{"id":27766,"date":"2026-02-01T04:19:15","date_gmt":"2026-02-01T07:19:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27766"},"modified":"2026-02-06T14:19:44","modified_gmt":"2026-02-06T17:19:44","slug":"uma-montagem-festiva-da-tradicao-critica-auto-da-compadecida-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-montagem-festiva-da-tradicao-critica-auto-da-compadecida-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"Uma montagem festiva da tradi\u00e7\u00e3o <\/br>Cr\u00edtica: Auto da Compadecida <\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27768\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/AUTO-DA-COMPADECIDA-FOTO-HANS-e1769957569887.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27768\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27768\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/AUTO-DA-COMPADECIDA-FOTO-HANS-e1769957569887.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27768\" class=\"wp-caption-text\">S\u00f3stenes Vidal e Williams Sant\u2019anna como Jo\u00e3o Grilo e Chic\u00f3. Foto: Hans&nbsp;von&nbsp;Manteuffel<\/p><\/div>\n<p>A montagem de <strong><em>Auto da Compadecida &#8211; uma farsa modernesca<\/em><\/strong> dirigida por C\u00e9lio Pontes e Eron Villar, com produ\u00e7\u00e3o de Paulo de Castro, conquista seu p\u00fablico. Teatros lotados nas primeiras sess\u00f5es, plateia vidrada na cena e rindo nos momentos esperados, elenco experiente entregando exatamente o que a tradi\u00e7\u00e3o teatral pernambucana consolidou ao longo de d\u00e9cadas. O espet\u00e1culo cumpre com efici\u00eancia sua promessa de entretenimento popular, mas provoca uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria: em que medida uma montagem contempor\u00e2nea deve dialogar criticamente com seu pr\u00f3prio tempo ao encenar um cl\u00e1ssico? Esta revela-se comercialmente exitosa, por\u00e9m levanta quest\u00f5es sobre o papel do teatro popular brasileiro diante de textos que j\u00e1 se cristalizaram no imagin\u00e1rio cultural.<\/p>\n<p>Escrita por Ariano Suassuna em 1955, a obra tece uma fus\u00e3o dramat\u00fargica singular entre o cordel, os autos medievais e o imagin\u00e1rio sertanejo, resultando numa com\u00e9dia ou farsa ou auto ou&#8230; que \u00e9 simultaneamente retrato social agudo e profunda reflex\u00e3o sobre poder e justi\u00e7a. Essa riqueza textual imp\u00f5e um duplo desafio: reverenciar o cl\u00e1ssico e faz\u00ea-lo vibrar com urg\u00eancia contempor\u00e2nea. Como equilibrar fidelidade \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o com pertin\u00eancia aos nossos tempos?<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o responde a esta quest\u00e3o de forma categ\u00f3rica, priorizando a conex\u00e3o imediata com o p\u00fablico atrav\u00e9s de escolhas que confirmam expectativas em detrimento da provoca\u00e7\u00e3o. Os diretores imprimem fluidez c\u00eanica, enquanto cortes textuais conferem ritmo acelerado \u00e0 narrativa. O elenco, reunindo int\u00e9rpretes experientes &#8211; alguns veteranos de outras encena\u00e7\u00f5es do texto de Suassuna -, demonstra habilidade no andamento da hist\u00f3ria. Uma energia coletiva palp\u00e1vel transforma a experi\u00eancia teatral numa celebra\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Outra encena\u00e7\u00e3o de muito sucesso, da Dramart, permaneceu em cartaz por 21 anos ininterruptos (1992-2012), dirigida por Marco Camarotti e produzida por Socorro Raposo &#8211; a primeira int\u00e9rprete da Compadecida na montagem inaugural de 1956. Embora Fernanda Montenegro seja a refer\u00eancia nacional atrav\u00e9s do cinema, Socorro Raposo consolidou-se como figura querida do teatro pernambucano. Esta not\u00e1vel longevidade da encena\u00e7\u00e3o criou padr\u00f5es interpretativos e um p\u00fablico fiel que naturalmente influencia qualquer nova abordagem.<\/p>\n<p>A atual produ\u00e7\u00e3o preserva estere\u00f3tipos que, embora funcionem como gatilhos de reconhecimento, merecem an\u00e1lise.<\/p>\n<div id=\"attachment_27771\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/WhatsApp-Image-2026-02-01-at-10.48.27-e1769959594733.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27771\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27771\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/WhatsApp-Image-2026-02-01-at-10.48.27-e1769959594733.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"396\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27771\" class=\"wp-caption-text\">Cleusson Vieira, Carlos Lira, C\u00e9lio Pontes, Clenira Melo e Gil Paz<\/p><\/div>\n<p>Clenira Melo interpreta a mulher do padeiro com manobras c\u00f4micas que demonstram dom\u00ednio t\u00e9cnico absoluto, ainda que a dire\u00e7\u00e3o pare\u00e7a ter refreado sua inventividade. Sua parceria com Douglas Duan (o padeiro) oferece momentos de elevada qualidade c\u00f4mica.<\/p>\n<p>Alexandre Sampaio veste de forma hilariante o Major Ant\u00f4nio Moraes, personifica\u00e7\u00e3o do poder coronelista nordestino. Autorit\u00e1rio, vaidoso e violento, representa esse sert\u00e3o at\u00e1vico que confunde for\u00e7a com autoridade. Quanto mais tenta parecer grandioso, mais revela o rid\u00edculo de quem exerce poder sem legitimidade.<\/p>\n<p>Foi acertada a op\u00e7\u00e3o de manter o Tinhoso como personagem masculino, evitando dificuldades interpretativas que podem comprometer a clareza da personagem.<\/p>\n<p>J\u00e1 a figura do sacrist\u00e3o (Cleusson Vieira) \u00e9 constru\u00edda dentro do estere\u00f3tipo do homem gay afeminado, aproveitador e escorregadio &#8211; representa\u00e7\u00e3o que, embora agrade enormemente ao p\u00fablico, perpetua leituras question\u00e1veis. Esta proje\u00e7\u00e3o em lugares exclusivamente ris\u00edveis projeta uma vis\u00e3o reducionista da figura gay.<\/p>\n<p>O trio Carlos Lira (Padre), M\u00e1rio Miranda (Bispo) e Cleusson Vieira (Sacrist\u00e3o) atuam para evidenciar a corrup\u00e7\u00e3o clerical: covardia, subservi\u00eancia aos poderosos, \u00e9tica duvidosa. Este parecer institucional cumpre tarefa dramat\u00fargica, embora permane\u00e7a gen\u00e9rico, perdendo oportunidades de estabelecer conex\u00f5es espec\u00edficas entre as problem\u00e1ticas suscitadas por Suassuna e dilemas pol\u00edticos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o trabalha com o universo nordestino povoado por cangaceiros, coron\u00e9is e tipos populares. Suassuna escreveu em contexto hist\u00f3rico espec\u00edfico (anos 1950), inclusive com algumas posi\u00e7\u00f5es consideradas ousadas &#8211; como a escolha de um Cristo negro, que mirava a imagem da f\u00e9 ocidental.&nbsp;<\/p>\n<p>Contudo, setenta anos depois, o cangaceiro romantizado, o coronel autorit\u00e1rio, os tipos populares caricaturais parecem pedir outras lentes para evitar que se reforce a vis\u00e3o estereotipada do Nordeste, aquela que simplifica a complexidade social da regi\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o opta por preservar integralmente essas imagens, mantendo coer\u00eancia com o texto original, mas abdicando da possibilidade de problematizar na cena esses elementos.<\/p>\n<div id=\"attachment_27769\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/auto01022026b-e1769959856627.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27769\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27769\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/auto01022026b-e1769959856627.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"600\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27769\" class=\"wp-caption-text\">Gil Paz, Simone Figueiredo e S\u00f3stenes Vidal&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>S\u00f3stenes Vidal (Jo\u00e3o Grilo) brilha na lideran\u00e7a, demonstrando presen\u00e7a e timing c\u00f4mico apurados. Williams Sant&#8217;anna constr\u00f3i um Chic\u00f3 medroso e cativante. \u00c9 percept\u00edvel, contudo, dificuldade em acompanhar falas de alguns atores pela jun\u00e7\u00e3o do sotaque carregado e velocidade da dic\u00e7\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o poderia reconsiderar se vale manter os dois atores cantando, pois suas performances vocais n\u00e3o parecem inteiramente satisfat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Paula T\u00e1ssia traz leveza com est\u00e9tica mendicante, um ar beckettiano e dos Pierrots do Recife,&nbsp;<br \/>\ncosturando cenas com habilidade. Simone Figueiredo oferece uma Aparecida humana e educadora maternal, beneficiada por figurino bem concebido. Merece destaque o acento feminista que imprime \u00e0 personagem, buscando ressaltar sobre o papel da mulher na sociedade.<\/p>\n<p>Gil Paz como Emanuel\/Jesus entrega um Cristo que consegue ser simultaneamente acess\u00edvel e imponente, bondoso e austero, humanizando a figura sem pieguice e mantendo solenidade sem excessos. C\u00e9lio Pontes interpretou o cangaceiro nas primeiras apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A cenografia \u00e9 formada por duas casas simbolizando igreja e padaria, transformadas no final em c\u00e9u, purgat\u00f3rio e inferno. \u00c9 pouco criativa, mas funciona. Os figurinos s\u00e3o mais inspirados e elaborados, de impacto visual, baseados no imagin\u00e1rio dessas personagens, embora persistam em enquadrar protagonistas pobres com remendos e trapos, apostando numa imagem da pobreza que pode soar pitoresca.<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o refor\u00e7a expectativas, opera atrav\u00e9s do reconhecimento de personagens, situa\u00e7\u00f5es e c\u00f3digos est\u00e9ticos familiares que geram identifica\u00e7\u00e3o imediata. <span style=\"font-size: 1rem;\">Esta montagem cria uma experi\u00eancia festiva que dialoga diretamente com o p\u00fablico pernambucano, que lotou por anos as apresenta\u00e7\u00f5es da antiga encena\u00e7\u00e3o do <strong><em>Auto da Compadecida<\/em><\/strong>. O elenco experiente contribui eficazmente para o projeto estabelecido pela dire\u00e7\u00e3o, o que deve garantir longevidade e sucesso dessa empreitada.<\/span><\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>Texto<\/strong>: Ariano Suassuna&nbsp;<br \/>\n<strong>Elenco<\/strong>: Alexandre Sampaio, Carlos Lira, Celio Pontes, Clenira Melo, Cleusson Vieira, Douglas Duan, Gil Paz, M\u00e1rio Miranda, Paula T\u00e1ssia, Simone Figueiredo, S\u00f3stenes Vidal e Williams Sant\u2019anna.<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: C\u00e9lio Pontes e Eron Villar<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o Musical<\/strong>: Douglas Duan<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de Arte, Figurino e Identidade Visual:<\/strong> C\u00e9lio Pontes<br \/>\n<strong>Design de Luz<\/strong>: Eron Villar<br \/>\n<strong>Cenot\u00e9cnico e Aderecista<\/strong>: Cleusson Vieira<br \/>\n<strong>T\u00e9cnico de Som<\/strong>: Davison Wescley<br \/>\n<strong>Contrarregra<\/strong>: Diney Castro e Paulo de Lima Castro<br \/>\n<strong>Assessoria de Imprensa<\/strong>: Paula Schver<br \/>\n<strong>M\u00eddias Sociais<\/strong>: Nuvon Branding<br \/>\n<strong>Filmagem<\/strong>: Pedro Raiz Produ\u00e7\u00f5es<br \/>\n<strong>Fotografia<\/strong>: Thiago Farias<br \/>\n<strong>Capta\u00e7\u00e3o de Recursos<\/strong>: Pedro Castro<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o Executiva<\/strong>: Paulo De Castro<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: Roda Produ\u00e7\u00f5es Culturais&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A montagem de Auto da Compadecida &#8211; uma farsa modernesca dirigida por C\u00e9lio Pontes e Eron Villar, com produ\u00e7\u00e3o de Paulo de Castro, conquista seu p\u00fablico. 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