{"id":27923,"date":"2026-04-12T09:24:15","date_gmt":"2026-04-12T12:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27923"},"modified":"2026-04-13T10:58:07","modified_gmt":"2026-04-13T13:58:07","slug":"um-torquato-para-desafiar-os-contentes-critica-lets-play-that-ou-vamos-brincar-daquilo-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/um-torquato-para-desafiar-os-contentes-critica-lets-play-that-ou-vamos-brincar-daquilo-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"Um Torquato para desafiar <\/br> os &#8220;contentes&#8221; <\/br> Cr\u00edtica: Let\u2019s play that ou <\/br> Vamos brincar daquilo <\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27924\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tuca1-Ashlley-Melo-Divulgacao-e1775922737504.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27924\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27924\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tuca1-Ashlley-Melo-Divulgacao-e1775922737504.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"352\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27924\" class=\"wp-caption-text\">Tuca Andrada em <strong><em>Let\u2019s play that ou Vamos brincar daquilo.<\/em><\/strong><em> Foto:<\/em> Ashlley Melo \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Em <strong><em>Let\u2019s play that ou Vamos brincar daquilo<\/em><\/strong>, Tuca Andrada parte da obra e da vida do poeta, cr\u00edtico de arte, cineasta e jornalista Torquato Neto e divide a codire\u00e7\u00e3o com Maria Paula Costa R\u00eago para construir uma cena que recusa a linearidade biogr\u00e1fica. O espet\u00e1culo estreou no Recife em 2023 e j\u00e1 circulou por v\u00e1rias cidades e est\u00e1 em curta temporada no Teatro S\u00e9rgio Cardoso, na Sala Paschoal Carlos Magno, em S\u00e3o Paulo . Pela palavra, pela m\u00fasica, pelo corpo e pela participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, recoloca em circula\u00e7\u00e3o a inquieta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e pol\u00edtica de Torquato. Mais do que celebrar um \u00edcone tropicalista, devolve \u00e0 cena brasileira uma energia de desvio, confronto e imagina\u00e7\u00e3o insurgente.<\/p>\n<p>J\u00e1 no t\u00edtulo, extra\u00eddo de um poema de Torquato Neto (1944 [Teresina] &#8211; 1972 [Rio de Janeiro], a pe\u00e7a anuncia seu procedimento. Entrar num campo de linguagem atravessado por jogo, ironia e fric\u00e7\u00e3o. Quando o poema convoca: \u201cvai bicho desafinar o coro dos contentes \/ vai bicho desafinar \/ o coro dos contentes \/ let\u2019s play that\u201d, ele oferece \u00e0 montagem sua senha verbal e tamb\u00e9m sua voltagem. Assim, a encena\u00e7\u00e3o come\u00e7a pela linguagem, e n\u00e3o pela cronologia.<\/p>\n<p>Em vez de organizar sua presen\u00e7a c\u00eanica como homenagem reverente, reconstitui\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica ou relic\u00e1rio contracultural, Tuca Andrada recoloca Torquato no terreno que lhe \u00e9 pr\u00f3prio; o do conflito, da urg\u00eancia, do impasse e da recusa ao enquadramento. O que toma forma em cena \u00e9 um solo atravessado por uma percep\u00e7\u00e3o decisiva. Lembrar Torquato hoje faz sentido se essa lembran\u00e7a voltar a ferir o presente.<\/p>\n<p>Isso ganha peso particular porque Torquato \u00e9 uma figura incontorn\u00e1vel do Tropicalismo e, ao mesmo tempo, ainda lateralizada em parte da mem\u00f3ria p\u00fablica do movimento. A pe\u00e7a parte justamente dessa posi\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel. N\u00e3o o toma como nome garantido, inteiramente estabilizado pelo repert\u00f3rio cultural brasileiro, mas como obra ainda em disputa, ainda capaz de produzir desconforto, ainda resistente \u00e0s formas mais d\u00f3ceis de consagra\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Ao articular poemas, letras, textos jornal\u00edsticos, cartas, coment\u00e1rios pol\u00edticos, mem\u00f3ria hist\u00f3rica, atua\u00e7\u00e3o de Tuca Andrada e m\u00fasica ao vivo, a montagem cria uma m\u00e1quina de pensamento e presen\u00e7a. Os materiais heterog\u00eaneos acendem-se uns aos outros. Desse arranjo nasce uma dramaturgia em combust\u00e3o, em que a palavra escrita volta a ganhar corpo, risco e oralidade. Torquato surge, ent\u00e3o, como campo de for\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 esse procedimento que desloca a pergunta central do <strong>espet\u00e1culo<\/strong>. J\u00e1 n\u00e3o se trata de responder quem foi Torquato Neto em chave biogr\u00e1fica, mas de perceber o que, no Brasil de agora, ainda produz zonas de estranhamento, compress\u00e3o e inconformidade capazes de relan\u00e7ar sua escrita.<\/p>\n<p>A montagem n\u00e3o for\u00e7a equival\u00eancias entre per\u00edodos hist\u00f3ricos distintos. O que <strong><em>Let\u2019s Play That ou Vamos Brincar Daquilo<\/em><\/strong> ilumina s\u00e3o continuidades mais profundas: formas persistentes de bloqueio da imagina\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, de neutraliza\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a e de administra\u00e7\u00e3o do dissenso.<\/p>\n<p>Torquato n\u00e3o comparece como senha nost\u00e1lgica de um ciclo cultural nem como emblema simplificado de rebeldia. Reaparece numa zona mais tensa, em que inven\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e press\u00e3o hist\u00f3rica se friccionam sem apaziguamento. A refer\u00eancia tropicalista deixa de funcionar como repert\u00f3rio consagrado e retorna como mat\u00e9ria ainda inst\u00e1vel, capaz de expor o quanto o pa\u00eds continua metabolizando ruptura, absorvendo impasses e convertendo energia cr\u00edtica em circula\u00e7\u00e3o administr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um dos n\u00facleos mais fortes da encena\u00e7\u00e3o est\u00e1 no corpo de Tuca Andrada. Sua presen\u00e7a f\u00edsica&nbsp; desloca o texto, o adensa, por vezes o tensiona. Em cena, Tuca n\u00e3o oferece Torquato como personagem fechado nem como perfil psicol\u00f3gico a ser reconhecido. Faz do corpo um meio de transmiss\u00e3o, confronto e inven\u00e7\u00e3o. Seus deslocamentos, pausas, inflex\u00f5es, cantos, dan\u00e7as e mudan\u00e7as de registro produzem uma cena em que pensamento e impulso corporal operam juntos.&nbsp;<\/p>\n<p>Esse dado est\u00e1 na base da encena\u00e7\u00e3o, sob a dire\u00e7\u00e3o de Maria Paula Costa R\u00eago, cuja presen\u00e7a estrutural se percebe na maneira como o espet\u00e1culo organiza seus fluxos, suas quebras e sua pulsa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Passos, gestos e modula\u00e7\u00f5es vinculados a manifesta\u00e7\u00f5es populares nordestinas aparecem como princ\u00edpio compositivo. \u00c9 essa arquitetura corporal que permite que o solo amplie regimes e que faz a cena oscilar com precis\u00e3o entre canto, convoca\u00e7\u00e3o, jogo, confronto e celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o ator&nbsp; convida a plateia para a ciranda, essa l\u00f3gica se explicita de forma particularmente forte. O gesto poderia cair numa sociabilidade c\u00eanica previs\u00edvel; em vez disso, produz deslocamento real. A ciranda injeta energia criativa e reorganiza a rela\u00e7\u00e3o entre plateia e cena. O espectador deixa de permanecer apenas diante do acontecimento e passa a integrar, ainda que provisoriamente, o seu movimento. A participa\u00e7\u00e3o surge como parte da forma. N\u00e3o como agrado nem como expans\u00e3o cordial do contato e sim como recusa da dist\u00e2ncia contemplativa em favor de um acontecimento partilhado.<\/p>\n<div id=\"attachment_27929\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tuca4-Ashlley-Melo-Divulgacao-e1775986591678.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27929\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27929\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tuca4-Ashlley-Melo-Divulgacao-e1775986591678.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"900\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27929\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo tem dire\u00e7\u00e3o de Tuca Andrada e Maria Paula Costa R\u00eago. Foto: Ashlley Melo \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre palavra e m\u00fasica constitui outro eixo decisivo. A execu\u00e7\u00e3o ao vivo de Tuca Andrada, Caio Cezar Sit\u00f4nio e Pierre Leite amplia a complexidade de Torquato e recoloca essa mem\u00f3ria tropicalista em estado de urg\u00eancia. O tr\u00e2nsito entre discurso e canto sustenta tens\u00e3o, presen\u00e7a e varia\u00e7\u00e3o de temperatura c\u00eanica. As can\u00e7\u00f5es entram como reativa\u00e7\u00e3o de uma energia hist\u00f3rica que continua a pressionar o presente, reabrindo na escuta a densidade de uma obra que jamais coube apenas no papel, nem apenas na legenda do poeta tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Por isso, a trilha comparece como mat\u00e9ria viva de reatualiza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. O repert\u00f3rio ligado a Torquato e a seus parceiros retorna \u00e0 cena menos sob o signo da comemora\u00e7\u00e3o do que sob o da fric\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica devolve mobilidade, nervo e abertura a uma obra que o espet\u00e1culo se recusa a congelar, seja no mito do poeta interrompido, seja numa imagem j\u00e1 domesticada do Tropicalismo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante o modo como a pe\u00e7a lida com a morte de Torquato. Ela est\u00e1 presente como dado incontorn\u00e1vel, mas n\u00e3o monopoliza o sentido do trabalho. O suic\u00eddio n\u00e3o se converte em chave interpretativa total nem reorganiza retroativamente toda a obra como an\u00fancio do fim. A montagem insiste em devolver ao poeta aquilo que tantas leituras apressadas tendem a apagar: inven\u00e7\u00e3o, humor, intelig\u00eancia cr\u00edtica, desejo de comunica\u00e7\u00e3o e embate cont\u00ednuo com a linguagem e com o seu tempo. H\u00e1 a\u00ed um cuidado \u00e9tico e formal decisivo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a encena\u00e7\u00e3o aproxima temporalidades distintas sem for\u00e7ar simetrias. N\u00e3o busca repetir a hist\u00f3ria, mas reencontrar a persist\u00eancia do impasse, da compress\u00e3o e da zona de mal-estar que ligam momentos diversos da vida brasileira.&nbsp;<\/p>\n<p>Mais do que tributo ou celebra\u00e7\u00e3o retrospectiva, <strong>Let\u2019s Play That ou Vamos Brincar Daquilo<\/strong> opera criticamente sobre a mem\u00f3ria cultural brasileira. Sua for\u00e7a est\u00e1 em compreender que recordar, aqui, n\u00e3o \u00e9 reverenciar, mas recolocar em circula\u00e7\u00e3o o que ainda resiste \u00e0 pacifica\u00e7\u00e3o. Ao devolver Torquato \u00e0 cena como inquieta\u00e7\u00e3o viva, o espet\u00e1culo faz da mem\u00f3ria um campo renovado de confronto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Let\u2019s play that ou Vamos brincar daquilo, Tuca Andrada parte da obra e da vida do poeta, cr\u00edtico de arte, cineasta e jornalista Torquato Neto e divide a codire\u00e7\u00e3o com Maria Paula Costa R\u00eago para construir uma cena que recusa a linearidade biogr\u00e1fica. 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