{"id":27422,"date":"2025-11-21T12:14:54","date_gmt":"2025-11-21T15:14:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27422"},"modified":"2025-11-22T00:04:24","modified_gmt":"2025-11-22T03:04:24","slug":"auriceia-fraga-faz-50-anos-de-teatro-e-ganha-homenagem-de-festival-recifense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/auriceia-fraga-faz-50-anos-de-teatro-e-ganha-homenagem-de-festival-recifense\/","title":{"rendered":"Auric\u00e9ia Fraga faz 50 anos <\/br> de teatro e ganha homenagem <\/br> de festival recifense"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27399\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-1-scaled-e1763129395446.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27399\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27399\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-1-scaled-e1763129395446.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"797\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-1-scaled-e1763129395446.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-1-scaled-e1763129395446-226x300.jpg 226w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-1-scaled-e1763129395446-300x399.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27399\" class=\"wp-caption-text\">Auric\u00e9ia Fraga narra suas pr\u00f3prias hist\u00f3ria no novo trabalho, <strong><em>N\u00e3o Se Conta o Tempo da Paix\u00e3o<\/em><\/strong><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27428\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-5-scaled-e1763735336843.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27428\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-27428 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-5-scaled-e1763735336843.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"699\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-5-scaled-e1763735336843.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-5-scaled-e1763735336843-258x300.jpg 258w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/foto-5-scaled-e1763735336843-300x350.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27428\" class=\"wp-caption-text\">A atriz com o diretor Rodrigo Dourado e a equipe do projeto<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27426\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-07.15.20-e1763735129142.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27426\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27426\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-07.15.20-e1763735129142.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"598\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27426\" class=\"wp-caption-text\">Nos tempos do Vivencial. Foto: Arquivo<\/p><\/div>\n<p>No dia 12 de mar\u00e7o de 2026, quando Olinda e Recife completam mais um anivers\u00e1rio, a atriz pernambucana Maria Auric\u00e9ia Vasconcelos Fraga celebrar\u00e1 seus 80 anos de vida. Quase simultaneamente, ela marca meio s\u00e9culo de uma carreira teatral que come\u00e7ou &#8220;por acaso&#8221; e se transformou em paix\u00e3o duradoura. Hoje, ela \u00e9 uma das homenageadas (a outra \u00e9 Augusta Ferraz) do <strong><em>24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional<\/em><\/strong>, que ocorre de 20 a 30 de novembro em diversos espa\u00e7os da capital pernambucana.<\/p>\n<p>A honraria chega em um momento especial. Ap\u00f3s uma d\u00e9cada dedicada principalmente ao audiovisual, Auric\u00e9ia retorna aos palcos com <strong><em>N\u00e3o Se Conta o Tempo da Paix\u00e3o<\/em><\/strong>, espet\u00e1culo sob dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo Dourado que apresenta nesta sexta-feira sua abertura de processo. \u00c9 um retorno \u00e0s origens para uma artista que nunca imaginou seguir a carreira art\u00edstica.<\/p>\n<p><strong>Um Come\u00e7o Inesperado<\/strong> &#8211; Em 1972, rec\u00e9m-chegada do Rio de Janeiro, Auric\u00e9ia soube de um curso na Escola de Belas Artes e decidiu experimentar, apenas para ocupar o tempo enquanto buscava uma coloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. &#8220;Eu n\u00e3o pretendia ser atriz, nunca imaginei ser atriz, mas adorei a conviv\u00eancia com as pessoas da classe&#8221;, relembra. O professor Isaac Gondim Filho logo identificou seu talento, considerando-a &#8220;um sucesso do curso&#8221; j\u00e1 na primeira prova p\u00fablica.<\/p>\n<p>O teatro profissional veio em 1976, quando foi convidada para integrar <strong><em>A Li\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>, de Ionesco, dirigida por Antonio Cadengue. Era o in\u00edcio de uma trajet\u00f3ria que a levaria pelos principais palcos do Recife e por grupos fundamentais da cena teatral pernambucana.<\/p>\n<p><strong>O Vivencial e a Transgress\u00e3o Necess\u00e1ria<\/strong> &#8211; Foi atrav\u00e9s de Guilherme Coelho, que assistiu a <strong><em>A Li\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>e a convidou para integrar o Vivencial, que Auric\u00e9ia encontrou sua verdadeira escola teatral. O grupo, conhecido por sua irrever\u00eancia, pautas libert\u00e1rias e cr\u00edtica social afiada, ofereceu exatamente o que ela precisava: &#8220;Eu vinha de uma fam\u00edlia, de uma cria\u00e7\u00e3o muito repressora. Eu estava com vontade de me soltar.&#8221;<\/p>\n<p>No Vivencial, onde permaneceu por quatro anos e quatro espet\u00e1culos, Auric\u00e9ia viveu alguns dos momentos mais marcantes de sua forma\u00e7\u00e3o. Guilherme Coelho respeitava suas limita\u00e7\u00f5es &#8211; ela deixava claro que &#8220;nua n\u00e3o ficava&#8221; &#8211; mas a conduzia gradualmente a superar barreiras, tanto art\u00edsticas quanto pessoais. Era ali que se discutia pol\u00edtica, quest\u00f5es de g\u00eanero e se experimentava com a linguagem c\u00eanica de forma inovadora.<\/p>\n<p>Os anos de forma\u00e7\u00e3o de Auric\u00e9ia coincidiram com o per\u00edodo mais duro da ditadura militar. Em <strong><em>Sobrados e Mocambos<\/em>, <\/strong>de Hermilo Borba Filho, dirigido por Guilherme Coelho, ela experimentou diretamente os efeitos do autoritarismo. Quando uma cena foi cortada pela censura, Guilherme encontrou uma solu\u00e7\u00e3o criativa: &#8220;A gente faz de m\u00edmica.&#8221; Nos dias em que n\u00e3o havia censor presente, o elenco era avisado: &#8220;N\u00e3o tem censura hoje n\u00e3o. A\u00ed a gente solta o texto todinho.&#8221;<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia marcou profundamente a atriz, que admirava a capacidade do diretor de &#8220;driblar aquela viol\u00eancia&#8221; atrav\u00e9s da arte.<\/p>\n<p><strong>Desafios e Transforma\u00e7\u00f5es<\/strong> &#8211; Ao longo de quase cinco d\u00e9cadas, Auric\u00e9ia enfrentou desafios que testaram seus limites como int\u00e9rprete. Em <strong><em>Esta Noite se Improvisa<\/em><\/strong>, de Pirandello, precisou provar que merecia manter o papel de protagonista quando o grupo questionou sua aus\u00eancia durante os ensaios devido ao acidente do marido. Voltou &#8220;afiada&#8221; e conquistou o pr\u00eamio de melhor atriz.<\/p>\n<p>Mas foi em <strong>O<em><strong> Mist\u00e9rio das Figuras de Barro<\/strong><\/em><\/strong>, de Osman Lins, com dire\u00e7\u00e3o na \u00e9poca do jovem&nbsp; Rodrigo Dourado que encontrou seu maior desafio: interpretar sozinha dois homens e uma mulher. A experi\u00eancia foi t\u00e3o intensa que at\u00e9 seu cachorro estranhou quando ela experimentava a voz do personagem Claraval.<\/p>\n<p><strong>Do Palco \u00e0s Telas &#8211; <\/strong>A partir dos anos 2000, Auric\u00e9ia expandiu sua atua\u00e7\u00e3o para o cinema e a televis\u00e3o, participando de produ\u00e7\u00f5es como <strong><em>O Baile Perfumado<\/em><\/strong> (1996), <strong><em>\u00c1rido Movie<\/em><\/strong> (2003), <em><strong>Tatuagem<\/strong><\/em> (2013) e mais recentemente <em><strong>Agreste<\/strong><\/em> (2024) e <strong><em>Chabadabada<\/em><\/strong>&nbsp;(2024). Apesar do sucesso nas telas, sua paix\u00e3o permanece no teatro: &#8220;Quando eu estou no cinema eu me jogo tamb\u00e9m, mas o meu chamego \u00e9 o teatro mesmo.&#8221;<\/p>\n<p><strong><em>N\u00e3o Se Conta o Tempo da Paix\u00e3o<\/em><\/strong> nasceu durante a pandemia, quando Auric\u00e9ia come\u00e7ou a escrever mem\u00f3rias de sua inf\u00e2ncia no Engenho \u00c1guas Finas. O que eram &#8220;historinhas pequenininhas&#8221; se transformou, com o incentivo de Quiercles Santana e sua companheira Bruna, em material teatral. Para se sentir mais confort\u00e1vel com a exposi\u00e7\u00e3o, criou a narradora que conta a hist\u00f3ria de Maria &#8211; seu primeiro nome.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo retrata uma \u00e9poca em que &#8220;o pai decidia comida, decidia moda, decidia com quem a gente se relacionava, onde estudava&#8221;, mas tamb\u00e9m celebra os sonhos e a capacidade de supera\u00e7\u00e3o. \u00c9 um retorno n\u00e3o apenas aos palcos, mas \u00e0s suas ra\u00edzes mais profundas.<\/p>\n<p><strong>Reconhecimento e Futuro<\/strong> &#8211; A homenagem do <strong><em>Festival Recife do Teatro Nacional<\/em><\/strong> representa o reconhecimento de uma trajet\u00f3ria singular. &#8220;Foi a maior surpresa que eu tive&#8221;, confessa Auric\u00e9ia, que h\u00e1 dez anos n\u00e3o subia aos palcos. &#8220;Voc\u00ea ter o reconhecimento do seu trabalho \u00e9 uma coisa muito importante, muito boa.&#8221;<\/p>\n<p>Aos 79 anos, com a energia de quem ainda tem muito a oferecer, Auric\u00e9ia Fraga prova que a paix\u00e3o pelo teatro n\u00e3o envelhece. Sua carreira \u00e9 um testemunho da capacidade transformadora da arte e da import\u00e2ncia de se manter fiel aos pr\u00f3prios sonhos, mesmo quando eles chegam por acaso e se revelam o destino de uma vida inteira.<\/p>\n<h1>Entrevista: Auric\u00e9ia Fraga<\/h1>\n<div id=\"attachment_27425\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-07.17.42-e1763735218887.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27425\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27425\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-07.17.42-e1763735218887.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"598\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27425\" class=\"wp-caption-text\">A alegria \u00e9 cultivada em todos os momentos da vida da artista<\/p><\/div>\n<p><strong>Gostaria que voc\u00ea falasse sobre a homenagem do 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional. O que significa para voc\u00ea? Como \u00e9 que voc\u00ea recebe, em seu cora\u00e7\u00e3o, essa celebra\u00e7\u00e3o feita pela sua cidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Auric\u00e9ia<\/strong>: Olha, foi a maior surpresa que eu tive, porque inclusive eu j\u00e1 estou h\u00e1 bastante tempo sem fazer espet\u00e1culo, fazendo cinema, filme, s\u00e9rie, essas coisas assim. Alguma mat\u00e9ria publicit\u00e1ria, mas o palco h\u00e1 10 anos que eu fiz um espet\u00e1culo. E, de repente, no ano que eu resolvi voltar a fazer, arriscar a fazer, aconteceu isso. Ser homenageada, meu Deus, \u00e9 demais, porque&#8230; 50 anos, quase, n\u00e9? De que eu t\u00f4 atuando. E a gente n\u00e3o tem como n\u00e3o ficar feliz, surpresa. E, assim, acho que \u00e9 um reconhecimento. Eu fico sem gra\u00e7a, at\u00e9, para&#8230; Oh, Deus do c\u00e9u! Parece, assim, uma coisa totalmente inesperada, mas eu fico muito feliz, muito feliz. E isso \u00e9, assim, voc\u00ea ter o reconhecimento do seu trabalho, \u00e9 uma coisa muito importante, muito boa. Eu acho que n\u00e3o podia estar mais feliz.<\/p>\n<p><strong>Qual sua motiva\u00e7\u00e3o para iniciar essa trajet\u00f3ria no teatro, na d\u00e9cada de 70, e o que \u00e9 que continua a alimentar essa paix\u00e3o pelo teatro, pela arte da representa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Auric\u00e9ia<\/strong>: Come\u00e7ar no teatro foi uma coisa meio por acaso. Eu tinha chegado do Rio de Janeiro, a\u00ed soube que estava tendo esse curso na Escola Belas Artes, a\u00ed eu disse, por enquanto n\u00e3o estou trabalhando, vou experimentar. Fui e gostei, mas eu n\u00e3o pretendia ser atriz, nunca imaginei ser atriz, mas adorei a conviv\u00eancia com as pessoas da classe, adorei, come\u00e7ou a abrir minha cabe\u00e7a s\u00f3 a conviv\u00eancia com eles, a experi\u00eancia com tamb\u00e9m professores \u00f3timos.<\/p>\n<p>A\u00ed, aconteceu que no meio do ano tinha uma prova p\u00fablica e no final do ano tinha outra. No meio do ano eu fiz a prova p\u00fablica e Isaac Gondim Filho, que era meu professor e uma pessoa muito reconhecida, ele considerou que eu tinha sido um sucesso no curso. Me surpreendi. Isso foi em 1972, na Escola Belas Artes. A\u00ed eu toquei a minha vida, fui trabalhar. Fui trabalhar na Fundarpe. Sou a primeira funcion\u00e1ria da Fundarpe.<\/p>\n<p>Em 1976, Z\u00e9 Mario Austrag\u00e9silo estava querendo montar <em>A Li\u00e7\u00e3o<\/em> de Ionesco. Ele j\u00e1 tinha tr\u00eas personagens. A\u00ed, Ros\u00e1rio (Austrag\u00e9silo), que tinha feito o curso comigo, me chamou. (Antonio) Cadengue dirigia. Pensei duas vezes, aceitei. E tive a sorte de pegar um assistente de dire\u00e7\u00e3o como Beto Diniz, n\u00e9? Maravilhoso. A\u00ed eu me joguei.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a influ\u00eancia do Grupo Vivencial, porque ele tinha uma linguagem diferente dos outros grupos que atuavam aqui, uma linguagem mais transgressora. Como era isso? Como era essa hist\u00f3ria do Vivencial na sua vida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Auric\u00e9ia<\/strong>: Quando eu frequentei o Vivencial era meu amor, era t\u00e3o grande, porque eu gostava que eles reuniam o elenco, conversava sobre o texto. Sempre eu achava linda aquela coisa de transgredir, de n\u00e3o fazer&#8230; Eu precisava de muita transgress\u00e3o, porque eu vinha de uma fam\u00edlia, de uma cria\u00e7\u00e3o muito repressora. A\u00ed, quando eu cheguei do Rio para c\u00e1&#8230; Eu passei dois anos l\u00e1 na casa da irm\u00e3 minha, que era muito conservadora tamb\u00e9m, ent\u00e3o eu tava com a vontade de me soltar, sabe?<\/p>\n<p>Guilherme (Coelho) \u00e9 uma maravilha. E ele sabia que eu tinha muita dificuldade, que era muito t\u00edmida. Quando falava que a Suzana (Costa) ficava de vedete, a outra ficava de vedete, eu ficava bem \u00e0 vontade de dizer:&nbsp; nua n\u00e3o fico. Guilherme me levava, com muito jeito, respeitando muito as minhas limita\u00e7\u00f5es, minhas dificuldades, mas, ao mesmo tempo, com um jeitinho, ele ia conseguindo que eu avan\u00e7asse um pouco em v\u00e1rias quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 repress\u00e3o, porque <em>Sobrados e Mocambos<\/em>&nbsp;teve tamb\u00e9m uma coisa bem repressora, n\u00e9? Como era? O que voc\u00ea percebia desse momento hist\u00f3rico no Brasil, dessa repress\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Auric\u00e9ia<\/strong>: Eu vi aquilo tudo, mas eu ficava boba como eles lidavam, conseguiam falar as coisas deles, dizer. Ou usar daquela forma, mesmo com a repress\u00e3o. Porque n\u00f3s, naquela \u00e9poca, tinha censura que ficava com um texto e outro examinando a encena\u00e7\u00e3o no ensaio geral. Para cortar o texto ou propriamente a encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00ed teve uma cena, que eram v\u00e1rias cenas de <strong><em>Sobrado<\/em><\/strong>, que eram os enrabados. A censura, quando viu, cortou. A\u00ed a gente veio para Guilherme. &#8220;P\u00f4, a gente vai cortar esse peda\u00e7o?!&#8221;. Guilherme disse, n\u00e3o, n\u00e3o, a gente faz de m\u00edmica.<\/p>\n<p><strong>E como era essa cena? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Auric\u00e9ia<\/strong>: Era muito palavr\u00e3o, era muito em cima da coisa do poder, sabe? Da viol\u00eancia do poder.<\/p>\n<p>Quando a censura n\u00e3o tiver, solta o texto todo, dizia Guilherme. E a gente fazia isso. Ficava algu\u00e9m da portaria para avisar. Ah, n\u00e3o tem censura hoje n\u00e3o, a\u00ed a gente solta o texto todinho. E eu achava aquilo uma del\u00edcia, sabe? Que ele arrumava formas de, sabe, de driblar aquela viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Dessa sua carreira longeva, de quase 50 anos, quais foram os principais desafios e aprendizados que voc\u00ea guarda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Auric\u00e9ia<\/strong>: Foram v\u00e1rios. Eu gostava dos desafios, apesar de ser muito insegura. Quando eu fiz <strong><em>Esta Noite se Improvisa<\/em><\/strong>, que eu fazia a Mommina, a protagonista, o grupo come\u00e7ou a cobrar, achando que eu devia n\u00e3o ficar nesse personagem porque eu estava muito ausente (cuidando do marido, que tinha sofrido um a acidente de carro) e o ensaio tinha que correr. A\u00ed eu cheguei e conversei com eles e com Cadengue, s\u00f3 para dizer, &#8220;voc\u00ea pode me tirar, se eu n\u00e3o der conta. Eu volto daqui a tantos dias, quando voltar, se eu n\u00e3o tiver com as marcas, acompanhar as marcas e o texto, a\u00ed voc\u00ea pode dar o meu personagem&#8221;. A\u00ed quando eu voltei, eu cheguei afiada, a\u00ed n\u00e3o tiveram moral para tirar a personagem. E eu tamb\u00e9m ganhei o pr\u00eamio, melhor atriz.<\/p>\n<p>Mas de todos eu acho que foi <strong><em>O Mist\u00e9rio das Figuras de Barro<\/em><\/strong>. Minha filha, quando eu vi o texto, j\u00e1, o pessoal chegava dizendo assim, olha, ningu\u00e9m quer fazer essa pe\u00e7a, d\u00e1 para Auric\u00e9ia. Quando eu vi qual era o desafio&#8230; a sugest\u00e3o de Osman Lins era que fosse feito por uma mulher, que fizesse os dois homens e a mulher, que arrumasse um indument\u00e1rio que n\u00e3o identificasse bem. A\u00ed eu, tipo, vou fazer dois homens e uma mulher. Fiz&#8230;<\/p>\n<p><strong>Me conte sobre o espet\u00e1culo <em>N\u00e3o Se Conta o Tempo da Paix\u00e3o<\/em>. Por que voc\u00ea decidiu voltar ao teatro com esse trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Auric\u00e9ia:<\/strong> Na pandemia eu comecei a escrever, assim, vindo lembran\u00e7as do Engenho, da minha vida no Engenho, me criei do Engenho at\u00e9 a adolesc\u00eancia. Engenho \u00c1guas Finas. Eu estava fazendo essas historinhas, historinhas pequenininhas, a\u00ed eu mandei para algumas pessoas, a\u00ed algumas diziam, manda editar.<\/p>\n<p>Eu estava pensando em montar <strong><em>Senhor Diretor<\/em><\/strong> de L\u00edgia Fagundes Teles. Eu estava h\u00e1 dez anos tentando montar a L\u00edgia. A\u00ed chegou aqui, veio o Quiercles Santana com a companheira dele, a\u00ed eu com esse meu jeito, falando, contando as coisas, a\u00ed ele disse &#8220;mas deve ser caro esse direito autoral dela. A\u00ed Bruna disse, &#8220;e porque tu n\u00e3o faz, tu tem uma vida t\u00e3o rica&#8230;&#8221; Ela achou que minha vida tinha muita coisa dessas, que dava para fazer uma pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Para eu n\u00e3o ficar muito desconfort\u00e1vel, vou botar o nome da narradora, a que vai contar a hist\u00f3ria de Maria. Porque, na realidade, meu nome \u00e9 Maria tamb\u00e9m. Maria Auric\u00e9ia. Ent\u00e3o ela vai ser Maria. E Maria conta a hist\u00f3ria da vida dela.<\/p>\n<p><strong>Depois da abertura do processo do espet\u00e1culo <em>N\u00e3o Se Conta o Tempo da Paix\u00e3o<\/em>, quais s\u00e3o os seus planos? Tem j\u00e1 alguns outros projetos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Auric\u00e9ia<\/strong>: A gente est\u00e1 dando o nome como se fosse um ensaio aberto. Porque n\u00e3o est\u00e1 pronto. N\u00e3o est\u00e1 completo. Mas ficaria muito extenso se botasse tudo agora. Muito extenso. A\u00ed ningu\u00e9m aguentava n\u00e3o. Mon\u00f3logo extenso ningu\u00e9m aguenta. A\u00ed eu disse, n\u00e3o, vamos partir esse neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Mas eu pretendo, se Deus quiser, tendo sa\u00fade, eu pretendo continuar. Ou com esse texto ou com outro. Quem sabe <em><strong>A Li\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em>&#8221; de L\u00edgia, que eu amo de paix\u00e3o o texto. Que o Guilherme adorou e queria dirigir, mas ele foi para Bras\u00edlia.&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_3580\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/um_rito_de_maes_rosas_e_sangue_atriz_auriceia_fraga_credito_tuca_siqueira.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3580\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3580\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/um_rito_de_maes_rosas_e_sangue_atriz_auriceia_fraga_credito_tuca_siqueira.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"402\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/um_rito_de_maes_rosas_e_sangue_atriz_auriceia_fraga_credito_tuca_siqueira.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/um_rito_de_maes_rosas_e_sangue_atriz_auriceia_fraga_credito_tuca_siqueira-300x201.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3580\" class=\"wp-caption-text\">Auric\u00e9ia Fraga em Um rito de m\u00e3es, rosas e sangue. Foto: Tuca Siqueira<\/p><\/div>\n<blockquote><p><strong>AURIC\u00c9IA FRAGA &#8211; Principais Trabalhos<\/strong><br \/>\nDRT\/PE: 602<\/p>\n<p><strong>TEATRO &#8211; Destaques da Carreira (1976-2016)<\/strong><br \/>\nD\u00e9cada de 1970 &#8211; Forma\u00e7\u00e3o e Vivencial:<\/p>\n<p><strong>A Li\u00e7\u00e3o<\/strong> (Ionesco, 1976) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Antonio Cadengue<br \/>\n<strong>Sobrados e Mocambos<\/strong> (Hermilo Borba Filho, 1977) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Guilherme Coelho<br \/>\n<strong>Esta Noite se Improvisa<\/strong> (Pirandello, 1977) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Antonio Cadengue<br \/>\nPr\u00eamio Melhor Atriz<br \/>\n<strong>Vi\u00fava, por\u00e9m Honesta<\/strong> (Nelson Rodrigues, 1977) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Antonio Cadengue<br \/>\nPr\u00eamio Melhor Atriz<br \/>\n<strong>Rep\u00fablicas Independentes, Darling<\/strong> (1978) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Guilherme Coelho<br \/>\n<strong>Not\u00edcias Tropicais<\/strong> (1980) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Guilherme Coelho<\/p>\n<p>Trabalhos Posteriores de Destaque:<\/p>\n<p><strong>O Mist\u00e9rio das Figuras de Barro<\/strong> (Osman Lins, 2003-2004) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Rodrigo Dourado<br \/>\n<strong>Playdog<\/strong> (2009) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Rafael Barreiros, Rodrigo Cunha e Alisson Castro<br \/>\nPr\u00eamio Melhor Atriz &#8211; Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos 2010<br \/>\n<strong>Um Rito de M\u00e3es Rosas e Sangue<\/strong> (Federico Garcia Lorca, 2010) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Lira&nbsp; Circula\u00e7\u00e3o Nacional<\/p>\n<p><strong>CINEMA E TELEVIS\u00c3O &#8211; Principais Produ\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p><strong>Longas-metragens:<\/strong><br \/>\n<strong>O Baile Perfumado<\/strong> (1996) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: L\u00edrio Ferreira e Paulo Caldas<br \/>\n<strong>\u00c1rido Movie<\/strong> (2003) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: L\u00edrio Ferreira<br \/>\n<strong>Tatuagem<\/strong> (2013) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Hilton Lacerda<br \/>\n<strong>O Rio<\/strong> (2025, em montagem) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Wislam Esmeraldo e Hilton Lacerda<\/p>\n<p><strong>S\u00e9ries e TV:<\/strong><br \/>\n<strong>Lama dos Dias<\/strong> (2018) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Hilton Lacerda<br \/>\n<strong>Ch\u00e3o de Estrelas<\/strong> (2021) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Hilton Lacerda<br \/>\n<strong>Agreste<\/strong> (2024) &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Alice Gouveia &#8211; Canal Cine Brasil<br \/>\n<strong>Chabadabada<\/strong> (2024) &#8211; Canal Brasil<\/p>\n<p><strong>RETORNO AOS PALCOS (2025)<\/strong><br \/>\n<strong>N\u00e3o Se Conta o Tempo da Paix\u00e3o<\/strong> &#8211; Dire\u00e7\u00e3o: Rodrigo Dourado<br \/>\nAbertura de processo &#8211; 24\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional (novembro de 2025)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 12 de mar\u00e7o de 2026, quando Olinda e Recife completam mais um anivers\u00e1rio, a atriz pernambucana Maria Auric\u00e9ia Vasconcelos Fraga celebrar\u00e1 seus 80 anos de vida. Quase simultaneamente, ela marca meio s\u00e9culo de uma carreira teatral que come\u00e7ou &#8220;por acaso&#8221; e se transformou em paix\u00e3o duradoura. Hoje, ela \u00e9 uma das homenageadas (a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[8868,4249],"tags":[8505,141,8876],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27422"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27422"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27422\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27440,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27422\/revisions\/27440"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}