{"id":27056,"date":"2025-09-30T15:40:54","date_gmt":"2025-09-30T18:40:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=27056"},"modified":"2025-09-30T19:17:54","modified_gmt":"2025-09-30T22:17:54","slug":"teatro-que-ousa-nomear-o-inominavel-uma-reflexao-sobre-um-depoimento-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/teatro-que-ousa-nomear-o-inominavel-uma-reflexao-sobre-um-depoimento-real\/","title":{"rendered":"Teatro que ousa nomear o inomin\u00e1vel <\/br> Cr\u00edtica: Um Depoimento Real"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27068\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-30-at-12.53.23-3-scaled-e1759250080921.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27068\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27068\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-30-at-12.53.23-3-scaled-e1759250080921.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"660\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27068\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Neto Barbosa. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>O abuso infantil, esse assunto perverso s\u00f3 de pensar, constitui uma ferida social que insiste em sangrar no sil\u00eancio. Essa viol\u00eancia encontra terreno f\u00e9rtil na nega\u00e7\u00e3o coletiva, no olhar que se desvia, na palavra que n\u00e3o se pronuncia. \u00c9 preciso reconhecer nessa barb\u00e1rie a mais cruel das trai\u00e7\u00f5es: a quebra do pacto de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia, daquilo que deveria ser inviol\u00e1vel na condi\u00e7\u00e3o humana, o compromisso \u00e9tico fundamental de uma gera\u00e7\u00e3o com a seguinte. Essa viol\u00eancia n\u00e3o escolhe endere\u00e7os \u2013 ela se instala tanto nos casar\u00f5es quanto nos apartamentos de classe m\u00e9dia e nas favelas, atravessa todas as geografias humanas e deixa rastros que se estendem por gera\u00e7\u00f5es inteiras. Diante dessa realidade, questiono-me sobre o papel que n\u00f3s, como sociedade, desempenhamos nesse silenciamento.<\/p>\n<p>Diante da magnitude desse silenciamento, surge a urg\u00eancia de encontrar linguagens capazes de romper com a omiss\u00e3o coletiva. As tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es do espet\u00e1culo em andamento <strong><em>Um Depoimento Real<\/em><\/strong> realizadas no Recife, no formato de abertura de processo, revelam dimens\u00f5es inesperadas sobre como as artes c\u00eanicas podem enfrentar tem\u00e1ticas t\u00e3o delicadas. Tratando-se de uma abertura de processo, o trabalho est\u00e1 destinado a ganhar outras dimens\u00f5es e aprofundamentos em suas pr\u00f3ximas etapas de desenvolvimento.<\/p>\n<p>A proposta dramat\u00fargica de Paola Traczuk, concretizada na dire\u00e7\u00e3o de Monina Bonelli e na interpreta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Neto Barbosa, configura uma alian\u00e7a art\u00edstica que se recusa a oferecer respostas ligeiras ou consola\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis. O texto original <strong><em>Los Titanes<\/em><\/strong> \u2013 t\u00edtulo que, para mim, carrega em espanhol uma for\u00e7a \u00e9pica e ir\u00f4nica muito mais impactante que sua vers\u00e3o em portugu\u00eas \u2013 apresenta um menino de oito anos que parece estar numa sala \u00e0 espera da psic\u00f3loga ou da m\u00e3e e conversa com seu c\u00e3o Tit\u00e3, elevando-o \u00e0quela categoria m\u00e1gica de companheiros que a inf\u00e2ncia cria: seres que habitam a fronteira entre o real e o imagin\u00e1rio, deposit\u00e1rios de nossa mais absoluta confian\u00e7a, guardi\u00f5es dos segredos que nem sempre conseguimos nomear.&nbsp;<\/p>\n<p>Na dramaturgia, o menino cita &#8220;os caras&#8221; das mitologias grega e romana \u2013 aqueles que comem os filhos, Cronos numa tradi\u00e7\u00e3o, Saturno em outra. A encena\u00e7\u00e3o explora deliberadamente alguma confus\u00e3o conceitual da crian\u00e7a, que mistura refer\u00eancias mitol\u00f3gicas com narrativas contempor\u00e2neas dos jogos, gibis, livros, s\u00e9ries e filmes. Traczuk utiliza essa estrat\u00e9gia dramat\u00fargica para revelar como a crian\u00e7a tenta dar sentido ao incompreens\u00edvel atrav\u00e9s das ferramentas culturais fragment\u00e1rias que possui, criando uma linguagem h\u00edbrida e truncada para nomear o horror que n\u00e3o deveria existir em seu universo. O teatro aqui convoca a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o infantil diante do trauma: a busca desesperada por refer\u00eancias que ajudem a processar o improcess\u00e1vel.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Neto Barbosa constr\u00f3i uma atua\u00e7\u00e3o calcada na delicadeza. Permanecendo a maior parte do tempo sentado, o ator utiliza microfone para ecoar a intimidade de uma conversa entre crian\u00e7a e seu confidente animal. Do seu lado esquerdo, um cavalete sustenta folhas de papel que s\u00e3o viradas conforme o desenvolvimento da narrativa, numa gestualidade que remete tanto ao ambiente escolar quanto ao consult\u00f3rio psicol\u00f3gico. O ator assume m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, controlando ele mesmo a luz e o som, numa escolha que intensifica a solid\u00e3o da crian\u00e7a e a autonomia prec\u00e1ria que ela precisa desenvolver. O cachorro caramelo permanece embaixo da mesa, presen\u00e7a silenciosa que, segundo indica\u00e7\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 mais acessada e desenvolvida nas pr\u00f3ximas etapas do processo.<\/p>\n<div id=\"attachment_27069\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-30-at-12.53.21-1-1-scaled-e1759250191912.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27069\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-27069 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-30-at-12.53.21-1-1-scaled-e1759250191912.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"522\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27069\" class=\"wp-caption-text\">A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 da argentina Monina Bonelli. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">A dire\u00e7\u00e3o de Monina Bonelli provoca regi\u00f5es sens\u00edveis para acessar a inoc\u00eancia sem perder a maturidade reflexiva que o tema exige. Sob sua orienta\u00e7\u00e3o, Barbosa evita a armadilha da infantiliza\u00e7\u00e3o caricatural, emprestando elementos genu\u00ednos do universo infantil \u2013 gestos, ritmos, descobertas lingu\u00edsticas \u2013 sem cair no estere\u00f3tipo piegas. Essa escolha interpretativa confere autoridade \u00e9tica \u00e0 narrativa: n\u00e3o \u00e9 um adulto simulando ser crian\u00e7a, mas um artista que compreende as camadas de complexidade necess\u00e1rias para expressar aqueles que foram silenciados. Bonelli orquestra uma encena\u00e7\u00e3o onde cada elemento t\u00e9cnico \u2013 desde o posicionamento do ator at\u00e9 o controle aut\u00f4nomo de luz e som \u2013 serve \u00e0 narrativa central: a solid\u00e3o de uma crian\u00e7a que precisa encontrar suas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p>Interessante notar que a encena\u00e7\u00e3o escolheu transformar o golden retriever do texto original num vira-lata caramelo \u2013 escolha que, por si s\u00f3, carrega simbolismo social e afetivo espec\u00edfico do contexto brasileiro. O c\u00e3o representa o confidente ideal: aquele que escuta sem julgar, que oferece presen\u00e7a sem exigir explica\u00e7\u00f5es, que aceita a crian\u00e7a exatamente como ela \u00e9, sem a performance social que os adultos frequentemente demandam.<\/p>\n<p>Essa aten\u00e7\u00e3o aos detalhes simb\u00f3licos revela como as cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas se enriquecem quando conseguem traduzir quest\u00f5es universais atrav\u00e9s de linguagens locais espec\u00edficas. A dramaturgia de <strong><em>Los Titanes<\/em><\/strong>&nbsp;foi desenvolvida dentro do projeto Bomb\u00f3n Gesell, curado por Monina Bonelli, diretora do Teatro Bomb\u00f3n de Buenos Aires. Em 2022, durante o <strong><em>Festival Reside<\/em><\/strong> de Paula de Renor e Celso Curi, foi realizada uma leitura do texto com Jos\u00e9 Neto Barbosa, momento em que Monina se tornou parceira do Festival Reside. O projeto Bomb\u00f3n Gesell prop\u00f5e uma reflex\u00e3o profunda sobre os dispositivos de observa\u00e7\u00e3o na sociedade contempor\u00e2nea, utilizando a c\u00e2mara de Gesell \u2013 espa\u00e7o usado na psicologia para observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica atrav\u00e9s de vidro unidirecional \u2013 tanto como met\u00e1fora quanto como estrutura dramat\u00fargica.<\/p>\n<p>Bonelli compreende que vivemos numa sociedade de vigil\u00e2ncia constante, onde somos simultaneamente observadores e observados, numa din\u00e2mica que ecoa os mecanismos de poder que permitem e perpetuam viol\u00eancias como o abuso infantil. Sua trajet\u00f3ria no Teatro Bomb\u00f3n, iniciada em 2014, consolidou uma metodologia de cria\u00e7\u00e3o que privilegia espa\u00e7os n\u00e3o convencionais e tem\u00e1ticas socialmente urgentes, desenvolvendo uma est\u00e9tica da proximidade perigosa \u2013 aquela que nos coloca face a face com aquilo que prefer\u00edamos manter distante.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da primeira apresenta\u00e7\u00e3o revelou algo extraordin\u00e1rio sobre o poder transformador do teatro: o clima de confian\u00e7a estabelecido foi tamanho que algumas pessoas da plateia compartilharam seus pr\u00f3prios traumas de inf\u00e2ncia durante o debate. Esse fen\u00f4meno demonstra como o teatro pode funcionar como espa\u00e7o de elabora\u00e7\u00e3o coletiva, onde traumas individuais encontram possibilidade de partilha atrav\u00e9s da experi\u00eancia compartilhada. A presen\u00e7a da psic\u00f3loga mediando esses momentos n\u00e3o \u00e9 apenas protocolo de seguran\u00e7a, mas reconhecimento de que abordar o abuso infantil atrav\u00e9s da arte exige responsabilidade cl\u00ednica e \u00e9tica.<\/p>\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o entre Bonelli e a S.E.M. Cia. de Teatro concretiza um projeto de circula\u00e7\u00e3o que potencializa o alcance social da obra. Enquanto a companhia brasileira, com seus 13 anos de arte militante, oferece conhecimento sobre o p\u00fablico nacional, Bonelli contribui com metodologia de cria\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o te\u00f3rica desenvolvidas em mais de uma d\u00e9cada de experimentos c\u00eanicos. Essa colabora\u00e7\u00e3o se configura como resist\u00eancia est\u00e9tica contra a globaliza\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio sobre viol\u00eancias estruturais.<\/p>\n<p>A dramaturgia de <strong>Los Titanes <\/strong>funciona atrav\u00e9s de uma po\u00e9tica da sugest\u00e3o onde o horror se insinua sem se explicitar. Traczuk constr\u00f3i uma narrativa que se desenvolve em m\u00faltiplas camadas: algumas acess\u00edveis ao p\u00fablico geral, outras que se revelam apenas para aqueles que conhecem intimamente a realidade do abuso. Essa arquitetura textual permite que a pe\u00e7a dialogue simultaneamente com diferentes p\u00fablicos, criando conex\u00f5es emp\u00e1ticas sem explorar voyeuristicamente a dor alheia. A escolha de um cachorro como confidente da crian\u00e7a oferece algumas dicas: numa sociedade onde adultos falharam em oferecer prote\u00e7\u00e3o, onde institui\u00e7\u00f5es se mostraram omissas e onde o sil\u00eancio se tornou regra, o animal pode manter a pureza da escuta incondicional.<\/p>\n<p><em><strong>Um Depoimento Real<\/strong><\/em>&nbsp;nos convida a pensar sobre aquilo que a filosofia cr\u00edtica j\u00e1 apontou: a necessidade de reconhecer as contradi\u00e7\u00f5es sociais, sem acreditar em reconcilia\u00e7\u00f5es que apaziguem prematuramente nossa consci\u00eancia. O espet\u00e1culo se recusa a oferecer catarse consoladora ou final redentor, exibindo as feridas abertas que a sociedade produz. Essa escolha est\u00e9tica e \u00e9tica aposta que arte verdadeiramente cr\u00edtica deve resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de transformar o horror em espet\u00e1culo consum\u00edvel. A pe\u00e7a mant\u00e9m as tens\u00f5es irresolvidas \u2013 a inoc\u00eancia violentada, o sil\u00eancio c\u00famplice, as institui\u00e7\u00f5es falhas \u2013, recusando-se a domesticar o trauma em narrativas que tranquilizem a audi\u00eancia.<\/p>\n<p>A necessidade da arte n\u00e3o se fundamenta em alguma capacidade de curar, conceito que pode soar ing\u00eanuo, mas em sua pot\u00eancia de despertar consci\u00eancias adormecidas pela naturaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie. O teatro, neste caso, n\u00e3o promete cura, mas oferece algo valioso: a possibilidade de romper o sil\u00eancio que protege os algozes e abandona as v\u00edtimas. A arte se torna, assim, n\u00e3o consola\u00e7\u00e3o, mas inquieta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u2013 uma for\u00e7a que mant\u00e9m as feridas abertas para que n\u00e3o se esque\u00e7am, para que n\u00e3o se naturalizem, para que as contradi\u00e7\u00f5es da sociedade permane\u00e7am vis\u00edveis e incontorn\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O abuso infantil, esse assunto perverso s\u00f3 de pensar, constitui uma ferida social que insiste em sangrar no sil\u00eancio. 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