{"id":26900,"date":"2025-09-11T22:09:34","date_gmt":"2025-09-12T01:09:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26900"},"modified":"2025-09-11T22:09:34","modified_gmt":"2025-09-12T01:09:34","slug":"ate-sempre-vava-schon-paulino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ate-sempre-vava-schon-paulino\/","title":{"rendered":"At\u00e9 sempre Vav\u00e1 Sch\u00f6n-Paulino"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26905\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Heliogabalo-eu-1990-foto-Deborah-valenca-e1757638865994.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26905\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26905\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Heliogabalo-eu-1990-foto-Deborah-valenca-e1757638865994.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"600\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26905\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Heliog\u00e1balo &amp; Eu<\/strong> (1990). Foto: Deborah Valen\u00e7a<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26904\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-11-at-21.02.08-e1757638903315.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26904\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-26904 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-11-at-21.02.08-e1757638903315.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"598\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26904\" class=\"wp-caption-text\">Um artista de muitas frentes: ator, poeta, artista pl\u00e1stico, performer e gestor p\u00fablico.<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26903\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-11-at-19.54.40-e1757634960236.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26903\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26903\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-11-at-19.54.40-e1757634960236.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"727\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26903\" class=\"wp-caption-text\">Vav\u00e1 morreu tragicamente neste 11 de setembro de 2025 em um inc\u00eandio em sua resid\u00eancia, em Floresta (PE)<\/p><\/div>\n<p><strong>Vav\u00e1 Sch\u00f6n-Paulino<\/strong> entrava em cena como quem entra em casa. Sem alarde, sem pedir licen\u00e7a, mas com o cuidado de quem sabe onde cada objeto repousa e que luz acende primeiro. Havia algo de menino no gesto \u2014 o riso f\u00e1cil, os olhos atentos, uma curiosidade que n\u00e3o se gastava com o tempo. Ele&nbsp; atuava como quem oferece \u00e1gua a quem chega cansado: com generosidade, precis\u00e3o e uma confian\u00e7a \u00edntima na partilha. Essa confian\u00e7a moldou sua presen\u00e7a de ator, de educador, de provocador de processos, de artes\u00e3o de encontros. Nos trabalhos marcantes \u2014 da secura luminosa de <em><strong>Fim de Jogo<\/strong> <\/em>(Beckett), em montagem dirigida por Jo\u00e3o Denys \u00e0 <strong><em>Rasif \u2013 Mar que arrebenta<\/em><\/strong>, a partir de textos de Marcelino Freire, \u00e0 do ritual inst\u00e1vel de <strong><em>Heliog\u00e1balo &amp; Eu<\/em> <\/strong>(1990) \u00e0 medonha constata\u00e7\u00e3o capitalista de <strong><em>A carne mais barata<\/em><\/strong> &nbsp;\u2014 sempre se reconhecia um fio: Vav\u00e1 habitava a cena, deixando que alguns sentidos aparecessem no atrito entre corpos, palavras, sil\u00eancio e tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 com esse cuidado que hoje, inevitavelmente, escrevemos no passado. Vav\u00e1 morreu tragicamente neste 11 de setembro de 2025 em um inc\u00eandio em sua resid\u00eancia, em Floresta, no Sert\u00e3o de Pernambuco, um m\u00eas depois completar 65 anos. A trag\u00e9dia exp\u00f4s um problema antigo: a aus\u00eancia de um quartel do Corpo de Bombeiros no munic\u00edpio, o que retardou o atendimento e agravou o desfecho. Nascido em Floresta, o artista mudou-se para o Recife em 1978 e, por mais de quatro d\u00e9cadas, foi presen\u00e7a articuladora e generosa na cena cultural pernambucana; h\u00e1 cerca de dez anos, voltou \u00e0 cidade natal, onde seguiu como gestor, formador e artista \u2014 costurando pessoas, ideias e territ\u00f3rios com a mesma delicadeza com que entrava no palco.<\/p>\n<p>Vav\u00e1 foi um artista de muitas frentes: ator, poeta, artista pl\u00e1stico, performer e gestor p\u00fablico. Na gest\u00e3o cultural, assumiu pap\u00e9is decisivos \u2014 coordenador do Centro Apolo-Hermilo, diretor do Teatro de Santa Isabel, diretor de Cultura em Floresta e vice-presidente do SATED-PE. No teatro, ergueu uma trajet\u00f3ria vasta e variada. Atuou em <strong><em>A carne mais barata<\/em><\/strong> (2005), <em><strong>Espetacular &amp; Espetaculoso<\/strong><\/em> (2014), performance <strong><em>De Profundis<\/em><\/strong>, <strong><em>Cenas Abissais<\/em><\/strong> (1987), <strong><em>Cinderela, a hist\u00f3ria que sua m\u00e3e n\u00e3o contou<\/em><\/strong> (1999), <strong><em>Em nome do desejo<\/em><\/strong> (1990), <em><strong>O balc\u00e3o<\/strong><\/em> (1987), <em><strong>O burgu\u00eas fidalgo<\/strong><\/em> (1988), <strong><em>Os palha\u00e7os da Rua da Alegria<\/em><\/strong> (1992) e <em><strong>Quarteto<\/strong><\/em> (1988). N\u00e3o \u00e9 uma lista exaustiva, mas aponta a extens\u00e3o do gesto: do popular ao experimental, da farsa \u00e0 poesia c\u00eanica, da pedagogia \u00e0 pr\u00e1tica cotidiana de teatro.<\/p>\n<p>Talvez por isso suas aulas-oficinas ressoassem como ensaios de vida: \u201cConsumo e Pr\u00e1xis Criadora\u201d era um m\u00e9todo. Ensinar, para ele, era encostar o ouvido no ch\u00e3o at\u00e9 sentir o trepidar do que vem \u2014 e, ent\u00e3o, convidar todo mundo a experimentar junto. Primeiro o jogo, depois a tese; primeiro o risco, depois a palavra. Quando provocava \u201cEstarei esperando Godot?\u201d, havia ironia e ternura na mesma medida: n\u00e3o a resigna\u00e7\u00e3o de quem aguarda o que n\u00e3o chega, mas o impulso de montar um espa\u00e7o comum onde o encontro, esse sim, aconte\u00e7a. O que Vav\u00e1 propunha era simples e exigente: trabalhar a partir do \u201cnosso quintal de subjetividades\u201d, insistindo que a tal Internet das Coisas s\u00f3 faz sentido quando come\u00e7a no ch\u00e3o compartilhado da presen\u00e7a, do erro, do gesto que ainda n\u00e3o sabe o nome. Da sala de ensaio ao corredor, do p\u00e1tio \u00e0 rua, sua obra parecia dizer que a arte n\u00e3o \u201crepresenta\u201d a vida: ela a curva um pouco, o bastante para que possamos passar.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse ponto que a transitoriedade se imp\u00f5e, n\u00e3o como lamento, mas como claridade. O teatro, por defini\u00e7\u00e3o, passa \u2014 e \u00e9 no passar que ele nos toca. Vav\u00e1 parecia saber disso desde sempre: n\u00e3o colecionava certezas; colecionava instantes. O palco, para ele, era o lugar onde o agora se d\u00e1 por inteiro. Vav\u00e1 armava a cena, no processo de preparar o terreno, arejar o ar, abrir passagem para que o extraordin\u00e1rio do agora possa, quem sabe, acontecer. E, se o tempo \u00e9 o tecido do teatro, Caetano Veloso o nomeia com alegria grave: \u201cCompositor de destinos, tambor de todos os ritmos, tempo, tempo, tempo, tempo.\u201d Vav\u00e1 marcava esse compasso com a paci\u00eancia de quem sabe que o ritmo n\u00e3o \u00e9 a pressa; \u00e9 a escuta \u2014 a cad\u00eancia comum que faz de muitos um coro.<\/p>\n<p>Transitoriedade \u00e9 mat\u00e9ria. O que passa nos forma. Em <strong><em>Rasif \u2013 Mar que arrebenta<\/em><\/strong>, com ele, aprendemos que a mar\u00e9 n\u00e3o repete o desenho, mas insiste no gesto: vem, toca, recua, volta. Em <strong><em>Fim de Jogo<\/em><\/strong>, descobrimos ao seu lado que o palco \u00e9 um laborat\u00f3rio de ru\u00ednas onde a vida insiste em brotar. Em <strong><em>Heliog\u00e1balo &amp; Eu<\/em><\/strong>, dan\u00e7amos na instabilidade. A pedagogia que deixou \u2014 feita de encontros, partilhas, cansa\u00e7os honestos e um humor que desembara\u00e7a \u2014 foi um convite: experimentar o presente com inteireza. Talvez seja esse o maior legado: uma \u00e9tica da presen\u00e7a que n\u00e3o perde tempo lutando contra o tempo, mas o transforma em parceria de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se perguntarem o que fica quando a luz desce, diremos talvez o exerc\u00edcio da aten\u00e7\u00e3o, que Vav\u00e1 cultivou na cena e na vida; talvez a coragem de experimentar antes de entender; quem sabe o riso que desata n\u00f3s; quisera a delicadeza firme de quem sabe a hora de falar e a hora de ouvir; fica, sobretudo, a certeza de que o teatro \u00e9 uma arte do encontro, e que o encontro s\u00f3 existe porque somos, todos, passagem.<\/p>\n<p>E se a not\u00edcia dura precisa caber num texto \u2014 a morte em inc\u00eandio, em casa, em Floresta; a cidade sem quartel de bombeiros; os muitos amigos e alunos desamparados \u2014 ent\u00e3o que caiba junto o que a sustenta: a trajet\u00f3ria de um artista que fez do palco uma casa e da casa um lugar comum. O que fica agora \u00e9 que a cena \u00e9 encontro: esse foi o norte. E, enquanto o tempo comp\u00f5e destinos e a cena se refaz, seguimos o conselho impl\u00edcito que sua trajet\u00f3ria nos deixou: primeiro a partilha, depois o conceito; primeiro a vida, depois o nome. Porque a mat\u00e9ria passa, mas o gesto como res\u00edduo drummondiano \u2014 esse sim \u2014 aprende a ficar. O resto a gente tenta aprender, como ele, em comum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vav\u00e1 Sch\u00f6n-Paulino entrava em cena como quem entra em casa. Sem alarde, sem pedir licen\u00e7a, mas com o cuidado de quem sabe onde cada objeto repousa e que luz acende primeiro. Havia algo de menino no gesto \u2014 o riso f\u00e1cil, os olhos atentos, uma curiosidade que n\u00e3o se gastava com o tempo. 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