{"id":27476,"date":"2025-11-27T12:55:37","date_gmt":"2025-11-27T15:55:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27476"},"modified":"2025-11-27T16:45:48","modified_gmt":"2025-11-27T19:45:48","slug":"de-palcos-e-resistencias-o-tempo-esculpido-por-augusta-ferraz-homenageada-do-24o-frtn-entrevista-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/de-palcos-e-resistencias-o-tempo-esculpido-por-augusta-ferraz-homenageada-do-24o-frtn-entrevista-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"De palcos e resist\u00eancias: <\/br> o tempo esculpido <\/br>por Augusta Ferraz, <\/br> Homenageada do 24\u00ba FRTN <\/br> Entrevista por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27490\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-19-at-19.10.11-1-e1764253870192.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27490\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-27490 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-19-at-19.10.11-1-e1764254027681.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"586\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-19-at-19.10.11-1-e1764254027681.jpeg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-19-at-19.10.11-1-e1764254027681-300x293.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27490\" class=\"wp-caption-text\">Atriz Augusta Ferraz \u00e9 homenageada do 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Rog\u00e9rio Alves\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Augusta Ferraz esculpe o tempo que habita. Sagaz, ir\u00f4nica, combativa e corajosa, ela carrega em si um humor peculiar e inteligente que tempera cinco d\u00e9cadas de resist\u00eancia cultural. Aos 68 anos e com 52 anos de carreira ininterrupta, a artista participou ativamente das transforma\u00e7\u00f5es do teatro pernambucano, foi protagonista de muitas delas, ajudou a edificar institui\u00e7\u00f5es e nunca permitiu que as adversidades a retirassem de cena. Como escreveu a poeta polonesa Wis\u0142awa Szymborska em <em>Filhos da \u00e9poca<\/em>: &#8220;Somos filhos da \u00e9poca e a \u00e9poca \u00e9 pol\u00edtica&#8221;. Augusta compreendeu que cada espet\u00e1culo, cada palavra no palco, cada sil\u00eancio ressoa politicamente no mundo. Sua rela\u00e7\u00e3o com as artes c\u00eanicas se definiu logo na estreia. Durante <em>Jesus Cristo Superstar<\/em>, em 1973, no Teatro Santa Isabel, um prego atravessou seu dedo do p\u00e9. A dor era intensa, mas ela continuou interpretando a crucifica\u00e7\u00e3o de Cristo, entendendo ali que &#8220;o espet\u00e1culo n\u00e3o podia parar&#8221; &#8211; li\u00e7\u00e3o que carrega at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Em quase sete d\u00e9cadas de vida, Augusta acumulou experi\u00eancias que caberiam em v\u00e1rias biografias. Sobreviveu \u00e0 ditadura militar, foi presa numa blitz policial em 1986, enfrentou viol\u00eancias silenciadas, faliu financeiramente, se reergueu e recome\u00e7ou. Militou pela cria\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o de Teatro de Pernambuco, lutou por pol\u00edticas culturais, denunciou o fechamento de teatros da cidade e nunca baixou a guarda diante da precariedade que assola as artes c\u00eanicas.&nbsp;<\/p>\n<p>Reinventar-se sempre foi sua marca. Atriz, dramaturga, diretora e produtora, Augusta transita entre linguagens com a desenvoltura de quem domina seu of\u00edcio. Do teatro partiu para o cinema com <em>Amores de Chumbo<\/em> (2016), de Tuca Siqueira, depois para a televis\u00e3o como Dona Berenice em <em>Guerreiros do Sol<\/em>, novela da Globo de 2025. Entre seus quase 80 espet\u00e1culos, construiu uma t\u00e9cnica pr\u00f3pria que ela mesma n\u00e3o consegue definir: &#8220;Algu\u00e9m escrever\u00e1 sobre isso depois que eu morrer&#8221;, diz com o humor \u00e1cido que matiza sua intensidade.&nbsp;<\/p>\n<p>Agora, homenageada pelo <strong><em>24\u00b0 Festival Recife do Teatro Nacional<\/em><\/strong> ao lado de Auric\u00e9lia Fraga, Augusta traz <strong><em>Sobre os Ombros de B\u00e1rbara, <\/em><\/strong>com dire\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Manoel. O espet\u00e1culo, escrito em parceria com Brisa Rodrigues e vencedor do Pr\u00eamio Ariano Suassuna de dramaturgia, estreia nos dias 29 e 30 de novembro no Teatro Santa Isabel. A obra entrela\u00e7a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria com a de B\u00e1rbara de Alencar, primeira presa pol\u00edtica do Brasil &#8211; e tatarav\u00f3 de Augusta. O t\u00edtulo aponta para uma filosofia: todos estamos sobre os ombros de quem veio antes, e serviremos de ombros para quem vir\u00e1 depois. Augusta est\u00e1 sobre os ombros de B\u00e1rbara, como esteve sobre os de sua m\u00e3e, e outras artistas estar\u00e3o sobre os seus.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, Augusta Ferraz fala sobre esse novo trabalho, reflete sobre cinco d\u00e9cadas de teatro e analisa com sua habitual sagacidade a situa\u00e7\u00e3o cultural do Recife. Entre mem\u00f3rias dolorosas e conquistas celebradas, ela oferece um panorama \u00fanico do teatro brasileiro visto por quem nunca abandonou o palco &#8211; mesmo quando tudo conspirava para que isso acontecesse. \u00c9 a voz de quem esculpe o pr\u00f3prio tempo e agora o compartilha com ironia, coragem e a clareza de quem sabe que cada gesto no palco ecoa no mundo.<\/p>\n<blockquote>\n<h1>&#8220;Quem tem a felicidade de experimentar,<br \/>\nn\u00e3o deixa de ir ao teatro nunca&#8221;<\/h1>\n<\/blockquote>\n<h1>ENTREVISTA: Augusta Ferraz<\/h1>\n<div id=\"attachment_27407\" style=\"width: 609px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-19-at-19.10.12-2-e1763646500818.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27407\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27407\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-19-at-19.10.12-2-e1763646500818.jpeg\" alt=\"\" width=\"599\" height=\"532\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-19-at-19.10.12-2-e1763646500818.jpeg 599w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-19-at-19.10.12-2-e1763646500818-300x266.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27407\" class=\"wp-caption-text\">Augusta Ferraz, homenageada do 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional. Foto Rog\u00e9rio Alves \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; O que a inspirou a criar o espet\u00e1culo <em>Sobre os Ombros de B\u00e1rbara<\/em> e a trazer a hist\u00f3ria de B\u00e1rbara de Alencar para os palcos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Coragem. Muita coragem, n\u00e9? Porque tentar montar espet\u00e1culos hoje de maneira mais profissional \u00e9 muito complicado, muito dif\u00edcil. Por mais que a gente lute, continuamos sendo o cu do mundo.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Mas por que B\u00e1rbara? O que a motivou a falar sobre essa figura hist\u00f3rica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Porque eu sou tataraneta do irm\u00e3o de B\u00e1rbara, que lutou junto com ela em todas essas guerrilhas. Era o irm\u00e3o mais novo da fam\u00edlia. Miguel Arraes \u00e9 descendente da irm\u00e3 mais velha de B\u00e1rbara, In\u00e1cia. S\u00f3 para citar, para voc\u00eas entenderem do que estou falando.<br \/>\nEnt\u00e3o, Leonel Pereira de Alencar lutou nas mesmas quest\u00f5es que B\u00e1rbara, era companheiro dela nessa luta junto com os filhos. Desde crian\u00e7a eu escuto esse nome, de vez em quando se falava dela na fam\u00edlia &#8211; fui criada na fam\u00edlia da minha m\u00e3e. Fui crescendo com essa criatura, essa figura dentro de mim. Uns 20 anos atr\u00e1s, comecei a pensar em montar um espet\u00e1culo sobre B\u00e1rbara de Alencar. Em 2022, eu decidi. Conversei com Jos\u00e9 Manoel &#8211; era uma oportunidade de trabalhar com ele, porque ele havia sa\u00eddo do SESC e tinha a agenda mais aberta. Quando ele topou e come\u00e7amos, ele entrou na Funda\u00e7\u00e3o de Cultura. Mas continuamos, estamos trabalhando desde 2022 nesse processo.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>&#8220;B\u00e1rbara \u00e9 a primeira presa pol\u00edtica do Brasil<br \/>\n&#8211; oficialmente, a primeira mulher presa por causa<br \/>\nde pol\u00edtica. Comeu o p\u00e3o que o diabo amassou&#8221;<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Nesse processo de cria\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, quais aspectos da vida e da luta de B\u00e1rbara voc\u00ea decidiu levar para a cena? O que mais a impactou na trajet\u00f3ria dessa mulher?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: As pessoas n\u00e3o conhecem, n\u00e3o sabem a hist\u00f3ria de B\u00e1rbara. Muita gente n\u00e3o sabe do que se trata. Espero que o espet\u00e1culo, essa homenagem do festival, fa\u00e7a com que se fale um pouco sobre isso e que as pessoas se atentem mais para nossa hist\u00f3ria. Porque, afinal, a Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana de 1817, a Confedera\u00e7\u00e3o do Equador, a Conven\u00e7\u00e3o de Beberibe &#8211; tudo isso foi o ponto de partida para virarmos Rep\u00fablica, mesmo que tenha demorado 60 anos para chegarmos l\u00e1. No Brasil se fala muito sobre a Inconfid\u00eancia Mineira, que aconteceu 100, 150 anos antes e cujo embri\u00e3o n\u00e3o era realmente uma rep\u00fablica, mas a quest\u00e3o dos impostos e a liga\u00e7\u00e3o com Portugal, que mandava e levava toda a riqueza material.<br \/>\nEssa Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana traz outra discuss\u00e3o: tem a quest\u00e3o dos impostos, mas principalmente a de transformar o Brasil em Rep\u00fablica. Naquele momento, toda a Am\u00e9rica Latina j\u00e1 era Rep\u00fablica, e o Brasil continuava preso a uma coroa europeia.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 pergunta&#8230; basicamente \u00e9 pegar uma mulher de 57 anos, fazendeira &#8211; comerciante, ela comerciava com planta\u00e7\u00e3o e agricultura. Tinha escravos, tinha terras, era rica e trabalhava. Era uma empreendedora, cuidava daquele neg\u00f3cio todo, daquela fam\u00edlia toda. Era a cabe\u00e7a da fam\u00edlia Alencar quando essa fam\u00edlia ainda estava estruturada ali por Exu, pelo Crato, n\u00e3o tinha se espalhado ainda. Acho B\u00e1rbara impressionante na for\u00e7a dela, uma for\u00e7a sertaneja, daquele ide\u00e1rio de mulher forte que luta no dia a dia. Naquela \u00e9poca, mesmo sendo rica, as pessoas trabalhavam duro para viver. N\u00e3o tinha eletricidade, \u00e1gua, carro &#8211; era cavalo, carro de boi, carregar \u00e1gua. Era outro tipo de vida.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o \u00e9 uma coisa que me impressiona muito. Minha fam\u00edlia \u00e9 sertaneja por um lado &#8211; do meu av\u00f4, pai da minha m\u00e3e, para tr\u00e1s, \u00e9 tudo sertanejo. Minha m\u00e3e nasceu em Limoeiro e veio para a capital pequena ainda. Essas quest\u00f5es do Nordeste, do sert\u00e3o, das mulheres que lutam e s\u00e3o fortes, me impressionam.<\/p>\n<p>B\u00e1rbara \u00e9 a primeira presa pol\u00edtica do Brasil &#8211; oficialmente, a primeira mulher presa por causa de pol\u00edtica. Comeu o p\u00e3o que o diabo amassou. Saiu de cavalo do Crato para Fortaleza, de Fortaleza para o Forte das Cinco Pontas, depois para a Casa da Torre em Salvador. Foram quatro anos de pris\u00e3o, depois voltou, fez o mesmo percurso. Uma mulher de 57 anos.<br \/>\nIsso afetou muito a sa\u00fade dela &#8211; a minha tamb\u00e9m ficaria acabada. E no meio dessa confraria de homens, uma mulher \u00e0 cabe\u00e7a de um movimento. N\u00e3o aqui no Recife, mas l\u00e1 no Crato. \u00c9 impressionante ela ter assumido essa postura naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Fale sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo. A dramaturgia \u00e9 sua, em parceria com Brisa Rodrigues, correto? Como foram essas escolhas dramat\u00fargicas e qual \u00e9 a proposta de encena\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: S\u00e3o tr\u00eas anos em cima dessa hist\u00f3ria. Sobre a dramaturgia, quando chamei Jos\u00e9 para trabalhar, ele me apresentou a Brisa. Ela estava em Petrolina, vinda do Rio de Janeiro, terminando o mestrado sobre vozes femininas na pol\u00edtica brasileira e na forma\u00e7\u00e3o do Brasil. Estava estudando Dilma Rousseff e B\u00e1rbara de Alencar &#8211; juntamos a fome com a vontade de comer. Comecei a adquirir livros rar\u00edssimos, consegui textos que nem sei como. Ficava passando para Brisa, trabalh\u00e1vamos online, l\u00edamos e convers\u00e1vamos muito. Brisa tem o dom da escrita, eu tenho o dom da palavra, e juntas temos o dom da intelig\u00eancia e de articular pensamentos. Passamos cerca de um ano escrevendo, a\u00ed dei uma parada porque comecei a ficar doente. Chegamos num ponto em que n\u00e3o dava mais para trabalhar s\u00f3 por amor e desejo &#8211; tem que ter dinheiro tamb\u00e9m. Come\u00e7amos a fazer projetos, editais de incentivo, conseguimos a Lei Paulo Gustavo, o Multicultural da prefeitura. Com a verba, juntei todo mundo e come\u00e7amos a trabalhar firme em junho. Cada dia \u00e9 uma coisa enlouquecedora.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Voc\u00eas ganharam um pr\u00eamio de dramaturgia com esse texto, o Pr\u00eamio Ariano Suassuna, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Ganhamos o Pr\u00eamio Ariano Suassuna com essa dramaturgia. \u00c9 claro que o texto vem sofrendo mudan\u00e7as por conta da encena\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito bom trabalhar com um diretor aberto para esse conv\u00edvio com a dramaturgia, que est\u00e1 disposto a retrabalhar o texto no espa\u00e7o de ensaios. Como sou uma das autoras, posso mexer no texto. Quando mexia, mandava para Brisa e convers\u00e1vamos. \u00c9 um processo muito bom, muito bonito, muito novo. Acho que trabalhei apenas duas vezes dessa maneira na minha vida, mas \u00e9 um processo excelente.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>&#8220;O espet\u00e1culo tem a palavra de B\u00e1rbara e a palavra de Augusta.<br \/>\nAugusta fala sobre B\u00e1rbara e sobre Augusta, sobre o movimento<br \/>\nteatral no Recife e sobre a falta de casas de espet\u00e1culo&#8230;&#8221;<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; <\/strong> <strong>De que forma voc\u00ea acredita que essa hist\u00f3ria de B\u00e1rbara, uma revolucion\u00e1ria que viveu entre 1760 e 1832, dialoga com o Brasil de hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Tudo. Veja: uma luta para se tornar Rep\u00fablica. Hoje somos uma Rep\u00fablica plena? N\u00e3o, ainda estamos em processo, como se estiv\u00e9ssemos engatinhando. Com todos os processos e estudos que a popula\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 passou e passa, ainda estamos discutindo isso seriamente. Rep\u00fablica pressup\u00f5e um espa\u00e7o para todos, de conviv\u00eancia e vida relativamente agrad\u00e1vel, sem tanta escravid\u00e3o. Mas o processo brasileiro fica cada dia mais dif\u00edcil. O pa\u00eds foi rachado ao meio, o que acho positivo em parte, porque a direita hoje se pronuncia plenamente, aos gritos. Nada se esconde mais, o jogo est\u00e1 muito aberto. Claro que ainda h\u00e1 coisas feitas na calada da noite, mas est\u00e1 muito expl\u00edcito.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Voc\u00ea explora tamb\u00e9m as contradi\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria B\u00e1rbara, como o fato dela ter sido uma escravagista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: O tempo inteiro. No in\u00edcio do espet\u00e1culo, ela \u00e9 anunciada como dona de terras, de escravizados, comerciante, vi\u00fava, mulher que nasceu sob os ausp\u00edcios de Santa B\u00e1rbara. Fica claro. N\u00e3o h\u00e1 defesa de que B\u00e1rbara n\u00e3o era isso. Durante o espet\u00e1culo falamos sobre essas contradi\u00e7\u00f5es. B\u00e1rbara \u00e9 uma figura do seu tempo &#8211; s\u00e9culo XVIII, in\u00edcio do XIX &#8211; quando a escravid\u00e3o era a base econ\u00f4mica do pa\u00eds. Mas ela tinha lutas revolucion\u00e1rias para aquela \u00e9poca: a luta por uma Rep\u00fablica. A funda\u00e7\u00e3o do Partido Liberal, em 1830, da qual B\u00e1rbara era membro, foi criado para libertar o Brasil de Portugal e criar a Rep\u00fablica. O partido foi criado para igualar a luta de todas as pessoas. Em princ\u00edpio, das elites econ\u00f4micas&#8230; \u00c9 raro ver uma revolu\u00e7\u00e3o que sai do seio do povo.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>&#8220;J\u00e1 que h\u00e1 uma prioridade em reformular a estrutura da cidade do Recife,<br \/>\nse h\u00e1 essa vontade, ent\u00e3o por que n\u00e3o se estende \u00e0s casas de espet\u00e1culo? Gerar pequenos espa\u00e7os de 100, 150 lugares&#8230;&#8221;<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; O espet\u00e1culo estreia dia 29 de novembro, dentro do festival. Depois disso, quais s\u00e3o os planos de circula\u00e7\u00e3o? Voc\u00eas j\u00e1 t\u00eam estrat\u00e9gias para levar a pe\u00e7a a outros espa\u00e7os?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: T\u00ednhamos planos, temos que fazer apresenta\u00e7\u00f5es por conta das exig\u00eancias do edital. Mas \u00e9 impressionante. N\u00e3o existe pauta nos teatros do Recife para mais de tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es. Tr\u00eas! N\u00e3o existe pauta. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o que tamb\u00e9m levamos para o espet\u00e1culo, porque ele tem a palavra de B\u00e1rbara e a palavra de Augusta. Augusta fala sobre B\u00e1rbara e sobre Augusta, sobre o movimento teatral no Recife, sobre a falta de casas de espet\u00e1culo. Pouqu\u00edssimas casas de espet\u00e1culo. Casas sendo fechadas, incendiadas, derrubadas pelas pr\u00f3prias prefeituras da Grande Recife. Barreto J\u00fanior no Cabo, Paulo Freire em Paulista &#8211; foram derrubados pela prefeitura sem justificativa. Se n\u00e3o fosse a popula\u00e7\u00e3o de artistas de Paulista nessa luta, Vin\u00edcius Coutinho muito envolvido nisso, n\u00e3o estaria agora na tentativa de reerguer aquela casa de espet\u00e1culo. Os teatros daqui: o Teatro da Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco vira cinema, deixa de ser teatro. O Valdemar de Oliveira \u00e9 incendiado &#8211; inc\u00eandio criminoso e depreda\u00e7\u00e3o que se arrasta h\u00e1 anos. O Teatro do Derby foi fechado pelo quartel, que na verdade \u00e9 o Estado, que na verdade \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia decidiu fechar porque n\u00e3o quer mais gente de teatro ali. Hoje \u00e9 dep\u00f3sito e local de reuni\u00f5es religiosas. Aqui estamos no Barreto J\u00fanior. O cuidado da gest\u00e3o \u00e9 muito bom &#8211; teatro limpo, palco cuidado, ar-condicionado, material de cena. Mas se voc\u00ea for na plateia, algumas cadeiras est\u00e3o quebradas. Cad\u00ea a prefeitura para consertar? Vai esperar que o teatro gere dinheiro e se autoconserte?<\/p>\n<p>Eu fui a primeira pessoa a ir para a pra\u00e7a p\u00fablica questionar o que aconteceria com o Teatro do Parque, que estava h\u00e1 dez anos fechado. Hoje est\u00e1 aberto, mas n\u00e3o consigo pauta nem para leitura de texto dentro de um camarim. N\u00e3o tem pauta. Porque tamb\u00e9m ainda tem as bandas e as orquestras dentro dos teatros, que tamb\u00e9m ocupam os espa\u00e7os do teatro. A\u00ed eu n\u00e3o estou fazendo uma an\u00e1lise se isso \u00e9 bom ou ruim &#8211; o que eu estou analisando \u00e9 a falta de espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Seria interessante tamb\u00e9m que as bandas e a orquestra sinf\u00f4nica tivessem o seu pr\u00f3prio espa\u00e7o para poder trabalhar e construir, e utilizar esses locais de manh\u00e3, de tarde e de noite, se quisessem, para que se possa estudar tamb\u00e9m. Mas pega-se tudo, enfia-se dentro de uma casa de espet\u00e1culo e essa casa de espet\u00e1culo tem que dar conta de tudo, inclusive pagar o conserto das fechaduras do banheiro, dos ganchos das portas, das cadeiras quebradas.<\/p>\n<p>Quer dizer, cad\u00ea a prefeitura? Cad\u00ea a prefeitura da cidade do Recife para trabalhar isso? J\u00e1 que h\u00e1 uma prioridade t\u00e3o interessante em reformular a estrutura da cidade e reformular o pr\u00f3prio centro hist\u00f3rico da cidade do Recife &#8211; onde eu resido, eu moro no centro hist\u00f3rico do Recife -, se h\u00e1 essa vontade, ent\u00e3o por que essa vontade tamb\u00e9m n\u00e3o se estende \u00e0s casas de espet\u00e1culo? Gerar pequenos espa\u00e7os de 100, 150 lugares nessa vasta cidade chamada Recife, cad\u00ea? \u00c9 isso.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Mas existem tamb\u00e9m os espa\u00e7os alternativos da cidade, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Os espa\u00e7os alternativos como Fiandeiros, Poste, C\u00eanicas? Cad\u00ea o incentivo? Recife n\u00e3o entrou no edital federal para incentivar espa\u00e7os alternativos da cidade (<em>ades\u00e3o ao Programa Nacional Aldir Blanc de A\u00e7\u00f5es Continuadas<\/em>). Por que n\u00e3o entrou? Os espa\u00e7os existentes s\u00e3o escolas de teatro. Sendo escolas, t\u00eam movimento pr\u00f3prio &#8211; aulas pr\u00e1ticas, te\u00f3ricas, utilizam quase o dia todo, apresentam conclus\u00f5es de cursos, oferecem oficinas. \u00c9 dif\u00edcil encontrar espa\u00e7o para quem est\u00e1 fora do processo. Esses espa\u00e7os n\u00e3o t\u00eam disponibilidade para a grande comunidade que trabalha em artes c\u00eanicas no Recife.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Agora vamos pegar outro caminho&#8230; Vamos falar sobre seus 150 anos de carreira, quer dizer 50&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: 150 anos de carreira mesmo! Voc\u00ea est\u00e1 cert\u00edssima. Diria uns 240, porque me sinto por a\u00ed. Me sinto uma Matusal\u00e9m nessa hist\u00f3ria toda. Cada dia fico mais velha &#8211; quando me olho no espelho, quando vou para cena testar minhas potencialidades: voz, corpo, gordura, cansa\u00e7o, dor nas costas, rouquid\u00e3o. Tenho uns 240 anos, sou jur\u00e1ssica assumidamente.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; O que foi aquela fagulha inicial que a empurrou para o teatro h\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas? E o que mant\u00e9m essa paix\u00e3o acesa at\u00e9 hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Tudo coincid\u00eancia. Mesmo sabendo &#8211; sou bem junguiana &#8211; que coincid\u00eancias n\u00e3o existem, s\u00f3 sincronicidades. O \u00fanico caminho que segui foi esse. Estudei, fiz toda forma\u00e7\u00e3o, entrei na universidade, consegui concluir Artes C\u00eanicas depois de anos de luta &#8211; entrava e sa\u00eda, fui jubilada, depois voltei. Tinha uma turma de amigos, um dia fui assistir um ensaio do Romildo Moreira e a atriz faltou. Ele disse: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o quer fazer?&#8221; Coisa bem amadora. Eu disse: &#8220;Vamos.&#8221; Ensaiei no lugar da pessoa que n\u00e3o chegou. Pronto, n\u00e3o parei mais.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Isso foi com que pe\u00e7a? Voc\u00ea se lembra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: <em>A Dama de Copas e o Rei de Cuba<\/em>, primeiro espet\u00e1culo que participei, com Romildo Moreira. Isso foi em 1976, se n\u00e3o me engano. Mas j\u00e1 tinha estreado no teatro como cantora em 1975, no show de Flaviola e o Bando do Sol, com Lula Cortez. Em homenagem a esse momento, canto a m\u00fasica que cantava no show: &#8220;Est\u00e1 tudo t\u00e3o vazio e mudo, a solid\u00e3o \u00e9 meu maior tempero, meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 pleno desespero&#8221;. Canto isso em <em>B\u00e1rbara<\/em>. Antes, em 1973, fiz a grande estreia via col\u00e9gio &#8211; Jos\u00e9 Francisco Filho era professor. Fizemos apresenta\u00e7\u00e3o no Teatro de Santa Isabel. Estreei no Santa Isabel, onde vou apresentar <em>B\u00e1rbara<\/em> agora, depois de 52 anos.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Ent\u00e3o j\u00e1 s\u00e3o cerca de 70 espet\u00e1culos nesse percurso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: J\u00e1 s\u00e3o mais de 70, fiz mais uns sete. \u00c9 intenso, muito intenso. N\u00e3o para. De diversas formas, linguagens, me metendo em v\u00e1rias coisas: cantando, falando, apoiando, lendo, fazendo leituras, apresentando espet\u00e1culos, participando de trabalhos de outras pessoas. Somando tudo, estamos perto de 80. Nunca parei. S\u00f3 parei em 2017, quando tive fal\u00eancia total da vida profissional.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Financeira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Financeira. Pedi ajuda \u00e0s pessoas e, gra\u00e7as a Deus, essa ajuda veio, me ergui. Estive muito doente tamb\u00e9m. Veio a pandemia. A pandemia, ao contr\u00e1rio do que aconteceu com muita gente, me deu um momento muito bom. Pude ficar s\u00f3 &#8211; sou uma pessoa s\u00f3, cultuo a solid\u00e3o. \u00c9 maravilhosa, assumida. N\u00e3o significa que vivo intocada, sem conversar ou trocar com as pessoas. Na pandemia, as pessoas foram obrigadas a viver como eu vivia. Algumas mais perto, outras mais longe, mas me deixaram em paz. Pararam de me cobrar porque estavam tendo vida parecida. Foi um momento de equil\u00edbrio, foi bom. Depois, come\u00e7aram a sair editais, fiz pequenos projetos, comecei a ter algum dinheiro para viver, pagar os boletos todos. De l\u00e1 para c\u00e1 a vida, tem sido interessante. Ali\u00e1s, a vida \u00e9 muito boa comigo. At\u00e9 nos piores momentos, sempre muito boa, me mostra coisas incr\u00edveis.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>&#8220;O maior desafio foi aceitar que fiquei no Recife porque quis. Me neguei a fazer o \u00eaxodo. Tive oportunidades de ir para S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, mas n\u00e3o via l\u00f3gica nisso. Achava poss\u00edvel construir coisas aqui. Ainda acho&#8221;<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Como voc\u00ea destacaria, desse percurso t\u00e3o longo, alguns dos principais desafios e aprendizados da sua carreira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: O maior desafio foi aceitar que fiquei no Recife porque quis. Me neguei a fazer o \u00eaxodo. Tive oportunidades de ir para S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, mas n\u00e3o via l\u00f3gica nisso. Achava poss\u00edvel construir coisas aqui. Ainda acho. A cidade, no sentido da profissionaliza\u00e7\u00e3o, tem coisas interessantes acontecendo. Em grupos, artistas espec\u00edficos, produ\u00e7\u00e3o. Algumas coisas est\u00e3o melhorando inegavelmente. Pena n\u00e3o ter espa\u00e7o para todo esse pessoal desenvolver suas artes &#8211; pouqu\u00edssimos espa\u00e7os. Mas hoje aceito plenamente essa escolha.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Fale sobre sua experi\u00eancia no cinema, o protagonismo em <em>Amores de Chumbo<\/em>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: A experi\u00eancia \u00e9 boa, interessante. Quando estava dentro \u00e9 que vi como tudo \u00e9 r\u00e1pido &#8211; em uma semana se faz tudo. Levamos tr\u00eas, quatro meses para montar uma pe\u00e7a de teatro e ainda trabalhamos em casa, na rua, decorando textos, repetindo na cabe\u00e7a. No cinema, em uma semana se faz tudo. O processo mais demorado \u00e9 conseguir recursos para produ\u00e7\u00e3o e depois o lan\u00e7amento. A p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, mas na edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se demora tanto, porque geralmente, quando se faz um roteiro, principalmente agora, tudo \u00e9 pensado na pr\u00f3pria filmagem. Enquanto se filma, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 pensando na edi\u00e7\u00e3o. Essa foi uma experi\u00eancia que tive na TV tamb\u00e9m. Foi interessante trabalhar com o Papinha &#8211; Rog\u00e9rio Gomes, que \u00e9 o papa da dire\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o brasileira. Papinha \u00e9 o nome de guerra dele, porque ele \u00e9 um papa naquilo que faz, um expert. O brasileiro tem aquela mania de diminutivos: neninha, menininha&#8230; ent\u00e3o \u00e9 Papinha. (risos) Eram quatro diretores &#8211; ele e os subdiretores que trabalhavam junto. Trabalhei com os quatro. Muito interessante quando era a vez do Rog\u00e9rio, porque ele j\u00e1 ia direto para uma cena, sabia exatamente o que queria, tudo enquadrado, j\u00e1 sabia onde ia cortar. Muito bom isso. A vida na televis\u00e3o \u00e9 enlouquecedora porque voc\u00ea fica \u00e0 merc\u00ea daquilo ali. Voc\u00ea n\u00e3o pode fazer nada, mas tamb\u00e9m pagam para voc\u00ea ficar \u00e0 merc\u00ea, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; O teatro hoje \u00e9 frequentemente visto como algo elitizado, quase um &#8220;luxo&#8221; &#8211; n\u00e3o para quem faz, que muitas vezes vive na precariedade, mas para o p\u00fablico, um certo p\u00fablico. Num mundo com tantas urg\u00eancias sociais, como voc\u00ea v\u00ea a import\u00e2ncia e o lugar dessa arte artesanal? O teatro n\u00e3o tem mais a mesma rever\u00eancia de outras \u00e9pocas e parece n\u00e3o alcan\u00e7ar multid\u00f5es? Como voc\u00ea enxerga isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ: <\/strong>Fica dif\u00edcil saber sobre essa quest\u00e3o da rever\u00eancia em outras \u00e9pocas, porque a gente sabe que quem escreve a hist\u00f3ria \u00e9 sempre um s\u00f3 lado. Ent\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil de analisar. O que eu compreendo \u00e9 que essa arte artesanal, como voc\u00ea fala, tem muitos s\u00e9culos de vida e n\u00e3o morreu &#8211; ela continua. E acredito que continuar\u00e1. Quem consegue, como plateia, entrar numa sala de espet\u00e1culo, se essa pessoa tiver consci\u00eancia ou estiver pronta para adquirir a consci\u00eancia de que aquele \u00e9 um espa\u00e7o no tempo, uma bolha onde ela entra e vive uma experi\u00eancia diferente &#8211; que n\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia da confus\u00e3o do mundo, mesmo que o tema seja sobre os horrores do mundo -, quem tem a felicidade de experimentar isso n\u00e3o deixa de ir ao teatro nunca. E quem est\u00e1 descobrindo vai continuar querendo descobrir. Agora, aqueles que n\u00e3o conseguem desligar o celular no momento da apresenta\u00e7\u00e3o&#8230; vamos ver o que vai acontecer com eles. N\u00e3o tenho a menor ideia. \u00c9 muito estranho. Quando estou no palco e vejo celulares ligados na plateia, \u00e9 engra\u00e7ado porque parecem discos voadores, navezinhas pequenas. Est\u00e1 tudo escuro, a luz reflete na pessoa &#8211; voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea o celular, s\u00f3 o reflexo da luz, e ficam aquelas bolhas sentadas na plateia. Quando estou na plateia \u00e9 diferente &#8211; vejo a luz do celular voltada para minha cara, desvia minha aten\u00e7\u00e3o. Me incomoda muito mais ver celulares ligados quando estou na plateia do que no palco. Mas \u00e9 a \u00e9poca que vivemos. Acredito que o espa\u00e7o do teatro \u00e9 esse mesmo, um espa\u00e7o reduzido. Olha que assisti \u00e0 Fernanda Montenegro em <em>Fedra<\/em> (1986) com 1.800 pessoas no Teatro Guararapes &#8211; n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o reduzido assim.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Fernanda Montenegro fez uma leitura memor\u00e1vel no Audit\u00f3rio Ibirapuera em agosto do ano passado, de Simone de Beauvoir, transmitida por tel\u00f5es para 15 mil pessoas no parque. Foi algo incr\u00edvel.<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Incr\u00edvel mesmo.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>&#8220;Me sinto muito feliz. \u00c9 um reconhecimento da minha cidade, pelos meus 52 anos de trabalho ininterrupto. Mas gostaria que tivesse havido uma cerim\u00f4nia de abertura oficial do festival, seguindo sua tradi\u00e7\u00e3o&#8221;<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211; Como voc\u00ea recebe essa homenagem do 24\u00ba <em>Festival Recife do Teatro Nacional<\/em>? \u00c9 um reconhecimento importante da cidade, especialmente por um festival que retomou h\u00e1 tr\u00eas anos, mas tem uma hist\u00f3ria significativa. Voc\u00ea tamb\u00e9m foi homenageada em 2015 pelo <em>Festival Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos<\/em>, quando apresentou quatro trabalhos. O que representa essa homenagem do FRTN para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Claro que me sinto muito feliz. \u00c9 um reconhecimento oficial da minha cidade, que reconhece minha hist\u00f3ria, meus 52 anos de trabalho ininterrupto. Isso \u00e9 maravilhoso, me alimenta. Gostaria que tivesse havido uma cerim\u00f4nia de abertura oficial do festival, seguindo sua tradi\u00e7\u00e3o, onde as pessoas sobem, falam, com cortina aberta ou fechada, com o espet\u00e1culo montado. Gostaria de ter sido reconhecida assim tamb\u00e9m, ter tido esse momento na abertura. Justamente quando chegou minha vez, isso n\u00e3o aconteceu. Sinto falta disso, acho que faltou di\u00e1logo comigo. N\u00e3o sei a posi\u00e7\u00e3o de Auric\u00e9ia Fraga, que \u00e9 a outra atriz homenageada &#8211; n\u00e3o conversei com ela sobre isso. Fizeram uma proposta de ter alguma coisa antes da minha apresenta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o podia ser porque preciso estar muito concentrada. \u00c9 um espet\u00e1culo que exige muito, mexe com coisas complicadas, atuais, fortes. \u00c9 imposs\u00edvel parar para fazer algo e depois come\u00e7ar o espet\u00e1culo. Tenho que estar imersa, quase amarrada em cena quando a cortina abre. Depois do espet\u00e1culo tamb\u00e9m \u00e9 imposs\u00edvel &#8211; fico exausta, n\u00e3o d\u00e1 tempo de mudar de roupa. Sinto falta dessa materializa\u00e7\u00e3o da homenagem que aconteceu nos outros anos &#8211; n\u00e3o s\u00f3 a homenagem na m\u00eddia, mas tamb\u00e9m onde a cidade referencia isso. N\u00e3o vejo como coisa de ego, \u00e9 absolutamente normal. Faltou di\u00e1logo para decidir isso. Mas estou absolutamente feliz com esse momento. \u00c9 muito especial, n\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa que consegue isso.<\/p>\n<p><strong>SATISFEITA, YOLANDA? &#8211;<\/strong> <strong>H\u00e1 algo mais que gostaria de destacar sobre o espet\u00e1culo ou sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AUGUSTA FERRAZ<\/strong>: Quero falar sobre o t\u00edtulo <strong><em>Sobre os Ombros de B\u00e1rbara<\/em><\/strong>. A imagem \u00e9 como um totem, onde um est\u00e1 em cima do outro. Eu, Augusta, estou sobre os ombros de B\u00e1rbara, como estou sobre os ombros da minha m\u00e3e, dessas pessoas que me antecederam. E sei que algumas pessoas que trabalham com essa arte, com esse of\u00edcio, estar\u00e3o sobre os meus ombros tamb\u00e9m. Me reconhe\u00e7o nesse espa\u00e7o de troca, de ter uma hist\u00f3ria, de ser um ambiente para pesquisa, de ser seguida. Percebo esse lugar tamb\u00e9m na cidade &#8211; essa homenagem que me fazem todos os dias nas trocas com meus colegas, t\u00e9cnicos e artistas. \u00c9 isso. Estar sobre os ombros da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. \u00c9 lindo isso. Gosto muito de hist\u00f3ria &#8211; do mundo, do Brasil, das pessoas, dos bichos, das m\u00e1quinas voadoras. \u00c9 isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Augusta Ferraz esculpe o tempo que habita. Sagaz, ir\u00f4nica, combativa e corajosa, ela carrega em si um humor peculiar e inteligente que tempera cinco d\u00e9cadas de resist\u00eancia cultural. 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