{"id":27758,"date":"2026-01-13T10:53:52","date_gmt":"2026-01-13T13:53:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27758"},"modified":"2026-01-16T08:06:54","modified_gmt":"2026-01-16T11:06:54","slug":"zona-zami-um-arquivo-de-automitobiografias-critica-zona-lesbica-por-annelise-schwarcz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/zona-zami-um-arquivo-de-automitobiografias-critica-zona-lesbica-por-annelise-schwarcz\/","title":{"rendered":"Zona Zami: um arquivo de automitobiografias*<\/br> Cr\u00edtica: Zona l\u00e9sbica<\/br> Por Annelise Schwarcz*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27759\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/zona-zami-um-arquivo-de-automitobiografias-critica-zona-lesbica-por-annelise-schwarcz\/whatsapp-image-2026-01-13-at-10-39-14\/\" rel=\"attachment wp-att-27759\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27759\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27759\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-13-at-10.39.14-e1768311752463.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27759\" class=\"wp-caption-text\">O elenco de Zona l\u00e9sbica compartilha, em primeira pessoa, suas viv\u00eancias em torno do ser l\u00e9sbica. Foto: Marcos Pastich\/PCR<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">The Watermelon Woman<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (1996) \u2013 dirigido, produzido e estrelado por Cheryl Dunye \u2013 tem como protagonista uma jovem negra e l\u00e9sbica que trabalha numa videolocadora em Filad\u00e9lfia, interpretada pela pr\u00f3pria Cheryl como uma esp\u00e9cie de personagem de si mesma. Seu hobby \u00e9 assistir a produ\u00e7\u00f5es hollywoodianas da d\u00e9cada de 30. Em um desses filmes, intitulado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Plantation Memories <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o), Cheryl percebe que a atriz negra que a arrebatou pela sua interpreta\u00e7\u00e3o aparece apenas como \u201cWatermelon Woman\u201d (Mulher Melancia) nos cr\u00e9ditos finais. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que isso acontece. Cheryl observa como frequentemente as atrizes negras nessas produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam seus nomes mencionados nos cr\u00e9ditos e, quando tem, s\u00e3o mencionadas atrav\u00e9s de apelidos. Da mesma forma que suas participa\u00e7\u00f5es s\u00e3o eclipsadas ou at\u00e9 mesmo invisibilizadas, os pap\u00e9is destinados a essas atrizes s\u00e3o secund\u00e1rios e estereotipados, sempre como escravizadas ou ex escravizadas, serventes, bab\u00e1s, amas de leite, etc, como no caso da Watermelon Woman (Mulher Melancia), fazendo papel de nanny (bab\u00e1) no filme.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Intrigada, Cheryl decide revirar arquivos e entrevistar pessoas para descobrir quem foi essa atriz, sua vida e sua hist\u00f3ria. Sua pesquisa \u00e9 registrada e comp\u00f5e o document\u00e1rio com nome hom\u00f4nimo ao apelido da atriz que disparou sua investiga\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que a protagonista se aprofunda na pesquisa, ela n\u00e3o s\u00f3 descobre o nome da atriz (Fae Richards), como tamb\u00e9m descobre que Fae era l\u00e9sbica. Isso, por si s\u00f3, justificaria a identifica\u00e7\u00e3o de Cheryl com a atriz. S\u00f3 tem um detalhe: o \u201cdocument\u00e1rio\u201d em quest\u00e3o \u00e9 ficcional. A personagem Watermelon Woman (Mulher Melancia), o filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Plantation Memories <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Fae Richards e muitos de seus registros n\u00e3o existem, mas s\u00e3o criados para retratar e superar a falta de registros hist\u00f3ricos, assim como a marginaliza\u00e7\u00e3o de mulheres negras e l\u00e9sbicas no cinema. Enquanto protagonista do pr\u00f3prio filme, em paralelo aos registros da pesquisa fict\u00edcia em torno de Fae Richards, Cheryl Dunye documenta a sua vida, seu trabalho, interesses, rela\u00e7\u00f5es amorosas e amizades, inscrevendo a si mesma enquanto parte da hist\u00f3ria das mulheres negras e l\u00e9sbicas no audiovisual. O filme de Cheryl Dunye \u00e9 considerado disruptivo e pioneiro para al\u00e9m de quest\u00f5es relacionadas \u00e0 representatividade. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Watermelon Woman<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> denuncia que o arquivo n\u00e3o \u00e9 neutro e que as trajet\u00f3rias de mulheres negras e queer t\u00eam sido esquecidas ou apagadas. Caso levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, o document\u00e1rio de Cheryl resultaria em uma tentativa frustrada de resgatar um passado irrecuper\u00e1vel. Somente atrav\u00e9s da ficcionaliza\u00e7\u00e3o de um arquivo \u00e9 poss\u00edvel contar essas hist\u00f3rias do passado (nem sempre t\u00e3o distante) que, em sua artificialidade, n\u00e3o deixam de ser reais.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 poss\u00edvel dizer que o mesmo exerc\u00edcio de ficcionaliza\u00e7\u00e3o do real\/ realiza\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Zona l\u00e9sbica<\/strong>. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Na pe\u00e7a idealizada por Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaill\u00e9 com dramaturgia de Ver\u00f4nica Bonfim, sete mulheres l\u00e9sbicas est\u00e3o em busca de Zami, \u201cum espa\u00e7o ut\u00f3pico imaginado como um ref\u00fagio. Esse lugar simb\u00f3lico representa o desejo coletivo das personagens de viverem sem medo, em plenitude e acolhimento, construindo uma realidade onde o amor e a liberdade prevalecem\u201d \u2013 como descrito na sinopse.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A narrativa se passa em quatro anos distintos: 1954, 1984, 2014 e 2025. De 1954 \u2013 momento em que os direitos para pessoas LGBT+ eram inexistentes \u2013 viajamos no tempo para 1984, um ano ap\u00f3s o levante no Ferro\u2019s Bar em S\u00e3o Paulo. Conhecido como o \u201cStonewall l\u00e9sbico brasileiro\u201d \u2013 fazendo refer\u00eancia aos protestos ocorridos no bar Stonewall Inn, nos E.U.A, nos quais a comunidade LGBT se manifestava contra a repress\u00e3o policial \u2013, o levante no Ferro\u2019s foi deflagrado ap\u00f3s as atividas do GALF (Grupo A\u00e7\u00e3o L\u00e9sbica Feminista) serem impedidas de divulgarem sua revista <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Chanacomchana <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">dentro do estabelecimento. O evento ocorreu no m\u00eas de agosto e \u00e9 por isso que, em 2008, a Assembleia Legislativa do Estado de S\u00e3o Paulo definiu que o m\u00eas de agosto seria o m\u00eas do Orgulho L\u00e9sbico.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da ditadura militar at\u00e9 o ano de 2025 \u2013 marcado por avan\u00e7os institucionais e a consolida\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, mas que nem sempre se fazem presentes nas micropol\u00edticas das rela\u00e7\u00f5es cotidianas \u2013 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Zona l\u00e9sbica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> nos apresenta as formas de organiza\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia l\u00e9sbica no Brasil ao longo dos \u00faltimos setenta anos atrav\u00e9s da ficcionaliza\u00e7\u00e3o de cenas que remontam as din\u00e2micas dessas mulheres. Como era amar outra mulher nos anos 50? Elas dividiam a casa com a sua parceira? Ser\u00e1 que os vizinhos achavam que eram apenas amigas? E se descobrissem que n\u00e3o era apenas isso? Ser\u00e1 que as parceiras das mulheres marchando contra o feminic\u00eddio e lesbofobia durante a ditadura militar sabiam que poderia ser a \u00faltima vez que veriam seu amor? Essas cenas s\u00e3o interpretadas por Carolina Godinho, Dani Nega, Dandara Azevedo, Jessica Lamana, Monique Vaill\u00e9, Nely Coelho e Simone Beghinni e entrecortadas por relatos pessoais de quando e como entraram na zona l\u00e9sbica. Assim, a especula\u00e7\u00e3o dessas exist\u00eancias no passado se soma \u00e0s viv\u00eancias compartilhadas pelas atrizes na constru\u00e7\u00e3o de um arquivo s\u00e1fico. A aposta nos relatos endere\u00e7ados diretamente ao p\u00fablico estabelece um v\u00ednculo mais \u00edntimo, atrav\u00e9s desse olhar que nos olha de volta, mas a ilus\u00e3o de espontaneidade \u00e9 quebrada, vez ou outra, devido a algumas dic\u00e7\u00f5es roteirizadas ou movimenta\u00e7\u00f5es muito bem marcadas.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse arquivo ainda conta com as vozes de \u00edcones da m\u00fasica brasileira como Z\u00e9lia Duncan, C\u00e1ssia Eller, Ludmilla, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto, Martn\u00e1lia, Leci Brand\u00e3o, C\u00e1tia de Fran\u00e7a, Bia Ferreira, Marina Lima, Maria Beth\u00e2nia e Gal Costa compondo a mixagem que atravessa as cenas com trechos de suas can\u00e7\u00f5es, como uma r\u00e1dio sintonizando em busca de frequ\u00eancias. A trilha sonora se relaciona com a R\u00e1dio Melodrama L\u00e9sbico que, na dramaturgia, estava sendo sonhada desde 2014 pelo trisal composto pelas personagens de Carolina Godinho, Dandara Azevedo e J\u00e9ssica Lamana e em 2025, ap\u00f3s a supera\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos, est\u00e1 no ar.&nbsp;<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_27760\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/zona-zami-um-arquivo-de-automitobiografias-critica-zona-lesbica-por-annelise-schwarcz\/whatsapp-image-2026-01-13-at-10-39-31\/\" rel=\"attachment wp-att-27760\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27760\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27760\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-13-at-10.39.31-e1768311859227.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27760\" class=\"wp-caption-text\">A pe\u00e7a aborda as exist\u00eancias e formas de resist\u00eancia l\u00e9sbica em quatro temporalidades: 1954, 1984, 2014 e 2025. Foto: Marcos Pastich\/PCR<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No in\u00edcio da pe\u00e7a, somos informadas\/os de que existem ondas na frequ\u00eancia Alfa e frequ\u00eancia Beta. Em estudos sobre hipnose, a onda Beta \u00e9 associada a um estado de consci\u00eancia, vig\u00edlia ou at\u00e9 mesmo estresse, enquanto as ondas Alfa s\u00e3o associadas a um estado de relaxamento, pr\u00e9 sono, al\u00e9m de ser o estado mais prop\u00edcio para a hipnose. Na pe\u00e7a, uma voz em off nos diz enquanto assistimos a proje\u00e7\u00f5es coloridas, em uma tela no fundo do palco, que estamos na zona Alfa e que a zona Beta \u00e9 um pouco melhor, como quem nos quer acordadas\/os, conscientes, atentas\/os, mas logo em seguida afirma que a zona realmente almejada pelas sapat\u00f5es \u00e9 Zami.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Zami est\u00e1 no centro da narrativa e, ao mesmo tempo, \u00e0 margem. Nas diversas cenas ao longo das quatro temporalidades encenadas, Zami aparece como um lugar m\u00edtico ou ut\u00f3pico registrado em um livro eventualmente encontrado por alguma das personagens, questionado por outras, mas n\u00e3o exatamente delimitado. Por que tem esse nome? Quem idealizou? Zami \u00e9 uma zona espacial ou uma frequ\u00eancia que podemos nos sintonizar independentemente de onde estejamos? \u00c9 poss\u00edvel estar na zona e n\u00e3o estar na frequ\u00eancia Zami? Apesar de n\u00e3o mencionado ao longo da pe\u00e7a, para mim \u00e9 dif\u00edcil ouvir \u201cZami\u201d e n\u00e3o pensar no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Zami. Uma nova grafia de meu nome, uma biomitografia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(originalmente publicado em 1982) de Audre Lorde. O t\u00edtulo \u201cZami\u201d vem de um termo criolo que se refere a mulheres que trabalham juntas, sinalizando a centralidade das alian\u00e7as entre mulheres no livro. O termo tamb\u00e9m pode ser associado a uma esp\u00e9cie de eufemismo para se referir a mulheres l\u00e9sbicas.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Zami<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 o livro autobiogr\u00e1fico de Audre Lorde. Como sabemos, toda autobiografia tem um qu\u00ea de fic\u00e7\u00e3o, por isso Lorde o define como uma \u201cbiomitografia\u201d: uma mistura de biografia, mito, mem\u00f3rias, reflex\u00f5es pol\u00edticas e po\u00e9ticas acerca de temas como pertencimento, trabalho, opress\u00f5es, amor, amizades, g\u00eanero, ra\u00e7a e sexualidade. A obra narra a forma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria de Lorde enquanto filha de pais caribenhos, nascida nos Estados Unidos, mulher negra, l\u00e9sbica, poeta e feminista, desde sua inf\u00e2ncia at\u00e9 o in\u00edcio da vida adulta. Operando de forma semelhante, podemos dizer que os relatos das atrizes de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Zona l\u00e9sbica <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">tamb\u00e9m s\u00e3o fragmentos de suas biomitografias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os relatos quebram a quarta parede, se dirigindo em primeira pessoa diretamente \u00e0 plateia, e operam como uma esp\u00e9cie de suspens\u00e3o da cena dos casais. Dani Nega falou sobre a origem de seu percurso no teatro com o grupo paulistano N\u00facleo Bartolomeu de Depoimentos, famoso pelos experimentos que mixam teatro, hip hop, rap e slam, e de que forma \u2013 por conta desses atravessamentos \u2013 a palavra se tornou a sua zona l\u00e9sbica. A primeira experi\u00eancia na zona l\u00e9sbica de Monique Vaill\u00e9 foi em 2003 no chat do UOL. Simone Beghinni sempre soube \u2013 como que \u201cpor instinto\u201d \u2013 que pertencia \u00e0 zona l\u00e9sbica. Nely Coelho, por sua vez, s\u00f3 entrou na zona l\u00e9sbica na faculdade de teatro, mas n\u00e3o sem antes atravessar a depress\u00e3o e o isolamento por parte dos amigos da \u00e9poca. Dandara Azevedo veio do Maranh\u00e3o fazer teatro em S\u00e3o Paulo. Nunca tinha nenhuma conversa espec\u00edfica com a sua fam\u00edlia sobre sua zona l\u00e9sbica, apenas avisava com quem estava. Um dia entendeu que assumir era tomar para si, como a pr\u00f3pria etimologia do termo sugere, e decidiu se posicionar diante da sua fam\u00edlia como l\u00e9sbica. Carolina Godinho, diferentemente das demais, faz o seu relato na terceira pessoa. A atriz conta que sempre gostou de \u201ccoisas de menino\u201d e relembra a m\u00fasica \u201cMaria sapat\u00e3o\u201d que seu irm\u00e3o costumava cantar para implicar com ela, quando tinha apenas 10 anos. O padrasto, homof\u00f3bico e racista, tamb\u00e9m contribuia com o clima hostil, ent\u00e3o Carolina decide sair de casa, se muda para o Rio de Janeiro e ingressa na faculdade de teatro, onde se apaixona e adentra \u2013 dessa vez com os pr\u00f3prios p\u00e9s \u2013 na zona l\u00e9sbica. J\u00e9ssica Lamana, a \u00faltima a se apresentar, toca o louvor <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Faz um Milagre em mim,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> de Regis Danese, no saxofone e \u00e9 acompanhada por algumas vozes na plateia sussurrando a letra. A zona l\u00e9sbica de J\u00e9ssica come\u00e7ou na casa do Senhor, mas a alegria da descoberta veio embrenhada em culpa e medo de ter pecado.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O fato dos depoimentos divertirem ou gerarem empatia faz com que essa dimens\u00e3o da pe\u00e7a se sobressaia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais, fazendo com que a narrativa em torno da constru\u00e7\u00e3o da r\u00e1dio, das personagens e at\u00e9 mesmo a pr\u00f3pria fuga para Zami, assim como o vislumbre de um futuro ut\u00f3pico, fiquem ofuscados diante dessa esp\u00e9cie de \u201cexcesso de presente e passado\u201d, materializado pela apresenta\u00e7\u00e3o desse arquivo s\u00e1fico das atrizes. Ao longo da pe\u00e7a, algumas quest\u00f5es como \u201co que \u00e9 ter cara de sapat\u00e3o?\u201d, se ser l\u00e9sbica \u00e9 uma escolha ou quest\u00e3o de \u201cinstinto\u201d e delicadezas em torno de rela\u00e7\u00f5es interraciais \u2013 mesmo entre pessoas do mesmo g\u00eanero \u2013, s\u00e3o lan\u00e7adas, mas n\u00e3o aprofundadas, tamb\u00e9m se diluindo em meio a tantos acontecimentos. O que h\u00e1 aqui, talvez, seja justamente uma explora\u00e7\u00e3o da ambiguidade do termo \u201czona\u201d, por vezes sendo compreendido como uma dimens\u00e3o espacial \u2013 um territ\u00f3rio, seja ele real ou imagin\u00e1rio \u2013, mas tamb\u00e9m nos permitindo uma interpreta\u00e7\u00e3o na qual \u201czona\u201d seja compreendido como \u201cbagun\u00e7a\u201d: um excesso de signos, g\u00edrias, debates, corpos, refer\u00eancias, associa\u00e7\u00f5es \u2013 todo um universo sendo apresentado sem que necessariamente se efetue uma organiza\u00e7\u00e3o. No fundo, essa \u00e9 a experi\u00eancia de se adentrar em um mundo: toda essa profus\u00e3o de imagens, a fome por devorar esse universo, a \u00e2nsia por recuperar o tempo perdido, o desejo de pertencer, de entender, de conhecer mais e melhor, de se perder nessa floresta de signos. Floresta? N\u00e3o. Trata-se, mais precisamente, de um brejo \u2013 como a pr\u00f3pria sonoplastia da pe\u00e7a sugere, ao nos receber com sons de sapo enquanto buscamos nossos lugares, antes da pe\u00e7a come\u00e7ar.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da mesma forma que Lorde constr\u00f3i a si mesma a partir das suas alian\u00e7as, do poder do desejo e do erotismo, da hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia e da sua rela\u00e7\u00e3o com a poesia, o elenco em cena vai tecendo uma sensibilidade compartilhada com a plateia, cada uma puxando um fio espec\u00edfico. Fios que s\u00e3o, ao mesmo tempo, singulares \u2013 pois trata-se de uma vida singular com uma trajet\u00f3ria espec\u00edfica \u2013 sem deixar de nos remeter, de alguma forma, a lugares comuns: um lugar que j\u00e1 estivemos, uma hist\u00f3ria que j\u00e1 ouvimos ou uma situa\u00e7\u00e3o arquetipicamente familiar. Entre as que se assumiram e as que foram tiradas do arm\u00e1rio, entre as que sempre souberam e as que nunca suspeitaram, os m\u00faltiplos relatos e rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis com a zona l\u00e9sbica v\u00e3o compondo uma miscel\u00e2nia de afetos que transitam por paisagens de culpa, d\u00favidas, medo, isolamento a euforia, empoderamento e pertencimento. E quem nunca habitou alguma dessas paisagens?&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Zona l\u00e9sbica <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">foi a \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o do \u00faltimo dia do 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional. Para encerrar a noite, o elenco convidou um casal na plateia para subir ao palco e ambas se declararam mutuamente em uma cena de enternecer o cora\u00e7\u00e3o. Todas as atrizes do elenco tamb\u00e9m formaram casais ou trisais e se beijaram selando a \u00faltima zona l\u00e9sbica. O palco se configura em Zami, um aqui e agora que se faz poss\u00edvel porque aqueles corpos em cena se fazem presentes e desejantes.<\/span><\/p>\n<p><b>* A cobertura cr\u00edtica da programa\u00e7\u00e3o do 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional \u00e9 apoiada pela Prefeitura do Recife.<\/b><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<em>Zona l\u00e9sbica<\/em><br \/>\n<strong>Idealiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaill\u00e9<br \/>\n<strong>Texto e dramaturgia<\/strong>: Ver\u00f4nica Bonfim<br \/>\n<strong>Adapta\u00e7\u00e3o e Textos<\/strong> \u201cZonas L\u00e9sbicas\u201d: Elenco<br \/>\n<strong>Elenco<\/strong>: Carolina Godinho, Dandara Azevedo, Dani Nega, J\u00e9ssica Lamana, Monique Vaill\u00e9, Nely<br \/>\nCoelho e Simone Beghinni<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o Art\u00edstica<\/strong>: Simone Beghinni<br \/>\n<strong>Voz off<\/strong>: Cesar Augusto, Leci Brand\u00e3o, R\u00f4mulo Chindelar e Z\u00e9lia Duncan<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de Movimento<\/strong>: Iasmin Patacho<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o Musical<\/strong>: Dani Nega<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de Imagem e mapping<\/strong>: Carolina Godinho<br \/>\n<strong>Cen\u00f3grafa<\/strong>: Carla Ferraz<br \/>\n<strong>Iluminadora<\/strong>: Lara Cunha<br \/>\n<strong>Figurino<\/strong>: Marah Silva<br \/>\n<strong>Visagismo<\/strong> e Maquiagem: Diego Nardes<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de Produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Monique Vaill\u00e9 e Nely Coelho<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o Executiva<\/strong>: Nuala Brand\u00e3o<br \/>\n<strong>T\u00e9cnica e Opera\u00e7\u00e3o de Luz<\/strong>: Tayn\u00e1 Maciel<br \/>\n<strong>Opera\u00e7\u00e3o de Som e V\u00eddeo<\/strong>: Igor Borges<br \/>\n<strong>Programa\u00e7\u00e3o Visual<\/strong>: Yasmin Lima<br \/>\n<strong>Fotos<\/strong>: \u00cdra Barillo<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: Delas Cultural e Ginja Filmes<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme The Watermelon Woman (1996) \u2013 dirigido, produzido e estrelado por Cheryl Dunye \u2013 tem como protagonista uma jovem negra e l\u00e9sbica que trabalha numa videolocadora em Filad\u00e9lfia, interpretada pela pr\u00f3pria Cheryl como uma esp\u00e9cie de personagem de si mesma. Seu hobby \u00e9 assistir a produ\u00e7\u00f5es hollywoodianas da d\u00e9cada de 30. Em um desses [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[8868,1],"tags":[8505,9098,8885,9100,7441,8975,2001,1615,9101,5474,8983,9109,6,8902,9110,9105,9102,9108,9106,877,8984,9107,6198,8986,9111,9103,9104,7071,9099],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27758"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27758"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27764,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27758\/revisions\/27764"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}