{"id":27934,"date":"2026-04-16T10:08:08","date_gmt":"2026-04-16T13:08:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27934"},"modified":"2026-04-16T10:08:08","modified_gmt":"2026-04-16T13:08:08","slug":"a-justica-de-medea-uma-travessia-entre-trauma-e-levante-contra-a-tirania-patriarcal-e-colonial-critica-medea-depois-do-sol-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-justica-de-medea-uma-travessia-entre-trauma-e-levante-contra-a-tirania-patriarcal-e-colonial-critica-medea-depois-do-sol-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"A justi\u00e7a de Medea <\/br> Uma travessia entre trauma e levante <\/br> contra a tirania patriarcal e colonial <\/br> CR\u00cdTICA: Medea Depois do Sol <\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27937\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.41.38-e1776265750131.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27937\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-27937 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.41.38-e1776265750131.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.41.38-e1776265750131.jpeg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.41.38-e1776265750131-300x225.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27937\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Medea Depois do Sol<\/strong> imagina um motim de mulheres, mem\u00f3rias e vozes contra a repeti\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, do feminic\u00eddio e das tiranias patriarcais e coloniais. Foto: La\u00e9rcio Luz \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Medea Depois do Sol<\/strong><\/em> desloca o eixo habitual de leitura do mito para retirar Medea do lugar estreito da monstruosidade e recoloc\u00e1-la no campo hist\u00f3rico da viol\u00eancia. Nesta vers\u00e3o concebida por Luciana Lyra, em alian\u00e7a com um coletivo de artistas criadoras, o filic\u00eddio deixa de ser um signo moral ou psicol\u00f3gico e passa a ser encarado sob a press\u00e3o de um mundo organizado pela brutalidade patriarcal, colonial e estatal. O gesto extremo n\u00e3o aparece como ess\u00eancia da personagem, mas como resposta-limite a uma estrutura que produz abandono, trauma e exterm\u00ednio; mais do que isso, como corte radical numa corrente de mando que seguiria reproduzindo as mesmas tiranias. Medea mata o filho para salv\u00e1-lo da continuidade desse regime. O que est\u00e1 em cena, portanto, n\u00e3o \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o de uma lenda antiga em chave de atualiza\u00e7\u00e3o, e sim a reinscri\u00e7\u00e3o de Medea na Am\u00e9rica Latina, nos canaviais de Pernambuco, onde a viol\u00eancia contra mulheres, crian\u00e7as e dissid\u00eancias de g\u00eanero n\u00e3o opera como desvio eventual, mas como aparelhagem hist\u00f3rica de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa inflex\u00e3o nasce de um percurso longo de pesquisa. A dramaturgia foi elaborada entre 2024 e 2025, em di\u00e1logo com jornadas artetnogr\u00e1ficas junto a grupos artivistas de mulheres na Am\u00e9rica Latina e com a experi\u00eancia de p\u00f3s-doutorado de Luciana Lyra na New York University, sob a supervis\u00e3o de Diana Taylor. H\u00e1, por\u00e9m, uma camada ainda mais funda nesse processo: a escuta das mulheres atrizes de Tejucupapo, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, presen\u00e7a decisiva na trajet\u00f3ria da autora. \u00c9 dessa escuta que emerge uma compreens\u00e3o radical de Medea; n\u00e3o como figura abstrata da literatura cl\u00e1ssica, mas como corpo atravessado por empobrecimento, desamparo p\u00fablico, maternidade compuls\u00f3ria, viol\u00eancia cotidiana e mem\u00f3ria coletiva. Aproximar mito e territ\u00f3rio, aqui, \u00e9 decisivo. A pe\u00e7a tamb\u00e9m liga corpo e territ\u00f3rio, ao compreender que a viol\u00eancia lan\u00e7ada sobre as mulheres e a viol\u00eancia lan\u00e7ada sobre a terra pertencem ao mesmo desenho hist\u00f3rico de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A esse lastro se somam as trocas realizadas com coletivos de mulheres artivistas em diferentes cidades &#8211; a Cia. Capulanas de Arte Negra, em S\u00e3o Paulo; o Grupo Totem e as Loucas de Pedra Lil\u00e1s, no Recife; as Madalenas-Anast\u00e1cias\/CTO, no Rio de Janeiro; e o Coletivo Yama, em Quito. <em><strong>Medea Depois do Sol<\/strong><\/em>, que tamb\u00e9m celebra trinta anos de atua\u00e7\u00e3o de Luciana Lyra no teatro brasileiro, faz dessas experi\u00eancias um campo de escuta expandido. \u00c9 o reconhecimento de uma rede de mulheres em luta, pensamento e cria\u00e7\u00e3o, da qual emerge a ideia de motim e de levante que atravessa a pe\u00e7a.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo cumpriu temporada no Sesc Ipiranga, entre 6 e 29 de mar\u00e7o de 2026. Assisti j\u00e1 no final dessa curta passagem, em uma sala para cinquenta pessoas, lotada em todas as sess\u00f5es. Oxal\u00e1 volte em novas temporadas, circule por esse Brasil imenso e seja amplamente discutido a partir de perspectivas feministas. Num pa\u00eds em que o feminic\u00eddio segue se agravando de forma alarmante, uma obra como essa adquire peso que ultrapassa o \u00eaxito art\u00edstico. Sua elabora\u00e7\u00e3o c\u00eanica interv\u00e9m num presente em que a viol\u00eancia contra as mulheres insiste em se reproduzir n\u00e3o como acidente, mas como norma disseminada, tolerada e refeita.<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o ajuda a perceber por que a encena\u00e7\u00e3o insiste tanto na ideia de sobreviv\u00eancia. <strong><em>Medea Depois do Sol<\/em><\/strong> n\u00e3o enxerga o trauma como epis\u00f3dio encerrado no passado, mas como mat\u00e9ria hist\u00f3rica que se transmite, se aloja nos corpos e reaparece em formas reintegrada de mando. Falar em trauma continental faz sentido porque a montagem vincula a experi\u00eancia de Medea a uma longa dura\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias coloniais, patriarcais e raciais na Am\u00e9rica Latina. O trauma, aqui, n\u00e3o \u00e9 apenas ps\u00edquico, nem apenas individual; \u00e9 hist\u00f3rico, incorporado, socialmente distribu\u00eddo. Certas viol\u00eancias n\u00e3o cessam quando o acontecimento termina. Elas permanecem como resto, repeti\u00e7\u00e3o, amea\u00e7a, linguagem e m\u00e9todo. E a pe\u00e7a escolhe n\u00e3o monumentalizar o sofrimento, mas reinscrev\u00ea-lo num campo de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse lastro investigativo e vivencial ajuda a compreender por que a montagem se organiza como opera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica sobre as narrativas med\u00e9icas que se acumularam ao longo do tempo, mais que atualiza\u00e7\u00e3o de um cl\u00e1ssico. Luciana Lyra revolve um caldeir\u00e3o de refer\u00eancias em que convivem a trag\u00e9dia grega, as cosmologias afro-diasp\u00f3ricas, a experi\u00eancia latino-americana, cantos e dan\u00e7as populares, mem\u00f3rias de viol\u00eancia, repert\u00f3rios de resist\u00eancia e imagens de maternidade sob cerco. Da\u00ed nasce uma Medea nada interessada em confirmar a velha imagem da \u201cfeiticeira maldita\u201d e sim em expor como essa imagem foi historicamente produzida para fixar a mulher no lugar do medo, da culpa e da puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_27935\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.44.10-e1776266780737.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27935\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27935\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.44.10-e1776266780737.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"804\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27935\" class=\"wp-caption-text\">Luciana Lyra sustenta uma atua\u00e7\u00e3o de densidade, capaz de atravessar mito, mem\u00f3ria e viol\u00eancia hist\u00f3rica. Foto: La\u00e9rcio Luz \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27940\" style=\"width: 609px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.35.21-e1776266833229.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27940\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-27940 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.35.21-e1776266912785.jpeg\" alt=\"\" width=\"599\" height=\"574\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.35.21-e1776266912785.jpeg 599w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.35.21-e1776266912785-300x287.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27940\" class=\"wp-caption-text\">Atriz-musicista Lisi Andrade tocando, cantando e atuando amplia a respira\u00e7\u00e3o da cena. Foto: La\u00e9rcio Luz&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>A pe\u00e7a avan\u00e7a, assim, sobre um ponto decisivo: a coloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o ficou para tr\u00e1s. O colonizador n\u00e3o \u00e9 somente figura de arquivo; ele continua a amea\u00e7ar o presente latino-americano, transfigurado em novas e velhas formas de arb\u00edtrios, espolia\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o violenta da vida. Em <strong><em>Medea Depois do Sol<\/em><\/strong>, essa dimens\u00e3o aparece tanto na coloniza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios quanto na coloniza\u00e7\u00e3o dos corpos femininos. A perspectiva ecofeminista do trabalho se adensa justamente a\u00ed. Para compreender, em chave pr\u00f3xima ao ecofeminismo latino-americano e a reflex\u00f5es como as de Ivone Gebara, que o dom\u00ednio sobre a terra e o dom\u00ednio sobre as mulheres pertencem ao mesmo desenho de poder. Corpo e territ\u00f3rio deixam de ser esferas separadas. O que fere um, fere o outro. O que expropria a terra expropria tamb\u00e9m a vida feminina, seus ciclos, sua autonomia e sua mem\u00f3ria. Patriarcado e colonialidade operam juntos, e o espet\u00e1culo acerta o foco ao tratar essa alian\u00e7a como problema estrutural.<\/p>\n<p>No interior dessa fabula\u00e7\u00e3o, Luciana Lyra cria um territ\u00f3rio ficcional chamado Yew\u00e1. \u00c9 de l\u00e1 que vem sua Medea, mais tarde colonizada por Nassar, e \u00e9 para l\u00e1 &#8211; ou, mais precisamente, para a linhagem de sua origem e para o encontro com o av\u00f4-Sol &#8211; que ela tenta retornar. Mas esse retorno n\u00e3o se faz em solu\u00e7\u00e3o individual nem solit\u00e1ria. Medea volta acompanhada por um coro de mulheres; volta com outras vozes, outras presen\u00e7as, outras sobreviventes. Isso altera de maneira substantiva a imagina\u00e7\u00e3o do mito. Em vez de uma hero\u00edna isolada diante de sua cat\u00e1strofe, v\u00ea-se uma mulher em travessia com uma comunidade de testemunhas, comparsas e aliadas. Tamb\u00e9m por isso o ajuste que a pe\u00e7a encena supera o \u00edntimo; \u00e9 hist\u00f3rico, social e simb\u00f3lico. Medea confronta n\u00e3o um homem, mas um regime inteiro de masculinos t\u00f3xicos que seguem nos assolando.<\/p>\n<div id=\"attachment_27938\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.41.01-e1776340891946.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27938\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27938\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WhatsApp-Image-2026-04-15-at-11.41.01-e1776340891946.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"538\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27938\" class=\"wp-caption-text\">A dire\u00e7\u00e3o de Ana Cec\u00edlia Costa e K\u00e1tia Daher organiza gesto, palavra, m\u00fasica e presen\u00e7a num campo de precis\u00e3o, em que o essencial ganha espessura e a imagina\u00e7\u00e3o do p\u00fablico \u00e9 convocada a completar a travessia.&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o se organiza como duo. Em cena, Luciana Lyra contracena com a atriz-musicista Lisi Andrade, cuja presen\u00e7a se amplia ao acompanhamento sonoro. Ela toca, canta, responde, tensiona e, por vezes, funciona como coro. Sua participa\u00e7\u00e3o \u00e9 decisiva para o desenho do espet\u00e1culo, porque permite que Medea abra a cena para um regime de escuta, contraponto e reverbera\u00e7\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o de Ana Cec\u00edlia Costa e K\u00e1tia Daher aposta, assim, numa cena essencial, artesanal, sustentada por poucas mat\u00e9rias e alta precis\u00e3o.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o m\u00ednimo produz foco. A eleg\u00e2ncia dos gestos, a contund\u00eancia das palavras e as alus\u00f5es a manifesta\u00e7\u00f5es populares do Nordeste em dan\u00e7as e visualidades comp\u00f5em uma cena atenta \u00e0s varia\u00e7\u00f5es de presen\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 desperd\u00edcio visual nem gestual. H\u00e1 escolha, recorte, rigor. A palavra chega carregada, mas n\u00e3o imobiliza o corpo; o corpo, por sua vez, n\u00e3o enquadra o texto, antes o reabre. E disso a montagem extrai intensidade.<\/p>\n<p>Nessa percurso, a conex\u00e3o entre Gr\u00e9cia e Nordeste comparece como mat\u00e9ria da pr\u00f3pria cena. A paisagem grega e a paisagem nordestina se tocam em sua secura, em sua aspereza, em sua dimens\u00e3o ancestral, em sua conviv\u00eancia entre ru\u00edna e perman\u00eancia. A montagem opera, assim, por contamina\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica. O mito cl\u00e1ssico \u00e9 refeito \u00e0 luz de uma sensibilidade brasileira, pernambucana, latino-americana, que recolhe lama, canavial, vento, canto, poeira e mem\u00f3ria como elementos de linguagem.<\/p>\n<p>As madeiras presentes em cena evocam a obra de Frans Krajcberg, artista polon\u00eas naturalizado brasileiro, escultor, pintor, fot\u00f3grafo e autor de uma vigorosa arte-den\u00fancia contra a devasta\u00e7\u00e3o ambiental, realizada a partir de troncos calcinados e res\u00edduos de queimadas. A imagem \u00e9 forte e refor\u00e7a o nexo entre destrui\u00e7\u00e3o ambiental, viol\u00eancia hist\u00f3rica e resist\u00eancia. A cenografia m\u00ednima, assinada por Camila Jord\u00e3o, encontra a\u00ed uma de suas chaves mais contundentes.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o ritual\u00edstica merece aten\u00e7\u00e3o particular. Quando Medea emerge de Yew\u00e1, revestida por saberes ancestrais, cantos e tambores, a pe\u00e7a organiza a cena a partir de outra rela\u00e7\u00e3o entre corpo, mem\u00f3ria e for\u00e7a espiritual. O rito, aqui, estrutura a passagem entre dor e recomposi\u00e7\u00e3o, entre perda e convoca\u00e7\u00e3o. O espet\u00e1culo faz do palco um espa\u00e7o de comparecimento de vozes, temporalidades e for\u00e7as que excedem qualquer redu\u00e7\u00e3o individualizante da personagem.<\/p>\n<p>A trilha sonora re\u00fane m\u00fasicas originais de Alessandra Le\u00e3o e Luciana Lyra, al\u00e9m da trilha sonora original de Erika Nande, articulando ainda cita\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio popular e de matrizes afro-brasileiras e latino-americanas, como <em>Yew\u00e1<\/em> (ponto de candombl\u00e9), <em>Carmencita<\/em> e <em>N\u00e3o h\u00e1 mata que eu n\u00e3o entre<\/em> (pontos de umbanda), <em>Dorme, dorme menininho<\/em> e <em>La Maldici\u00f3n de Malinche<\/em>, de Gabino Palomares. A isso se somam as vozes gravadas d\u2019As Marinhas, que expandem vocal e politicamente a personagem, retirando Medea do isolamento heroico e reinscrevendo sua travessia num campo coletivo de levante.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda pequenas senhas de reconhecimento que chegam com especial intensidade a quem \u00e9 de Pernambuco ou mant\u00e9m familiaridade mais funda com a cultura do lugar. Dou um \u00fanico exemplo, discreto, mas eloquente: o \u201cAaa HAAA\u201d lan\u00e7ado j\u00e1 pr\u00f3ximo do final da pe\u00e7a convoca, para quem sabe ouvir, a mem\u00f3ria de Dona Selma do Coco, sua irrever\u00eancia, seu deboche e sua for\u00e7a de chamada. \u00c9 uma senha local, mas n\u00e3o excludente. Quem a reconhece recebe uma camada a mais; quem n\u00e3o a reconhece n\u00e3o perde o essencial. A intelig\u00eancia da montagem est\u00e1 tamb\u00e9m nesse modo de articular densidade cultural sem converter refer\u00eancia em barreira.<\/p>\n<p><em><strong>Medea Depois do Sol<\/strong><\/em> comparece, assim, como pe\u00e7a-cal\u00addeir\u00e3o de mem\u00f3ria, insubmiss\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Sua beleza n\u00e3o amacia a viol\u00eancia que examina; sua delicadeza n\u00e3o encobre o conflito que a move. O trabalho de Luciana Lyra, Lisi Andrade, Ana Cec\u00edlia Costa e K\u00e1tia Daher, em alian\u00e7a com as demais criadoras, faz do palco um territ\u00f3rio de transforma\u00e7\u00e3o, onde mito, trauma, maternidade, colonialidade, rito e imagina\u00e7\u00e3o se enredam para devolver espessura hist\u00f3rica ao que tantas vezes foi reduzido \u00e0 caricatura moral. Ao fim, a pe\u00e7a afirma menos uma \u00e9tica da vingan\u00e7a do que uma imagina\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a. O motim de mulheres que a dramaturgia convoca n\u00e3o responde ao feminic\u00eddio com a simples invers\u00e3o da viol\u00eancia, mas com retomada de voz, corpo, mem\u00f3ria e destino. Quando Luciana Lyra fala em recuperar para as mulheres o poder sobre seus corpos, seus pensamentos e o curso de suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, o que se enuncia \u00e9 um horizonte de resist\u00eancia. Contra o feminic\u00eddio, em favor da justi\u00e7a e da esperan\u00e7a.<\/p>\n<h3>Ficha t\u00e9cnica<\/h3>\n<p><strong>Idealiza\u00e7\u00e3o, dramaturgia e atua\u00e7\u00e3o<\/strong>: Luciana Lyra<br \/>\n<strong>Participa\u00e7\u00e3o da atriz-musicista<\/strong>: Lisi Andrade<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Ana Cec\u00edlia Costa e K\u00e1tia Daher<br \/>\n<strong>Dramaturgismo<\/strong>: Leusa Araujo<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de gesto e movimento<\/strong>: Renata Camargo<br \/>\n<strong>M\u00fasicas originais<\/strong>: Alessandra Le\u00e3o e Luciana Lyra<br \/>\n<strong>Trilha sonora original<\/strong>: Erika Nande<br \/>\n<strong>Mix e master da trilha gravada<\/strong>: Katia Dotto<br \/>\n<strong>Figurino<\/strong>: Carol Badra<br \/>\n<strong>Assistente de figurino<\/strong>: Giuliana Foti<br \/>\n<strong>Designer e confec\u00e7\u00e3o de sapatos<\/strong>: Jailson Marcos<br \/>\n<strong>Cenografia e ilumina\u00e7\u00e3o<\/strong>: Camila Jord\u00e3o<br \/>\n<strong>Assistente de ilumina\u00e7\u00e3o<\/strong>: Laysla Loyse<br \/>\n<strong>Assistente de cenografia<\/strong>: Dri\u00e9lly Moyanno<br \/>\n<strong>Cenot\u00e9cnico<\/strong>: Marcelo Andrade<br \/>\n<strong>Projeto gr\u00e1fico<\/strong>: Lisa Miranda<br \/>\n<strong>M\u00eddias sociais<\/strong>: Bruna Louise e Lisa Miranda<br \/>\n<strong>Fotos e v\u00eddeo<\/strong>: La\u00e9rcio Luz<br \/>\n<strong>Assessoria de imprensa<\/strong>: Besseler Comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\n<strong>Assistentes de produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Milton Aguiar e Vict\u00f3ria Pozzan<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Franz Magnum<br \/>\n<strong>Produtora associada<\/strong>: Magnum Opus Cultural<br \/>\n<strong>Idealiza\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o geral<\/strong>: Cia. Rubi 44<br \/>\n<strong>Demais vozes em off d\u2019As Marinhas, em can\u00e7\u00f5es da pe\u00e7a:<\/strong> Lisi Andrade, K\u00e1tia Daher e Luciana Lyra. <strong>Trechos musicais<\/strong>: <em>Yew\u00e1<\/em> (ponto de candombl\u00e9), <em>Carmencita<\/em> e <em>N\u00e3o h\u00e1 mata que eu n\u00e3o entre<\/em> (pontos de umbanda), <em>Dorme, dorme menininho<\/em> (recolhida na Miss\u00e3o de Pesquisas Folcl\u00f3ricas coordenada por M\u00e1rio de Andrade, em Bel\u00e9m, 1938), <em>La Maldici\u00f3n de Malinche<\/em>, de Gabino Palomares (1975).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medea Depois do Sol desloca o eixo habitual de leitura do mito para retirar Medea do lugar estreito da monstruosidade e recoloc\u00e1-la no campo hist\u00f3rico da viol\u00eancia. Nesta vers\u00e3o concebida por Luciana Lyra, em alian\u00e7a com um coletivo de artistas criadoras, o filic\u00eddio deixa de ser um signo moral ou psicol\u00f3gico e passa a ser [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[9173,9184,9181,9178,5697,9189,9165,9168,9180,9174,9187,9176,9177,665,9175,9183,9179,9172,9182,9170,659,9188,666,9169,9185,9171,7273,9190,9186],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27934"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27934"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27934\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27947,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27934\/revisions\/27947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27934"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27934"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27934"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}