{"id":26585,"date":"2025-06-13T14:04:36","date_gmt":"2025-06-13T17:04:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26585"},"modified":"2025-06-13T15:50:08","modified_gmt":"2025-06-13T18:50:08","slug":"poetica-da-masculinidade-em-movimento-critica-umbigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/poetica-da-masculinidade-em-movimento-critica-umbigo\/","title":{"rendered":"<\/strong>Po\u00e9tica da masculinidade <\/br>em movimento<\/strong> <\/br> Cr\u00edtica: Umbigo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26593\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo-foto-joao-erisson-3-1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26593\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-26593 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo-foto-joao-erisson-3-1-e1749739527940.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26593\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo Umbigo, da Companhia Ozinformais, de Alagoas,. Foto: Jo\u00e3o Erisson \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26590\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo3-e1749738867756.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26590\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-26590 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo3-e1749738867756.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26590\" class=\"wp-caption-text\">Bailarinos-criadores Jos\u00e9 Marcos Tope e Jal Oliveira. Foto: Jo\u00e3o Erisson \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-26-at-11.52.17.jpeg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26485 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-26-at-11.52.17.jpeg\" alt=\"\" width=\"202\" height=\"97\"><\/a>Umbigo<\/em>, espet\u00e1culo da Companhia Ozinformais, de Alagoas, com os bailarinos Jal Oliveira e Jos\u00e9 Marcos Topete e dire\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Barros, foi apresentado no <em>Palco Girat\u00f3rio \u2013 19\u00ba Festival Porto Alegre, <\/em>no dia 3 de junho, no Teatro CHC Santa Casa. E circula pelo <em>Palco Girat\u00f3rio<\/em> por v\u00e1rias cidades brasileiras. Parto da premissa de que esse trabalho se revela como uma contundente reflex\u00e3o corporal que, ao se inspirar em tradi\u00e7\u00f5es como o Tor\u00e9 e o Coco de Roda, estabelece um di\u00e1logo provocador com as masculinidades contempor\u00e2neas. Proponho que sua po\u00e9tica corporal ao celebrar essas manifesta\u00e7\u00f5es culturais, tamb\u00e9m as fricciona com as quest\u00f5es de ser homem no s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo abra\u00e7a e reelabora tradi\u00e7\u00f5es culturais alagoanas, pr\u00e1ticas ancestrais que representam elaborados sistemas de conhecimento corporal e cosmovis\u00f5es. Essas manifesta\u00e7\u00f5es oferecem um rico repert\u00f3rio de movimentos, ritmos e espacialidades, servindo como base para a explora\u00e7\u00e3o de narrativas corporais.<\/p>\n<p>O Tor\u00e9, ritual dos povos ind\u00edgenas do Nordeste brasileiro, notadamente os Kariri-Xoc\u00f3 e Xucuru-Kariri de Alagoas, Pankararu, Fulni-\u00f4, Truk\u00e1, Kambiw\u00e1, Pipip\u00e3, Pankar\u00e1 e Xukuru (Pernambuco), Potiguara (Para\u00edba, Cear\u00e1 e Rio Grande do Norte), Tumbalal\u00e1, Kiriri, Patax\u00f3, Patax\u00f3 H\u00e3-H\u00e3-H\u00e3e, Kaimb\u00e9 e Kantarur\u00e9 (Bahia), Xoc\u00f3 (Sergipe), Trememb\u00e9, Tapeba, Jenipapo-Kanind\u00e9 e Anac\u00e9 (Cear\u00e1), Atikum (Pernambuco e Bahia), Tupinamb\u00e1 (Bahia), Kalank\u00f3, Koiupank\u00e1, Karuazu e Tux\u00e1 (Alagoas, Bahia e Pernambuco), manifesta-se como dan\u00e7a circular concebida para estabelecer contato com entidades ancestrais, a espiritualidade da terra e a coes\u00e3o comunit\u00e1ria. Caracterizado pelo movimento r\u00edtmico e cont\u00ednuo dos p\u00e9s no ch\u00e3o, gera c\u00edrculos din\u00e2micos, acompanhado por cantos e pelo som de marac\u00e1s.<\/p>\n<p>Na pe\u00e7a de dan\u00e7a <em>Umbigo<\/em>, a circularidade e a percuss\u00e3o insistente dos p\u00e9s no solo tornam-se princ\u00edpios estruturantes da coreografia, ressoando a resist\u00eancia cultural e a for\u00e7a tel\u00farica desses povos.<\/p>\n<p>Paralelamente, o Coco de Roda alagoano, manifesta\u00e7\u00e3o cultural de ra\u00edzes afro-brasileiras<br \/>\nnascida nos quilombos e engenhos a\u00e7ucareiros, apresenta-se como patrim\u00f4nio cultural de elaborada tecnicidade r\u00edtmica e coreogr\u00e1fica, forjado em contextos de resist\u00eancia e celebra\u00e7\u00e3o. O trup\u00e9 \u2013 caprichado jogo de batidas dos p\u00e9s que gera padr\u00f5es r\u00edtmicos intrincados e sincopados \u2013 evidencia um refinado sistema de saber corporal. Essa t\u00e9cnica demanda not\u00e1vel destreza, coordena\u00e7\u00e3o e sensibilidade r\u00edtmica, sendo ressignificada no espet\u00e1culo ao transpor sua ess\u00eancia tradicional para uma linguagem coreogr\u00e1fica contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Entrela\u00e7ando mem\u00f3ria, resist\u00eancia e pertencimento, essas manifesta\u00e7\u00f5es culturais permitem que Umbigo construa pontes entre temporalidades e contextos diversos, gerando novas energias.<\/p>\n<div id=\"attachment_26591\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo-2-e1749831390803.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26591\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-26591 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo-2-e1749831390803.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26591\" class=\"wp-caption-text\">Masculinidades em Transforma\u00e7\u00e3o: Di\u00e1logos Te\u00f3ricos e Corporais<\/p><\/div>\n<p>A proposta c\u00eanica estabelece di\u00e1logo frut\u00edfero com as teorias contempor\u00e2neas sobre masculinidades, especialmente com Raewyn Connell e bell hooks. Connell prop\u00f5e que n\u00e3o existe uma masculinidade singular, mas diversas configura\u00e7\u00f5es hierarquicamente organizadas. Seu conceito de &#8220;masculinidade hegem\u00f4nica&#8221; refere-se a pr\u00e1ticas de g\u00eanero que legitimam a posi\u00e7\u00e3o dominante de alguns homens e a subordina\u00e7\u00e3o das mulheres e outros homens.<\/p>\n<p>Connell identifica quatro padr\u00f5es: hegem\u00f4nica (forma culturalmente exaltada e dominante), c\u00famplice (benefici\u00e1rios dos dividendos patriarcais), subordinada (formas oprimidas pela hegem\u00f4nica) e marginalizada (relacionada a homens subalternizados por classe, ra\u00e7a ou etnia).<\/p>\n<p><em>Umbigo<\/em> contesta o modelo dominante atrav\u00e9s da corporalidade dan\u00e7ante. Os corpos masculinos manifestam pr\u00e1ticas contra-hegem\u00f4nicas \u2013 formas de express\u00e3o que desafiam expectativas normativas sobre como homens devem se movimentar, expressar emo\u00e7\u00f5es e se relacionar.<\/p>\n<p>bell hooks desenvolve uma cr\u00edtica incisiva \u00e0 masculinidade patriarcal, argumentando que esta prejudica mulheres e causa danos profundos aos pr\u00f3prios homens. Sua &#8220;\u00e9tica do amor&#8221; defende que homens precisam desenvolver capacidades para intimidade emocional e cuidado m\u00fatuo. No espet\u00e1culo, isso materializa-se nos gestos de sustenta\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, particularmente quando um bailarino abre os bot\u00f5es da camisa do outro \u2013 gesto de desarmadura que sugere abertura para intimidade n\u00e3o-dominadora, baseada na confian\u00e7a e no respeito.<\/p>\n<div id=\"attachment_26592\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Umbigo-divulgacao-e1749831096297.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26592\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-26592 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Umbigo-divulgacao-e1749831096297.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Umbigo-divulgacao-e1749831096297.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Umbigo-divulgacao-e1749831096297-300x194.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-26592\" class=\"wp-caption-text\">A Reinven\u00e7\u00e3o da Corporalidade Masculina: Gravidade, Ess\u00eancia e Presen\u00e7a. Foto: Jo\u00e3o Erisson \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A batida de p\u00e9 no ch\u00e3o, elemento nuclear da coreografia, vai al\u00e9m da t\u00e9cnica, convertendo-se em met\u00e1fora de uma rela\u00e7\u00e3o renovada com o mundo e o pr\u00f3prio corpo. O contato percussivo com o solo prop\u00f5e uma masculinidade enraizada, conectada \u00e0 terra.&nbsp;No palco desnudado, os corpos revelam sua ess\u00eancia sem artif\u00edcios mediadores.&nbsp;<\/p>\n<p>A exig\u00eancia f\u00edsica dos 40 minutos constitui uma declara\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica intencional. As t\u00e9cnicas do Tor\u00e9 e do Coco de Roda alagoano demandam excepcional resist\u00eancia, fazendo com que os int\u00e9rpretes se entreguem \u00e0 exaust\u00e3o como parte integrante da narrativa.<\/p>\n<div id=\"attachment_26589\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo4-e1749831282166.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26589\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26589\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo4-e1749831282166.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26589\" class=\"wp-caption-text\">Montagem exercita uma desobedi\u00eancia epist\u00eamica. Foto: Jo\u00e3o Erisson \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Barros revela consci\u00eancia dos dilemas geopol\u00edticos da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica atualmente. Produzir dan\u00e7a contempor\u00e2nea desde Alagoas implica enfrentar invisibiliza\u00e7\u00e3o e subalterniza\u00e7\u00e3o. O sistema brasileiro historicamente privilegiou produ\u00e7\u00f5es do eixo Rio-S\u00e3o Paulo, relegando outras regi\u00f5es \u00e0 categoria de &#8220;regionais&#8221; ou &#8220;folcl\u00f3ricas&#8221;. Tal hierarquia reflete uma l\u00f3gica colonial que desvaloriza a produ\u00e7\u00e3o cultural das periferias.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a articula\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es alagoanas com a dan\u00e7a contempor\u00e2nea representa &#8220;desobedi\u00eancia epist\u00eamica&#8221; \u2013 conceito de Walter Mignolo que se refere ao ato de desafiar estruturas de conhecimento euroc\u00eantricas dominantes.<\/p>\n<p><em>Umbigo<\/em> expressa essa desobedi\u00eancia ao se afirmar simultaneamente como radicalmente alagoano e plenamente contempor\u00e2neo, demonstrando a viabilidade de criar dan\u00e7a contempor\u00e2nea a partir de refer\u00eancias culturais espec\u00edficas sem resvalar no exotismo, propondo uma nova centralidade para as periferias.<\/p>\n<p>O figurino no espet\u00e1culo <em>Umbigo<\/em>, composto por bermuda e camisa de bot\u00e3o, embora simples, desempenha um papel crucial na narrativa c\u00eanica. Essa escolha minimalista facilita a mobilidade dos bailarinos e serve como uma tela neutra que destaca os movimentos e intera\u00e7\u00f5es corporais, sugerindo uma concentra\u00e7\u00e3o na express\u00e3o f\u00edsica e na din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es em cena. O momento em que um bailarino abre os bot\u00f5es da camisa do outro constitui-se como ponto de inflex\u00e3o dramat\u00fargica. Como j\u00e1 citado, o gesto de abrir os bot\u00f5es da camisa do outro bailarino pode ser interpretado como um momento de intimidade n\u00e3o mediada por pap\u00e9is tradicionais masculinos de competi\u00e7\u00e3o ou domina\u00e7\u00e3o, mas baseada em vulnerabilidade compartilhada e cuidado m\u00fatuo.&nbsp;<\/p>\n<p>A trilha sonora original de Iury Lim\u00e3o estabelece um di\u00e1logo c\u00famplice com a coreografia, compartilhando suas ra\u00edzes no Tor\u00e9 e no Coco de Roda alagoano. A composi\u00e7\u00e3o se integra \u00e0 linguagem corporal do espet\u00e1culo, acompanhando-a e recriando de forma contempor\u00e2nea a ess\u00eancia r\u00edtmica das dan\u00e7as tradicionais, enquanto cria novas texturas sonoras. Os ritmos percussivos que evocam as batidas dos p\u00e9s no ch\u00e3o criam camadas de significa\u00e7\u00e3o que acompanham as transforma\u00e7\u00f5es coreogr\u00e1ficas, iluminando as mudan\u00e7as de din\u00e2mica e intensidade ao longo do espet\u00e1culo.&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_26588\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo5-e1749764862479.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26588\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26588\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/umbigo5-e1749764862479.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26588\" class=\"wp-caption-text\">Pe\u00e7a contesta o modelo dominante e sugere o umbigo como ponto de conex\u00e3o e ant\u00eddoto ao falocentrismo<\/p><\/div>\n<p>O umbigo, como elemento central, condensa significados que remetem \u00e0 nossa conex\u00e3o primordial com a m\u00e3e e a Terra. Ele evoca conceitos como a Pachamama andina, s\u00edmbolo de fertilidade e interconex\u00e3o. Como cicatriz vital, \u00e9 um lembrete cont\u00ednuo de nossa interdepend\u00eancia.<\/p>\n<p>Cabe aqui uma importante distin\u00e7\u00e3o: longe de evocar a vis\u00e3o popular e excludente do &#8220;olhar para o pr\u00f3prio umbigo&#8221; como centro do mundo e sin\u00f4nimo de ego\u00edsmo, a simbologia do umbigo explorada nesta an\u00e1lise aponta, ao contr\u00e1rio, para uma dimens\u00e3o de profunda conex\u00e3o, sensibilidade e interdepend\u00eancia m\u00fatua. Ele se torna o ponto de origem de um v\u00ednculo essencial, que remete \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o da vida, sublinhando a natureza inerentemente relacional do ser humano.<\/p>\n<p>A psicanalista feminista Luce Irigaray, em <em>Speculum of the Other Woman<\/em>, critica a centralidade do falo na psican\u00e1lise, argumentando que tal centralidade refor\u00e7a uma ordem patriarcal. Enquanto o falo encarna separa\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, outros elementos corporais poderiam fundar uma ordem alternativa baseada em conex\u00e3o e reciprocidade.<\/p>\n<p>Embora Irigaray n\u00e3o discuta especificamente o umbigo, sua cr\u00edtica ao falocentrismo oferece subs\u00eddios essenciais para compreender o potencial desestabilizador deste elemento no espet\u00e1culo. O umbigo evidencia nossa origem compartilhada, desafiando narrativas de autonomia absoluta associadas \u00e0 masculinidade hegem\u00f4nica. Funciona como lembrete ontol\u00f3gico de que todo ser humano prov\u00e9m de outro corpo e carrega interdepend\u00eancia inscrita em seu ser.<\/p>\n<p>Na coreografia, os corpos traduzem que a for\u00e7a reside na conex\u00e3o, n\u00e3o no isolamento. O espet\u00e1culo prop\u00f5e uma ordem alternativa \u2013 n\u00e3o centrada no falo como separa\u00e7\u00e3o, mas no umbigo como conex\u00e3o e origem.<\/p>\n<p>Os corpos que percutem o ch\u00e3o, sustentam-se mutuamente e conectam-se atrav\u00e9s do umbigo prop\u00f5em formas de ser homem baseadas na igualdade e vulnerabilidade. Tal proposi\u00e7\u00e3o ressoa num pa\u00eds marcado por viol\u00eancia de g\u00eanero, feminic\u00eddio, transfobia e homofobia, ligada a normas de masculinidade t\u00f3xica e patriarcal. A performance, portanto, se apresenta como um alerta. Sua est\u00e9tica, ao propor uma for\u00e7a baseada na conex\u00e3o e no reconhecimento da pr\u00f3pria humanidade, sugere a urg\u00eancia de uma \u00e9tica de cuidado e reciprocidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bailarinos criadores:<\/strong> Jal (Jailton) Oliveira e Jos\u00e9 Marcos Topete<br \/>\n<strong>Encena\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Carlos Alberto Barros<br \/>\n<strong>Trilha sonora original:<\/strong> Iury Lim\u00e3o<br \/>\n<strong>Fotografia:<\/strong> Jo\u00e3o Erisson<br \/>\n<strong>Figurino:<\/strong> Penelope<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o executiva:<\/strong> Carlos Alberto Barros<\/p>\n<h2>Refer\u00eancias<\/h2>\n<h2>&nbsp;<\/h2>\n<p>BOLA, JJ. <strong>Seja Homem, a Masculinidade Desmascarada<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Dublinense, 2020.<br \/>\nCONNELL, Raewyn. Masculinities. Berkeley: University of California Press, 1995.<br \/>\nhooks, bell. <strong>Feminism is for everybody: passionate politics<\/strong>. Londres: Pluto Press, 2000.<br \/>\nhooks, bell. <strong>The Will to Change: Men, Masculinity, and Love<\/strong>. New York: Atria Books, 2004.<br \/>\nIRIGARAY, Luce. <strong>Speculum of the Other Woman<\/strong>. Trad. Gillian C. Gill. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1985.<br \/>\nGR\u00dcNEWALD, Rodrigo de Azevedo. (Org.). <strong>Tor\u00e9: Regime Encantado do \u00cdndio do Nordeste.<\/strong> Recife: Editora Massangana, 2004.<br \/>\nMIGNOLO, Walter D.<strong> Desobedi\u00eancia epist\u00eamica: a op\u00e7\u00e3o descolonial e o significado de identidade em pol\u00edtica. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de \u00c2ngela Lopes Norte.<strong> Revista Gragoat\u00e1, <\/strong>Niter\u00f3i, n. 22, p. 11-41, 1\u00ba sem. 2007.<br \/>\nMIGNOLO, Walter D.<strong> Desobedi\u00eancia epist\u00eamica, pensamento independente e liberdade decolonial. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Isabella B. Veiga.<strong> Revista X, <\/strong>Curitiba, v. 16, n. 1, p. 24-53, 2021.<\/p>\n<h2>Este conte\u00fado foi produzido no contexto do <em>Palco Girat\u00f3rio \u2013 19\u00ba Festival Porto Alegre<\/em><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Umbigo, espet\u00e1culo da Companhia Ozinformais, de Alagoas, com os bailarinos Jal Oliveira e Jos\u00e9 Marcos Topete e dire\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Barros, foi apresentado no Palco Girat\u00f3rio \u2013 19\u00ba Festival Porto Alegre, no dia 3 de junho, no Teatro CHC Santa Casa. E circula pelo Palco Girat\u00f3rio por v\u00e1rias cidades brasileiras. 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