{"id":27556,"date":"2025-12-09T10:58:13","date_gmt":"2025-12-09T13:58:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27556"},"modified":"2025-12-09T10:58:16","modified_gmt":"2025-12-09T13:58:16","slug":"comeco-meio-comeco-critica-awon-irugbin-por-annelise-schwarcz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/comeco-meio-comeco-critica-awon-irugbin-por-annelise-schwarcz\/","title":{"rendered":"Come\u00e7o, meio, come\u00e7o<\/br> Cr\u00edtica: \u00c0w\u1ecdn Ir\u00fagbin<\/br> Por Annelise Schwarcz*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27559\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/comeco-meio-comeco-critica-awon-irugbin-por-annelise-schwarcz\/whatsapp-image-2025-12-08-at-13-23-31\/\" rel=\"attachment wp-att-27559\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27559\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27559\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/WhatsApp-Image-2025-12-08-at-13.23.31-e1765287760691.jpeg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"667\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27559\" class=\"wp-caption-text\">\u00c0w\u1ecdn Ir\u00fagbin participou da programa\u00e7\u00e3o do OFFRec, no FRTN 2025. Foto: Ricardo Maciel<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 1989, Beatriz Nascimento \u2013 historiadora e intelectual brasileira \u2013, lan\u00e7ou em parceria com Raquel Gerber o filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00d4r\u00ed. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto historiadora, Beatriz observava como o negro \u00e9 retratado na historiografia do Brasil apenas sob a \u00f3tica da escravid\u00e3o. \u00c9 no intuito de devolver a humanidade e a identidade negra roubada ao longo do processo da coloniza\u00e7\u00e3o que Beatriz se lan\u00e7a em sua pesquisa em torno da reconstru\u00e7\u00e3o dessa imagem. No filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00d4r\u00ed<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (1989), temos Beatriz \u2013 na qualidade de narradora e roteirista \u2013 compartilhando os frutos dessa pesquisa. O que estava em disputa com o resgate dos s\u00edmbolos da cultura negra no pa\u00eds era a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade como instrumento de auto afirma\u00e7\u00e3o racial, intelectual e existencial. O filme retrata a organiza\u00e7\u00e3o dos movimentos negros brasileiros das d\u00e9cadas de 70 e 80, os barrac\u00f5es e as apresenta\u00e7\u00f5es das escolas de samba, terreiros, encontros acad\u00eamicos entre intelectuais negras\/os, os bailes blacks e mais uma s\u00e9rie de express\u00f5es art\u00edsticas afrodiasp\u00f3ricas, manifesta\u00e7\u00f5es religiosas e eventos em torno da constru\u00e7\u00e3o de uma agenda negra. Todos esses registros visavam responder \u00e0 quest\u00e3o \u201conde \u00e9 quilombo hoje?\u201d e oferecer um reflexo no qual a\/o negra\/o pudesse se reconhecer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Beatriz Nascimento abriu caminhos para que muitas e muitos, ap\u00f3s ela, seguissem somando na busca pela identidade negra, disputando a constru\u00e7\u00e3o de imagens para al\u00e9m daquelas estigmatizantes que remetem ao colonialismo e que, ainda hoje, s\u00e3o disseminadas pelo racismo cordial \u00e0 brasileira. O convite de Nascimento para escrever \u201cuma hist\u00f3ria feita por m\u00e3os negras\u201d (t\u00edtulo de um de seus livros), encontrou reverbera\u00e7\u00e3o e hoje assistimos a uma verdadeira prolifera\u00e7\u00e3o de m\u00e3os negras tecendo hist\u00f3rias ou, para ficarmos com o termo de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, compondo um grande arquivo a partir de suas escreviv\u00eancias: deixando o lugar de objeto dos discursos dominantes e assumindo a autoria de suas pr\u00f3prias narrativas.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>\u00c0w\u1ecdn Ir\u00fagbin<\/strong>, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">espet\u00e1culo apresentado no<strong> OFFRec 2025<\/strong> compondo a programa\u00e7\u00e3o do <strong>Festival Recife do Teatro Nacional<\/strong>, \u00e9 mais uma realiza\u00e7\u00e3o comprometido com o resgate e valoriza\u00e7\u00e3o da cultura negra. Deixando evidente sua<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> ori<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">enta\u00e7\u00e3o pelas ideias de Beatriz Nascimento, o elenco \u2013 composto exclusivamente por jovens negras\/os da periferia da Regi\u00e3o Metropolitana do Recife \u2013 nos recebe dan\u00e7ando, como em um baile black, e nos convida a dan\u00e7ar tamb\u00e9m. Em seguida, cita as palavras da autora sergipana, presentes no filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00d4r\u00ed<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">: \u201c\u00c9 preciso imagem para recuperar a identidade, tem que tornar-se vis\u00edvel, porque o rosto de um \u00e9 o reflexo do outro, o corpo de um \u00e9 o reflexo do outro e em cada um o reflexo de todos os corpos. A invisibilidade est\u00e1 na raiz da perda da identidade\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pe\u00e7a \u00e9 resultado de uma resid\u00eancia de dois anos com o n\u00facleo O Postinho, uma resid\u00eancia oferecida pelo grupo O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas. A Escola O Poste de Antropologia Teatral oferece uma forma\u00e7\u00e3o que inclui atividades como \u201cTradi\u00e7\u00f5es da Mata: Cavalo Marinho e Maracatu de Baque Solto na constru\u00e7\u00e3o do ator\u201d, com Andala Quituche; \u201cO Corpo Ancestral \u2013 Pr\u00e1ticas de Treinamento Ancestral do grupo O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas\u201d e \u201cVoz Criativa\u201d, com Nan\u00e1 Sodr\u00e9; \u201cTradi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena como prepara\u00e7\u00e3o para o corpo do ator\u201d, com Iara Campos; \u201cPo\u00e9tica Matricial dos Orix\u00e1s e Encantados\u201d e \u201cA cria\u00e7\u00e3o do figurino e acessibilidade em perspectiva acess\u00edvel de retomada\u201d, com Agrinez Melo; \u201cO Performer Ancestral\u201d e \u201cDramaturgia\u201d, com Samuel Santos; \u201cCapoeira no jogo do ator\u201d, assinada por Gaby Conde, al\u00e9m de prepara\u00e7\u00e3o de corpo, de voz, cria\u00e7\u00e3o de figurinos, aulas de dan\u00e7as diasp\u00f3ricas e aulas de hist\u00f3ria do teatro negro-africano.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0w\u1ecdn Ir\u00fagbin, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">que significa \u201csementes\u201d em yorub\u00e1, consiste em um espet\u00e1culo composto por quatro cenas unidas pela tem\u00e1tica da busca por uma refer\u00eancia na qual a\/o negra\/o possa se reconhecer, com dramaturgias distintas em cada cena desenvolvidas pelo pr\u00f3prio elenco. As diferentes pot\u00eancias e o fato de cada cena ser idealizada por um\/a artista diferente resulta numa montagem de qualidade heterog\u00eanea, mas tamb\u00e9m \u00e9 prova do incentivo \u00e0 autonomia e \u00e0 conquista da pr\u00f3pria voz, por parte do grupo O Poste. Cada cena tem como pano de fundo as escreviv\u00eancias de Cec\u00edlia Ch\u00e1, Larissa Lira, Sthe Vieira e Thallis \u00cdtalo em di\u00e1logo com suas refer\u00eancias, como quem nos conta quem plantou as sementes para que eles pudessem colher os frutos como, por exemplo, Zumbi dos Palmares, Jo\u00e3o C\u00e2ndido, Luiza Mahin, Luiz Gama, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, Leda Maria Martins, al\u00e9m da j\u00e1 mencionada Beatriz Nascimento. Todas essas figuras complexificam o quadro do que \u00e9 ser negra\/o e contribuem para o alargamento da hist\u00f3ria e da cultura afrodiasp\u00f3rica no Brasil, superando narrativas de invisibiliza\u00e7\u00e3o e subalternidade.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Larissa Lira dedica a sua cena \u00e0 Elza Soares e relembra marcos do Brasil e da vida pessoal da cantora costurados pelas letras de suas m\u00fasicas (\u201cO meu pa\u00eds \u00e9 meu lugar de fala\u201d, trecho de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">o que se cala,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e \u201cA carne mais barata do mercado \u00e9 a carne negra\u201d, trecho de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A carne<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">). Elza, que sofreu tentativas de feminic\u00eddio e agress\u00f5es do seu ex-companheiro, \u00e9 apresentada como signo de for\u00e7a e resist\u00eancia a partir da conta\u00e7\u00e3o de um sonho com b\u00fafalos e com a orix\u00e1 Ians\u00e3. Como uma esp\u00e9cie de porta-bandeira \u2013 toda de verde brincando e girando com uma bandeira de cor verde s\u00f3lida \u2013, a jovem atriz busca mimetizar em sua dic\u00e7\u00e3o o timbre inconfund\u00edvel da voz rasgada de Elza, demonstrando o tamanho de sua extens\u00e3o vocal explorando dos sons mais graves aos agudos, privilegiando o experimento sonoro \u00e0 transmiss\u00e3o do texto.&nbsp;<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_27561\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/comeco-meio-comeco-critica-awon-irugbin-por-annelise-schwarcz\/whatsapp-image-2025-12-09-at-10-40-47\/\" rel=\"attachment wp-att-27561\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27561\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27561\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/WhatsApp-Image-2025-12-09-at-10.40.47-e1765288097531.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"425\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27561\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo \u00e9 fruto de uma resid\u00eancia do n\u00facleo O Postinho, projeto do grupo O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas. Foto: Ricardo Maciel<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na cena seguinte, Sthe Vieira interpreta uma afroind\u00edgena que n\u00e3o encontra figuras semelhantes a si mesma nas revistas, jornais, filmes e propagandas. Sua cena d\u00e1 o tom da interseccionalidade entre as lutas das gentes negras e ind\u00edgenas. Assim como na cita\u00e7\u00e3o de Beatriz Nascimento que abre a pe\u00e7a, ela tamb\u00e9m est\u00e1 em busca de sua identidade e as imagens de mulheres na m\u00eddia a afastam da sua cultura, hist\u00f3ria e percep\u00e7\u00e3o de si.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sthe canta a m\u00fasica <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Me usa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> da Banda Magn\u00edficos e d\u00e1 voz a uma narrativa muito familiar a muitos\/as brasileiros\/as: a da av\u00f3 ou bisav\u00f3 \u201cpega no la\u00e7o\u201d. O eufemismo dessa express\u00e3o \u2013 que n\u00e3o \u00e9 utilizada pela atriz \u2013 esconde que ser \u201cpega no la\u00e7o\u201d, na verdade, significa ser levada contra sua vontade, sequestrada. Sthe, ao evitar a express\u00e3o popular, d\u00e1 o tom da gravidade e nos faz estranhar o forr\u00f3 que nos \u00e9 t\u00e3o familiar quanto a express\u00e3o aqui citada: \u201cAmor, me leva e faz de mim o que quiser. Me usa. Me abusa, pois o meu maior prazer \u00e9 ser tua mulher\u201d. Crescendo longe de suas refer\u00eancias, ela se volta \u00e0 sua ancestralidade atrav\u00e9s da m\u00fasica: a personagem \u2013 que desde o in\u00edcio da cena veste um cocar \u2013 toca chocalho, canta ponto de caboclo e canta em uma das l\u00ednguas origin\u00e1rias acompanhada pelas\/os demais artistas do elenco, que est\u00e3o tocando ao vivo alguns instrumentos do outro lado do palco do teatro Hermilo Borba Filho.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cec\u00edlia Ch\u00e1 tamb\u00e9m manda um salve para as mais velhas em sua cena e homenageia as vov\u00f3s. Talvez o momento mais emocionante da montagem seja o momento em que Cec\u00edlia interpreta uma neta ao lado de sua av\u00f3 vendo nuvens. A atriz consegue criar uma atmosfera na qual a vemos ali, junto com essa av\u00f3, apontando para o c\u00e9u e reconhecendo pessoas nas nuvens: Bernadete Pinheiro, Sueli Carneiro, Nego Bispo, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo e, de repente, a av\u00f3 j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais ali. Isso n\u00e3o a impede de seguir conversando com a sua av\u00f3. Cec\u00edlia nos transporta para uma sess\u00e3o de Preto Velho num terreiro de umbanda. Ouvimos o ponto da Vov\u00f3 Maria Redonda enquanto Cec\u00edlia se transmuta na Preta Velha. A neta e a av\u00f3 se encontram no mesmo corpo e nos lembram que n\u00e3o h\u00e1 fim: apenas come\u00e7o, meio e come\u00e7o. Ela(s) se agacha(m), risca(m) com pemba uma espiral no ch\u00e3o com algumas nuvens dentro e nos pede(m) para n\u00e3o esquecermos o formato das nuvens como quem pede para n\u00e3o esquecer dos que vieram antes de n\u00f3s, pois assim como as nuvens, eles\/as ainda nos acompanham.&nbsp;<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_27562\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/comeco-meio-comeco-critica-awon-irugbin-por-annelise-schwarcz\/whatsapp-image-2025-12-08-at-13-24-03\/\" rel=\"attachment wp-att-27562\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27562\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27562\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/WhatsApp-Image-2025-12-08-at-13.24.03-e1765288460648.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27562\" class=\"wp-caption-text\">\u00c0w\u1ecdn Ir\u00fagbin reverbera ideias de Beatriz Nascimento. Foto: Ricardo Maciel<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O palco est\u00e1 no meio, entre as duas arquibancadas, e o p\u00fablico est\u00e1 dividido por esse corredor onde se d\u00e3o os atos. A montagem brinca com a extens\u00e3o desse corredor, aproveitando que estamos olhando em determinada dire\u00e7\u00e3o para aprontar a pr\u00f3xima cena na dire\u00e7\u00e3o oposta. Thallis \u00cdtalo surge dentro de uma bacia de \u00e1gua do lado oposto do palco enquanto nosso olhar ainda se despedia de Cec\u00edlia. A cena de Thallis, diferentemente das demais, parece explorar um conflito interior. Seu personagem se chama Obelin e nasceu pr\u00f3ximo \u00e0s \u00e1guas de Oxum, filho de m\u00e3e preta, mas por ser mais claro que sua m\u00e3e, ele n\u00e3o sabe que cor tem. Thallis aborda a quest\u00e3o da mesti\u00e7agem e do colorismo. A que coletividade pertence um filho claro de uma m\u00e3e de pele escura? Em busca de respostas, Obelin vaga pelas \u00e1guas de rio e de mar. Como elemento cenogr\u00e1fico, Thallis lan\u00e7a m\u00e3o de uma bacia com \u00e1gua e n\u00e3o economiza banhos ao longo de suas cenas, permitindo-se at\u00e9 mesmo dar eventuais banhos na plateia de tabela. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sthe Lima interpreta Yemanj\u00e1, a rainha do mar, e Larissa Lira interpreta Oxum na cena de Thallis. As duas cantam em yorub\u00e1, enquanto Obelin segue em busca da resposta pela sua ancestralidade. \u00c9 Vov\u00f4 Ded\u00e9 quem lhe pede para olhar para seu reflexo nas \u00e1guas e, assim, Obelin se reconecta com suas ra\u00edzes negras, remetendo mais uma vez \u00e0 cita\u00e7\u00e3o de Beatriz Nascimento: \u201cA invisibilidade est\u00e1 na raiz da perda da identidade\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A montagem, que n\u00e3o tem fim, \u201ctermina no meio\u201d da mesma forma que come\u00e7a: trazendo o p\u00fablico para dan\u00e7ar como em um baile black. O lema espiralar \u201ccome\u00e7o, meio e come\u00e7o\u201d se configura em um dispositivo performativo e organiza a estrutura da montagem que, devido ao seu car\u00e1ter epis\u00f3dico, poderia vir a ter no futuro, se for do desejo das\/os envolvidas\/os, mais cenas e artistas acoplados\/as ao espet\u00e1culo multiplicando essas sementes. Me pergunto, apenas, se ao insistir em frases como \u201co negro \u00e9 espiralar, o negro dan\u00e7a, o negro ginga\u201d n\u00e3o acabamos por criar novos essencialismos acerca da identidade negra. Quero dizer: ser\u00e1 que na busca pela identidade negra, ao inv\u00e9s de contribuir com o alargamento e complexifica\u00e7\u00e3o do ser negra\/o, n\u00e3o estamos incorrendo em novas clausuras ao afirmar que \u201co negro\u201d \u2013 j\u00e1 come\u00e7ando pelo uso da palavra no singular e no masculino \u2013 \u00e9 definido pelos atributos do que o seu corpo pode fazer? N\u00e3o estamos mais uma vez reincidindo numa essencializa\u00e7\u00e3o do que somos e\/ou podemos ser ao investir nessa rela\u00e7\u00e3o direta entre as gentes negras e o corpo? Podemos n\u00e3o ser ou n\u00e3o fazer o que dizem que fazemos? Creio que essa conversa talvez n\u00e3o caiba nesta cr\u00edtica \u2013 o que n\u00e3o quer dizer que gostaria que ela terminasse aqui \u2013, mas quero, desde j\u00e1, lan\u00e7ar tamb\u00e9m algumas sementes.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><strong>* A cobertura cr\u00edtica da programa\u00e7\u00e3o do 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional \u00e9 apoiada pela Prefeitura do Recife.<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o\/dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> N\u00facleo O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas \/ Agrinez Melo<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Cec\u00edlia Ch\u00e1, Larissa Lira, Sthe Vieira e Thallis \u00cdtalo<br \/>\n<strong>Prepara\u00e7\u00e3o corporal\/ancestral\/voz:<\/strong> Nan\u00e1 Sodr\u00e9 e Darana Nag\u00f4<br \/>\n<strong>Prepara\u00e7\u00e3o po\u00e9tica\/figurino:<\/strong> Agrinez Melo<br \/>\n<strong>Assessoria dramat\u00fargica:<\/strong> Samuel Santos<br \/>\n<strong>Aulas de hist\u00f3ria do teatro negro-africano e performance Bantue:<\/strong> Jeff Vitorino e Matheus Amador<br \/>\n<strong>Assessoria de imprensa:<\/strong> Daniel Lima<\/p>\n<div id=\"attachment_27563\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/comeco-meio-comeco-critica-awon-irugbin-por-annelise-schwarcz\/whatsapp-image-2025-12-09-at-10-40-12\/\" rel=\"attachment wp-att-27563\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27563\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27563\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/WhatsApp-Image-2025-12-09-at-10.40.12-e1765288537688.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"467\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27563\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Thallis \u00cdtalo explora quest\u00e3o da mesti\u00e7agem e do colorismo. Foto: Ricardo Maciel<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1989, Beatriz Nascimento \u2013 historiadora e intelectual brasileira \u2013, lan\u00e7ou em parceria com Raquel Gerber o filme \u00d4r\u00ed. 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