{"id":26408,"date":"2025-05-13T18:10:57","date_gmt":"2025-05-13T21:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26408"},"modified":"2025-05-13T18:54:09","modified_gmt":"2025-05-13T21:54:09","slug":"a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/","title":{"rendered":"A mesma pe\u00e7a 15 anos depois: <\/br> mem\u00f3ria, hist\u00f3ria e atualiza\u00e7\u00f5es  <\/br> Cr\u00edtica de In On It"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26413\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/in-on-it-festival-de-curitiba-2025-foto-lina-sumizono-2\/\" rel=\"attachment wp-att-26413\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26413\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26413\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-2-e1747169748885.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26413\" class=\"wp-caption-text\">In On It voltou ao Festival de Curitiba depois de 15 anos. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/atrizes-orquestras-e-teatralidade-exposta\/whatsapp-image-2024-07-11-at-13-17-28\/\" rel=\"attachment wp-att-25534\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25534 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/WhatsApp-Image-2024-07-11-at-13.17.28-e1721662527897.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\"><\/a>O espet\u00e1culo <em>In On It<\/em> fala de muitos fins em suas narrativas que correm ao mesmo tempo paralelas e entrela\u00e7adas. Mas n\u00e3o quero come\u00e7ar tratando de fins e sim de come\u00e7os e de retomadas. De movimento, mem\u00f3ria e hist\u00f3ria. Da nossa capacidade de fazer de novo e de novo, igual e diferente. N\u00e3o s\u00f3 da pe\u00e7a, mas do teatro. Do Brasil e de seus artistas. Da passagem do tempo. Em 2010, Em\u00edlio de Mello e Fernando Eiras apresentaram <em>In On It <\/em>pela primeira vez no Festival de Curitiba, no Guairinha. 15 anos depois, nesta edi\u00e7\u00e3o 2025 do Festival, estiveram aqui novamente, com a mesma pe\u00e7a, desta vez fazendo duas sess\u00f5es, cada uma com mais de 700 pessoas na plateia, no Teatro da Reitoria.<\/p>\n<p>No Recife,<em> In On It <\/em>foi apresentada pela primeira vez no 12\u00ba Festival Recife do Teatro Nacional, no segundo semestre de 2009. As sess\u00f5es foram no Teatro Apolo, o teatro mais antigo da cidade, inaugurado em 1842, no Bairro do Recife. Rep\u00f3rter setorista de artes c\u00eanicas do jornal Diario de Pernambuco, eu estava na plateia. Em janeiro de 2011, surgia o <em>Satisfeita, Yolanda?<\/em>, site de cr\u00edticas e not\u00edcias que edito desde ent\u00e3o com Ivana Moura.<\/p>\n<p>&nbsp;O curador daquela edi\u00e7\u00e3o do festival era o jornalista e cr\u00edtico de teatro Kil Abreu. Valmir Santos, tamb\u00e9m jornalista e cr\u00edtico, foi convidado a acompanhar a programa\u00e7\u00e3o e fazer uma avalia\u00e7\u00e3o p\u00fablica da mostra. Ainda hoje, esse \u00e9 um momento importante para o festival e para a classe art\u00edstica da cidade, que contribui com essa an\u00e1lise. Sem surpresas, todos os anos, o debate indubitavelmente resvala para a discuss\u00e3o sobre as pol\u00edticas p\u00fablicas para o teatro. O festival \u00e9 realizado pela Prefeitura do Recife e desde ent\u00e3o passou por interrup\u00e7\u00f5es, sendo retomado h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>Naquele ano, a edi\u00e7\u00e3o de <em>In On It<\/em>, foram 18 espet\u00e1culos. A programa\u00e7\u00e3o abriu na rua, na Pra\u00e7a do Arsenal, tamb\u00e9m no Bairro do Recife, com <em>Till, a saga de um her\u00f3i torto<\/em>, do grupo mineiro Galp\u00e3o. Vimos <em>Rainhas[(s)] \u2013 Duas atrizes em busca de um cora\u00e7\u00e3o<\/em>, com Georgette Fadel e Isabel Teixeira, de S\u00e3o Paulo; <em>Meire love &#8211; uma trag\u00e9dia l\u00fadica<\/em>, do grupo Bagaceira de Teatro, de Fortaleza; e pe\u00e7as criadas no Recife, como <em>Car\u00edcias<\/em>, da Remo Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas, de Paula de Renor; <em>Encruzilhada Hamlet<\/em>, da Cia do Ator Nu, com dire\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Denys; e <em>Cordel do amor sem fim<\/em>, do grupo O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas. A curadoria de Kil Abreu fazia um recorte do que era produzido no teatro brasileiro naquele per\u00edodo. <em>In On It<\/em> havia estreado em mar\u00e7o de 2009, no Rio de Janeiro. \u00c0 dist\u00e2ncia, as escolhas do curador parecem fazer ainda mais sentido. Avisei que seria sobre hist\u00f3ria, mem\u00f3ria e teatro.<\/p>\n<p>Em sua avalia\u00e7\u00e3o publicada no site Teatrojornal, Valmir Santos escreveu: \u201cEm montagem paralela a sua Companhia dos Atores, Enrique Diaz (diretor) encontra no texto do canadense Daniel MacIvor as condi\u00e7\u00f5es ideais para compor uma ode \u00e0 metalinguagem teatral da qual maneja como poucos no Brasil, basta lembrar suas \u00faltimas visitas a Shakespeare e Tchekhov. Somos embriagados pela dan\u00e7a de Fernando Eiras e Em\u00edlio de Mello nas v\u00e1rias camadas de uma hist\u00f3ria de amor entre dois homens. A narrativa transcorre de maneira inusual, \u00e9 deposit\u00e1ria dos atores e dos m\u00ednimos recursos, como uma cadeira, um casaco e um desenho de luz fundamental para compor tempos e espa\u00e7os. Esse trabalho seco n\u00e3o impede que se alcance a espiritualidade de uma \u00f3pera e tampouco economizar no humor e na emo\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em 2009, ano das apresenta\u00e7\u00f5es de <em>In On It<\/em> no Festival Recife, grupos que ainda hoje s\u00e3o fundamentais para o teatro pernambucano tinham pouco tempo de trajet\u00f3ria. O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas e o Magiluth foram criados no mesmo ano, em 2004; um ano antes, tinham surgido a Companhia Fiandeiros de Teatro e o Coletivo Angu de Teatro; e, em 2001, a C\u00eanicas Cia de Repert\u00f3rio foi criada.<\/p>\n<p>Ampliando o foco do Recife, em 2008, a Cia Hiato, de S\u00e3o Paulo, estreou o seu primeiro espet\u00e1culo, <em>Cachorro morto<\/em>, com dire\u00e7\u00e3o de Leonardo Moreira; em 2005, o Espanca!, de Belo Horizonte, estreou <em>Por Elise<\/em>, com texto e dire\u00e7\u00e3o de Grace Pass\u00f4; em 2002, em Curitiba, a companhia brasileira de teatro lan\u00e7ou <em>Volta ao dia<\/em>, texto e dire\u00e7\u00e3o de Marcio Abreu; em 2001, o Grupo XIX de Teatro, de S\u00e3o Paulo, estreou <em>Hysteria<\/em>, dire\u00e7\u00e3o de Luiz Fernando Marques, Lubi.<\/p>\n<p>O texto de Valmir Santos deixa pistas da import\u00e2ncia que <em>In On It <\/em>teria para o movimento de experimenta\u00e7\u00e3o de linguagem empreendido por esses e tantos outros grupos de teatro contempor\u00e2neo rec\u00e9m-formados no pa\u00eds. O que propunha o texto de Daniel MacIvor, traduzido para o portugu\u00eas por Daniele Avila Small, era mesmo incomum, tr\u00eas planos distintos na mesma pe\u00e7a, que iam se relacionando e se sobrepondo. Como este texto \u00e9 sobre mem\u00f3ria, no entanto, n\u00e3o nos esque\u00e7amos de <em>Vestido de noiva<\/em>, de Nelson Rodrigues (1912-1980), encenada por Ziembinski (1908-1978) em 1943, com os tr\u00eas planos: a realidade, a alucina\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria, e <em>Sortil\u00e9gio &#8211; Mist\u00e9rio Negro<\/em>, de Abdias Nascimento (1914-2011), com dire\u00e7\u00e3o de L\u00e9o Jusi (1930-2011), que estreou em 1957, e tinha uma estrutura dramat\u00fargica n\u00e3o-linear. Ainda assim,<em> In On It<\/em> n\u00e3o era mesmo uma estrutura dramat\u00fargica corriqueira. Luiz Fernando Ramos, professor, cr\u00edtico \u00e0 \u00e9poca da Folha de S.Paulo, escreveu: \u201c\u00c9 um feito dramat\u00fargico not\u00e1vel, que coloca esse autor canadense, antes in\u00e9dito no Brasil, entre os mais inventivos da atualidade\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_26414\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/in-on-it-festival-de-curitiba-2025-foto-lina-sumizono-5\/\" rel=\"attachment wp-att-26414\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26414\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26414\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-5-e1747169806195.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26414\" class=\"wp-caption-text\">Dramaturgia n\u00e3o-linear, em tr\u00eas planos, influenciou teatro brasileiro contempor\u00e2neo. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p>Hoje, os tr\u00eas planos: a montagem da pe\u00e7a que conta a hist\u00f3ria de Ray, um homem que recebe uma not\u00edcia importante e vai compartilh\u00e1-la com a fam\u00edlia; a discuss\u00e3o de Brian (Fernando Eiras), que est\u00e1 criando a pe\u00e7a, e Brad (Em\u00edlio de Mello), sobre a hist\u00f3ria de Ray e sobre a rela\u00e7\u00e3o dos dois; e o passado dos dois homens, flui de modo mais f\u00e1cil. Deixou de ser singular &#8211; o recurso da simultaneidade de narrativas foi bastante experimentado, in\u00fameras vezes, no cinema e, de modo mais significativo para este texto, no teatro. Outro recurso de MacIvor utilizado \u00e0 exaust\u00e3o nos anos que se seguiram: os falsos finais nas pe\u00e7as. Que espectador de teatro, nos \u00faltimos 15 anos, n\u00e3o viu uma pe\u00e7a que parece que vai acabar, mas ainda n\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;Sobre a agilidade na apreens\u00e3o do espectador, talvez ela seja influenciada tamb\u00e9m, como os atores pontuaram no debate p\u00f3s-espet\u00e1culo, no \u00faltimo dia 2 de abril, por nossa viv\u00eancia com a comunica\u00e7\u00e3o nas redes sociais, que se intensificou nos \u00faltimos anos, e que se d\u00e1 r\u00e1pida, mudando de um tema ao outro em segundos ao arrastar a tela do celular com os dedos. Timelines com muitos assuntos aleat\u00f3rios e simult\u00e2neos.<\/p>\n<p>Ainda assim, 16 anos depois da montagem no Brasil, 25 anos depois de ter estreado fora do pa\u00eds, na Esc\u00f3cia, o texto continua inventivo e surpreendente, se bastando em si mesmo. Claro que, para funcionar, essa pe\u00e7a precisa de dois atores com muita sintonia e uma dire\u00e7\u00e3o precisa, mas o texto mais do que aponta, carrega os direcionamentos da encena\u00e7\u00e3o. Se a forma continua interessante, o conte\u00fado ainda faz muito sentido, n\u00e3o \u00e9 anacr\u00f4nico. \u00c9 um texto que fala sobre as rela\u00e7\u00f5es, sobre a nossa falsa sensa\u00e7\u00e3o de controle, sobre aproveitar a vida enquanto h\u00e1 tempo.&nbsp;<\/p>\n<p>Os poucos recursos da encena\u00e7\u00e3o &#8211; duas cadeiras e um casaco &#8211; pontuados no texto de Santos, tamb\u00e9m se multiplicaram no teatro contempor\u00e2neo por muitos anos. Seja porque o que importava, naquele momento, era o trabalho dos atores, a concis\u00e3o, o minimalismo, seja porque isso influenciava categoricamente na circula\u00e7\u00e3o dos espet\u00e1culos. Era muito mais f\u00e1cil &#8211; talvez ainda seja &#8211; circular com um espet\u00e1culo que n\u00e3o conta com cen\u00e1rio grande, volumoso, pesado. Cen\u00e1rio que pode ser arranjado em qualquer cidade, duas cadeiras. A ilumina\u00e7\u00e3o de Maneco Quinder\u00e9 funciona como esse cen\u00e1rio, preenchendo o palco nu, pontuando com beleza as mudan\u00e7as de planos nas narrativas do espet\u00e1culo.<\/p>\n<div id=\"attachment_26420\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/in-on-it-festival-de-curitiba-2025-foto-lina-sumizono-1\/\" rel=\"attachment wp-att-26420\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26420\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26420\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-1-e1747170197526.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26420\" class=\"wp-caption-text\">Fernando Eiras Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26421\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/in-on-it-festival-de-curitiba-2025-foto-lina-sumizono-6\/\" rel=\"attachment wp-att-26421\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26421\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26421\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-6-e1747170234602.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26421\" class=\"wp-caption-text\">Em\u00edlio de Mello. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 como se, na forma, tanto do texto quanto da cena, estiv\u00e9ssemos agora vendo algo que foi muito importante para o teatro brasileiro. Como assist\u00edamos h\u00e1 alguns anos, por exemplo, aos trabalhos de criadores da d\u00e9cada de 1980, chaves na experimenta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de um tipo de teatro, que foi se transformando em outros ao longo do tempo, como aconteceu com <em>In On It<\/em>.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dessa forma, o jogo dos atores \u00e9 a del\u00edcia do espet\u00e1culo. S\u00e3o dois atores muito bons, com um timing preciso de troca entre eles, inclusive para o humor e para a intera\u00e7\u00e3o com a plateia, cumplicidade, agilidade. Naquele espa\u00e7o, entre os dois atores, cabe o mundo todo num segundo de hesita\u00e7\u00e3o entre um texto e o pr\u00f3ximo, dado pelo parceiro.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, um sen\u00e3o que diz respeito \u00e0 representa\u00e7\u00e3o: a caricatura na interpreta\u00e7\u00e3o de alguns personagens, especialmente das mulheres. E sim, isso j\u00e1 estava na encena\u00e7\u00e3o l\u00e1 atr\u00e1s, h\u00e1 16 anos. S\u00f3 que n\u00e3o nos afetava, n\u00e3o a ponto de nos incomodar, n\u00e3o era uma quest\u00e3o com a qual est\u00e1vamos lidando naquele momento. Mas aparecia, mesmo que de modo ainda incompreendido. Luciana Romagnolli, jornalista e cr\u00edtica, escreveu para a Gazeta do Povo, jornal curitibano, depois da primeira sess\u00e3o no Festival de Curitiba, em 2010: \u201cO texto assim se abre em duas camadas, e mais uma terceira que \u00e9 o passado, enquanto os dois se desdobram em personagens, homens e mulheres diferenciados pela sutileza mesmo quando incorporam o estere\u00f3tipo. A dire\u00e7\u00e3o de Enrique Diaz \u00e9 impec\u00e1vel ao reconhecer cada movimento do texto astucioso e traduzir em um jogo limpo.\u201d A sensa\u00e7\u00e3o trazida por Luciana Romagnolli era compartilhada por toda uma plateia, inclusive de artistas e cr\u00edticos. N\u00e3o nos perturbava e \u00e9 com pesar que digo isso hoje, mesmo entendendo que essa apreens\u00e3o da realidade faz parte de um processo hist\u00f3rico. Avisei que o texto seria sobre fazer de novo, igual, mas diferente.<\/p>\n<p>Apesar da liberdade que os atores possuem na interpreta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o cabe mais &#8211; nunca deveria ter cabido &#8211; a personagem ser caricaturizada e estereotipada, com uma vozinha fina irritante e uma l\u00edngua presa que nem d\u00e1 a ouvir o texto direito, e a composi\u00e7\u00e3o de feminilidade fr\u00e1gil aparente no corpo, mesmo que essa mulher &#8211; que no texto n\u00e3o \u00e9 uma jovem, j\u00e1 tem filho adulto e casado &#8211; esteja escolhendo a felicidade dela, abandonando o marido que est\u00e1 doente, porque se apaixonou por outro. Uma personagem incr\u00edvel, Brenda, feita por Fernando Eiras. Ou assistir \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de Em\u00edlio de Mello para Pam Ellis, que surge como uma f\u00fatil, louca por homem, que coloca a m\u00e3o na testa, joga a cabe\u00e7a para tr\u00e1s, pisca e solta beijinhos. No texto, Pam foi abandonada por um homem que cuidava do filho dela como pai e que sofre com a aus\u00eancia dele. E, mesmo assim, ela n\u00e3o est\u00e1 chorando, ela est\u00e1 num bar e oferece uma bebida a Ray, que tamb\u00e9m foi tra\u00eddo e abandonado. Outra personagem incr\u00edvel. A gente s\u00f3 precisa de uma cena para ver o quanto as duas podem ser complexas. Mas viram caricaturas na constru\u00e7\u00e3o de um feminino que se ergue apenas pelos estere\u00f3tipos. Essas interpreta\u00e7\u00f5es nos afastam de quem s\u00e3o essas personagens, de suas humanidades, que est\u00e3o l\u00e1, na dramaturgia. Inclusive, o pr\u00f3prio texto problematiza como as mulheres s\u00e3o retratadas na hist\u00f3ria de Ray que os dois atores est\u00e3o construindo, como duas b\u00eabadas, o que n\u00e3o \u00e9 o caso. \u00c9 s\u00f3 para levantar o debate.<\/p>\n<div id=\"attachment_26415\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/in-on-it-festival-de-curitiba-2025-foto-lina-sumizono-7\/\" rel=\"attachment wp-att-26415\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26415\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26415\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-7-e1747169879856.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26415\" class=\"wp-caption-text\">Interpreta\u00e7\u00e3o caricaturizada e estereotipada das mulheres \u00e9 uma quest\u00e3o na vers\u00e3o atual. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26417\" style=\"width: 809px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/in-on-it-festival-de-curitiba-2025-foto-lina-sumizono-3\/\" rel=\"attachment wp-att-26417\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26417\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26417\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-3.jpg\" alt=\"\" width=\"799\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-3.jpg 799w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-3-624x416.jpg 624w\" sizes=\"(max-width: 799px) 100vw, 799px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-26417\" class=\"wp-caption-text\">Personagens complexas s\u00e3o reduzidas pela interpreta\u00e7\u00e3o. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es sociais e as discuss\u00f5es identit\u00e1rias que tomaram o Brasil e, como consequ\u00eancia, o teatro, n\u00e3o podem mais ser negadas, mesmo que no resgate de uma pe\u00e7a que influenciou o modo de fazer teatro de toda uma gera\u00e7\u00e3o. Em 2010, Dilma Rousseff foi eleita a primeira mulher presidenta do Brasil. No seu segundo mandato, sofreu um golpe que exp\u00f4s a misoginia no pa\u00eds. De l\u00e1 para c\u00e1, a extrema direita desgovernou o Brasil durante uma pandemia. 700 mil pessoas morreram. Estamos aqui, agora, nos agarrando a uma esperan\u00e7a de reconstru\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais, n\u00e3o sem muita disputa de poder e emendas pix e mercado irritado. O mundo se modificou, mesmo que a passos lentos, mesmo que a plateia continue amando o espet\u00e1culo. O teatro &#8211; que continua contempor\u00e2neo &#8211; precisa estar alinhado \u00e0s mudan\u00e7as se ainda desejar relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p><em>O espet\u00e1culo In on It foi apresentado nos dias 2 e 3 de abril de 2025 no Festival de Curitiba.<\/em><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha T\u00e9cnica:<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Texto:<\/strong> Daniel MacIvor<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Daniele Avila Small<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Enrique Diaz<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Emilio de Mello e Fernando Eiras<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o:<\/strong> Maneco Quinder\u00e9<br \/>\n<strong>Cenografia:<\/strong> Domingos de Alc\u00e2ntara<br \/>\n<strong>Figurino:<\/strong> Luciana Cardoso<br \/>\n<strong>Figurino 2024:<\/strong> Carla Garan e Thiago Gandra<br \/>\n<strong>Trilha sonora:<\/strong> Lucas Marcier<br \/>\n<strong>Programa\u00e7\u00e3o visual:<\/strong> Ol\u00edvia Ferreira e Pedro Garavaglia<br \/>\n<strong>Operador de luz:<\/strong> Lina Kaplan<br \/>\n<strong>Operador de som:<\/strong> Gabriel Reis<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Joana D\u2019Aguiar<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o executiva:<\/strong> Ana Beatriz Figueras<br \/>\n<strong>Idealiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: Emilio de Mello e Enrique Diaz<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o:<\/strong> Machenka Produ\u00e7\u00f5es<\/p>\n<div id=\"attachment_26418\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/in-on-it-festival-de-curitiba-2025-foto-lina-sumizono-11\/\" rel=\"attachment wp-att-26418\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26418\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26418\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-11-e1747170056541.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26418\" class=\"wp-caption-text\">Dire\u00e7\u00e3o de In On It \u00e9 assinada por Enrique Diaz. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26419\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-mesma-peca-15-anos-depois-memoria-historia-e-atualizacoes-critica-de-in-on-it\/in-on-it-festival-de-curitiba-2025-foto-lina-sumizono-13\/\" rel=\"attachment wp-att-26419\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26419\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26419\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/IN-ON-IT-FESTIVAL-DE-CURITIBA-2025-FOTO-Lina-Sumizono-13-e1747170125437.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26419\" class=\"wp-caption-text\">Plateia do Teatro da Reitoria, no Festival de Curitiba 2025. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O espet\u00e1culo In On It fala de muitos fins em suas narrativas que correm ao mesmo tempo paralelas e entrela\u00e7adas. Mas n\u00e3o quero come\u00e7ar tratando de fins e sim de come\u00e7os e de retomadas. De movimento, mem\u00f3ria e hist\u00f3ria. Da nossa capacidade de fazer de novo e de novo, igual e diferente. 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