{"id":26998,"date":"2025-09-25T09:51:04","date_gmt":"2025-09-25T12:51:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26998"},"modified":"2025-09-26T09:17:36","modified_gmt":"2025-09-26T12:17:36","slug":"tulio-carella-por-inteiro-em-orgia-e-compadrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/tulio-carella-por-inteiro-em-orgia-e-compadrio\/","title":{"rendered":"Tulio Carella por inteiro <\/br>em Orgia e compadrio"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_27002\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Carella-em-entrevista-para-a-revista-Que-Buenos-Aires-1956-no-lancamento-de-seu-livro-Tango-\u2013-mito-y-esencia.-Foto-aut.-desc._Acervo-Mario-Tesler.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27002\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27002\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Carella-em-entrevista-para-a-revista-Que-Buenos-Aires-1956-no-lancamento-de-seu-livro-Tango-\u2013-mito-y-esencia.-Foto-aut.-desc._Acervo-Mario-Tesler.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"990\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Carella-em-entrevista-para-a-revista-Que-Buenos-Aires-1956-no-lancamento-de-seu-livro-Tango-\u2013-mito-y-esencia.-Foto-aut.-desc._Acervo-Mario-Tesler.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Carella-em-entrevista-para-a-revista-Que-Buenos-Aires-1956-no-lancamento-de-seu-livro-Tango-\u2013-mito-y-esencia.-Foto-aut.-desc._Acervo-Mario-Tesler-182x300.jpg 182w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Carella-em-entrevista-para-a-revista-Que-Buenos-Aires-1956-no-lancamento-de-seu-livro-Tango-\u2013-mito-y-esencia.-Foto-aut.-desc._Acervo-Mario-Tesler-300x495.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27002\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Biografia de Alvaro Machado resgata a mem\u00f3ria do escritor e dramaturgo argentino que transformou o ex\u00edlio no Recife em literatura transgressora<\/strong>. Na imagem, Carella em entrevista para a revista <strong>Qu\u00e9<\/strong>, de Buenos Aires, 1956, no lan\u00e7amento de seu livro <strong>Tango \u2013 mito y esencia<\/strong>. Foto: Autoria desconhecida. Acervo Mario Tesler<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27007\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/recife-de-Tulio-Carella-e1758800566430.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27007\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27007\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/recife-de-Tulio-Carella-e1758800566430.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"377\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27007\" class=\"wp-caption-text\">Capital pernambucana dos anos 1960: o Recife de Tulio Carella. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_27009\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/no-livro-carella-rua-da-aurora-1-scaled-e1758801032132.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27009\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27009\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/no-livro-carella-rua-da-aurora-1-scaled-e1758801032132.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"423\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27009\" class=\"wp-caption-text\">Um das imagens do livro, com a <strong>legenda<\/strong>: Faixa com an\u00fancio da pe\u00e7a <strong>Revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul<\/strong>, de Augusto Boal, com o Teatro de Arena de S\u00e3o Paulo, montagem apresentada no Teatro de Santa Isabel, em 1960, com apoio da Prefeitura do Recife e do MCP<\/p><\/div>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o de <strong><em>Orgia e compadrio. Tulio Carella, drama e revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina<\/em><\/strong>, obra do jornalista e doutor em artes c\u00eanicas Alvaro Machado, constitui um esfor\u00e7o essencial para iluminar a vida e o legado do escritor argentino Tulio Carella. Nascido em 1912, e desde cedo de not\u00e1vel talento po\u00e9tico, o filho de emigrantes calabreses pobres logrou construir uma carreira de sucesso nos principais palcos de Buenos Aires, recebendo pr\u00eamios e aclama\u00e7\u00e3o de p\u00fablico e cr\u00edtica. De outro lado, a trajet\u00f3ria liter\u00e1ria de Carella foi permeada por uma aud\u00e1cia intelectual e pessoal que, muitas vezes, cobrou um alto pre\u00e7o. Ap\u00f3s receber orienta\u00e7\u00f5es diretas de Federico Garc\u00eda Lorca, quando contava apenas 21 anos, o portenho deu in\u00edcio a uma produ\u00e7\u00e3o vasta e variada, que come\u00e7ou com farsas teatrais e, com o tempo, voltou-se para a representa\u00e7\u00e3o de figuras marginalizadas da sociedade, explorando patrim\u00f4nios da cultura popular, como o lunfardo, o tango e o g\u00eanero teatral chamado sainete <em>criollo<\/em>.<\/p>\n<p>O destino de Carella tomou um rumo decisivo em 1960, quando aceitou o convite dos dramaturgos Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho para lecionar teatro na Universidade do Recife. Essa mudan\u00e7a para a capital pernambucana representou, al\u00e9m de um deslocamento geogr\u00e1fico, uma imers\u00e3o profunda de Carella em um universo sensorial e cultural completamente novo, nas palavras de Alvaro Machado. Longe dos bairros mais abastados, Carella optou por fixar resid\u00eancia no Recife Antigo, a \u00e1rea portu\u00e1ria repleta de vida e diversidade, habitada por popula\u00e7\u00e3o predominantemente negra e mesti\u00e7a. Ali, ele encontrou um ambiente de liberdade e efervesc\u00eancia cultural que o cativou.<\/p>\n<p>Durante sua intensa perman\u00eancia no Brasil, que se estendeu por cerca de um ano e meio, Carella manteve di\u00e1rios \u00edntimos detalhados. Neles, registrou suas experi\u00eancias sexuais homoer\u00f3ticas e centenas de perspicazes observa\u00e7\u00f5es sobre a sociedade recifense. Essas anota\u00e7\u00f5es seriam a base de seu livro mais controverso, <strong><em>Orgia<\/em><\/strong>, publicado no Brasil em 1968. A obra, que descreve sem constrangimento encontros amorosos e aborda a sexualidade livre em um Brasil ainda bastante conservador, revelou um Carella que n\u00e3o hesitava em desafiar barreiras e questionar as normas sociais de seu tempo.<\/p>\n<p>A coragem de <strong><em>Orgia<\/em><\/strong> trouxe consigo s\u00e9rias consequ\u00eancias. Em um cen\u00e1rio pol\u00edtico de crescente tens\u00e3o e forte sentimento anticomunista, Carella, um estrangeiro que interagia abertamente com as camadas populares, foi erroneamente identificado como &#8220;traficante de armas de Cuba&#8221;. Em 1961, foi sequestrado, detido e torturado por militares brasileiros na ilha de Fernando de Noronha. Sua liberta\u00e7\u00e3o veio ap\u00f3s a descoberta, por policiais, de seus di\u00e1rios numa gaveta de quitinete alugada, com p\u00e1ginas que esclareciam a natureza sexual de seus encontros, dissipando a ideia de um compl\u00f4 pol\u00edtico. Contudo, foi imediatamente dispensado da universidade e for\u00e7ado a deixar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O impacto de <strong><em>Orgia<\/em> <\/strong>se fez sentir muito al\u00e9m de sua expuls\u00e3o do Brasil. A publica\u00e7\u00e3o do livro conduziu a um verdadeiro &#8220;cancelamento&#8221; de Carella em sua terra natal, a Argentina, resultando em ostracismo social e profissional. Ap\u00f3s sua morte, em 1979, seus manuscritos originais foram destru\u00eddos por sua ex-esposa e por suas sobrinhas, sob a justificativa de que &#8220;encerravam coisas tremendas&#8221;. No entanto, o tempo, como observa Machado, validou a relev\u00e2ncia da obra. O que inicialmente foi estigmatizado como pornogr\u00e1fico, gradualmente conquistou reconhecimento como um documento hist\u00f3rico e liter\u00e1rio crucial sobre a homossexualidade no Brasil dos anos 1960. A obra de Carella passou a inspirar artistas e pesquisadores, tornando-se uma refer\u00eancia para cria\u00e7\u00f5es como o filme <strong><em>Tatuagem<\/em><\/strong> (2013), do cineasta Hilton Lacerda e o \u00e1lbum <strong><em>Orgia <\/em><\/strong>(2022)&nbsp;do cantor Johnny Hooker.<\/p>\n<p>A biografia de Alvaro Machado, <strong><em>Orgia e compadrio,<\/em><\/strong> representa um esfor\u00e7o grandioso para corrigir esse silenciamento. Machado v\u00ea Carella como um &#8220;perfil humanista no sentido renascentista do termo&#8221;, algu\u00e9m que, ao mergulhar no cotidiano do Recife, destoava muito em apar\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o local, o que, segundo o bi\u00f3grafo, &#8220;o deixava t\u00e3o excitado quanto os populares seus interlocutores&#8221;. Embora por vezes desconcertante, o olhar de Carella sobre os corpos negros era, na vis\u00e3o do bi\u00f3grafo, permeado por um &#8220;lirismo&#8221; que transformou as descri\u00e7\u00f5es er\u00f3ticas \u201cnas p\u00e1ginas mais bonitas do livro&#8221;.<\/p>\n<p>Conversamos com Alvaro Machado sobre essa jornada de resgate e a profunda conex\u00e3o que ele estabeleceu com o autor argentino ao longo de quinze anos de pesquisas.<\/p>\n<h1><strong>Entrevista: Alvaro Machado<a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Alvaro-Machado_Foto-Juliana-Kase.tif\"><img class=\"aligncenter size-full wp-image-27004\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Alvaro-Machado_Foto-Juliana-Kase.tif\" alt=\"\"><\/a><\/strong><\/h1>\n<div id=\"attachment_27006\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Alvaro-Machado_Foto-Juliana-Kase-e1758795953163.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27006\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27006\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Alvaro-Machado_Foto-Juliana-Kase-e1758795953163.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"414\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27006\" class=\"wp-caption-text\">Jornalista, pesquisador, doutor em Artes C\u00eanicas Alvaro Machado. Foto: Juliana Kase \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<blockquote>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>\u201cAp\u00f3s tantos anos de pesquisa,<br \/>\nouso dizer que Tulio Carella sou eu\u201d <\/strong><span style=\"font-size: 1rem;\"><br \/>\nAlvaro Machado<\/span><\/h1>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Ao longo de sua extensa pesquisa sobre Tulio Carella, desde antes da edi\u00e7\u00e3o de <em>Orgia, os Di\u00e1rios do Recife<\/em> (ed. Opera Prima) em 2011, at\u00e9 <em>Orgia e compadrio<\/em>, sua compreens\u00e3o do personagem e da obra passou por uma not\u00e1vel transforma\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m de um aprofundamento, essa biografia cr\u00edtica representa uma revis\u00e3o da sua interpreta\u00e7\u00e3o inicial sobre o significado pol\u00edtico e liter\u00e1rio de Carella? E, ousaria perguntar, em que medida voc\u00ea se tornou, metodologicamente, um &#8220;Carella contempor\u00e2neo&#8221;, transgredindo fronteiras disciplinares da mesma forma que ele transgredia fronteiras sexuais e nacionais?&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alvaro Machado<\/strong> \u2013&nbsp;O aprofundamento \u00e9 natural pela metodologia cient\u00edfica que a gente \u00e9 obrigado a adotar nos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, na defesa de tese. Ent\u00e3o, a partir da minha experi\u00eancia de leitura do <strong><em>Orgia<\/em><\/strong>, fui tocado pelo registro do cotidiano do Recife, dos muitos tipos, das rela\u00e7\u00f5es afetivas e sexuais, todas muito bem descritas. Pela sinceridade inicial do escritor, eu fui ler toda a obra dele, que n\u00e3o \u00e9 pequena, a obra publicada \u00e9 razo\u00e1vel. E li todos os livros, a fim de fazer o que eu me propunha, que era sua biografia.<\/p>\n<p>Uma <strong>biografia mais ou menos completa<\/strong>, apesar da grande aus\u00eancia de fontes com as quais eu me deparei inicialmente. Mas, enfim, com os depoimentos de Buenos Aires, do Recife, de Leda Alves, de Antonio Cadengue, de Lu\u00eds Reis, do Anco M\u00e1rcio, e de todo esse pessoal que estuda teatro, e principalmente de um amigo dele remanescente em Buenos Aires, M\u00e1rio Tesler, bibli\u00f3filo, bem como do filho de um colaborador dele, Ral Veroni, filho do gravador Raul Veroni. Ent\u00e3o passei a coletar documentos e me aprofundei no conhecimento do personagem. Mas, principalmente pelas obras que li \u2013 tem tamb\u00e9m obras autobiogr\u00e1ficas que eu abordo no livro, como <em>As portas da vida \u2013<\/em>, e pelas cartas que a senhora Leda Alves me forneceu acesso, que s\u00e3o cerca de 300 cartas enviadas. E a\u00ed eu entendi que ele era realmente um grande escritor, obliterado pelo esc\u00e2ndalo causado pelo livro <strong><em>Orgia<\/em><\/strong>, tanto no Brasil como na Argentina. E isso embora ele tenha pertencido a muitos c\u00edrculos liter\u00e1rios e teatrais argentinos importantes. Comecei a entender a posi\u00e7\u00e3o dele nesse cen\u00e1rio e achar cada vez mais injusta a falta de pesquisa no pr\u00f3prio pa\u00eds dele, que at\u00e9 hoje se observa. O <strong><em>Orgia<\/em><\/strong> s\u00f3 foi publicado neste ano l\u00e1, agora h\u00e1 um m\u00eas, em espanhol, a partir da tradu\u00e7\u00e3o do Hermilo Borba Filho, com revis\u00e3o cr\u00edtica da tradu\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e minhas notas.<\/p>\n<p><strong>Seu trabalho transborda uma evidente paix\u00e3o intelectual por Carella, um sentimento que, como voc\u00ea j\u00e1 expressou, foi crucial para se debru\u00e7ar sobre a figura dele. Como voc\u00ea equilibra o rigor acad\u00eamico com esse envolvimento afetivo t\u00e3o particular? E, provocativamente, ser\u00e1 que a cr\u00edtica liter\u00e1ria n\u00e3o deveria ser, em sua ess\u00eancia, tamb\u00e9m um ato de amor?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alvaro<\/strong> &#8211;&nbsp;Eu n\u00e3o teria me debru\u00e7ado sobre a vida do Tulio Carella se eu n\u00e3o tivesse um m\u00ednimo de identifica\u00e7\u00e3o com esse personagem, desde o in\u00edcio. E, <strong>ap\u00f3s tantos anos de pesquisas e reflex\u00f5es, posso dizer que \u201cTulio Carella sou eu\u201d. <\/strong>Eu endosso praticamente todas as posi\u00e7\u00f5es dele; s\u00e3o raras as posi\u00e7\u00f5es que eu n\u00e3o endossaria, que eu n\u00e3o tento compreender, ou que n\u00e3o compreendo, quando muita gente deixou de compreender, ent\u00e3o tenho uma toler\u00e2ncia grande em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s atitudes dele por me identificar desde o come\u00e7o, desde o princ\u00edpio. E&#8230; se eu vou ser marginalizado n\u00e3o sei, mas mesmo na universidade, a partir do objeto de estudo n\u00e3o foi muito f\u00e1cil conseguir interlocu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu tive de explicar bastante a posi\u00e7\u00e3o dele para os orientadores, porque <strong>partia de um<\/strong> <strong>esc\u00e2ndalo sexual<\/strong>, mas as pessoas come\u00e7aram a entender a trajet\u00f3ria, e a compreender que ele tem um <strong>aspecto pol\u00edtico muito importante<\/strong>, por isso fui fazer o doutorado com o professor, S\u00e9rgio de Carvalho, que \u00e9 especializado, digamos, em orientar teses hist\u00f3ricas. E deu muito certo, mas confesso a voc\u00ea que cheguei a ser visto assim como um p\u00e1ssaro fora do ninho.<\/p>\n<p>Mas continuamos, e eu acho que deu certo de fato agora, com a publica\u00e7\u00e3o, com muitas fotos hist\u00f3ricas e desenhos art\u00edsticos, com Carella contextualizado completamente na hist\u00f3ria do Recife e de Buenos Aires. Ent\u00e3o agora n\u00e3o tem mais por que existir essa preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A forma\u00e7\u00e3o cultural argentina de Carella, marcada pelo <em>criollismo<\/em>, pela imigra\u00e7\u00e3o europeia e pelo tango, indubitavelmente moldou sua sensibilidade para as margens sociais. Em que medida o Brasil, especificamente o Recife, funcionou como um &#8220;laborat\u00f3rio&#8221; que validou ou expandiu as teorias que ele j\u00e1 vinha desenvolvendo sobre as din\u00e2micas sociais de Buenos Aires?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alvaro<\/strong> &#8211; Ele conheceu uma evolu\u00e7\u00e3o de pensamento muito grande desde os anos 1940, onde ele estava no <em>criollismo<\/em> e na heran\u00e7a da cultura barroca espanhola, inserido na elite de Buenos Aires, dos governantes de origem hisp\u00e2nica, ou pelo menos na cultura <em>criolla<\/em>. Porque em 1940, Buenos Aires j\u00e1 era uma metr\u00f3pole bastante heterog\u00eanea. A popula\u00e7\u00e3o de imigrantes compunha um panorama bem diferente daquele do s\u00e9culo XIX. Mas ele cultivou essa tradi\u00e7\u00e3o antiga. De in\u00edcio, com as farsas dele levadas no Teatro Nacional Cervantes, que foram seus maiores sucessos. <em>Criollismo<\/em> que provinha, de certa forma, culturalmente, do chamado S\u00e9culo de Ouro espanhol, dos grandes dramaturgos de ent\u00e3o, mas logo ele come\u00e7ou a perceber outras perspectivas na cena teatral de Buenos Aires, at\u00e9 mesmo as do teatro de revista, do teatro pol\u00edtico e do cabar\u00e9 teatral, e aos poucos enveredou por uma linha pol\u00edtica mais amplamente nacional. Nacional e ao mesmo tempo cr\u00edtica do nacionalismo, sabe?, porque contemplou as margens, as franjas sociais ostensivamente ignoradas no panorama nacional \u201coficial\u201d. Depois de viajar para a Europa em 1956, a fim de conhecer alguns pa\u00edses e as suas origens it\u00e1licas, ele assumiu a mudan\u00e7a radical de adotar uma perspectiva latino-americana, com ra\u00edzes culturais ind\u00edgenas. E quando Carella veio para o Brasil, ele ampliou esse olhar com a cultura negra. Realmente, o Brasil significou uma amplia\u00e7\u00e3o dessa perspectiva latino-americanista ou pan-americanista, mas n\u00e3o no sentido bolivariano, que \u00e9 beligerante, mas no sentido humano e cultural. O Bol\u00edvar \u00e9 derivado das lutas armadas na Am\u00e9rica e ele n\u00e3o tinha essa propens\u00e3o. Ele era um pacifista.<\/p>\n<div id=\"attachment_27015\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-25-at-00.46.06-1-1-e1758802168463.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27015\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-27015 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-25-at-00.46.06-1-1-e1758802168463.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"976\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27015\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Tulio Carella de junho de 1956. Autoria desconhecida<\/p><\/div>\n<p><strong> Uma das dimens\u00f5es mais fascinantes de Carella \u00e9 o car\u00e1ter perform\u00e1tico de suas a\u00e7\u00f5es. Observando sua trajet\u00f3ria, h\u00e1 a impress\u00e3o de que a performance se dava n\u00e3o apenas nos palcos, mas em sua pr\u00f3pria vida cotidiana \u2013 desde a escolha de morar no Recife Antigo at\u00e9 a forma como registrava suas experi\u00eancias \u00edntimas. O que suas investiga\u00e7\u00f5es revelaram sobre essa teatralidade existencial de Carella? Ele era, de certa forma, o personagem mais original que criou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alvaro<\/strong> &#8211; Acredito que essa sua afirma\u00e7\u00e3o sobre ele ter criado no Recife um personagem original a partir de si mesmo corresponda \u00e0 verdade. Sim, a partir da escolha de morar em quitinete na avenida Sete de Setembro e dos passeios e derivas di\u00e1rias pela por\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da cidade, ele passou a estabelecer com muito gosto uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo c\u00eanico \u2013 composto tanto de olhares e gestos como de palavras \u2013 com os tipos populares que manifestavam curiosidade por sua figura corpulenta de dois metros de altura, sua pele alva e suas roupas de tecidos e cortes diferentes. N\u00e3o se negava a qualquer di\u00e1logo, com quem quer que o abordasse. Praticou esse interc\u00e2mbio com tanta intensidade e com tamanha aus\u00eancia de censuras que isso se tornou, de fato, como uma&nbsp; <strong>performance teatral p\u00fablica<\/strong>, como observou, por exemplo, o pesquisador alagoano Severino J. Albuquerque, professor em\u00e9rito da Universidade de Wisconsin (Madison), em ensaios que publicou sobre o portenho. Antes de dedicar-se ao ensino da Literatura, Severino formou-se em Medicina no Recife, portanto conhece muito bem a cidade. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em sua biografia, voc\u00ea escreve que Carella &#8220;confrontou-se com um meio intelectual de dif\u00edcil penetra\u00e7\u00e3o, fomentador de intrigas e vassalagens&#8221; tanto no Recife quanto em Buenos Aires. Essas &#8220;cortes culturais&#8221; parecem ter sido um obst\u00e1culo constante na trajet\u00f3ria do escritor argentino. A partir de seus levantamentos, como essas disputas de poder intelectual se manifestavam concretamente no Recife? E como voc\u00ea compreende essas din\u00e2micas de poder?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alvaro<\/strong> &#8211; Em 1960-61, quando Carella esteve entre n\u00f3s, existia no Recife uma aguda polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e o estado de Pernambuco era como uma ponta de lan\u00e7a dos debates e lutas sociais travadas nos anos seguintes no Brasil e que desembocaram na trag\u00e9dia do golpe civil-militar de 1964 e do progressivo solapamento da democracia a partir de ent\u00e3o, por longos 25 anos. Os militares e os policiais da regi\u00e3o jamais aceitaram os governos do socialista declarado <strong>Miguel Arraes<\/strong> na prefeitura da capital e no governo do estado. Assim, todo o setor militar e policial, a maior parte do Judici\u00e1rio a cabresto de latifundi\u00e1rios e senhores de engenho, parte da imprensa e mesmo institui\u00e7\u00f5es criadas especialmente para minar a organiza\u00e7\u00e3o de movimentos pela Reforma Agr\u00e1ria, alfabetiza\u00e7\u00e3o, voto popular etc. conduziram \u00e0 pris\u00e3o e \u00e0 tortura do dramaturgo argentino \u2013 contratado por parceiros de Arraes \u2013, ap\u00f3s um di\u00e1logo vigiado que ele manteve com o artista e l\u00edder comunista <strong>Abelardo da Hora<\/strong> numa cantina de reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Em outro polo de intrigas, mais tarde, j\u00e1 no final dos anos 1960, a primeira esposa de Hermilo Borba Filho, D\u00e9bora Freire, espalhou amplamente, no Recife, boatos de que o argentino teria sido amante de seu ex-marido.<\/p>\n<p><strong>Em seu trabalho, voc\u00ea notou uma transforma\u00e7\u00e3o na perspectiva sobre Carella, inclusive por parte de Leda Alves, uma fonte importante, no Recife, para seus estudos. Poderia nos detalhar essa mudan\u00e7a na forma como Carella \u00e9 percebido? E, na sua opini\u00e3o, o que motivou essa altera\u00e7\u00e3o de atitude ou de vis\u00e3o sobre ele?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alvaro<\/strong> &#8211; Desde antes de 2011, quando eu comecei a conversar com <strong>Leda Alves<\/strong>, que foi, por tanto tempo, secret\u00e1ria da cultura do Recife etc., foi uma odisseia esse contato, porque ela era refrat\u00e1ria a tratar do assunto, n\u00e3o tinha interesse, sabe? Havia um claro tabu. Mas, devido \u00e0 minha insist\u00eancia, e ao pagamento de um valor razo\u00e1vel para o contrato de republica\u00e7\u00e3o do <strong><em>Orgia<\/em> <\/strong>na tradu\u00e7\u00e3o do Hermilo Borba Filho (revisada), principalmente porque ela andava precisando de dinheiro, estava operando a vista, ela concordou. Desde ent\u00e3o passei a conversar com ela. Era obrigat\u00f3rio. Ela conheceu bastante meu personagem. E, com o tempo, Leda&nbsp; mudou a postura dela, at\u00e9 um ponto que eu diria radicalmente, em seus tr\u00eas \u00faltimos anos de vida. Inclusive assinou contrato para a realiza\u00e7\u00e3o de um filme a partir de <strong><em>Orgia<\/em><\/strong>, que seria feito pelo <strong>Karim&nbsp;A\u00efnouz<\/strong> e pelo <strong>Marcelo Gomes<\/strong>. Durou sete anos esse contrato, mas a produtora do Jo\u00e3o J\u00fanior Vieira, do Recife, n\u00e3o conseguiu levantar o dinheiro para um filme de \u00e9poca. Esse filme ainda pode ser feito, j\u00e1 que Karim est\u00e1 lendo a biografia que publiquei agora.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a Leda foi mudando nas conversas telef\u00f4nicas, ela assinou o contrato n\u00e3o s\u00f3 para o livro, mas para o filme, sabe? E conversando comigo no telefone, ela foi mudando a postura, foi valorizando o Carella, o contato pessoal que ela teve com ele e as coisas boas da rela\u00e7\u00e3o. Por qu\u00ea? Porque ela tinha um <strong>trauma que est\u00e1 contado no livro<\/strong>, que era o da <strong>fofoca<\/strong> detonada no Recife inteiro ap\u00f3s o desquite, ou o div\u00f3rcio, n\u00e3o sei, na \u00e9poca acho que era desquite, do Hermilo da primeira mulher dele, a D\u00e9bora Freire, que ficou maluca de Hermilo assumir a Leda Alves, a atriz, ex-atriz do grupo&#8230; ex-secret\u00e1ria dele&#8230; ficou maluca e come\u00e7ou a dizer no Recife que o ex-marido e Carella tinham sido amantes&#8230; E isso apavorou Leda&#8230; Ela n\u00e3o queria tratar desse trauma&#8230; e D\u00e9bora chegou a escrever cartas com ofensas para Carella&#8230; como tamb\u00e9m est\u00e1 registrado em meu livro. Ent\u00e3o, com os anos Leda ela foi mudando. E me afirmava que ele tinha sido um sujeito muito legal&#8230; que tinha as suas idiossincrasias&#8230; os seus gostos&#8230; e \u201cfazia escondido\u201d&#8230; como ela dizia&#8230; entre aspas&#8230; sem incomodar ningu\u00e9m&#8230; e que era muito discreto na sua vida pessoal&#8230; e que principalmente ele influenciou a convers\u00e3o de Hermilo ao catolicismo, \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica. Inclusive com o casamento dela celebrado por Dom Helder Camara, extraoficialmente, porque n\u00e3o podia, o Hermilo j\u00e1 era casado, j\u00e1 tinha sido casado. E at\u00e9 o final, um ano antes da morte dela, mais ou menos, ela falava coisas muito legais do Carella, mudou totalmente a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Meu livro \u00e9 pelo menos vinte por cento sobre o Hermilo. Porque &nbsp;eles influenciaram muito um ao outro, sabe? Isso \u00e9 muito importante.&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_27014\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Tulio-Carella_-Chegada-ao-Recife-em-1961_Foto-na-coluna-Diario-Artistico-de-Joel-Pontes-do-Diario-de-Pernambuco-1-e1758801487747.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-27014\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27014\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Tulio-Carella_-Chegada-ao-Recife-em-1961_Foto-na-coluna-Diario-Artistico-de-Joel-Pontes-do-Diario-de-Pernambuco-1-e1758801487747.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"600\"><\/a><p id=\"caption-attachment-27014\" class=\"wp-caption-text\">Chegada ao Recife em 1961. Foto na coluna Di\u00e1rio Art\u00edstico, de Joel Pontes, do Diario de Pernambuco&nbsp;<\/p><\/div>\n<p><strong>Seu livro surge em um per\u00edodo de recrudescimento conservador na Am\u00e9rica Latina. Diante disso, que conex\u00f5es voc\u00ea estabelece entre este cen\u00e1rio e a trajet\u00f3ria de Carella??&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Pois \u00e9, sobre essa quest\u00e3o de ideologia de g\u00eanero, do momento pol\u00edtico atual: &nbsp;realmente assume agora uma grande import\u00e2ncia a posi\u00e7\u00e3o pan-americanista dele e do Hermilo, que era uma ideologia almejada pelos dois, &nbsp;em especial neste momento de retrocesso de posi\u00e7\u00f5es, de enfraquecimento da esquerda pol\u00edtica em toda a Am\u00e9rica Latina. Tamb\u00e9m por isso ele foi para o Recife, por isso se estabeleceu na cidade e pretendia permanecer nela at\u00e9 morrer, se n\u00e3o tivesse sido expulso. Porque ele dividia essa ideologia, esse ideal mais que ideologia, porque partilhava esse ideal com o Hermilo e com outros brasileiros. Assim, o <em>Orgia <\/em>se tornou o mais importante de todos os livros do Carella, e o mais estudado.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o se tornam agora ainda mais importantes os livros dele, como o tamb\u00e9m autobiogr\u00e1fico <em>Las puertas de la vida<\/em> [As portas da vida], muito citado em minha biografia por essa posi\u00e7\u00e3o de abertura e valoriza\u00e7\u00e3o das culturas aut\u00f3ctones da Am\u00e9rica, dos ind\u00edgenas dos dois pa\u00edses e dos escravizados que come\u00e7aram a ser trazidos no s\u00e9culo XVI e se estabeleceram aqui para tomar parte da brasilidade. Mas Carella tamb\u00e9m possu\u00eda a sua heran\u00e7a cultural espec\u00edfica. Ent\u00e3o a valoriza\u00e7\u00e3o desses elementos \u00e9 uma coisa na qual ele foi pioneiro. E tamb\u00e9m o seu rep\u00fadio \u00e0 cultura europeia. E se ele n\u00e3o discutia propriamente ideologias de g\u00eanero, <strong>&nbsp;assumiu a bissexualidade ao publicar <em>Orgia<\/em> em&nbsp;1968 <\/strong>a pedido do Hermilo. E mais ainda no come\u00e7o de 1969, ao distribuir mais de trinta c\u00f3pias desse livro em Buenos Aires, orgulhosamente, sem medo. Isso acarretou a separa\u00e7\u00e3o de sua mulher, que n\u00e3o aguentou essa revela\u00e7\u00e3o da bissexualidade, e ele passou a viver sozinho, ficou muito na dele, muito tranquilo, muito no pensamento estoico e c\u00ednico que perseguia, com uma certa pobreza de meios, num bairro pobre de Buenos Aires, que \u00e9 o Congreso, ainda hoje \u00e9 pobre, n\u00e3o \u00e9 um bairro abastado, mas feliz, tranquilo, em paz, de bem com a vida, sem ressentimentos de ningu\u00e9m, s\u00f3 o forte desejo de voltar para o Recife, que n\u00e3o realizou, infelizmente. Mesmo no final da vida ele teria voltado.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia f\u00edsica dele foi um tanto r\u00e1pida, em um ano ele estragou a sa\u00fade&#8230; fumava muito&#8230; e tinha outros problemas tamb\u00e9m, de pr\u00f3stata etc..&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea imagina que Carella reagiria aos debates contempor\u00e2neos sobre identidade de g\u00eanero e diversidade sexual na Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alvaro<\/strong> &#8211; Acho que se ele estivesse vivo hoje, ele n\u00e3o participaria desse debate todo que a gente vive, racial e de g\u00eanero. Eu acho que ele ia preferir realmente atuar literariamente. Ele nunca deu esse tipo de palestra durante a vida dele e eu acho que ele se isentaria, se ausentaria mesmo. E preferiria uma luta, uma trincheira, de fato, liter\u00e1ria, ou na cr\u00edtica. Penso que nem seria expl\u00edcita, porque, apesar de ter escrito <em>Picaresca porte\u00f1a<\/em>, esse livro \u00e9 composto de ensaios sobre caracter\u00edsticas hist\u00f3ricas da cultura argentina, e n\u00e3o atualidades, n\u00e3o debate pol\u00edtico atual.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s uma imers\u00e3o t\u00e3o profunda, o que, porventura, ficou por ser dito sobre Carella neste livro? Voc\u00ea sente que esgotou as possibilidades interpretativas dessa figura t\u00e3o complexa, ou ainda h\u00e1 territ\u00f3rios a explorar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alvaro &#8211; Eu n\u00e3o considero que esgotei o Carella<\/strong>, n\u00e3o, de forma nenhuma. <strong>\u00c9 um personagem rico demais e merece ainda muitas pesquisas.<\/strong> Mandei essa biografia h\u00e1 um m\u00eas para a Biblioteca do Congresso Nacional, em Buenos Aires, e ela foi aceita no acervo, para que outras pessoas possam pesquisar a obra dele, porque apesar de o livro ser extenso, com 360 p\u00e1ginas, existem muitas facetas e textos dele muito bons, desconhecidos, porque tudo que ele &nbsp;fazia era com alto n\u00edvel de excel\u00eancia na escrita. Ent\u00e3o acredito que foi uma pesquisa at\u00e9 <strong>inaugural<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-27017 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/CAPA_Orgia-e-compadrio-1-e1758803860146.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"213\"><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong><span style=\"font-size: 1.5rem;\">Orgia e compadrio : <\/span><\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Tulio Carella, drama e revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/em><br \/>\n<strong>Autor: Alvaro Machado<\/strong><br \/>\n<strong>Editora: Cosac<\/strong><br \/>\n<strong>R$ 132,00<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A publica\u00e7\u00e3o de Orgia e compadrio. Tulio Carella, drama e revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, obra do jornalista e doutor em artes c\u00eanicas Alvaro Machado, constitui um esfor\u00e7o essencial para iluminar a vida e o legado do escritor argentino Tulio Carella. Nascido em 1912, e desde cedo de not\u00e1vel talento po\u00e9tico, o filho de emigrantes calabreses [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[4249],"tags":[8613,59,8617,8624,8615,8611,8620,8625,8618,8619,973,8627,8616,8626,8628,419,8610,8612,8622,197,8614,8621,4908,8623,5176],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26998"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26998"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26998\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27048,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26998\/revisions\/27048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}