{"id":27522,"date":"2025-12-02T10:15:56","date_gmt":"2025-12-02T13:15:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27522"},"modified":"2025-12-02T10:15:59","modified_gmt":"2025-12-02T13:15:59","slug":"ter-exu-como-principio-estranhar-a-cronologia-critica-hblynda-em-transito-por-annelise-schwarcz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ter-exu-como-principio-estranhar-a-cronologia-critica-hblynda-em-transito-por-annelise-schwarcz\/","title":{"rendered":"Ter Exu como princ\u00edpio: estranhar a cronologia<\/br> Cr\u00edtica: HBLynda em TRANSito<\/br> Por Annelise Schwarcz*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27529\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ter-exu-como-principio-estranhar-a-cronologia-critica-hblynda-em-transito-por-annelise-schwarcz\/hblynda-fotos-ricardo-maciel_palco-pernambuco-1\/\" rel=\"attachment wp-att-27529\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27529\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27529\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/HBLYnda-Fotos-Ricardo-Maciel_Palco-Pernambuco-1-e1764681108722.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"423\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27529\" class=\"wp-caption-text\">HBLynda em TRANSito participou do OFFRec, na programa\u00e7\u00e3o do FRTN. Foto: Ricardo Maciel\/Palco Pernambuco<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que \u00e9 ser homem? O que \u00e9 ser mulher? A gente nasce mulher ou se torna? Como esses g\u00eaneros s\u00e3o constru\u00eddos? Culturalmente? Biologicamente? \u00c9 poss\u00edvel ser homem e mulher? \u00c9 poss\u00edvel ser nenhum dos dois? O que acontece com quem recusa os quadros de reconhecimento impostos, ou seja, quem recusa ser enquadrado pelas categorias dispon\u00edveis? O que \u00e9 ser n\u00e3o bin\u00e1rio? O que significa ser ciborgue? A gente nasce ciborgue ou se torna? Essas s\u00e3o algumas quest\u00f5es que t\u00eam animado as discuss\u00f5es das teorias queer, um campo relativamente recente com menos de oito d\u00e9cadas de exist\u00eancia, e seus desdobramentos podem ser encontrados nas obras de autoras\/es como Monique Wittig, Judith Butler, Donna Haraway, Paul B. Preciado e Jack Halberstam \u2013 apenas para citar alguns exemplos. Nos \u00faltimos anos, as teorias em torno dos modos de vida queer t\u00eam se popularizado e extrapolado o \u00e2mbito acad\u00eamico, ganhando repercuss\u00e3o especialmente nas artes da cena e nas ruas.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">HBLynda em TRANSito, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">espet\u00e1culo de HBLynda Moraes apresentado no OFFRec 2025 durante o 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional, \u00e9 mais uma montagem que se soma ao grande corpo de produ\u00e7\u00f5es em torno da tem\u00e1tica queer. A pe\u00e7a conta em primeira pessoa a vida de HBLynda Moraes \u2013 pessoa trans n\u00e3o bin\u00e1ria \u2013 desde os primeiros confrontos, ainda na escola, com a n\u00e3o conformidade com a performance da masculinidade at\u00e9 o encontro com seu novo nome e identidade de g\u00eanero em tr\u00e2nsito. A dramaturgia segue de forma cronologicamente linear os marcos traum\u00e1ticos e os prazeres da descoberta, costurados por dan\u00e7as aos orix\u00e1s Exu, Ogum, Oxum e \u00e0 Pombagira 7 Catacumbas. Com Exu, HBLynda abre os trabalhos, com Dona 7 Catacumbas dan\u00e7a os vivos e os mortos, com Ogum tem for\u00e7a para enfrentar as viol\u00eancias e vencer as batalhas, e com Oxum gesta um novo nome, uma nova forma de ser e estar no mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da direita para a esquerda, o cen\u00e1rio montado no teatro Hermilo Borba Filho \u00e9 composto por quatro cadeiras ao centro, pr\u00f3ximas a quatro lousas acopladas umas \u00e0s outras e, ao lado delas, uma mesa com uma miniatura da Torre Eiffel e dois porta retratos sobre ela, um bambol\u00ea led no ch\u00e3o. Agora pensa numa pe\u00e7a generosa: logo na entrada voc\u00ea ganha shot de cacha\u00e7a, tangerina, pompom de festa e ainda \u00e9 recebida\/e\/o por arruda e alecrim macerados, espalhados pelo ch\u00e3o, perfumando o ambiente. A pe\u00e7a ainda conta com momentos interativos com o p\u00fablico como, por exemplo, distribui\u00e7\u00e3o de coxinhas e uma aula sobre g\u00eanero e performatividade, al\u00e9m de trilha sonora e sonoplastia ao vivo de Raphael Venos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, em alguns momentos, tantos elementos sendo ofertados ao p\u00fablico resultam em um esvaziamento do sentido de alguns dispositivos. Por exemplo, ao distribuir as coxinhas durante o depoimento da m\u00e3e de HBLynda, os burburinhos das pessoas aceitando ou recusando, assim como a conversa em torno do qu\u00e3o gostoso estava o salgadinho compete com o volume do v\u00eddeo, prejudicando a compreens\u00e3o do relato. Em outro momento, come\u00e7a a tocar a m\u00fasica do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Xou da Xuxa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e somos convidadas\/es\/os a balan\u00e7ar nossos pompons azul e rosa que ganhamos na bilheteria ao adquirir os ingressos. O show \u00e9 interrompido abruptamente quando HBLynda pede ajuda da plateia para revelar o sexo do beb\u00ea e brinca que n\u00f3s, plateia majoritariamente cis, devemos adorar um ch\u00e1 de revela\u00e7\u00e3o. Depois, a cena se metamorfoseia em uma aula a partir da pergunta \u201cquem sabe como o g\u00eanero \u00e9 constitu\u00eddo?\u201d e a breve cena em torno dos pompons, que est\u00e1vamos carregando desde antes de entrar no teatro conosco, parece gratuita.&nbsp;<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_27530\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ter-exu-como-principio-estranhar-a-cronologia-critica-hblynda-em-transito-por-annelise-schwarcz\/hblynda-fotos-ricardo-maciel_palco-pernambuco-2\/\" rel=\"attachment wp-att-27530\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27530\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27530\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/HBLYnda-Fotos-Ricardo-Maciel_Palco-Pernambuco-2-e1764681171340.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"358\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27530\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo leva \u00e0 cena discuss\u00f5es da teoria queer que extrapolaram o ambiente acad\u00eamico nos \u00faltimos anos. Foto: Ricardo Maciel\/Palco Pernambuco<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A dramaturgia \u00e9 voltada para o p\u00fablico cis e busca oferecer letramento acerca de quest\u00f5es como sexo, g\u00eanero e transi\u00e7\u00e3o. A performer explica que transicionar n\u00e3o \u00e9 como \u201cum bot\u00e3o do BBB, que voc\u00ea aperta para sair\u201d e que, sobretudo para pessoas trans n\u00e3o bin\u00e1rias como ela, o g\u00eanero est\u00e1 em tr\u00e2nsito. G\u00eanero em encruzilhada: muito ela para ser ele, muito ele para ser ela. Da mesma forma, a pe\u00e7a situa-se numa encruzilhada na qual, por vezes, sup\u00f5e a ignor\u00e2ncia de seu p\u00fablico e por isso aposta no didatismo, como quando questiona \u201cquem sabe como o g\u00eanero \u00e9 constitu\u00eddo?\u201d e, ao receber como resposta o sil\u00eancio da plateia, HBLynda responde que o g\u00eanero \u00e9 constitu\u00eddo socialmente e nos faz repetir em coro: \u201cnem toda pessoa de pau \u00e9 homem, nem toda pessoa de buceta \u00e9 mulher\u201d. Por outro lado, em outros momentos, aposta que termos como \u201cenquadramento\u201d de Judith Butler ou \u201ccorpo ciborgue\u201d, conceito de Donna Haraway que se refere a um corpo composto por fic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contradit\u00f3rias, dispensam apresenta\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">HBLynda canta o desejo de \u201cn\u00e3o ser quadrada\u201d ou \u201cser enquadrada\u201d nas normas sociais, nos quadros de reconhecimento dispon\u00edveis. A performer relembra a forma que crian\u00e7as na escola, s\u00f3 de ver sua letra redonda e caprichada, come\u00e7aram a expor sua feminilidade para ela mesma que, at\u00e9 ent\u00e3o, vivia alheia a essas quest\u00f5es. Foram anos tentando disfar\u00e7ar e se adequar, sobrevivendo \u00e0s viol\u00eancias at\u00e9 que pudesse se encontrar. Um pouco antes de saudar Oxum e celebrar seu renascimento, HBLynda relembra o itan \u201cExu matou um p\u00e1ssaro ontem com uma pedra que lan\u00e7ou hoje\u201d. Exu abre a apresenta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o (des)organiza a cronologia. A pe\u00e7a autobiogr\u00e1fica poderia se nutrir do princ\u00edpio exus\u00edaco \u2013 proferido pela pr\u00f3pria performer e dramaturga \u2013 na constru\u00e7\u00e3o da dramaturgia, reposicionando a convencional narrativa que parte da inf\u00e2ncia \u00e0 vida adulta, qui\u00e7\u00e1 revendo at\u00e9 os eventos traum\u00e1ticos como pontos de refer\u00eancia. Se tudo \u00e9 tr\u00e2nsito, a identidade e a mem\u00f3ria se tornam ilhas de edi\u00e7\u00e3o: o nascimento pode ter sido a morte dos pais, a aula pode acontecer sem interromper o show e o pedido para contar uma mem\u00f3ria do passado, pode se tornar o convite para vislumbrar um futuro.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><strong>*A cobertura cr\u00edtica da programa\u00e7\u00e3o do 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional \u00e9 apoiada pela Prefeitura do Recife<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<em>HBLynda em TRANSito<\/em><br \/>\n<strong>Idealiza\u00e7\u00e3o, dramaturgia e atua\u00e7\u00e3o:<\/strong> HBlynda Morais<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica\/geral:<\/strong> Emmanuel Matheus<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o executiva:<\/strong> Juliana Couto<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o musical e m\u00fasico:<\/strong> Raphael Venos<br \/>\n<strong>Prepara\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica\/corporal:<\/strong> Aline Gomes<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o:<\/strong> Cleison Ramos (Farol Atelier da Luz)<br \/>\n<strong>Figurino:<\/strong> Agrinez Melo<br \/>\n<strong>Confec\u00e7\u00e3o do figurino:<\/strong> Mariana Barbosa<br \/>\n<strong>Programa\u00e7\u00e3o visual e monitoramento de redes:<\/strong> Bagas\u00e1 \/ Emmanuel Matheus<\/p>\n<div id=\"attachment_27531\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ter-exu-como-principio-estranhar-a-cronologia-critica-hblynda-em-transito-por-annelise-schwarcz\/hblynda-fotos-ricardo-maciel_palco-pernambuco-4\/\" rel=\"attachment wp-att-27531\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27531\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27531\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/HBLYnda-Fotos-Ricardo-Maciel_Palco-Pernambuco-4-e1764681277665.jpeg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"667\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27531\" class=\"wp-caption-text\">Biografia \u00e9 utilizada como material para elabora\u00e7\u00e3o da dramaturgia. Foto: Ricardo Maciel\/Palco Pernambuco<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 ser homem? O que \u00e9 ser mulher? A gente nasce mulher ou se torna? Como esses g\u00eaneros s\u00e3o constru\u00eddos? Culturalmente? Biologicamente? \u00c9 poss\u00edvel ser homem e mulher? \u00c9 poss\u00edvel ser nenhum dos dois? 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