{"id":26777,"date":"2025-08-05T17:45:29","date_gmt":"2025-08-05T20:45:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26777"},"modified":"2025-08-05T17:49:54","modified_gmt":"2025-08-05T20:49:54","slug":"hblynda-em-transito-aposta-na-forca-politica-das-narrativas-trans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hblynda-em-transito-aposta-na-forca-politica-das-narrativas-trans\/","title":{"rendered":"HBLYNDA EM TRANSito aposta <\/br> na for\u00e7a pol\u00edtica das narrativas trans"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26783\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/WhatsApp-Image-2025-08-05-at-15.43.37-1-e1754420626633.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26783\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26783\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/WhatsApp-Image-2025-08-05-at-15.43.37-1-e1754420626633.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"352\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26783\" class=\"wp-caption-text\">HBlynda Morais \u00e9 uma artista n\u00e3o bin\u00e1ria, negra, gorda, candomblecista e perif\u00e9rica. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O teatro contempor\u00e2neo brasileiro experimenta uma reconfigura\u00e7\u00e3o radical de seus protocolos narrativos. Corpos historicamente relegados \u00e0s margens dos processos de representa\u00e7\u00e3o agora reivindicam a autoria de suas pr\u00f3prias dramaturgias, subvertendo hierarquias seculares entre quem conta e quem \u00e9 contado. Neste cen\u00e1rio de disputas est\u00e9ticas e pol\u00edticas, o espet\u00e1culo <strong><em>HBLYNDA EM TRANSito<\/em><\/strong>&nbsp;opera como laborat\u00f3rio onde biografia e fic\u00e7\u00e3o se contaminam mutuamente, produzindo uma dramaturgia que desafia tanto conven\u00e7\u00f5es teatrais quanto epistemologias dominantes sobre g\u00eanero e sexualidade.<\/p>\n<p><strong><em>HBLYNDA EM TRANSito<\/em><\/strong>, dirigido por Emmanuel Matheus e com dire\u00e7\u00e3o musical de Raphael Venos, utiliza elementos performativos que combinam teatro, dan\u00e7a e m\u00fasica. A montagem celebra os 15 anos de carreira art\u00edstica de HBlynda Morais, como tamb\u00e9m sua pr\u00f3pria exist\u00eancia como contradiscurso \u00e0s estat\u00edsticas que condenam pessoas trans ao desaparecimento precoce.<\/p>\n<p>A pot\u00eancia pol\u00edtica do espet\u00e1culo reside na interseccionalidade presente na obra. HBlynda Morais \u00e9 uma pessoa n\u00e3o bin\u00e1ria que acumula marcadores sociais de diferen\u00e7a: negra, gorda, candomblecista e oriunda das periferias urbanas. Esta multiplicidade de identidades reflete a complexidade das experi\u00eancias trans no pa\u00eds. Sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u2013 licenciatura em Hist\u00f3ria pela UPE e mestrado em andamento na UFPE \u2013 subverte narrativas que associam pessoas trans ao abandono escolar e \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Os dados sobre a expectativa de vida de pessoas trans no Brasil s\u00e3o alarmantes, especialmente quando recortados por ra\u00e7a e classe social. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a expectativa de vida m\u00e9dia \u00e9 de apenas 35 anos. Neste contexto, cada ano de vida de uma pessoa trans negra representa um ato de resist\u00eancia contra um projeto necropol\u00edtico sistem\u00e1tico.<\/p>\n<p>A iniciativa &#8220;Trans Free&#8221; para ingressos gratuitos destinados a pessoas trans, travestis e n\u00e3o bin\u00e1rias demonstra o compromisso do projeto com a democratiza\u00e7\u00e3o cultural. \u00c9 um reconhecimento de que o teatro deve ser acess\u00edvel \u00e0s comunidades cujas experi\u00eancias documenta.<\/p>\n<h2>Urg\u00eancia do Testemunho<\/h2>\n<div id=\"attachment_26782\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HBLYNDA-EM-TRANSITO-2-e1754416246699.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26782\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26782\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HBLYNDA-EM-TRANSITO-2-e1754416246699.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"356\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26782\" class=\"wp-caption-text\">A encena\u00e7\u00e3o dirigida por Emmanuel Matheus. Foto: L\u00edgia Jardim \/ Divulg\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong><em>HBLYNDA EM TRANSito<\/em><\/strong> integra uma linhagem espec\u00edfica do teatro contempor\u00e2neo onde performer e personagem coincidem na mesma pessoa. Este trabalho opera a partir do entendimento de que toda autobiografia \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o narrativa atravessada por c\u00f3digos culturais, expectativas de g\u00eanero e demandas de inteligibilidade social.<\/p>\n<p>A especificidade desta opera\u00e7\u00e3o reside no fato de que, para pessoas trans, narrar a pr\u00f3pria vida implica necessariamente confrontar discursos m\u00e9dicos, jur\u00eddicos e familiares que historicamente definiram suas identidades como patol\u00f3gicas. Ao assumir a autoria de sua narrativa, HBlynda n\u00e3o busca estabelecer uma &#8220;verdade&#8221; sobre sua experi\u00eancia, mas demonstrar como certas vidas precisam ser constantemente reinventadas para existir.<\/p>\n<p>Quando Judith Butler desenvolveu sua teoria sobre a performatividade de g\u00eanero em <em>Corpos que Importam<\/em>&nbsp;(2019), ela abriu caminho para compreendermos como as identidades se constroem atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o de atos performativos. No teatro, essa constru\u00e7\u00e3o ganha dimens\u00f5es ainda mais potentes: o palco teatral intensifica a ambival\u00eancia da performatividade, ao mesmo tempo que reitera conven\u00e7\u00f5es c\u00eanicas, permite que corpos dissidentes reconfigurem os c\u00f3digos de inteligibilidade social.<\/p>\n<p>Paul B. Preciado, em <em>Manifesto Contrassexual<\/em>&nbsp;(2014), argumenta que os corpos trans funcionam como &#8220;tecnologias de resist\u00eancia&#8221; aos dispositivos normativos de sexo-g\u00eanero. O teatro autobiogr\u00e1fico trans radicaliza esta proposi\u00e7\u00e3o ao fazer da pr\u00f3pria vida mat\u00e9ria-prima est\u00e9tica, transformando experi\u00eancia em conhecimento e trauma em linguagem c\u00eanica.<\/p>\n<div id=\"attachment_26778\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HBLYNDA-e1754406058241.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26778\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26778\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HBLYNDA-e1754406058241.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"396\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26778\" class=\"wp-caption-text\"><strong>HBLYNDA EM TRANSito<\/strong> reafirma o palco como territ\u00f3rio de resist\u00eancia. Foto: L\u00edgia Jardim<\/p><\/div>\n<p><strong><em>HBLYNDA EM TRANSito<\/em><\/strong>&nbsp;transforma o que a sociedade codifica como &#8220;desvio&#8221; em metodologia de conhecimento. Enquanto o teatro tradicional trabalha com personagens ficcionais que representam tipos sociais, este trabalho investe na pr\u00f3pria vida como arquivo de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando HBlynda narra sua trajet\u00f3ria, n\u00e3o est\u00e1 oferecendo uma &#8220;li\u00e7\u00e3o de vida&#8221; ou um &#8220;exemplo de supera\u00e7\u00e3o&#8221;, mas documentando as estrat\u00e9gias micropol\u00edticas necess\u00e1rias para sobreviver em um pa\u00eds que mata uma pessoa trans a cada 48 horas. O palco se torna um laborat\u00f3rio de sobreviv\u00eancia onde t\u00e9cnicas de resist\u00eancia s\u00e3o compartilhadas atrav\u00e9s da performance.<\/p>\n<p>O que emerge desta opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais uma narrativa de supera\u00e7\u00e3o, mas a instala\u00e7\u00e3o de uma temporalidade dissidente. Enquanto a l\u00f3gica cisnormativa organiza o tempo em termos de desenvolvimento linear rumo \u00e0 &#8220;normalidade&#8221;, <strong><em>HBLYNDA EM TRANSito<\/em><\/strong>&nbsp;prop\u00f5e uma cronologia queer onde cada momento de exist\u00eancia constitui uma afirma\u00e7\u00e3o fundamental de que corpos como o seu t\u00eam direito de estar no mundo. A celebra\u00e7\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 do indiv\u00edduo que &#8220;venceu na vida&#8221;, mas da pr\u00f3pria possibilidade de que vidas como essa continuem acontecendo &#8211; desobedientes, incontrol\u00e1veis, imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n&#x1f5d3;&#xfe0f; Datas: 05 e 06 de agosto de 2025, &#x23f0; 20h<br \/>\nLocal: Teatro Hermilo Borba Filho \u2013 Recife\/PE<br \/>\n&#x1f39f;&#xfe0f; Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada)<br \/>\n&#x1f4b3; Vendas: Plataforma Sympla<br \/>\n&#x1f3f3;&#xfe0f;&#x200d;&#x26a7;&#xfe0f; Pol\u00edtica inclusiva: Trans Free \u2013 entrada gratuita para pessoas trans, travestis e n\u00e3o bin\u00e1rias<\/p>\n<p><strong>FICHA T\u00c9CNICA<\/strong><br \/>\nAtua\u00e7\u00e3o e Dramaturgia: HBlynda Morais<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o Geral: Emmanuel Matheus<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o Musical: Raphael Venos<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Realiza\u00e7\u00e3o com recursos do FUNCULTURA e PNAB<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O teatro contempor\u00e2neo brasileiro experimenta uma reconfigura\u00e7\u00e3o radical de seus protocolos narrativos. 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