{"id":26508,"date":"2025-05-31T19:57:04","date_gmt":"2025-05-31T22:57:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26508"},"modified":"2025-05-31T20:16:56","modified_gmt":"2025-05-31T23:16:56","slug":"ane-das-pedras-ritual-ancestral-do-povo-kariri-entre-acolhimento-e-violencia-simbolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ane-das-pedras-ritual-ancestral-do-povo-kariri-entre-acolhimento-e-violencia-simbolica\/","title":{"rendered":"An\u00e9 das Pedras: Ritual Ancestral do Povo Kariri <\/br> Entre acolhimento e viol\u00eancia simb\u00f3lica"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_26515\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-31-at-17.24.17-e1748728454409.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26515\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26515\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-31-at-17.24.17-e1748728454409.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26515\" class=\"wp-caption-text\">Sob c\u00e9u claro e ventos frios, a ancestralidade ind\u00edgena atravessa a capital ga\u00facha com An\u00e9 das Pedras. Foto: Denis Gosch<\/p><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-26-at-11.52.17.jpeg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26485 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-26-at-11.52.17.jpeg\" alt=\"\" width=\"202\" height=\"97\"><\/a>Depois de alguns dias de chuva em Porto Alegre, neste s\u00e1bado, 31 de maio, o c\u00e9u estava claro, com temperaturas baixas e ventos frios que levaram muitas pessoas a usar casacos pesados e \u00f3culos escuros na Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, no centro da cidade. Foi neste cen\u00e1rio que a artista ind\u00edgena B\u00e1rbara Matias Kariri apresentou <em>An\u00e9 das Pedras<\/em>, uma performance ritual do repert\u00f3rio da Coletiva Flecha Lan\u00e7ada Arte (CE), com produ\u00e7\u00e3o de Lara Alencar, que integra a programa\u00e7\u00e3o do <em>Palco Girat\u00f3rio \u2013 19\u00ba Festival Porto Alegre<\/em>.<\/p>\n<p>Na l\u00edngua do povo Kariri, &#8220;An\u00e9&#8221; representa o sonho, conceito que fundamenta esta performance singular. A obra estabelece um di\u00e1logo profundo com as pedras enquanto entidades ancestrais e encantadas, elementos centrais na cosmovis\u00e3o desta na\u00e7\u00e3o ind\u00edgena nordestina. &#8220;Essa pr\u00e1tica ritual nos convida a confiar \u00e0 pedra aquilo que buscamos, nossas necessidades mais \u00edntimas, depositando nela nossos desejos e aspira\u00e7\u00f5es&#8221;, revela B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o Kariri, as pedras transcendem sua materialidade aparente \u2014 s\u00e3o compreendidas como seres dotados de vida, ancestrais que oferecem prote\u00e7\u00e3o e for\u00e7a. &#8220;Em momentos de impossibilidade, minha av\u00f3 sempre evocava a Santa Pedra&#8221;, recorda a artista. &#8220;Durante uma severa seca que assolou o Cear\u00e1, quando a fome se alastrou, meus ancestrais preparavam um caldo ritual\u00edstico com ervas e pedras. Ap\u00f3s o preparo, retiravam as pedras, devolvendo-as respeitosamente \u00e0 terra, e consumiam aquele l\u00edquido que lhes proporcionava sustento e vitalidade.&#8221;<\/p>\n<p>O vasto territ\u00f3rio do Cariri, cercado por imponentes chapadas e forma\u00e7\u00f5es rochosas, mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica com estes elementos minerais. &#8220;As pedras n\u00e3o apenas nos circundam, mas caminham conosco, compartilham nossa exist\u00eancia, s\u00e3o seres vivos que integram nossa realidade&#8221;, enfatiza B\u00e1rbara. Esta perspectiva contrasta radicalmente com o pensamento ocidental, que frequentemente reduz as pedras a meros obst\u00e1culos a serem removidos do caminho, revelando cosmologias fundamentalmente distintas sobre nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo mineral.<\/p>\n<h2>Entre a viol\u00eancia simb\u00f3lica e o acolhimento:&nbsp;tr\u00eas encontros marcantes<\/h2>\n<p>A performance de B\u00e1rbara em Porto Alegre foi marcada por tr\u00eas epis\u00f3dios significativos que revelam diferentes formas de recep\u00e7\u00e3o ao seu trabalho e \u00e0 sua identidade ind\u00edgena.<\/p>\n<p>O primeiro ocorreu quando uma mulher, ao ser abordada pela artista, respondeu friamente: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o jovem, v\u00e1 procurar um trabalho&#8221;. Quando B\u00e1rbara tentou estabelecer um di\u00e1logo sobre a ancestralidade das pedras, a mulher declarou: &#8220;Eu n\u00e3o tenho essa coisa espiritual, eu sou materialista&#8221;. A artista ainda tentou explicar que a pedra \u00e9, de fato, material, mas a conex\u00e3o espiritual viria do contato, ao que a mulher respondeu negativamente. O encontro terminou com um coment\u00e1rio sobre os dentes da artista, revelando um olhar exotizante.<\/p>\n<p>O segundo epis\u00f3dio, considerado mais grave pela performer, envolveu uma senhora que insistentemente a chamava de &#8220;\u00edndia&#8221; (n\u00e3o de ind\u00edgena) e oferecia dinheiro, balan\u00e7ando uma nota de 100 reais. &#8220;Como ela teve autoriza\u00e7\u00e3o, no meio de um monte de gente, para fazer essa provoca\u00e7\u00e3o toda?&#8221;, questiona B\u00e1rbara, evidenciando o desconforto com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contrastando com essas experi\u00eancias, uma terceira mulher demonstrou genu\u00edno interesse. Ao receber a pedra das m\u00e3os de B\u00e1rbara, ela n\u00e3o apenas se engajou na apresenta\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m convidou duas amigas para participarem. &#8220;O trabalho tamb\u00e9m tem esse lugar do encontro que pode dar certo ou n\u00e3o, pode acontecer viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m tem um lugar de identifica\u00e7\u00e3o, de afeto e de muita for\u00e7a espiritual&#8221;, reflete a artista.<\/p>\n<div id=\"attachment_26516\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-31-at-19.23.16-e1748730347320.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26516\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26516\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-31-at-19.23.16-e1748730347320.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"800\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26516\" class=\"wp-caption-text\">P\u00fablico participa ativamente da performance. Foto: Denis Gosch<\/p><\/div>\n<h2>Os caminhos rituais do An\u00e9 das Pedras<\/h2>\n<p>A performance, que estreou em 2019 num festival no Crato (CE), tem circulado por festivais de teatro, performance e dan\u00e7a. O trabalho come\u00e7a com B\u00e1rbara vestida com trajes tradicionais de palha, carregando um marac\u00e1 e uma cuia com pedras. Ela caminha pelas ruas da cidade, criando encontros com as pessoas e convidando-as a participar do ritual final: o plantio das pedras.<\/p>\n<p>&#8220;O percurso demora uns 22 minutos, porque n\u00e3o \u00e9 sobre a dist\u00e2ncia, mas sobre os encontros&#8221;, diz. Ela busca ruas com grande fluxo de pessoas e vai se conectando pelo olhar, um desafio na sociedade contempor\u00e2nea. O trajeto termina em uma \u00e1rvore cuidadosamente escolhida, que precisa atender a requisitos t\u00e9cnicos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>&#8220;Eu preciso de uma \u00e1rvore que n\u00e3o tenha concreto debaixo e normalmente escolho uma que consiga receber um bom n\u00famero de pessoas&#8221;, detalha B\u00e1rbara. Na apresenta\u00e7\u00e3o em Porto Alegre, mais de 60 pessoas acompanharam o ritual at\u00e9 seu momento final.<\/p>\n<p>Importante destacar que as pedras utilizadas s\u00e3o sempre do pr\u00f3prio local onde a performance acontece. &#8220;Eu trabalho com as pedras daquele determinado lugar que eu me encontro. Porque n\u00e3o adianta eu pensar s\u00f3 que o rio l\u00e1 da minha comunidade \u00e9 um ancestral. \u00c9 importante que eu pense que o rio que est\u00e1 em S\u00e3o Paulo, os rios que est\u00e3o em outros lugares tamb\u00e9m precisam ser protegidos&#8221;, explica.<\/p>\n<h2>Um ato de resist\u00eancia ind\u00edgena e reeduca\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios<\/h2>\n<div id=\"attachment_26518\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-31-at-19.42.39-e1748731604943.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26518\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26518\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-31-at-19.42.39-e1748731604943.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26518\" class=\"wp-caption-text\">TRabalho \u00e9 uma forma de reexist\u00eancia cultural Foto: Lara Alencar<\/p><\/div>\n<p><em>An\u00e9 das Pedras<\/em> vai al\u00e9m da apresenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, pois posiciona-se como uma forma de reexist\u00eancia cultural e uma proposta de reeduca\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios. &#8220;A cosmovis\u00e3o dos povos ind\u00edgenas \u00e9 uma vis\u00e3o de mundo muito mais anticolonial e contracolonial na sociedade capitalista que a gente vive&#8221;, defende B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>Levar para o espa\u00e7o p\u00fablico e para as artes c\u00eanicas elementos sagrados da cultura Kariri \u00e9 um ato pol\u00edtico. &#8220;Trazer a pedra como algo importante num lugar em que o que \u00e9 importante \u00e9 o dinheiro, o que algu\u00e9m deu valor. Trazer para o palco algo que \u00e9 forte para a gente, que \u00e9 importante para a gente, \u00e9 tamb\u00e9m uma reeduca\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios&#8221;, assinala.<\/p>\n<p>A exibi\u00e7\u00e3o em Porto Alegre ganhou significado adicional ap\u00f3s a crise clim\u00e1tica que assolou o estado. &#8220;Para mim foi muito forte vir fazer o trabalho aqui depois dessa crise clim\u00e1tica escancarada que o estado viveu e que todo mundo assistiu&#8221;, situa B\u00e1rbara, estabelecendo uma conex\u00e3o entre seu trabalho com os elementos da natureza e as quest\u00f5es ambientais contempor\u00e2neas.<\/p>\n<h2>Uma conquista hist\u00f3rica no Palco Girat\u00f3rio<\/h2>\n<p>A circula\u00e7\u00e3o de <em>An\u00e9 das Pedras<\/em> pelo Palco Girat\u00f3rio do Sesc Brasil representa um marco importante tanto para a artista quanto para a visibilidade das artes ind\u00edgenas no circuito nacional. &#8220;A gente \u00e9 o segundo grupo do interior do Cear\u00e1 a circular pelo Palco Girat\u00f3rio e eu acredito que a gente \u00e9 o primeiro grupo ind\u00edgena com um trabalho voltado para a mem\u00f3ria ind\u00edgena a circular nesse programa que tem tantos anos&#8221;, celebra.<\/p>\n<h2>A decis\u00e3o pol\u00edtica de permanecer no Cariri<\/h2>\n<p>Apesar do reconhecimento nacional e das oportunidades de circula\u00e7\u00e3o, B\u00e1rbara Matias mant\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clara: continuar vivendo no interior do Cear\u00e1. &#8220;Por muito tempo a gente viu as pessoas do Nordeste sendo obrigadas, em sua maioria por quest\u00f5es de trabalho, a se deslocar para os grandes centros. Eu reivindico continuar morando no interior do Cear\u00e1&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Para a artista, essa escolha \u00e9 tamb\u00e9m um exerc\u00edcio pol\u00edtico. &#8220;Tem aeroporto, as pessoas sabem do meu trabalho, as redes sociais est\u00e3o a\u00ed, tem um telefone que pode ligar, d\u00e1 para atender o e-mail. N\u00e3o precisamos nos deslocar do nosso territ\u00f3rio de origem&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p>Permanecer no Cariri significa manter proximidade com sua fam\u00edlia e comunidade, elementos que alimentam sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. &#8220;Continuar morando l\u00e1 \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de n\u00e3o perder alguma coisa que alimenta muito firmemente o meu trabalho&#8221;, conclui B\u00e1rbara, reafirmando seu compromisso com suas ra\u00edzes e com a valoriza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio nordestino como espa\u00e7o leg\u00edtimo de produ\u00e7\u00e3o cultural contempor\u00e2nea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Depois de alguns dias de chuva em Porto Alegre, neste s\u00e1bado, 31 de maio, o c\u00e9u estava claro, com temperaturas baixas e ventos frios que levaram muitas pessoas a usar casacos pesados e \u00f3culos escuros na Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, no centro da cidade. 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