{"id":27207,"date":"2025-10-19T15:28:53","date_gmt":"2025-10-19T18:28:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27207"},"modified":"2025-10-19T15:30:58","modified_gmt":"2025-10-19T18:30:58","slug":"feteag-confirma-caruaru-como-epicentro-de-descentralizacao-cultural-pecas-dos-primeiros-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/feteag-confirma-caruaru-como-epicentro-de-descentralizacao-cultural-pecas-dos-primeiros-dias\/","title":{"rendered":"Feteag confirma Caruaru como<\/br> epicentro de descentraliza\u00e7\u00e3o cultural <\/br> Pe\u00e7as dos primeiros dias"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27224\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-141-scaled-e1760880349939.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27224\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27224\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-141-scaled-e1760880349939.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27224\" class=\"wp-caption-text\">Entrado do Teatro Lycio Neves no dia da apresenta\u00e7\u00e3o do Magiluth. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27225\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/NEVA-02-scaled-e1760880420702.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27225\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27225\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/NEVA-02-scaled-e1760880420702.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27225\" class=\"wp-caption-text\">Plateia do Teatro Lycio Neves no dia da apresenta\u00e7\u00e3o de <strong><em>Neva<\/em><\/strong>. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27232\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FABULAS-DE-NOSSAS-FURIAS-02-scaled-e1760891784561.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27232\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27232\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FABULAS-DE-NOSSAS-FURIAS-02-scaled-e1760891784561.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27232\" class=\"wp-caption-text\">Fabio Pascoal, diretor e curador do <strong>Feteag<\/strong>. Foto: Jorge Farias \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A 34\u00aa edi\u00e7\u00e3o do <em><strong>Festival de Teatro do Agreste<\/strong><\/em> (<strong><em>Feteag<\/em><\/strong>) acontece sob a \u00e9gide de uma provoca\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea urgente: como manter a humanidade em um mundo hiperconectado? A resposta do Teatro Experimental de Arte (TEA), idealizador e realizador do festival, parece estar na pr\u00f3pria escolha curatorial desta edi\u00e7\u00e3o \u2013 uma sele\u00e7\u00e3o que equilibra conex\u00e3o global com intimidade humana, velocidade tecnol\u00f3gica com desacelera\u00e7\u00e3o contemplativa.<\/p>\n<p>Em um momento hist\u00f3rico em que a digitaliza\u00e7\u00e3o amea\u00e7a fragmentar experi\u00eancias coletivas, o <strong><em>Feteag 2025<\/em><\/strong> se posiciona como um laborat\u00f3rio de resist\u00eancia. As escolhas art\u00edsticas desta edi\u00e7\u00e3o arquitetam encontros. Encontros entre p\u00fablicos diversos, entre linguagens teatrais distintas, entre o cosmopolita e o regional \u2013 mas, sobretudo, encontros genuinamente humanos. A participa\u00e7\u00e3o de <strong><em>La cocina P\u00fablica<\/em><\/strong>, do grupo chileno Teatro Container no &nbsp;Assentamento&nbsp;Normandia \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o para muitos debates pol\u00edticos e est\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A curadoria demonstra maturidade ao compreender que estar &#8220;conectado com o mundo&#8221; n\u00e3o significa necessariamente aderir aos seus ritmos sufocantes. Pelo contr\u00e1rio: a programa\u00e7\u00e3o funciona como um convite \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o reflexiva, criando espa\u00e7os onde a experi\u00eancia teatral pode operar como ant\u00eddoto ao frenesi urbano contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>A aposta em refor\u00e7ar o territ\u00f3rio de Caruaru mostra-se cada vez mais acertada. A cidade, que j\u00e1 n\u00e3o corresponde \u00e0s mem\u00f3rias mais remotas de uma urbe menor, se posiciona como metr\u00f3pole cultural em potencial. O crescimento urbano veio acompanhado de uma ampla oferta de servi\u00e7os, mas \u00e9 no setor cultural que reside ainda o maior espa\u00e7o para desenvolvimento \u2013 lacuna que o <strong><em>Feteag<\/em> <\/strong>vem preenchendo sistematicamente h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O que se observa nesta edi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma invers\u00e3o de fluxos culturais tradicionalmente centr\u00edpetos. Ao inv\u00e9s de drenar talentos e p\u00fablicos para os grandes centros, o festival transforma Caruaru em um \u00edm\u00e3 cultural, atraindo artistas, cr\u00edticos, curadores e espectadores de diversas regi\u00f5es. Essa descentraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 geogr\u00e1fica e simb\u00f3lica, questionando hierarquias culturais estabelecidas.<\/p>\n<p>Talvez o fen\u00f4meno mais fascinante desta edi\u00e7\u00e3o seja o engajamento de uma legi\u00e3o de jovens com o teatro. Estudantes que se transformam em multiplicadores culturais, divulgando, debatendo, vibrando com as propostas art\u00edsticas. Esse movimento de apropria\u00e7\u00e3o juvenil do festival sugere que estamos diante de uma mudan\u00e7a geracional no consumo e na produ\u00e7\u00e3o cultural da regi\u00e3o.<\/p>\n<h2><em>\u00c0 mon seul d\u00e9sir<\/em> (Ao meu \u00fanico desejo), de Ga\u00eblle Bourges (Fran\u00e7a)<\/h2>\n<div id=\"attachment_27163\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/09102025-A-Mon-Seul-Desir-49-e1760882157639.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27163\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27163\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/09102025-A-Mon-Seul-Desir-49-e1760882157639.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27163\" class=\"wp-caption-text\"><strong><em>\u00c0 mon seul d\u00e9sir, <\/em><\/strong>na abertura do <strong>Feteag<\/strong> no Recife. Foto: Walton Ribeiro \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A abertura do <strong><em>Feteag<\/em> <\/strong>no Recife (9 e 10 de outubro) com a obra <strong><em>\u00c0 mon seul d\u00e9sir, <\/em><\/strong>de Ga\u00eblle Bourges, sublinha a ousadia curatorial do festival. Espet\u00e1culo faz uma desconstru\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e perform\u00e1tica de um dos \u00edcones da arte medieval, a s\u00e9rie de tape\u00e7arias <em>A Dama e o Unic\u00f3rnio<\/em>. Bourges utiliza a obra original, rica em simbolismo aleg\u00f3rico sobre os cinco sentidos e o &#8220;\u00fanico desejo&#8221;, como ponto de partida para um exame perspicaz da representa\u00e7\u00e3o feminina na arte ocidental e das constru\u00e7\u00f5es sociais em torno da feminilidade, pureza e desejo.<\/p>\n<p>As tape\u00e7arias originais, datadas do s\u00e9culo XV, apresentam uma figura feminina idealizada, cercada por animais fant\u00e1sticos e elementos florais, frequentemente interpretada como um emblema de virtude e castidade. Bourges, no entanto, subverte essa leitura ao despir as int\u00e9rpretes, expondo a vulnerabilidade e a for\u00e7a do corpo feminino em sua forma mais crua. A encena\u00e7\u00e3o, com quatro artistas nuas, explora a dualidade entre a figura idealizada da Dama e os simbolismos contidos no besti\u00e1rio da tape\u00e7aria, como o le\u00e3o e o unic\u00f3rnio. Ao vestir as int\u00e9rpretes com m\u00e1scaras de animais como o coelho \u2014 tradicionalmente associado \u00e0 fertilidade e, por vezes, \u00e0 lux\u00faria \u2014 e questionar a virgindade da Dama atrav\u00e9s da exposi\u00e7\u00e3o do corpo feminino em diferentes perspectivas e movimentos, Bourges provoca e convida o p\u00fablico a repensar os c\u00f3digos morais e est\u00e9ticos que moldam nossa percep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da arte e da identidade feminina.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o de um movimento gracioso e quase pict\u00f3rico para uma sarabanda fren\u00e9tica de Coelhos pode ser interpretada como uma liberta\u00e7\u00e3o cat\u00e1rtica dessas conven\u00e7\u00f5es, um rompimento com a passividade e a idealiza\u00e7\u00e3o atribu\u00eddas historicamente \u00e0 mulher na arte. \u00c9 um ato de reencarna\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos, onde o corpo presente e vivo das bailarinas se torna o ve\u00edculo para uma nova narrativa. A bagagem da diretora, com seu interesse no corpo feminino como ferramentas de an\u00e1lise e express\u00e3o sobre autonomia, permeia toda a constru\u00e7\u00e3o c\u00eanica, promovendo a ressignifica\u00e7\u00e3o da imagem da mulher e a cr\u00edtica ao olhar patriarcal na hist\u00f3ria da arte. <strong><em>\u00c0 mon seul d\u00e9sir<\/em><\/strong>&nbsp;\u00e9, portanto, uma abertura que celebra a artea, mesmo tempo que a questiona, a transforma e a recontextualiza, proposta alinhada com a escolha curatorial deste ano do <strong><em>Feteag<\/em> <\/strong>de ampliar di\u00e1logos e est\u00e9ticas desafiadoras.<\/p>\n<h3>Leia nossa cr\u00edtica <a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/desconstrucao-das-imagens-de-controle-na-performance-de-gaelle-bourges-critica-a-mon-seul-desir\/\">AQUI!<\/a><\/h3>\n<h2><em>Dancemos&#8230; que o mundo se acaba!<\/em> (<em>Bailemos&#8230; que se acaba el mundo!<\/em>), de BiNeural-MonoKultur (Argentina)<\/h2>\n<div id=\"attachment_27168\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IMG_1211-e1760638232991.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27168\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27168\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IMG_1211-e1760638232991.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27168\" class=\"wp-caption-text\">Florencia Baigorr\u00ed e Maximiliano Carrasco Garrido, comandam as coreografias. Foto: Kari Carvalho \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A performance <em><strong>Dancemos&#8230; que o mundo se acaba!<\/strong><\/em>&nbsp;<strong><em>(Bailemos&#8230; que se acaba el mundo!)<\/em><\/strong>, do coletivo argentino BiNeural-MonoKultur, apresentada em Caruaru, \u00e9 um exemplo not\u00e1vel de teatro imersivo e participativo que dialoga diretamente com o contexto social contempor\u00e2neo. A escolha de um espa\u00e7o n\u00e3o-convencional como a Esta\u00e7\u00e3o Ferrovi\u00e1ria de Caruaru adiciona camadas de significado. Uma esta\u00e7\u00e3o, por sua natureza, \u00e9 um local de tr\u00e2nsito, de chegadas e partidas, de encontros e despedidas, e evoca a ideia de uma jornada coletiva e individual, ressoando com a tem\u00e1tica da pe\u00e7a. A proposta de uma experi\u00eancia coletiva mediada por fones de ouvido ressalta o desejo de romper com as barreiras tradicionais entre palco e plateia, convidando o p\u00fablico a ser co-criador da obra.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a \u00e9 particularmente ressonante por ter sido concebida durante a pandemia de COVID-19, estabelecendo um paralelo provocador com a <em>Epidemia da Dan\u00e7a de Estrasburgo<\/em> de 1518. Essa conex\u00e3o hist\u00f3rica explora a dan\u00e7a como uma resposta primal e, por vezes, incontrol\u00e1vel, a momentos de crise, ansiedade coletiva e incerteza existencial. A &#8220;Epidemia da Dan\u00e7a&#8221; foi um fen\u00f4meno em massa, onde centenas de pessoas dan\u00e7aram incontrolavelmente por dias, muitas vezes at\u00e9 a exaust\u00e3o ou morte. A ideia de dan\u00e7ar &#8220;como se o mundo estivesse acabando&#8221; chega como um ato de resist\u00eancia, liberta\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o da vida em meio \u00e0 incerteza, seja ela o cont\u00e1gio dan\u00e7ante de 1518, a pandemia recente, ou as crises clim\u00e1ticas e sociais atuais.<\/p>\n<p>A companhia, conhecida por envolver o p\u00fablico de forma ativa, transforma cada espectador em um cocriador da experi\u00eancia. Os fones de ouvido criam &#8220;bolhas&#8221; individuais de percep\u00e7\u00e3o sonora \u2013 cada participante ouve instru\u00e7\u00f5es, m\u00fasicas e narrativas que guiam seus movimentos e emo\u00e7\u00f5es. Paradoxalmente, essa individualiza\u00e7\u00e3o auditiva fomenta uma unidade coletiva, pois todos est\u00e3o sincronizados por uma mesma &#8220;voz&#8221; invis\u00edvel, mas livres para interpretar e expressar-se corporalmente. A coreografia e as instru\u00e7\u00f5es compartilhadas forjam uma unidade coletiva, permitindo que cada participante explore sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o movimento, a m\u00fasica e o corpo em um espa\u00e7o compartilhado. <strong><em>Dancemos&#8230;<\/em><\/strong>&nbsp;\u00e9 um convite \u00e0 catarse, \u00e0 reconex\u00e3o com o prazer f\u00edsico e social da dan\u00e7a, e \u00e0 redescoberta da capacidade do corpo de se expressar e de se libertar, um poderoso ant\u00eddoto em tempos de isolamento e ang\u00fastia.<\/p>\n<h3>Leia nossa cr\u00edtica <a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-contagio-de-bailemos-que-se-acaba-el-mundo-na-abertura-do-feteag-em-caruaru\/\">AQUI<\/a><\/h3>\n<h2>Magiluth honra local da constru\u00e7\u00e3o de <em>\u00c9dipo REC<\/em>, em Caruaru<\/h2>\n<div id=\"attachment_27204\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-088-1-scaled-e1760807327529.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27204\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27204\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-088-1-scaled-e1760807327529.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27204\" class=\"wp-caption-text\">Giordano Castro e Gabriela Cicarello, com \u00c9dipo e Jocasta, na sess\u00e3o do <strong>Feteag<\/strong>. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<p><em><strong>\u00c9dipo REC<\/strong><\/em> \u00e9 uma releitura vibrante e provocadora da trag\u00e9dia cl\u00e1ssica, concebida pelo Grupo Magiluth como um &#8220;jogo&#8221; c\u00eanico. A pe\u00e7a transforma o mito de \u00c9dipo em uma experi\u00eancia imersiva que dissolve a fronteira entre palco e plateia. Utilizando uma linguagem que mistura teatro, festa e cinema, a montagem transforma Tebas em um Recife contempor\u00e2neo e fantasmag\u00f3rico. Com um DJ no comando da trilha sonora pop e um Corifeu que filma a a\u00e7\u00e3o em tempo real, o espet\u00e1culo questiona a relev\u00e2ncia da trag\u00e9dia hoje e usa a tecnologia para refletir sobre a era da superexposi\u00e7\u00e3o e das narrativas digitais.<\/p>\n<p>Em sua apresenta\u00e7\u00e3o em Caruaru, durante o <strong><em>Feteag 2025<\/em><\/strong>, a pe\u00e7a envolveu o p\u00fablico desde antes do in\u00edcio, com os atores interagindo e distribuindo cervejas do lado de fora do Teatro Lycio Neves. A primeira hora se desenrolou como uma festa efervescente, com os espectadores em p\u00e9, dan\u00e7ando ao som de ritmos pop. A rea\u00e7\u00e3o da plateia foi selvagem e contagiante, com uma entrega total \u00e0 atmosfera de festa. No entanto, essa mesma audi\u00eancia mostrou-se surpreendentemente t\u00edmida quando provocada a um &#8220;beija\u00e7o&#8221; geral, revelando as complexidades e limites da participa\u00e7\u00e3o mesmo em um ambiente de intensa intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O elenco demonstrou um entrosamento compar\u00e1vel a uma orquestra sinf\u00f4nica, onde cada m\u00fasico domina seu instrumento em perfeita harmonia com o conjunto. Roberto Brand\u00e3o assumiu Tir\u00e9sias com um cinismo elegante e debochado, enquanto Gabriela Cicarello entregou uma Jocasta altiva, permeada por uma melancolia profunda que transbordava em cada gesto. Um momento inesperado e marcante da sess\u00e3o foi a a\u00e7\u00e3o de um espectador an\u00f4nimo que lan\u00e7ou lixo org\u00e2nico no palco no final do primeiro ato. O cheiro p\u00fatrido de laranjas estragadas invadiu o teatro, atacando violentamente o olfato da plateia e materializando sensorialmente a &#8220;praga&#8221; de Tebas. Embora n\u00e3o fizesse parte do roteiro, o gesto adicionou uma camada visceral de caos e decad\u00eancia que prenunciava tragicamente o segundo ato.<\/p>\n<h3>Leia nossa cr\u00edtica <a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/edipo-rec-mais-que-vibrante-na-sua-incubadora-em-caruaru-critica\/\">AQUI<\/a><\/h3>\n<h2>A pot\u00eancia da indigna\u00e7\u00e3o articulada em <em>F\u00e1bulas de Nossas F\u00farias<\/em><\/h2>\n<div id=\"attachment_27228\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FABULAS-DE-NOSSAS-FURIAS-49-scaled-e1760886137824.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27228\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27228\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FABULAS-DE-NOSSAS-FURIAS-49-scaled-e1760886137824.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27228\" class=\"wp-caption-text\">Coletivo Atores \u00e0 Deriva (RN) transforma raiva em arte pol\u00edtica. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<p><strong><em>F\u00e1bulas de Nossas F\u00farias<\/em><\/strong>, do Coletivo Atores \u00e0 Deriva, do Rio GRande do Norte, foi apresentado no <strong><em>Feteag<\/em> <\/strong>como um trabalho teatral que reverbera intensamente, soltando a voz de um ac\u00famulo de sil\u00eancios e indigna\u00e7\u00f5es historicamente reprimidas. Alex Cordeiro assina a dire\u00e7\u00e3o e constr\u00f3i a dramaturgia em parceria com Giordano Castro, criando um tecido dramat\u00fargico que se apropria dos conceitos de &#8220;f\u00e1bula&#8221; e &#8220;f\u00faria&#8221; como estruturas para uma an\u00e1lise das contradi\u00e7\u00f5es humanas e sociais. A cria\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo contou com a colabora\u00e7\u00e3o de Alex Cordeiro, \u00c1lvaro Dantas, Mattheus Corpo, Doc C\u00e2mara e Thuyza Fagundes, configurando um processo criativo coletivo que se reflete na multiplicidade de vozes e perspectivas presentes em cena.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a estabelece uma confronta\u00e7\u00e3o direta com a &#8220;Justa Raiva&#8221; teorizada por Paulo Freire, conceito que reconhece a indigna\u00e7\u00e3o como um direito leg\u00edtimo dos oprimidos e como for\u00e7a motriz para a transforma\u00e7\u00e3o social. Essa perspectiva freireana entende a raiva como uma resposta consciente e necess\u00e1ria \u00e0s injusti\u00e7as, diferenciando-a da revolta cega ou do \u00f3dio destrutivo, posicionando-a como uma energia pedag\u00f3gica e libertadora.<\/p>\n<p>Os 17 anos de pesquisa do Atores \u00e0 Deriva encontram neste espet\u00e1culo um tema que ressoa profundamente com as viv\u00eancias e inquieta\u00e7\u00f5es dos integrantes do grupo. O trabalho se constr\u00f3i como um grito articulado, utilizando a f\u00e1bula como estratagema narrativo para expor opress\u00f5es contempor\u00e2neas de forma aleg\u00f3rica, mas impactante.&nbsp;<\/p>\n<p>O trabalho corporal desenvolvido pelo elenco (\u00c1lvaro Dantas, Doc C\u00e2mara, Mattheus Corpo e Alex Cordeiro), sob a dire\u00e7\u00e3o de movimento e prepara\u00e7\u00e3o corporal de Dudu Galv\u00e3o, constitui um dos pilares fundamentais do espet\u00e1culo. O corpo em cena assume o territ\u00f3rio de express\u00e3o da f\u00faria e da vulnerabilidade. Atrav\u00e9s de uma &#8220;animaliza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia&#8221;, os atores exploram fisicamente os impulsos e essas urg\u00eancias. Movimentos que variam entre a contor\u00e7\u00e3o, a explos\u00e3o e o recolhimento, respira\u00e7\u00f5es que ecoam a ang\u00fastia, e olhares que carregam hist\u00f3rias de opress\u00e3o, comunicam dimens\u00f5es que a palavra sozinha n\u00e3o consegue abarcar. Na gestualidade que transita entre refer\u00eancias animais e a fragilidade humana, a pe\u00e7a encontra um de seus momentos mais potentes, estabelecendo uma comunica\u00e7\u00e3o direta e emotiva com a plateia.<\/p>\n<p>Estruturada em f\u00e1bulas contempor\u00e2neas protagonizadas por um macaco, uma baleia e um veado, a dramaturgia, aposta na capacidade de encarar frontalmente as viol\u00eancias do racismo, da misoginia e da homofobia. Cada f\u00e1bula, embora aut\u00f4noma, tece uma cr\u00edtica direta a sistemas de poder e preconceito. A escolha de valorizar o termo &#8220;veado&#8221;, historicamente usado de forma pejorativa, para afirmar subjetividades gay e seus modos de amar, afirma-se como um ato de subvers\u00e3o lingu\u00edstica e pol\u00edtica que espelha a proposta central da pe\u00e7a. Nesse contexto, a\u00e7\u00f5es cotidianas como &#8220;beijar na rua&#8221; adquirem car\u00e1ter de &#8220;f\u00faria&#8221; afirmativa, desafiando a heteronormatividade compuls\u00f3ria e as tentativas de invisibilidade. A dramaturgia inverte a l\u00f3gica conservadora que hierarquiza identidades para celebrar resist\u00eancias e modos diversos de existir.<\/p>\n<p>A dramaturgia tamb\u00e9m evidencia a import\u00e2ncia das redes de apoio e afetos na constru\u00e7\u00e3o de subjetividades LGBTQIA+, demonstrando como a solidariedade coletiva se torna estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia e resist\u00eancia em contextos hostis.<\/p>\n<div id=\"attachment_27229\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FABULAS-DE-NOSSAS-FURIAS-55-scaled-e1760886095791.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27229\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27229\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FABULAS-DE-NOSSAS-FURIAS-55-scaled-e1760886095791.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27229\" class=\"wp-caption-text\">Grupo reflete sobre a masculinidade hegem\u00f4nica. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 fundamental ressaltar a relev\u00e2ncia pol\u00edtica de um grupo formado majoritariamente por homens que encara frontalmente as fragilidades e contradi\u00e7\u00f5es da masculinidade hegem\u00f4nica. O espet\u00e1culo desnaturaliza padr\u00f5es machistas ao expor como as press\u00f5es de g\u00eanero afetam&nbsp; os corpos masculinos, criando espa\u00e7o para discuss\u00f5es sobre orienta\u00e7\u00f5es sexuais e identidades de g\u00eanero que desafiam a rigidez dos pap\u00e9is sociais impostos. Para um coletivo de homens, assumir publicamente as vulnerabilidades da masculinidade e os atravessamentos das quest\u00f5es de g\u00eanero constitui um ato de coragem art\u00edstica e pol\u00edtica que amplia os territ\u00f3rios poss\u00edveis para a express\u00e3o das diversidades.<\/p>\n<p>No entanto, as pr\u00f3prias fissuras dramat\u00fargicas do espet\u00e1culo funcionam como dobras de articula\u00e7\u00e3o que revelam camadas complexas da experi\u00eancia teatral. As transi\u00e7\u00f5es entre as f\u00e1bulas n\u00e3o operam por continuidade linear, mas por contamina\u00e7\u00e3o emocional e tem\u00e1tica &#8211; um procedimento que exige do espectador uma disponibilidade para ir al\u00e9m de seus limites nessa constru\u00e7\u00e3o receptora. Essas lacunas intencionais entre os n\u00facleos narrativos constituem espa\u00e7os de respira\u00e7\u00e3o onde o p\u00fablico processa as camadas de viol\u00eancia e resist\u00eancia apresentadas. As aparentes descontinuidades se atuam, na verdade, como estrat\u00e9gias dramat\u00fargicas que permitem que cada f\u00e1bula ressoe de forma independente antes de se articular com as demais.<\/p>\n<p>Para alguns espectadores, essas dobras podem gerar momentos de desconex\u00e3o; para outros, constituem territ\u00f3rios f\u00e9rteis onde as indigna\u00e7\u00f5es pessoais encontram eco nas f\u00farias c\u00eanicas. A dramaturgia assume, assim, o risco de uma incompletude proposital, convidando cada plateia a preencher os intervalos com suas pr\u00f3prias experi\u00eancias de opress\u00e3o e resist\u00eancia.<\/p>\n<div id=\"attachment_27230\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FABULAS-DE-NOSSAS-FURIAS-73-scaled-e1760889466994.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27230\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27230\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FABULAS-DE-NOSSAS-FURIAS-73-scaled-e1760889466994.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27230\" class=\"wp-caption-text\">Beijo inspirado no espet\u00e1culo do Grupo Magiluth. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<p>Enquanto constru\u00e7\u00e3o c\u00eanica, a dramaturgia e encena\u00e7\u00e3o explicitam suas influ\u00eancias e refer\u00eancias, como no beijo francamente inspirado na pe\u00e7a <strong><em>Dinamarca<\/em><\/strong>, do Magiluth, estabelecendo um di\u00e1logo intertextual que enriquece as camadas interpretativas do trabalho. Essas cita\u00e7\u00f5es funcionam como reconhecimentos de uma genealogia teatral comprometida com a discuss\u00e3o de sexualidades e identidades dissidentes.<\/p>\n<p>Apesar das quest\u00f5es estruturais apontadas, <strong><em>F\u00e1bulas de Nossas F\u00farias<\/em><\/strong>&nbsp;confirma-se como um espet\u00e1culo relevante que articula um trabalho corporal consistente com uma dramaturgia provocativa. Sua capacidade de convocar o p\u00fablico a refletir sobre suas pr\u00f3prias indigna\u00e7\u00f5es e os lugares de onde elas emergem faz da pe\u00e7a uma experi\u00eancia marcante. O trabalho&nbsp; impulsiona discuss\u00f5es sobre direitos de exist\u00eancia e express\u00e3o, consolidando o teatro como espa\u00e7o fundamental para a articula\u00e7\u00e3o de afetos transformadores e para a celebra\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia.<\/p>\n<h1>Neva, montagem de Marianne Consentino<\/h1>\n<div id=\"attachment_27210\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/NEVA-43-scaled-e1760815404851.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27210\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27210\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/NEVA-43-scaled-e1760815404851.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27210\" class=\"wp-caption-text\">Pe\u00e7a pensa a arte em tempos de colapso. Foto Jorge Farias<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Neva<\/strong><\/em>, na montagem dirigida por Marianne Consentino apresentada no Teatro Lycio Neves durante o <em><strong>Feteag<\/strong><\/em>, afirma-se como um espet\u00e1culo de complexa densidade, que questiona os limites e contradi\u00e7\u00f5es entre arte e pol\u00edtica, entre a necessidade de criar e a urg\u00eancia de agir. A pe\u00e7a, escrita pelo dramaturgo chileno Guillermo Calder\u00f3n em 2005, explora paix\u00f5es e desencantos que permeiam o universo teatral: a paix\u00e3o pelo palco, pela arte de interpretar, pelo of\u00edcio de representar, mas tamb\u00e9m interroga as in\u00e9rcias que se justificam em nome da arte, os descompassos entre cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e compromisso pol\u00edtico, e as dificuldades inerentes a uma arte ef\u00eamera que luta constantemente por sua pr\u00f3pria sustentabilidade e relev\u00e2ncia social.<\/p>\n<p>No centro desta tens\u00e3o encontra-se uma protagonista que insiste em encontrar o fio condutor de sua personagem enquanto o mundo literalmente desmorona do lado de fora do teatro, met\u00e1fora potente para os dilemas do artista contempor\u00e2neo diante das crises sociais e da constante necessidade de justificar a exist\u00eancia da arte em meio ao caos.<\/p>\n<p>A escolha de Marianne Consentino por esta dramaturgia, integrada \u00e0 sua pesquisa de p\u00f3s-doutorado desenvolvida no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Artes C\u00eanicas da Universidade Federal da Bahia, sob supervis\u00e3o da professora Dra. Sonia Rangel, transforma a montagem em um laborat\u00f3rio de investiga\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es entre teatro e mem\u00f3ria, entre cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e contexto hist\u00f3rico. A diretora constr\u00f3i um espet\u00e1culo que dialoga tanto com as urg\u00eancias do texto original quanto com as resson\u00e2ncias que a obra adquire no contexto brasileiro contempor\u00e2neo, especialmente em um momento de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e questionamentos sobre o papel da arte em tempos de crise democr\u00e1tica e de constantes ataques \u00e0s pol\u00edticas culturais.<\/p>\n<p>O elenco formado por Vika Schabbach, Igor de Almeida, Gard\u00eania Fontes e Guilherme Mergulh\u00e3o constr\u00f3i a atmosfera claustrof\u00f3bica de tr\u00eas atores refugiados em um teatro de S\u00e3o Petersburgo no fat\u00eddico <em>Domingo Sangrento<\/em>&nbsp;de 9 de janeiro de 1905. Neste dia hist\u00f3rico, manifestantes que marchavam pacificamente para entregar uma peti\u00e7\u00e3o ao Czar, reivindicando melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, foram brutalmente fuzilados pela Guarda Imperial, evento que se tornaria o estopim da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917.<\/p>\n<p>A protagonista Olga Knipper, vi\u00fava de Anton Tchekhov e primeira atriz do Teatro de Arte de Moscou, surge como uma figura emblem\u00e1tica desta tens\u00e3o entre luto pessoal e cat\u00e1strofe coletiva. Incapaz de representar ap\u00f3s a morte do marido por tuberculose seis meses antes, ela insiste em encenar repetidamente a morte de Tchekhov com seus colegas Masha e Aleko, numa compuls\u00e3o que revela tanto a necessidade de elaborar o luto quanto a incapacidade de se conectar com a trag\u00e9dia hist\u00f3rica que se desenrola nas ruas.<\/p>\n<p>Vika Schabbach constr\u00f3i essa complexa protagonista com not\u00e1vel sensibilidade e leveza, expondo as nuances das contradi\u00e7\u00f5es de uma atriz que exterioriza suas pr\u00f3prias inseguran\u00e7as atrav\u00e9s da arte. Suas intera\u00e7\u00f5es com Igor de Almeida e Gard\u00eania Fontes criam momentos de extrema cumplicidade, recriando a intimidade peculiar de uma sala de ensaio onde os limites entre pessoa e personagem se dissolvem, tornando vis\u00edveis os segredos \u00edntimos do of\u00edcio teatral.<\/p>\n<div id=\"attachment_27211\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a style=\"font-weight: bold; background-color: transparent; font-size: 1rem;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/NEVA-37-scaled-e1760816063353.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27211\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-27211 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/NEVA-37-scaled-e1760816063353.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27211\" class=\"wp-caption-text\">Um tecido visual com refer\u00eancias cl\u00e1ssicas e registros da realidade atual. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<p>O material imag\u00e9tico constru\u00eddo por Consentino constitui um dos aspectos mais ricos e provocativos da montagem. A diretora elabora um tecido visual que trabalha deliberadamente com ironias e contrastes entre o que \u00e9 dito no texto e as imagens projetadas, criando camadas interpretativas que expandem temporalmente a reflex\u00e3o proposta por Calder\u00f3n. As refer\u00eancias visuais transitam das cl\u00e1ssicas sequ\u00eancias do <strong><em>Encoura\u00e7ado Potemkin<\/em><\/strong>&nbsp;de Eisenstein, com sua famosa escadaria e a viol\u00eancia revolucion\u00e1ria, passando por filmes de propaganda stalinista, at\u00e9 alcan\u00e7ar v\u00eddeos contempor\u00e2neos que documentam opress\u00f5es no Brasil e em toda a Nossa Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo XXI. Esta montagem imag\u00e9tica inclui ainda registros dos movimentos patri\u00f3ticos bolsonaristas, com suas a\u00e7\u00f5es frequentemente ris\u00edveis e grotescas, estabelecendo uma ponte provocativa entre a repress\u00e3o czarista de 1905, os autoritarismos do s\u00e9culo XX e as manifesta\u00e7\u00f5es neofascistas atuais.<\/p>\n<p>Particularmente instigante \u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o da dramaturgia incidental <strong><em>Estudo N\u00ba 1 Morte e Vida<\/em><\/strong> do Grupo Magiluth, que funciona na linha do &#8220;pl\u00e1gio e combina\u00e7\u00e3o&#8221;, seguindo a est\u00e9tica antropof\u00e1gica de Tom Z\u00e9. Esta inser\u00e7\u00e3o metateatral, onde uma cena do espet\u00e1culo do Magiluth surge dentro do pr\u00f3prio <em><strong>Neva<\/strong><\/em>, cria um efeito de mise en abyme que questiona as fronteiras entre cria\u00e7\u00e3o e cita\u00e7\u00e3o, entre originalidade e apropria\u00e7\u00e3o. Esta estrat\u00e9gia refor\u00e7a o questionamento central da pe\u00e7a sobre a relev\u00e2ncia e a serventia do teatro, ecoando a pergunta que atravessa toda a obra: para que serve a arte quando o mundo est\u00e1 em chamas?<\/p>\n<p>A montagem de Consentino consegue, assim, atualizar a urg\u00eancia do texto de Calder\u00f3n para o contexto latinoamericano destes tempos. A quest\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da mem\u00f3ria das ditaduras para a Am\u00e9rica Latina e o papel do teatro contempor\u00e2neo no avivamento desta mem\u00f3ria traum\u00e1tica encontra na encena\u00e7\u00e3o uma pulsa\u00e7\u00e3o c\u00eanica complexa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 34\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Teatro do Agreste (Feteag) acontece sob a \u00e9gide de uma provoca\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea urgente: como manter a humanidade em um mundo hiperconectado? 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