{"id":27913,"date":"2026-04-09T16:50:59","date_gmt":"2026-04-09T19:50:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27913"},"modified":"2026-04-17T00:11:46","modified_gmt":"2026-04-17T03:11:46","slug":"o-esgotamento-da-escuta-critica-o-filho-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-esgotamento-da-escuta-critica-o-filho-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"O esgotamento da escuta <\/br> Cr\u00edtica: O Filho <\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27917\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/O-FILHO-Andreas-Trotta-E-GABRIEL-BRAGA-NUNES-e1775750484871.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27917\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27917\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/O-FILHO-Andreas-Trotta-E-GABRIEL-BRAGA-NUNES-e1775750484871.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"586\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27917\" class=\"wp-caption-text\">Andreas Trotta e Gabriel Braga Nunes (de costas) em cena de <strong><em>O Filho<\/em><\/strong>, do franc\u00eas Florian Zeller. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A depress\u00e3o altera a experi\u00eancia do tempo. Chega sem alarde, infiltrando-se sorrateira. Altera a escuta, corr\u00f3i a confian\u00e7a e transforma a conviv\u00eancia em campo de tens\u00e3o permanente. Assim, o presente se adensa, o futuro encolhe e o passado pesa com for\u00e7a. A vida deixa de se abrir para expectativas e organiza-se em torno de uma perman\u00eancia dif\u00edcil, estreita, quase im\u00f3vel. No espet\u00e1culo <strong><em>O Filho<\/em><\/strong>, de Florian Zeller, esse encolhimento temporal ganha forma na trajet\u00f3ria de Nicolas, que se afasta da fala, dos v\u00ednculos e do pr\u00f3prio lugar no mundo, convertendo a conviv\u00eancia familiar em campo minado.<\/p>\n<p>A montagem, dirigida por L\u00e9o Stefanini, foi apresentada no Teatro Luiz Mendon\u00e7a, no Parque Dona Lindu, no Recife, nesse fim de semana chuvoso. Com Maria Ribeiro, Gabriel Braga Nunes, Thais Lago, Andreas Trotta, Marcio Marinello e Luciano Schwab no elenco,&nbsp; a pe\u00e7a trabalha esse esgotamento progressivo. Acompanhamos Nicolas, um adolescente em sofrimento ps\u00edquico, filho de pais separados, que abandona a casa da m\u00e3e, Ana, para viver com o pai, Pedro, e com a nova companheira dele, Sofia. O que parece, \u00e0 primeira vista, um rearranjo dom\u00e9stico revela-se um lar onde a dor de Nicolas imp\u00f5e sua l\u00f3gica inescap\u00e1vel, resistindo a qualquer media\u00e7\u00e3o familiar duradoura.<\/p>\n<p>Zeller escreve a pe\u00e7a como sequ\u00eancia de bloqueios. As cenas s\u00e3o curtas, os cortes s\u00e3o r\u00e1pidos, e a passagem de um quadro ao outro n\u00e3o produz avan\u00e7o real. O que muda \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o do impasse, n\u00e3o o impasse em si. Pedro age por dever; Ana percebe o risco com mais nitidez; Sofia tenta mediar o que n\u00e3o domina; Nicolas devolve frases m\u00ednimas, recuos e sil\u00eancios que suspendem o di\u00e1logo. A pe\u00e7a constr\u00f3i a sensa\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia em uma crise que s\u00f3 se aprofunda. \u00c9 nesse ponto que a dramaturgia ganha for\u00e7a. Nicolas n\u00e3o aparece como o adolescente que explode para produzir efeito dram\u00e1tico. Ele fala por evasivas, por recuos, por fragmentos que recusam continuidade. Sua dor n\u00e3o surge em confiss\u00e3o limpa nem em discurso organizado. Ela se manifesta na pr\u00f3pria dificuldade de sustentar a fala.<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o acompanha essa l\u00f3gica com rigor. O cen\u00e1rio \u00fanico, reduzido e funcional, desloca-se entre casa, hospital e sala de espera por meio das varia\u00e7\u00f5es de luz de Cesar Pivetti, sem dissolver a sensa\u00e7\u00e3o de confinamento. Os figurinos de Yakini Rodrigues marcam as transi\u00e7\u00f5es e real\u00e7am as figuras em cena como territ\u00f3rios de tens\u00e3o contida, mas n\u00e3o aliviam a impress\u00e3o central de que tudo acontece dentro de um espa\u00e7o estreito, quase sem respiro. A trilha de S\u00e9rvulo Augusto preserva a tens\u00e3o e sustenta a suspens\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_27918\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/o-FILHO-DIV-e1775750765402.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27918\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27918\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/o-FILHO-DIV-e1775750765402.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"595\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27918\" class=\"wp-caption-text\">Gabriel Braga Nunes interpreta Pedro, o pai. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27919\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/MARIA-RIBEIRO-E-...-EM-O-FILHO-e1775750840914.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27919\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27919\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/MARIA-RIBEIRO-E-...-EM-O-FILHO-e1775750840914.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"589\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27919\" class=\"wp-caption-text\">Maria Ribeiro faz de Ana, a m\u00e3e. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O elenco trabalha com precis\u00e3o. Gabriel Braga Nunes constr\u00f3i um Pedro atravessado por culpa e racionalidade defensiva; um homem que tenta fazer o que se espera de um bom pai e, justamente por isso, exp\u00f5e a insufici\u00eancia dessa expectativa diante de uma crise que n\u00e3o se resolve. Maria Ribeiro faz de Ana uma figura de lucidez desautorizada; ela percebe antes, alerta, mas \u00e9 desacreditada, sustentando uma conten\u00e7\u00e3o quase tr\u00e1gica. <span style=\"font-size: 1rem;\">Tha\u00eds Lago mant\u00e9m Sofia em constrangimento permanente, como algu\u00e9m que est\u00e1 dentro da casa sem pertencer inteiramente ao centro da crise. <\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">Andreas Trotta constr\u00f3i um Nicolas de retra\u00e7\u00e3o e interrup\u00e7\u00e3o; um corpo presente que j\u00e1 se ausentou emocionalmente, recusando participa\u00e7\u00e3o e ritmo com os outros. Marcio Marinello e Luciano Schwab completam o conjunto. H\u00e1, entre todos, um trabalho consistente de escuta<\/span> e de conten\u00e7\u00e3o. Circula em cena a palavra que n\u00e3o consegue se completar. A pe\u00e7a deixa evidente que a dor de Nicolas e a culpa dos pais n\u00e3o cabem inteiramente na linguagem. O n\u00e3o dito tem densidade similar da fala.<\/p>\n<p>A narrativa progride coesa, pela repeti\u00e7\u00e3o dos impasses familiares. Essa conten\u00e7\u00e3o responde ao peso do tema. O sofrimento surge enquadrado, controlado &#8211; nas atua\u00e7\u00f5es comedidas, no espa\u00e7o confinado -, deixando ao p\u00fablico completar sua intensidade crua. <strong><em>O Filho<\/em> <\/strong>toca numa experi\u00eancia reconhec\u00edvel para muitas pessoas da plateia, quando delineia a depress\u00e3o adolescente e a insufici\u00eancia familiar; recusa consolo ou solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao sair do Teatro Luiz Mendon\u00e7a, no Recife, ningu\u00e9m sai confort\u00e1vel. O desconforto pode ser cr\u00edtico (questionando estruturas sociais que produzem depress\u00e3o), existencial (aceitando sofrimentos intrat\u00e1veis), ou pol\u00edtico-geracional, confrontando a privatiza\u00e7\u00e3o do sofrimento jovem em um mundo sem coes\u00e3o tradicional; fam\u00edlia, escola, futuro previs\u00edvel rasgados pela precariedade, algoritmos que medem incompletude e promessas vazias de dignidade. Ou carregar muitos outros desalentos.&nbsp;<\/p>\n<h3>Ficha T\u00e9cnica<\/h3>\n<p><strong>Autor<\/strong>: Florian Zeller<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o<\/strong>: Carol Gonnzales<br \/>\n<strong>Elenco<\/strong>: Maria Ribeiro, Gabriel Braga Nunes, Thais Lago, Andreas Trotta, Marcio Marinello e Luciano Schwab<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o Geral<\/strong>: L\u00e9o Stefanini<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de Produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Thiago Wenzler<br \/>\n<strong>Trilha Sonora Original<\/strong>: S\u00e9rvulo Augusto<br \/>\n<strong>Desenho de Luz<\/strong>: Cesar Pivetti<br \/>\n<strong>Figurinos<\/strong>: Yakini Rodrigues<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A depress\u00e3o altera a experi\u00eancia do tempo. Chega sem alarde, infiltrando-se sorrateira. Altera a escuta, corr\u00f3i a confian\u00e7a e transforma a conviv\u00eancia em campo de tens\u00e3o permanente. Assim, o presente se adensa, o futuro encolhe e o passado pesa com for\u00e7a. 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