{"id":27860,"date":"2026-03-14T13:59:59","date_gmt":"2026-03-14T16:59:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27860"},"modified":"2026-03-14T14:15:28","modified_gmt":"2026-03-14T17:15:28","slug":"o-corpo-como-documento-e-o-tribunal-da-memoria-critica-quem-matou-meu-pai-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-corpo-como-documento-e-o-tribunal-da-memoria-critica-quem-matou-meu-pai-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"O corpo como documento <\/br> e o tribunal da mem\u00f3ria <\/br> Cr\u00edtica: Quem matou meu pai <\/br > Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27864\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55143955976_c834c10e71_k-e1773438827973.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27864\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27864\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55143955976_c834c10e71_k-e1773438827973.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"900\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27864\" class=\"wp-caption-text\">\u00c9douard Louis assume o papel de si mesmo em <strong><em>Quem matou meu pai.<\/em><\/strong><strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong>Foto Silvia Machado \/ MITsp 2026<\/p><\/div>\n<p><strong><em>Quem matou meu pai<\/em><\/strong>, na encena\u00e7\u00e3o de Thomas Ostermeier com \u00c9douard Louis em cena, se constr\u00f3i a partir de um gesto aparentemente simples mas avassalador: transformar o retorno do filho \u00e0 casa do pai numa investiga\u00e7\u00e3o sobre como a viol\u00eancia social se inscreve nos corpos. O que est\u00e1 em jogo ultrapassa a reconstitui\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria familiar. A pe\u00e7a exp\u00f5e uma engrenagem em que classe, masculinidade, trabalho e sexualidade deixam de ser assuntos paralelos e passam a operar como for\u00e7as que se refor\u00e7am mutuamente.<\/p>\n<p>A montagem aposta justamente nessa concentra\u00e7\u00e3o. Em vez de ilustrar o livro de forma expansiva, escolhe fixar a aten\u00e7\u00e3o sobre um corpo, uma voz, poucos objetos e algumas imagens decisivas. A economia de meios produz nitidez. Tudo parece disposto para que o p\u00fablico perceba que, ali, o \u00edntimo \u00e9 a forma mais concreta do pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O primeiro aspecto decisivo \u00e9 a presen\u00e7a do pr\u00f3prio Louis em cena. Sua atua\u00e7\u00e3o altera o pacto de recep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata do virtuosismo de quem representa um sofrimento, mas da exposi\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que se apresenta como portador daquilo que narra. Ainda assim, \u00e9 importante n\u00e3o romantizar essa presen\u00e7a como se ela fosse puro acesso bruto ao real. Louis tamb\u00e9m constr\u00f3i sua apari\u00e7\u00e3o, escolhe o que mostrar, o que reter, como dosar a fala, o humor, a pausa, o close, a vulnerabilidade. A autenticidade aqui \u00e9 forma trabalhada como efeito de verdade.<\/p>\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o \u00e9 potente porque o espet\u00e1culo ganha em franqueza o que perde em varia\u00e7\u00e3o. O ritmo por vezes monoc\u00f3rdio, a emiss\u00e3o pouco modulada, a corporalidade n\u00e3o virtuosa criam um regime de presen\u00e7a em que a fala parece menos interpretada do que assumida. Mas a pe\u00e7a n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanua nesse ponto. Ela sabe que a autenticidade tamb\u00e9m \u00e9 uma performance. E talvez sua for\u00e7a venha justamente dessa tens\u00e3o entre testemunho e constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O trabalho de Ostermeier organiza essa presen\u00e7a sem recobri-la. A cena \u00e9 m\u00ednima: laptop, cadeira, sof\u00e1, roupas casuais, espa\u00e7o quase nu, al\u00e9m de imagens projetadas que acompanham o percurso da mem\u00f3ria. H\u00e1, sobretudo, a imagem da estrada, que funciona como eixo simb\u00f3lico da encena\u00e7\u00e3o. A proje\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de uma via cortando a paisagem rural francesa estabelece o tom do retorno. N\u00e3o \u00e9 apenas o caminho de volta para casa; \u00e9 a figura de um retorno imposs\u00edvel. O filho volta, mas n\u00e3o pode reencontrar o mesmo lugar, porque o tempo, o trabalho e a viol\u00eancia j\u00e1 deformaram tudo. O pai j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o pai da mem\u00f3ria. O corpo agora \u00e9 outro: quebrado, encurtado, prematuramente incapacitado.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que a quest\u00e3o de classe se imp\u00f5e como fundamento da obra de \u00c9douard Louis e, tamb\u00e9m, desta encena\u00e7\u00e3o. Em <strong><em>Quem matou meu pai<\/em><\/strong>, a classe n\u00e3o aparece como pano de fundo sociol\u00f3gico, mas como for\u00e7a estruturante da subjetividade. O pai, esse homem duro, \u00e9 um corpo produzido por determinadas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de trabalho, por uma cultura oper\u00e1ria atravessada pela precariedade, pela humilha\u00e7\u00e3o e pelo desgaste f\u00edsico. F\u00e1brica, desemprego, benef\u00edcios cortados, reformas do Estado, dificuldade de mobilidade social. Tudo isso constitui a situa\u00e7\u00e3o material da fam\u00edlia e tamb\u00e9m seu repert\u00f3rio emocional.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das grandes qualidades do texto e da montagem. Mostrar que a brutalidade \u00e9 um modo de sobreviv\u00eancia e, ao mesmo tempo, uma forma de reprodu\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o. A pobreza n\u00e3o aparece apenas como falta de dinheiro. Ela se manifesta como escassez de tempo, de linguagem, de repert\u00f3rio, de margem para delicadeza, de possibilidade de imaginar outros modos de existir. Numa fam\u00edlia pobre, esmagada pelo trabalho e por sucessivas perdas, a masculinidade endurecida n\u00e3o \u00e9 um detalhe cultural; \u00e9 uma tecnologia prec\u00e1ria de defesa. Uma defesa destrutiva, mas ainda assim defesa.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma quest\u00e3o crucial: a classe do pai \u00e9 a mesma classe do filho? O filho saiu da classe oper\u00e1ria. Ele ganhou linguagem, educa\u00e7\u00e3o, capital cultural. Ele agora circula em festivais internacionais, publica livros, \u00e9 reconhecido como intelectual. Ele n\u00e3o \u00e9 mais da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando Louis volta para acusar a classe que o oprimiu, ele est\u00e1 falando de dentro ou de fora? H\u00e1 uma diferen\u00e7a pol\u00edtica importante a\u00ed. A den\u00fancia de Louis \u00e9 uma den\u00fancia de classe, ou \u00e9 uma den\u00fancia de quem saiu da classe e agora a observa de fora, com a dist\u00e2ncia e o privil\u00e9gio de quem conseguiu escapar?<\/p>\n<p>A pe\u00e7a n\u00e3o ignora essa quest\u00e3o &#8211; ela a encena. Mas talvez n\u00e3o a resolva completamente. H\u00e1 algo de amb\u00edguo em Louis estar em cena, falando sobre a destrui\u00e7\u00e3o do pai, enquanto ele mesmo \u00e9 o exemplo vivo de mobilidade social bem-sucedida. Essa mobilidade pode ser lida como conquista pessoal, mas tamb\u00e9m como trai\u00e7\u00e3o de classe.&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_27865\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55144186159_9a523303d9_c.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27865\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27865\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55144186159_9a523303d9_c-e1773438882127.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27865\" class=\"wp-caption-text\">Encena\u00e7\u00e3o de Thomas Ostermeier. Foto Silvia Machado \/ MITsp 2026<\/p><\/div>\n<p>Ao mesmo tempo, a pe\u00e7a n\u00e3o cai no determinismo f\u00e1cil. O pai \u00e9 v\u00edtima da estrutura, mas n\u00e3o deixa de ser agente da viol\u00eancia. Essa tens\u00e3o \u00e9 importante. Historicizar a homofobia e a dureza masculina n\u00e3o significa absolv\u00ea-las. Significa compreend\u00ea-las na espessura concreta em que surgem. O espet\u00e1culo \u00e9 mais forte quando mant\u00e9m essa duplicidade. O pai \u00e9 ferido e fere; \u00e9 esmagado e reproduz esmagamento.<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia da genealogia da masculinidade que a pe\u00e7a desenha. H\u00e1 o pai, h\u00e1 o pai do pai, e h\u00e1 \u00c9douard. N\u00e3o s\u00e3o apenas tr\u00eas indiv\u00edduos, mas tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es numa cadeia de transmiss\u00e3o da dureza. O av\u00f4 surge como sombra de um regime masculino mais fechado, mais autorit\u00e1rio, mais imperme\u00e1vel \u00e0 express\u00e3o afetiva. O pai aparece como herdeiro e v\u00edtima desse regime; ele reproduz a norma ao mesmo tempo que \u00e9 destru\u00eddo por ela. Sua identidade masculina depende do trabalho pesado, da autoridade dom\u00e9stica, da recusa ao sens\u00edvel. Mas o mesmo mundo que exige isso dele \u00e9 o mundo que o quebra fisicamente. O filho, ent\u00e3o, ocupa o lugar da falha e da crise; aquele cujo corpo, voz, gosto e desejo n\u00e3o se acomodam \u00e0 forma dominante do masculino.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a \u00e9 perspicaz ao mostrar que a sexualidade de \u00c9douard, dentro dessa fam\u00edlia careta, pobre e com pouco repert\u00f3rio intelectual, n\u00e3o surge como \u201cdiferen\u00e7a individual\u201d, mas como ponto de colapso de uma ordem dom\u00e9stica inteira. Se ser homem \u00e9 a \u00fanica forma de conservar alguma dignidade num universo de humilha\u00e7\u00e3o de classe, qualquer fissura nessa identidade se torna intoler\u00e1vel. O filho \u00e9 interpretado como amea\u00e7a porque torna vis\u00edvel que aquele ideal de masculinidade n\u00e3o \u00e9 natural: \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, violenta, sustentada \u00e0 for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que entra a camada psicol\u00f3gica mais funda do espet\u00e1culo. O jovem que se v\u00ea julgado, vigiado, ridicularizado por sua sexualidade vive&nbsp; a dor da rejei\u00e7\u00e3o, mas vive tamb\u00e9m a experi\u00eancia devastadora de perceber que o amor familiar pode ser condicional. A homofobia dom\u00e9stica produz efeitos profundos: vergonha, medo, ressentimento, desejo de fuga, necessidade desesperada de aprova\u00e7\u00e3o, culpa por decepcionar, raiva por precisar pedir licen\u00e7a para existir. Louis trabalha bem essa zona afetiva porque n\u00e3o purifica seus sentimentos. Ele n\u00e3o se apresenta como v\u00edtima angelical. O que aparece \u00e9 um sujeito dilacerado por afetos contradit\u00f3rios. Ele quer escapar da fam\u00edlia, mas quer ser reconhecido por ela; quer denunciar o pai, mas tamb\u00e9m proteg\u00ea-lo; sente amor, ressentimento, piedade, culpa, ternura e \u00f3dio em propor\u00e7\u00f5es inst\u00e1veis.<\/p>\n<p>Essa ambival\u00eancia \u00e9 um dos maiores trunfos de <strong><em>Quem matou meu pai<\/em><\/strong>. A pe\u00e7a entende que o sofrimento n\u00e3o produz discernimento espont\u00e2neo. E talvez seja por isso que um dos momentos mais fortes seja justamente a admiss\u00e3o da vingan\u00e7a. Quando Louis relata que, depois de ter sido ferido pelo coment\u00e1rio da m\u00e3e &#8211; reproduzindo o ju\u00edzo da vizinhan\u00e7a sobre haver \u201cum viado\u201d na fam\u00edlia -, provoca uma briga entre o pai e o irm\u00e3o, a dramaturgia abandona a zona confort\u00e1vel da den\u00fancia linear e entra num terreno mais inc\u00f4modo. Aqui, a obra rejeita a imagem da v\u00edtima \u00edntegra e moralmente superior. Mostra como a humilha\u00e7\u00e3o pode se internalizar e retornar sob a forma de c\u00e1lculo, crueldade e retalia\u00e7\u00e3o \u00edntima.<\/p>\n<p>Esse movimento \u00e9 central porque revela que a viol\u00eancia social n\u00e3o se limita a descer de cima para baixo; ela se infiltra nos v\u00ednculos, contamina afetos, redistribui-se na escala dom\u00e9stica. O sofrimento n\u00e3o eleva automaticamente ningu\u00e9m. \u00c0s vezes, deforma. E reconhecer isso \u00e9 uma das qualidades mais rigorosas de Louis. Ao mesmo tempo, a pe\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o faz dessa vingan\u00e7a uma absolvi\u00e7\u00e3o. Ela a exp\u00f5e como gesto compreens\u00edvel, mas perturbador. O filho tamb\u00e9m faz escolhas. O filho tamb\u00e9m pode ferir. Isso complexifica a narrativa sem dissolver a assimetria de poder que a originou.<\/p>\n<div id=\"attachment_27866\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55144185919_d45ec5d20b_c-e1773439944859.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27866\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27866\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55144185919_d45ec5d20b_c-e1773439944859.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27866\" class=\"wp-caption-text\">Trilha sonora pop permite que Louis&nbsp; imite seus \u00eddolos. Foto Silvia Machado \/ MITsp 2026<\/p><\/div>\n<p>A trilha sonora e a cultura pop cumprem papel decisivo nessa arquitetura afetiva. A presen\u00e7a de Aqua ajuda a compor uma atmosfera sarc\u00e1stica e cr\u00edtica disfar\u00e7ada de divers\u00e3o; enquanto Britney Spears e, sobretudo, C\u00e9line Dion, por meio de <em>My Heart Will Go On<\/em>, vem com o registro da mem\u00f3ria sentimental compartilhada, do melodrama, do gosto interditado, daquilo que pode ser vivido como \u201ccoisa de viado\u201d ou \u201ccoisa que homem n\u00e3o faz\u201d. Quando Louis dubla, canta, brinca, d\u00e1 close, ele est\u00e1 encenando um corpo dissidente, cuja performance pop tensiona a disciplina do masculino oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o epis\u00f3dio de <em>Titanic<\/em> \u00e9 exemplar. Sim, h\u00e1 algo de clich\u00ea nele, mas \u00e9 um clich\u00ea bem-constru\u00eddo. O menino deseja o filme; o pai decreta que aquilo n\u00e3o \u00e9 \u201ccoisa de homem\u201d; mais tarde, o filme aparece num combo, e a lembran\u00e7a retorna como dobra afetiva inesperada. Ao som de C\u00e9line Dion, o espet\u00e1culo toca numa mem\u00f3ria sentimental coletiva para reabrir, em escala \u00edntima, a pergunta sobre o que a masculinidade proibiu ao pai e ao filho. O melodrama, aqui, \u00e9 forma de acesso a uma verdade afetiva que o discurso pol\u00edtico sozinho n\u00e3o alcan\u00e7aria. O pedido de perd\u00e3o e o \u201ctudo bem\u201d n\u00e3o cancelam a viol\u00eancia, mas suspendem por um instante a l\u00f3gica do dano absoluto. Essa suspens\u00e3o n\u00e3o reconcilia plenamente, mas humaniza.<\/p>\n<p>O risco de manipula\u00e7\u00e3o emocional existe, claro. Mas talvez seja mais interessante reconhecer que a pe\u00e7a usa a emo\u00e7\u00e3o como instrumento de pensamento. Ela sabe que n\u00e3o basta enumerar reformas, cortes e nomes de ministros. \u00c9 preciso fazer sentir o que essas pol\u00edticas produzem no corpo, no amor, no desejo, na mem\u00f3ria de um filho e na ru\u00edna de um pai.<\/p>\n<div id=\"attachment_27869\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55144331845_1e2be6c993_c.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27869\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27869\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55144331845_1e2be6c993_c-e1773507086121.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27869\" class=\"wp-caption-text\">Pol\u00edticos franceses s\u00e3o apontados como respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o do sa\u00fade do pai de Louis&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 por isso que o \u201cJ\u2019accuse\u201d final funciona com tanta for\u00e7a. Quando Louis nomeia Hollande, Valls, El Khomri, Hirsch, Sarkozy, Macron, Bertrand, Chirac &#8211; ou varia\u00e7\u00f5es da lista conforme a circula\u00e7\u00e3o da montagem -, o teatro se transforma em tribunal. Cada nome rompe a abstra\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e devolve rosto e responsabilidade \u00e0quilo que tantas vezes aparece como fatalidade econ\u00f4mica. O corpo destru\u00eddo do pai deixa de ser \u201ccaso triste\u201d para se tornar den\u00fancia hist\u00f3rica. A pe\u00e7a insiste: a hist\u00f3ria do sofrimento tem nomes. A hist\u00f3ria do corpo denuncia a hist\u00f3ria pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que h\u00e1 a\u00ed uma inflex\u00e3o did\u00e1tica. Depois de tanta ambiguidade afetiva, de tanta complexidade ps\u00edquica e de tanta espessura moral, a enumera\u00e7\u00e3o direta de respons\u00e1veis pode parecer uma simplifica\u00e7\u00e3o. Mas essa frontalidade tamb\u00e9m cumpre uma fun\u00e7\u00e3o: impedir que a plateia saia apenas comovida. O espet\u00e1culo rejeita a leitura puramente \u00edntima. Obriga o p\u00fablico a conectar a l\u00e1grima ao or\u00e7amento, o afeto \u00e0 lei, o adoecimento ao Estado. Em vez de diluir a pol\u00edtica em met\u00e1fora, recoloca a pol\u00edtica como mecanismo concreto de produ\u00e7\u00e3o de sofrimento.<\/p>\n<p>Essa op\u00e7\u00e3o recoloca outra tens\u00e3o importante: a da gentrifica\u00e7\u00e3o do trauma &#8211; o processo pelo qual a dor de classe \u00e9 transformada em espa\u00e7o de consumo cultural de elite. Quando uma obra como essa circula em festivais prestigiados, diante de plateias intelectualizadas, surge inevitavelmente a pergunta sobre o destino da dor oper\u00e1ria quando transformada em valor cultural. At\u00e9 que ponto o espet\u00e1culo denuncia uma viol\u00eancia real e at\u00e9 que ponto essa mesma viol\u00eancia \u00e9 domesticada e assimilada pelo pr\u00f3prio sistema que a acolhe? A contradi\u00e7\u00e3o existe e n\u00e3o deve ser apagada. H\u00e1 algo de desconfort\u00e1vel &#8211; e talvez inevit\u00e1vel &#8211; em ver a dor oper\u00e1ria ser consumida como objeto de prest\u00edgio por quem, muitas vezes, est\u00e1 protegido das condi\u00e7\u00f5es materiais que ela denuncia.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas talvez seja interessante n\u00e3o oferecer solu\u00e7\u00e3o para essa contradi\u00e7\u00e3o, mas em for\u00e7ar a plateia a habit\u00e1-la. \u00c9douard Louis denuncia o sistema enquanto circula por ele, levando para os sal\u00f5es respeit\u00e1veis da literatura e do teatro internacional corpos e hist\u00f3rias que normalmente s\u00e3o expulsos do debate p\u00fablico. N\u00e3o h\u00e1 pureza nisso, mas h\u00e1 fric\u00e7\u00e3o &#8211; e essa fric\u00e7\u00e3o importa. Porque o espet\u00e1culo pode, sim, falar para convertidos, mas pode tamb\u00e9m deslocar o olhar de quem nunca se viu obrigado a pensar que, para a classe trabalhadora, pol\u00edtica nunca foi abstra\u00e7\u00e3o: sempre foi p\u00e3o, coluna, rem\u00e9dio, exaust\u00e3o, vergonha, sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><em><strong>Quem Matou Meu Pai<\/strong><\/em> \u00e9<span style=\"font-size: 1rem;\">&nbsp;um espet\u00e1culo que n\u00e3o oferece pureza pol\u00edtica, n\u00e3o oferece inoc\u00eancia psicol\u00f3gica, n\u00e3o oferece catarse f\u00e1cil. Oferece uma pergunta insistente e inc\u00f4moda: quem matou meu pai? E devolve ao espectador a resposta mais dura: \u00e0s vezes n\u00e3o foi um indiv\u00edduo, mas um conjunto de pol\u00edticas, uma classe em guerra contra outra, uma masculinidade que mutila para sobreviver, uma fam\u00edlia que ama mal porque aprendeu a viver sob priva\u00e7\u00e3o. Para certas vidas, pol\u00edtica nunca foi conceito. Sempre foi corpo.<\/span><\/p>\n<p><strong>FICHA T\u00c9CNICA<\/strong><br \/>\nDe \u00c9douard Louis<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o: Thomas Ostermeier<br \/>\nCom: \u00c9douard Louis<br \/>\nV\u00eddeo: S\u00e9bastien Dupouey, Marie Sanchez<br \/>\nCenografia: Nina Wetzel<br \/>\nFigurino: Caroline Tavernier<br \/>\nComposi\u00e7\u00e3o: Sylvain Jacques<br \/>\nDramaturgismo: Florian Borchmeyer, Elisa Leroy<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Anne Arnz, Elisa Leroy<br \/>\nIlumina\u00e7\u00e3o: Erich Schneider<br \/>\nAssist\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o: Elisa Leroy, Amalia Starikow<br \/>\nAssist\u00eancia de cenografia: Felix Remme<br \/>\nGerente de palco: Roman Balko<\/p>\n<p>Quem Matou Meu Pai \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o da Schaub\u00fchne Berlin e do Th\u00e9\u00e2tre de la Ville Paris.<br \/>\nApoiado pelo Departamento do Senado para Cultura e Europa (Berlim, Alemanha)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem matou meu pai, na encena\u00e7\u00e3o de Thomas Ostermeier com \u00c9douard Louis em cena, se constr\u00f3i a partir de um gesto aparentemente simples mas avassalador: transformar o retorno do filho \u00e0 casa do pai numa investiga\u00e7\u00e3o sobre como a viol\u00eancia social se inscreve nos corpos. O que est\u00e1 em jogo ultrapassa a reconstitui\u00e7\u00e3o de uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1,9117],"tags":[9127,9118,9128,9121,9129,9124,9122,9130],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27860"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27860"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27860\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27873,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27860\/revisions\/27873"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}