{"id":27191,"date":"2025-10-19T09:09:17","date_gmt":"2025-10-19T12:09:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27191"},"modified":"2025-10-19T09:09:17","modified_gmt":"2025-10-19T12:09:17","slug":"edipo-rec-mais-que-vibrante-na-sua-incubadora-em-caruaru-critica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/edipo-rec-mais-que-vibrante-na-sua-incubadora-em-caruaru-critica\/","title":{"rendered":"\u00c9dipo REC mais que vibrante <\/br> na sua incubadora em Caruaru <\/br>Cr\u00edtica"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27204\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-088-1-scaled-e1760807327529.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27204\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27204\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-088-1-scaled-e1760807327529.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27204\" class=\"wp-caption-text\">Giordano Castro e Gabriela Cicarello, com \u00c9dipo e Jocasta. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27193\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-132-scaled-e1760804384620.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27193\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27193\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-132-scaled-e1760804384620.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27193\" class=\"wp-caption-text\">Erivaldo Oliveira como Coro no pr\u00f3logo fora do teatro. Foto: Jorge Farias \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em><strong>\u00c9dipo REC<\/strong><\/em>, do Grupo Magiluth, do Recife, \u00e9 um acontecimento c\u00eanico vibrante e desafiador. Gestada no Teatro Lycio Neves, em Caruaru, local que acolheu seu retorno no <strong><em>Festival de Teatro do Agreste<\/em><\/strong> &#8211; <em><strong>Feteag 2025<\/strong><\/em>, a pe\u00e7a se apropria de uma narrativa tr\u00e1gica para questionar a sua perene relev\u00e2ncia e a capacidade do teatro de provocar, desestabilizar e dialogar com as sensibilidades contempor\u00e2neas. A concep\u00e7\u00e3o do Magiluth, ligada ao conceito de &#8220;jogo&#8221; (escolha que valoriza a experimenta\u00e7\u00e3o, a intera\u00e7\u00e3o e a imprevisibilidade, convidando o espectador \u00e0 coautoria da experi\u00eancia), transforma o palco em um espa\u00e7o de viv\u00eancia cont\u00ednua. Aqui, a plateia \u00e9 ativamente convidada a participar de uma pe\u00e7a que desestrutura a cronologia linear e as expectativas tradicionais de frui\u00e7\u00e3o teatral.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo come\u00e7a antes mesmo da abertura formal dentro do teatro, com os atores circulando entre os espectadores no exterior do teatro, inaugurando um clima de cumplicidade e imers\u00e3o imediata. Essa introdu\u00e7\u00e3o festiva, pontuada pela distribui\u00e7\u00e3o de cervejas e a presen\u00e7a de personagens j\u00e1 em cena \u2013 como Kr\u00e9onte, Tir\u00e9sias, o Mensageiro e Corifeu que, munido de uma c\u00e2mera, filma incessantemente \u2013 cria uma ponte fluida entre o cotidiano do espectador e o ritual c\u00eanico. O palco se transmuta em uma balada efervescente, com DJ \u00c9dipo (interpretado por Giordano Castro) mixando ritmos que v\u00e3o de Rihanna e Pabllo Vittar a MC Poze do Rodo. Essa trilha sonora pop serve como uma lente para a atemporalidade dos dilemas humanos, justapondo o hedonismo contempor\u00e2neo \u00e0 imin\u00eancia da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio de frenesi, o Coro, interpretado por Erivaldo Oliveira em um figurino provocativo e andr\u00f3gino de Chris Garrido, assume o papel de anfitri\u00e3o-provocador e de voz da consci\u00eancia coletiva. Ele anuncia a festa, mas tamb\u00e9m alerta para a &#8220;vida decepcionante&#8221; que se esconde sob o verniz da celebra\u00e7\u00e3o, encarnando a dualidade entre o j\u00fabilo e a premoni\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA plateia, especialmente na sess\u00e3o em Caruaru, foi rapidamente arrastada para essa atmosfera de conflu\u00eancia entre o hedonismo e a premoni\u00e7\u00e3o. A primeira hora do espet\u00e1culo, vivenciada em p\u00e9, em meio a uma balada ca\u00f3tica, permitiu experimentar o teatro como acontecimento, como uma troca m\u00fatua e palp\u00e1vel entre quem o faz e quem o assiste. A entrega do p\u00fablico de Caruaru, que se mostrou &#8220;animal&#8221; e &#8220;contagiante&#8221;, diz muito da estrat\u00e9gia do Magiluth em estabelecer uma conex\u00e3o, utilizando a proximidade f\u00edsica e a quebra de protocolos para intensificar a experi\u00eancia e desmantelar a barreira convencional entre palco e plateia.<\/p>\n<p>Em um dos momentos de maior engajamento, o Coro estimula a &#8220;n\u00e3o-monogamia&#8221; e um &#8220;beija\u00e7o&#8221; geral. No entanto, apesar da efervesc\u00eancia desde o in\u00edcio da pe\u00e7a para a dan\u00e7a, a resposta do p\u00fablico ao est\u00edmulo do &#8220;beija\u00e7o&#8221; foi notavelmente discreta, at\u00e9 mesmo acanhada.&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_27195\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-046-scaled-e1760805052302.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27195\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27195\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-046-scaled-e1760805052302.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27195\" class=\"wp-caption-text\">Roberto Brand\u00e3o, como Tir\u00e9sias. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27196\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-068-scaled-e1760805015524.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27196\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27196\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-068-scaled-e1760805015524.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27196\" class=\"wp-caption-text\">Lucas Torres como Mensageiro. Foto Jorge Farias<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27198\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-016-scaled-e1760805204504.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27198\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27198\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-016-scaled-e1760805204504.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27198\" class=\"wp-caption-text\">Gabriela Cicarello como Jocasta<\/p><\/div>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o do elenco &#8211; dirigido com criatividade e irrever\u00eancia por <span class=\"x1lliihq x1plvlek xryxfnj x1n2onr6 xyejjpt x15dsfln x193iq5w xeuugli x1fj9vlw x13faqbe x1vvkbs x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x x1i0vuye xvs91rp x1s688f x5n08af x10wh9bi xpm28yp x8viiok x1o7cslx\" dir=\"auto\">Luiz Fernando Marques, Lubi &#8211;&nbsp;<\/span>assemelha-se a uma partida de basquete em que os jogadores, al\u00e9m de entrosados e estrategicamente alinhados atrav\u00e9s de um rigoroso trabalho de conjunto, t\u00eam espa\u00e7o para o brilho individual, e todos contribuem para a &#8220;cesta&#8221; \u2013 um jogo perfeito de entrega e colabora\u00e7\u00e3o na sess\u00e3o em Caruaru. Roberto Brand\u00e3o, assumindo o papel de Tir\u00e9sias, o cego vidente, com um cinismo elegante e um deboche quase felino, cumpre com dignidade a tarefa de suceder o impacto de Pedro Wagner, injetando uma nova camada de complexidade e impertin\u00eancia ao profeta.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Gabriela Cicarello, substituindo Nash Laila como Jocasta, entrega uma figura altiva e permeada por lutos n\u00e3o verbalizados, transmitindo atrav\u00e9s de sua postura e olhar uma profundidade melanc\u00f3lica \u00e0 sua personagem, capaz de transitar entre diferentes estados emocionais e fun\u00e7\u00f5es narrativas, do desd\u00e9m \u00e0 desesperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A trilha sonora, festiva e dram\u00e1tica, serve como um motor potente da dramaturgia, carregada de ironia e pensamento. O karaok\u00ea de <em>Toda forma de amor<\/em>, de Lulu Santos, \u00e9 uma instiga\u00e7\u00e3o que ressoa com as tens\u00f5es da pe\u00e7a, indagando sobre os limites e as complexidades do amor, que abarca inclusive os proibidos e os incestuosos, reverberando os dilemas intemporais da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>As refer\u00eancias a outras obras, como <em>Beijo no Asfalto<\/em>&nbsp;de Nelson Rodrigues, enriquecem o intertexto, conectando a trag\u00e9dia grega a outras explora\u00e7\u00f5es da paix\u00e3o, do destino e do julgamento social na dramaturgia brasileira, especialmente no contexto urbano e suas hipocrisias.<\/p>\n<div id=\"attachment_27201\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-105-1-scaled-e1760805798520.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27201\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27201\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-105-1-scaled-e1760805798520.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27201\" class=\"wp-caption-text\">Linguagem audiovisual utilizada na reconstru\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia Foto: Jorge Farias \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A linguagem audiovisual \u00e9 um pilar fundamental na constru\u00e7\u00e3o de <strong><em>\u00c9dipo REC<\/em><\/strong>. O espet\u00e1culo se inspira fortemente no cinema, transformando Tebas em um Recife fantasmag\u00f3rico e presentificado, onde o Corifeu, munido de uma c\u00e2mera em tempo real, atua como um olho onipresente e, por vezes, intrusivo. Ele registra e transmite imagens para tel\u00f5es estrategicamente posicionados, como tamb\u00e9m media a realidade, manipulando a percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e posicionando-o como voyeur e c\u00famplice.<\/p>\n<p>Essa escolha tecnol\u00f3gica espelha a superprodu\u00e7\u00e3o de imagens da era das redes sociais, a vigil\u00e2ncia constante e a constru\u00e7\u00e3o de narrativas digitais, onde a verdade \u00e9 frequentemente moldada pela perspectiva da c\u00e2mera e pela curadoria do conte\u00fado. A integra\u00e7\u00e3o da tecnologia confere uma camada metalingu\u00edstica \u00e0 narrativa, explorando a rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre o real e o encenado, entre o que \u00e9 filmado e o que \u00e9 vivido.<\/p>\n<p>O grupo Magiluth buscou refer\u00eancias no cinema experimental e underground, explorando como diferentes est\u00e9ticas cinematogr\u00e1ficas poderiam dialogar com a trag\u00e9dia cl\u00e1ssica e contempor\u00e2nea. Desde o seminal <strong><em>\u00c9dipo Rex<\/em><\/strong> (1967) de Pier Paolo Pasolini, que explora a trag\u00e9dia grega com uma est\u00e9tica brutalista, arcaica e quase documental, utilizando n\u00e3o-atores e loca\u00e7\u00f5es des\u00e9rticas para enfatizar os instintos primais e a inevitabilidade do destino de forma crua, <strong><em>\u00c9dipo REC<\/em><\/strong> absorve essa crueza na performance e na representa\u00e7\u00e3o de um Recife desolado, onde a mis\u00e9ria e a beleza se entrela\u00e7am sem filtros. O vanguardista <strong><em>Funeral das Rosas<\/em><\/strong> (1969) de Toshio Matsumoto, um mergulho no universo contracultural das drag queens de T\u00f3quio, com sua subvers\u00e3o de g\u00eanero, fluidez da identidade e fragmenta\u00e7\u00e3o narrativa, influenciou a est\u00e9tica n\u00e3o-linear e a desconstru\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is em <strong><em>\u00c9dipo REC<\/em><\/strong>, onde a identidade de \u00c9dipo \u00e9 constantemente questionada e reconfigurada pela lente da c\u00e2mera e pela intera\u00e7\u00e3o com o Corifeu.<\/p>\n<p>Outros filmes como <strong><em>Hiroshima, meu amor<\/em><\/strong> (1959) de Alain Resnais, com sua estrutura n\u00e3o linear e a forma como aborda a mem\u00f3ria e o trauma, influenciaram a maneira como <strong><em>\u00c9dipo REC<\/em><\/strong> lida com o tempo e a persist\u00eancia do passado no presente, utilizando montagens r\u00e1pidas e justaposi\u00e7\u00e3o de imagens para evocar a fragmenta\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e o peso do trauma coletivo. <strong><em>Cinema Paradiso<\/em><\/strong> (1990) de Giuseppe Tornatore, que celebra o poder do cinema e da nostalgia, contribuiu para a reflex\u00e3o sobre a capacidade das imagens de construir e preservar mem\u00f3rias, e como elas moldam nossa compreens\u00e3o da realidade e do afeto; em <strong><em>\u00c9dipo REC<\/em><\/strong>, as imagens capturadas e projetadas tornam-se o registro &#8220;oficial&#8221; da trag\u00e9dia, o que ser\u00e1 lembrado e transmitido. E <strong><em>Cabaret<\/em><\/strong>&#8221; (1972) de Bob Fosse, que retrata a decad\u00eancia social e pol\u00edtica da Alemanha pr\u00e9-Nazista atrav\u00e9s do microcosmo de um clube noturno, influenciou a est\u00e9tica de performance e a cr\u00edtica social, mostrando como o entretenimento pode mascarar ou, inversamente, expor as trag\u00e9dias iminentes, utilizando a teatralidade da encena\u00e7\u00e3o e a intera\u00e7\u00e3o com a plateia para desnudar as tens\u00f5es sociais latentes na Tebas-Recife.<\/p>\n<div id=\"attachment_27202\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-015-scaled-e1760806155685.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27202\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27202\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-015-scaled-e1760806155685.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27202\" class=\"wp-caption-text\">Transforma\u00e7\u00e3o do amor de \u00c9dipo e Jocasta no segundo ato, do Vel\u00f3rio. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o entre os atos \u00e9 impactante, como quebra narrativa e tamb\u00e9m como dispositivo que for\u00e7a o p\u00fablico a uma reorienta\u00e7\u00e3o. Os espectadores s\u00e3o solicitados a se retirar do espa\u00e7o c\u00eanico por alguns minutos, um ato que simula uma interrup\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, como se a cena anterior precisasse ser &#8216;refilmada&#8217; ou o set &#8216;reajustado&#8217;. Esta pausa deliberada para a interrup\u00e7\u00e3o da festividade e da ilus\u00e3o, um reset for\u00e7ado prepara o terreno para a iminente cat\u00e1strofe que assola Tebas-Recife ou Caruaru-Tebas.<\/p>\n<p>Se o primeiro ato foi a &#8220;festa&#8221; de uma grande celebra\u00e7\u00e3o, onde \u00c9dipo ainda se agarrava \u00e0 esperan\u00e7a de fugir de seu destino atrav\u00e9s do hedonismo e da nega\u00e7\u00e3o, o segundo ato \u00e9 o &#8220;vel\u00f3rio&#8221;, o &#8220;enterro&#8221; simb\u00f3lico da ilus\u00e3o e da inoc\u00eancia. Os espectadores s\u00e3o arrastados para o olho do furac\u00e3o da trag\u00e9dia, acompanhando o protagonista em um mergulho implac\u00e1vel nas consequ\u00eancias devastadoras de suas a\u00e7\u00f5es e do destino.<\/p>\n<p>A dramaturgia de Giordano Castro, com sua crueza, escancara as feridas da humanidade e as verdades dolorosas detectadas por S\u00f3focles, revelando as consequ\u00eancias inevit\u00e1veis do destino e do conhecimento proibido. O amor, antes celebrado e idealizado, assume-se como &#8220;horror&#8221; para a fam\u00edlia de \u00c9dipo<\/p>\n<p>Adicionalmente, um evento que marcou o final do primeiro ato \u2013 uma &#8220;performance&#8221; inesperada onde algu\u00e9m lan\u00e7ou lixo org\u00e2nico, com laranjas estragadas, no palco, exalando um cheiro forte e desagrad\u00e1vel \u2013 adicionou uma camada de caos e crueldade \u00e0 cena. Ficamos na d\u00favida sobre a espontaneidade do ato, parecendo at\u00e9 uma cena combinada. Mas n\u00e3o foi. De todo modo, esse gesto metateatral al\u00e9m de mimetizar a desordem e a decad\u00eancia na cena, materializou a &#8220;praga&#8221; que assola Tebas, atacando os sentidos do p\u00fablico. A experi\u00eancia olfativa e visual do lixo org\u00e2nico serviu como um press\u00e1gio sensorial da putrefa\u00e7\u00e3o moral e social que se revela no segundo ato.<\/p>\n<div id=\"attachment_27203\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-128-scaled-e1760806840630.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27203\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27203\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-128-scaled-e1760806840630.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27203\" class=\"wp-caption-text\">Bruno Parmera. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27194\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-030-scaled-e1760804900104.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27194\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27194\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MAGILUTH-030-scaled-e1760804900104.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27194\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio S\u00e9rgio e Giordano Castro. Foto: Jorge Farias e Giordano Castro, Kreonte e \u00c9dipo. Foto: Jorge Farias<\/p><\/div>\n<p>No segundo ato denso, os personagens travam embates de acusa\u00e7\u00e3o e defesa em um clima crescente do estado de desespero. No desenvolvimento do retorno da mem\u00f3ria de \u00c9dipo, ganha destaque a proje\u00e7\u00e3o de uma grava\u00e7\u00e3o em que o protagonista, pilotando uma motocicleta, encontra e mata Laio.<\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o das tecnologias audiovisuais \u00e9 central para a narrativa e a est\u00e9tica. A presen\u00e7a constante do Corifeu vertido em operador de c\u00e2mera em cena, que registra e interfere ativamente nos acontecimentos, reflete a ubiquidade da m\u00eddia em nossa sociedade e questiona a natureza da verdade e da representa\u00e7\u00e3o, transformando o p\u00fablico em voyeurs c\u00famplices da trag\u00e9dia. A atmosfera torna-se inescap\u00e1vel, remetendo \u00e0 reflex\u00e3o de S\u00f3focles sobre a verdadeira medida da vida e da felicidade de uma pessoa, que s\u00f3 pode ser avaliada quando chega ao seu desfecho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9dipo REC, do Grupo Magiluth, do Recife, \u00e9 um acontecimento c\u00eanico vibrante e desafiador. Gestada no Teatro Lycio Neves, em Caruaru, local que acolheu seu retorno no Festival de Teatro do Agreste &#8211; Feteag 2025, a pe\u00e7a se apropria de uma narrativa tr\u00e1gica para questionar a sua perene relev\u00e2ncia e a capacidade do teatro de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[5251,1615,1583,7899,606,8663,8767,304,8806,607,548,2748,3178,306,1109,8709],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27191"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27191"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27218,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27191\/revisions\/27218"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}