><strong>Aretha Sadick:<\/strong> \u201c\u00c9 raro termos um elenco 100% de pessoas pretas retintas no palco. Levar esses corpos escuros para os teatros do Brasil \u00e9 uma demarca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica necess\u00e1ria. No nosso espet\u00e1culo, a Vera \u00e9 deliberadamente uma mulher trans. Quer\u00edamos explorar essa possibilidade: se Jorge j\u00e1 sofria tanto por ser negro e afeminado, como seria se ele pudesse ter expressado essa identidade trans? Al\u00e9m disso, temos uma pol\u00edtica de entrada gratuita para pessoas trans, porque queremos que esses corpos se vejam refletidos e reconhecidos.\u201d<\/p>\n<p><strong>Aline Mohamad: <\/strong>\u201cNo nosso espet\u00e1culo, a Vera sempre ser\u00e1 uma mulher preta e trans. Isso tamb\u00e9m faz parte da pol\u00edtica da pe\u00e7a, assim como a decis\u00e3o de montar uma equipe majoritariamente negra e LGBT.\u201d<\/p>\n<h2>Dinheiro, racismo e o valor da mem\u00f3ria<\/h2>\n<p><strong>Aline Mohamad: <\/strong>\u201cA compara\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel. Nada contra o Paulo Gustavo, mas quando ele morreu, virou lei, musical, filme e rua. Jorge Lafond n\u00e3o teve nada disso, e ele abriu as portas para que muitos chegassem onde chegaram. Montamos essa pe\u00e7a com R$ 100.000,00, o que deve ser 10% do or\u00e7amento de um grande musical do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Existe um projeto de apagamento das nossas hist\u00f3rias. Precisamos que as institui\u00e7\u00f5es entendam que essas trajet\u00f3rias importam e que precisamos de dignidade e recursos para circular al\u00e9m dos grandes centros.\u201d<\/p>\n<p><strong>Alexandre Mitre:&nbsp;<\/strong>\u201cMuitas personalidades pretas importantes para o entretenimento brasileiro pereceram no mais puro ostracismo, sem investiga\u00e7\u00e3o, sem valoriza\u00e7\u00e3o. Jorge Lafond foi mais um desses nomes. Contar a hist\u00f3ria dele \u00e9 tamb\u00e9m impedir que esse esquecimento continue.\u201d<\/p>\n<h2><strong>O apagamento como projeto de sociedade<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Aretha Sadick:&nbsp;<\/strong>\u201cA gente n\u00e3o gosta muito da palavra d\u00edvida, mas ao mesmo tempo \u00e9 um projeto de sociedade: o apagamento, o esquecimento da hist\u00f3ria, propositalmente. A gente mant\u00e9m a mem\u00f3ria dessas pessoas vivas porque existe um projeto para que essas hist\u00f3rias sejam apagadas o tempo todo, como se passasse uma borracha.\u201d<\/p>\n<h1><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/h1>\n<p><strong>Espet\u00e1culo<\/strong>:<strong><em> JORGE pra Sempre VER\u00c3O<\/em><\/strong><br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Rodrigo Fran\u00e7a<br \/>\n<strong>Dramaturgia<\/strong>: Aline Mohamad e Diego do Sub\u00farbio<br \/>\n<strong>Elenco na temporada atual<\/strong>: Alexandre Mitre, Aline Mohamad e Aretha Sadick; No\u00eamia Oliveira em etapas anteriores da montagem<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de movimento<\/strong>: Tainara Cerqueira<br \/>\n<strong>Trilha original<\/strong>: Dani Nega<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de imagens<\/strong>: Carolina Godinho<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o<\/strong>: Ana Luzia de Simoni<br \/>\n<strong>Cen\u00e1rio<\/strong>: Rodrigo Fran\u00e7a e Wanderley Wagner<br \/>\n<strong>Figurinos<\/strong>: Marah Silva<br \/>\n<strong>Visagismo<\/strong>: Diego Narang<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o<\/strong><br \/>\n<em><strong>JORGE pra Sempre VER\u00c3O<\/strong><\/em><br \/>\n<strong>Local<\/strong>: Caixa Cultural Recife<br \/>\n<strong>Endere\u00e7o<\/strong>: Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife\u2013PE<\/p>\n<p><strong>Quando<\/strong>: 2, 3 e 4 de julho de 2026, 19h30; Sess\u00e3o extra no s\u00e1bado: 16h30<br \/>\n<strong>Bate-papo com a plateia<\/strong>: ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o de 3 de julho<br \/>\n<strong>Acessibilidade<\/strong>: sess\u00f5es de s\u00e1bado com tradu\u00e7\u00e3o em Libras<br \/>\n<strong>Ingressos<\/strong>: R$ 30 e R$ 15<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos espet\u00e1culos recentes do teatro brasileiro assumem com tanta frontalidade a tarefa de disputar a mem\u00f3ria quanto JORGE pra Sempre VER\u00c3O. A pe\u00e7a dirigida por Rodrigo Fran\u00e7a, com dramaturgia de Aline Mohamad e Diego do Sub\u00farbio, surge da vontade de homenagear Jorge Lafond, eternizado no imagin\u00e1rio popular como Vera Ver\u00e3o. Mas parte, antes, de uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[9267,6189,6157,3293,9266,9265,7625,9268],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28003"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28003"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28003\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28012,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28003\/revisions\/28012"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}