{"id":27856,"date":"2026-03-26T11:56:20","date_gmt":"2026-03-26T14:56:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27856"},"modified":"2026-03-27T09:26:17","modified_gmt":"2026-03-27T12:26:17","slug":"o-direito-a-festa-e-a-invasao-do-territorio-cenico-critica-cavucada-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-direito-a-festa-e-a-invasao-do-territorio-cenico-critica-cavucada-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"O direito \u00e0 festa e a invas\u00e3o do territ\u00f3rio c\u00eanico <\/br> Cr\u00edtica: Cavucada <\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27901\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55138992112_21faff2c1c_c-e1774527672863.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27901\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27901\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55138992112_21faff2c1c_c-e1774527672863.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55138992112_21faff2c1c_c-e1774527672863.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55138992112_21faff2c1c_c-e1774527672863-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27901\" class=\"wp-caption-text\">A pe\u00e7a se prop\u00f5e uma celebra\u00e7\u00e3o, uma \u00e9tica dos encontros e das liberdades Foto: Paulo Cesar Lima<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27902\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55140263810_3cc90043cd_c-e1774527759280.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27902\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27902\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55140263810_3cc90043cd_c-e1774527759280.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"398\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27902\" class=\"wp-caption-text\"><strong><em>Cavucada <\/em><\/strong>envolve, mistura e desloca as fronteiras entre elenco e plateia. Foto: Paulo Cesar Lima<\/p><\/div>\n<p>A trajet\u00f3ria da Cia Dan\u00e7urbana de Mato Grosso do Sul engloba uma constru\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de territ\u00f3rio. Ao transformar duas d\u00e9cadas de trabalho em cena em uma pista de dan\u00e7a aberta ao conflito e ao prazer, o grupo busca demonstrar que a mem\u00f3ria existe num movimento que se atualiza na fric\u00e7\u00e3o. Em <strong><em>Cavucada \u2013 A festa n\u00e3o ser\u00e1 amanh\u00e3<\/em><\/strong>, a companhia converte sua longevidade em uma ferramenta de ocupa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 na fatura art\u00edstica que a obra revela suas maiores pot\u00eancias e seus desafios estruturais.<\/p>\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o se organiza por meio de uma dramaturgia de progress\u00e3o linear. O que a pe\u00e7a prop\u00f5e traz outra economia: uma dramaturgia do atrito, da colagem e do excesso. Em vez de conduzir o espectador por uma sequ\u00eancia fechada de significados, <strong>Cavucada<\/strong> aposta em quadros, impulsos, remiss\u00f5es e simultaneidades. A dispers\u00e3o, nesse caso, n\u00e3o deve ser lida apressadamente como defici\u00eancia; ela pode ser compreendida como parte do m\u00e9todo, como uma forma de fazer coexistir, em cena, vest\u00edgios de hist\u00f3ria, vitalidade presente e abertura ao encontro.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o de Jorge Alencar e Neto Machado aposta na cena como atualiza\u00e7\u00e3o de um corpo-arquivo. Os int\u00e9rpretes aparecem como vetores de uma mem\u00f3ria corporal cultivada por anos de cria\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e conviv\u00eancia art\u00edstica. Ao mobilizar a cavucada do brega funk como impulso r\u00edtmico e ao faz\u00ea-la conviver com vogue, hip-hop, ax\u00e9, dan\u00e7a contempor\u00e2nea e refer\u00eancias de circula\u00e7\u00e3o digital, o espet\u00e1culo produz uma zona h\u00edbrida em que o repert\u00f3rio da companhia \u00e9 reencenado.<\/p>\n<p>H\u00e1, nesse gesto, uma dimens\u00e3o importante de reativa\u00e7\u00e3o. Fragmentos de obras anteriores surgem como vest\u00edgios de uma hist\u00f3ria que insiste em permanecer no presente. O palco se torna, assim, um espa\u00e7o de rememora\u00e7\u00e3o din\u00e2mica. O que se v\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma tentativa de organizar o passado em linha reta, mas de faz\u00ea-lo reaparecer como energia residual, como mat\u00e9ria ainda em disputa.<\/p>\n<div id=\"attachment_27903\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55140233984_088c6de936_c-e1774528718711.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27903\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-27903 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55140233984_088c6de936_c-e1774528718711.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27903\" class=\"wp-caption-text\">Montagem tem dire\u00e7\u00e3o de Jorge Alencar e Neto Machado. Foto: Paulo Cesar Lima<\/p><\/div>\n<p>O aspecto mais instigante da encena\u00e7\u00e3o talvez seja seu entendimento da festa como dispositivo de rela\u00e7\u00e3o. A cena n\u00e3o se fecha na contempla\u00e7\u00e3o; ela convoca, envolve, mistura e desloca as fronteiras entre elenco e plateia. O p\u00fablico \u00e9 lan\u00e7ado para dentro de uma situa\u00e7\u00e3o que pede ades\u00e3o, escuta e participa\u00e7\u00e3o. <strong><em>Cavucada \u2013 A festa n\u00e3o ser\u00e1 amanh\u00e3<\/em><\/strong> quer mais que ser vista, quer produzir uma comunidade provis\u00f3ria, ainda que prec\u00e1ria, sustentada por presen\u00e7a, cont\u00e1gio e abertura.<\/p>\n<p>Essa escolha confere ao espet\u00e1culo uma temperatura espec\u00edfica. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a possibilidade de afirmar, no pr\u00f3prio ato da celebra\u00e7\u00e3o, uma \u00e9tica dos encontros e das liberdades. Nesse sentido, <strong><em>Cavucada<\/em> <\/strong>prop\u00f5e uma reflex\u00e3o encarnada sobre o que significa reunir corpos diversos em torno de uma experi\u00eancia comum.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nessa zona de abertura que o trabalho encontra sua maior for\u00e7a, mas tamb\u00e9m seus pontos de suspens\u00e3o. O espet\u00e1culo alcan\u00e7a momentos de grande intensidade f\u00edsica e sens\u00edvel, em que os corpos se exp\u00f5em a um regime de esfor\u00e7o, insist\u00eancia e vibra\u00e7\u00e3o que produz forte presen\u00e7a c\u00eanica. H\u00e1 algo de contundente na maneira como a dan\u00e7a se aproxima do limite, fazendo da exaust\u00e3o uma camada expressiva do acontecimento.<\/p>\n<p>Embora o roteiro musical e coreogr\u00e1fico seja definido, a intensidade de cada sess\u00e3o \u00e9 ditada pela intera\u00e7\u00e3o. O espet\u00e1culo recusa a dist\u00e2ncia segura da contempla\u00e7\u00e3o e exige que o elenco &#8211; Afrodite Fetake, Ariane Nogueira, Daniel Andrade, Jackeline Mour\u00e3o, Livia Lopes, Maura Menezes, Ralfer Campagna, Reginaldo Borges, Renata Leoni, Roberta Siqueira, Rose Mendon\u00e7a e Wagner Gomes &#8211; sustente o protagonismo de suas dan\u00e7as individuais em meio ao caos organizado da festa. Cada artista defende sua singularidade com uma for\u00e7a que beira o confronto, afirmando que a liberdade em cena \u00e9 uma conquista espacial.<\/p>\n<p>No entanto, a passagem entre esses estados nem sempre se resolve com a mesma precis\u00e3o. Em certos momentos, a obra parece acumular materiais sem criar entre eles uma media\u00e7\u00e3o suficientemente elaborada. Sabemos que pe\u00e7a n\u00e3o pretende construir uma arquitetura dram\u00e1tica tradicional. Ela prefere operar por ac\u00famulo, vibra\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o. Essa op\u00e7\u00e3o, no entanto, tem consequ\u00eancias: quanto mais a pe\u00e7a investe na multiplicidade, mais precisa sustentar a rela\u00e7\u00e3o entre seus blocos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9, portanto, se sua l\u00f3gica de fragmenta\u00e7\u00e3o produz uma experi\u00eancia suficientemente densa para o espectador. Em alguns momentos, a resposta \u00e9 afirmativa; em outros, a for\u00e7a do material parece maior do que sua articula\u00e7\u00e3o interna.&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_27906\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55140056703_6e7bcae47f_c-e1774536585582.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27906\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27906\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/55140056703_6e7bcae47f_c-e1774536585582.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"401\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27906\" class=\"wp-caption-text\">Dan\u00e7urbana articula territ\u00f3rio, centro e visibilidade Foto: Paulo Cesar Lima<\/p><\/div>\n<p>A presen\u00e7a da Dan\u00e7urbana na <strong><em>MITsp<\/em> <\/strong>dentro do projeto <strong><em>Conex\u00f5es Centro-Oeste<\/em><\/strong> tem peso pol\u00edtico e simb\u00f3lico. Levar uma companhia historicamente ligada a Campo Grande e ao Mato Grosso do Sul para esse circuito \u00e9 uma forma de deslocar o centro e fazer aparecer uma produ\u00e7\u00e3o ainda pouco visibilizada nos palcos paulistanos. A partir dessa leitura, <strong><em>Cavucada<\/em> <\/strong>participa de uma disputa maior por reconhecimento, circula\u00e7\u00e3o e legitimidade. Mas esse reconhecimento n\u00e3o deve suspender o exame cr\u00edtico do espet\u00e1culo. Ao contr\u00e1rio: quanto maior a relev\u00e2ncia territorial e hist\u00f3rica do trabalho, mais necess\u00e1rio se torna perguntar como essa relev\u00e2ncia se materializa em cena.<\/p>\n<p>Sua for\u00e7a est\u00e1 na inven\u00e7\u00e3o de uma festa que pensa o corpo como arquivo e o encontro como pol\u00edtica. Entre festa, repert\u00f3rio e territ\u00f3rio, a obra produz uma cena vibrante, por vezes excessiva, sempre empenhada em manter vivo o que a hist\u00f3ria da companhia forjou ao longo do tempo.<\/p>\n<p><strong>FICHA T\u00c9CNICA<\/strong><br \/>\n<strong>Cria\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica<\/strong>: Jorge Alencar, Neto Machado<br \/>\n<strong>Int\u00e9rpretes-criadores<\/strong>: Afrodite Fetake, Ariane Nogueira, Daniel Andrade, Jackeline Mour\u00e3o, Livia Lopes, Maura Menezes, Ralfer Campagna, Reginaldo Borges, Renata Leoni, Roberta Siqueira, Rose Mendon\u00e7a, Wagner Gomes<br \/>\n<strong>Trilha e montagem sonora<\/strong>: Reginaldo Borges<br \/>\n<strong>Design e opera\u00e7\u00e3o de luz<\/strong>: Adriel Santos<br \/>\n<strong>Personal stylist<\/strong>: Wity Prado<br \/>\n<strong>Figurino<\/strong>: Gabriela Mancini<br \/>\n<strong>Assistente de figurino<\/strong>: Herbert Correa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A trajet\u00f3ria da Cia Dan\u00e7urbana de Mato Grosso do Sul engloba uma constru\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de territ\u00f3rio. 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