{"id":26355,"date":"2025-05-05T16:02:38","date_gmt":"2025-05-05T19:02:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26355"},"modified":"2025-05-05T16:02:41","modified_gmt":"2025-05-05T19:02:41","slug":"manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/","title":{"rendered":"Manifesto de esperan\u00e7a <\/br> Cr\u00edtica de AO VIVO  [Dentro da cabe\u00e7a de algu\u00e9m]"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26358\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-2\/\" rel=\"attachment wp-att-26358\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26358\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26358\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-2-e1746470150871.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26358\" class=\"wp-caption-text\">Renata Sorrah em AO VIVO [Dentro da cabe\u00e7a de algu\u00e9m], pe\u00e7a da companhia brasileira de teatro, no Festival de Curitiba 2025. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26359\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-1\/\" rel=\"attachment wp-att-26359\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26359\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26359\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-1-e1746470194756.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26359\" class=\"wp-caption-text\">B\u00e1rbara Arakaki, Bianca Manicongo, Rodrigo Bolzan e Rafael Bacelar. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/atrizes-orquestras-e-teatralidade-exposta\/whatsapp-image-2024-07-11-at-13-17-28\/\" rel=\"attachment wp-att-25534\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25534 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/WhatsApp-Image-2024-07-11-at-13.17.28-e1721662527897.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\"><\/a>Mem\u00f3ria deveria ser verbo. Sim, memorizar \u00e9 verbo, mas n\u00e3o diz o que eu gostaria. Quando falamos sobre memorizar, o sentido que salta, imediato, \u00e9 o de decorar, repetir at\u00e9 que saibamos algo de cor. No dicion\u00e1rio, memorizar tamb\u00e9m pode ser lembrar, recordar, relembrar. N\u00e3o \u00e9 isso. Queria pensar neste \u201cverbo-mem\u00f3ria\u201d como uma pr\u00e1tica expandida, fluida, que n\u00e3o separa corpo e mente, material e imaterial, realidade e imagina\u00e7\u00e3o, plantas, animais e humanos, tempos cronol\u00f3gicos ou estelares.<\/p>\n<p>Como seria exercer este verbo-mem\u00f3ria relacionado \u00e0 pandemia de covid-19? Quais imagens permanecem incrustadas em n\u00f3s, aquelas dilatadas para al\u00e9m dos nossos corpos f\u00edsicos? Quem continua conosco? O que mudou internamente? E coletivamente? Estamos falando do que aconteceu, do que ainda vai acontecer ou das duas coisas? N\u00e3o sabemos essas respostas, n\u00e3o racionalmente. Em mar\u00e7o de 2023, chegamos ao n\u00famero de 700 mil pessoas mortas v\u00edtimas de covid-19 no Brasil. 700 mil pessoas. SETECENTAS MIL PESSOAS. N\u00e3o h\u00e1 quem consiga apreender esse n\u00famero e tudo que ele implica no hoje, no amanh\u00e3, no ontem, no tempo que n\u00e3o conhecemos.<\/p>\n<p><em>AO VIVO&nbsp; [Dentro da cabe\u00e7a de algu\u00e9m]<\/em>, pe\u00e7a da companhia brasileira de teatro, com dire\u00e7\u00e3o de Marcio Abreu, experimenta algo da dimens\u00e3o do que estou chamando de \u201cverbo-mem\u00f3ria\u201d, inclusive na expans\u00e3o de acontecimentos temporalmente recentes, como a pandemia. A atriz Renata Sorrah, que est\u00e1 no elenco ao lado de Rodrigo Bolzan, Rafael Bacelar, B\u00e1rbara Arakaki e Bianca Manicongo, diz que a montagem encara os instantes de suspens\u00e3o, quando parece que voc\u00ea teve uma epifania e entendeu tudo, com seu corpo, sua mente, sua alma e, logo depois, quase imediatamente, isso se encerra. O portal fecha. Est\u00e1 de modo praticamente literal no t\u00edtulo, amplificar, ao vivo, a fra\u00e7\u00e3o de tempo em que sua cabe\u00e7a abre, antes dela fechar de novo.<\/p>\n<p>No caso da pe\u00e7a, esse momento acontece quando a personagem est\u00e1 dirigindo, esse h\u00e1bito que se torna autom\u00e1tico, vento no rosto, vontade de fumar um cigarro, m\u00fasica tocando baixinho no r\u00e1dio a caminho do ensaio da pe\u00e7a. A sensa\u00e7\u00e3o de liberdade. Essa epifania talvez ocorra para os espectadores em alguma cena espec\u00edfica da montagem, tomara, mas como proponho o verbo que \u00e9 pr\u00e1tica, que se move, neste texto esse instante se desdobra e se esgar\u00e7a, mesmo que passe como num segundo, ou ao longo de toda uma pe\u00e7a de 1h30min.<\/p>\n<p>Em <em>A crise da narra\u00e7\u00e3o<\/em>, Byung-Chul Han escreve que \u201ca mem\u00f3ria \u00e9 uma pr\u00e1tica narrativa que constantemente vincula novos acontecimentos e cria uma rede de rela\u00e7\u00f5es\u201d. A quest\u00e3o \u00e9 que a nossa intera\u00e7\u00e3o com o que nos cerca estaria reduzida \u00e0 causalidade dos fatos e informa\u00e7\u00f5es, o que significa o \u201cdesencantamento do mundo\u201d e a perda da nossa capacidade de narrar. \u201cAs coisas existem, mas quedam em sil\u00eancio\u201d, diz o fil\u00f3sofo. A pe\u00e7a da cia brasileira de teatro \u00e9 um contraponto a esse sil\u00eancio. Ao esfacelamento da dimens\u00e3o p\u00fablica e privada da mem\u00f3ria como pr\u00e1tica. Os atores deslizam na liberdade da linguagem das artes vivas para que fatos e informa\u00e7\u00f5es possam ser descritos e narrados e se tornem praticamente palp\u00e1veis. O que \u00e9 falado ganha densidade como imagem, mat\u00e9ria que passa a existir.<\/p>\n<p>Os atores representam a si mesmos e a alguns, muitos, espero que multid\u00f5es de n\u00f3s. Fazem isso de um lugar determinado do campo pol\u00edtico, que se revela de modo claro pela escolha de quais fatos e mem\u00f3rias v\u00e3o enovelar, pelo conte\u00fado do discurso elaborado, e pelos quereres de futuro. O exerc\u00edcio vertiginoso do verbo-mem\u00f3ria nos aproxima da ideia de que o tempo inteiro estamos perdendo o mundo como o conhec\u00edamos e outros est\u00e3o sendo criados concomitantemente, inclusive no palco. Um mundo se desfaz, outro come\u00e7a. O teatro \u00e9 suporte de cria\u00e7\u00e3o para esses mundos que podem se estender para al\u00e9m da sala de espet\u00e1culos. No teatro, escrevemos, atuamos, cantamos, dan\u00e7amos. A m\u00fasica de Gonzaguinha, cantada lindamente por Bianca Manicongo, Bixarte, d\u00e1 o tom: \u201cCome\u00e7aria tudo outra vez | Se preciso fosse, meu amor | A chama em meu peito ainda queima | Saiba, nada foi em v\u00e3o\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_26360\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-8\/\" rel=\"attachment wp-att-26360\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26360\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26360\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-8-e1746470275306.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26360\" class=\"wp-caption-text\">AO VIVO [Dentro da cabe\u00e7a de algu\u00e9m] trabalha com mem\u00f3rias coletivas e individuais. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26365\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-5\/\" rel=\"attachment wp-att-26365\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26365\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26365\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-5-e1746470585503.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26365\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Bolzan. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26366\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-4\/\" rel=\"attachment wp-att-26366\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26366\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26366\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-4-e1746470661562.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26366\" class=\"wp-caption-text\">B\u00e1rbara Arakaki. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p>Esses mundos que se fazem e se desfazem ao vivo s\u00e3o compostos a partir de experi\u00eancias de linguagem, em registros que v\u00e3o se alternando. Ao lado do discurso social e pol\u00edtico direto, do autobiogr\u00e1fico, do meme de Nazar\u00e9 e das cita\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas \u00e0 Clarice Lispector, h\u00e1 camadas de maior abstra\u00e7\u00e3o na encena\u00e7\u00e3o, ligadas \u00e0 composi\u00e7\u00e3o das cenas, \u00e0s imagens em v\u00eddeo, \u00e0 cenografia, \u00e0 dramaturgia &#8211; e aqui, especialmente, \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de um texto seminal para o teatro ocidental, <em>A gaivota<\/em>, de Anton Tch\u00e9khov.<\/p>\n<p>O texto refer\u00eancia \u00e9 uma obra encharcada do humano, uma m\u00e3e famosa, um namorado mais novo escritor, um filho escritor, uma jovem atriz com muitos sonhos. O texto instaura discuss\u00f5es sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas, o sonho, a vaidade, a melancolia, a desesperan\u00e7a, a depress\u00e3o, o desespero do fim. Embora a dramaturgia de <em>A Gaivota<\/em> esteja incorporada \u00e0 encena\u00e7\u00e3o de AO VIVO, e seja vis\u00edvel para quem conhece o texto, a hist\u00f3ria paira como uma epifania. A composi\u00e7\u00e3o da cena, como imagem, \u00e9 quase uma tela, um fim de tarde no jardim. Os nomes dos personagens n\u00e3o s\u00e3o ditos, assim como n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o ao nome da pe\u00e7a. Isso talvez nos aproxime ainda mais desse duplo, Renata Sorrah e personagem, essa mulher que \u00e9 uma atriz famosa, muito mais famosa do que o seu namorado, que ao perceber que pode perd\u00ea-lo diz que \u00e9 apenas uma mulher comum, que se ressente da idade quando o homem que ama se encanta por uma mulher mais nova, que n\u00e3o tem certeza se \u00e9 livre.<\/p>\n<div id=\"attachment_26361\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-3\/\" rel=\"attachment wp-att-26361\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26361\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26361\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-3-e1746470324777.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26361\" class=\"wp-caption-text\">A Gaivota \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o para a pe\u00e7a da cia brasileira de teatro. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p><em>AO VIVO<\/em>, inclusive, pode ser considerada uma grande, linda e merecida homenagem \u00e0 Renata Sorrah, essa atriz que marcou a hist\u00f3ria do teatro, do cinema e da televis\u00e3o. Que foi Nina em 1974, numa montagem de <em>A Gaivota<\/em> que tinha no elenco Tereza Rachel como Ark\u00e1dina, al\u00e9m de nomes como Sergio Britto, Cecil Thir\u00e9 e Renne de Vielmond. Cuja imagem garota, num tempo que \u00e9 mem\u00f3ria e se expande, \u00e9 exibida no palco em <em>Matou a fam\u00edlia e foi ao cinema<\/em>, filme de 1969, de J\u00falio Bressane. O Brasil acompanhou o envelhecimento de Renata Sorrah e isso \u00e9 muito bonito, uma atriz plena com suas escolhas.<\/p>\n<p>Etarismo, uma das discuss\u00f5es que se desprende de <em>A Gaivota<\/em> e da pr\u00f3pria presen\u00e7a de Renata em cena, e transfobia s\u00e3o tratados no registro do discurso direto, do manifesto, do que precisa ser dito. Renata Sorrah e Bianca Manicongo, travesti, fazem uma cena de espelhamento, uma dando o discurso correspondente \u00e0 outra. Renata diz, entre outras coisas, que amar e ser amada n\u00e3o \u00e9 para todas as pessoas, s\u00f3 para as vivas, e a m\u00e9dia de vida de uma travesti \u00e9 de 35 anos. Bianca questiona a press\u00e3o sobre as mulheres velhas, associadas \u00e0s bruxas, enquanto os homens velhos s\u00e3o associados \u00e0 sabedoria. Os discursos se atravessam no lugar de decis\u00e3o sobre o pr\u00f3prio corpo e da discuss\u00e3o sobre a empatia: \u201cO problema de falar em nome do outro \u00e9 que todo mundo acaba sem voz\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_26367\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-7\/\" rel=\"attachment wp-att-26367\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26367\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26367\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-7-e1746470742188.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26367\" class=\"wp-caption-text\">Renata Sorrah e Bianca Manicongo d\u00e3o voz a discursos uma da outra. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p>A pe\u00e7a &#8211; e a pe\u00e7a dentro da pe\u00e7a &#8211; nos lembram que muitos v\u00e3o sucumbir neste processo de mem\u00f3ria-verbo. Morte matada, morte morrida, morte que at\u00e9 parece vida. Rafael Bacelar desabafa: \u00e9 dif\u00edcil dizer que todas as esperan\u00e7as acabaram, assim como est\u00e1 em <em>A Gaivota<\/em>. Mas <em>AO VIVO<\/em> explicita a desesperan\u00e7a por meio de Tch\u00e9khov para anunciar o contr\u00e1rio: h\u00e1 espa\u00e7o para esperan\u00e7ar. Espa\u00e7os. Se voc\u00ea n\u00e3o consegue enxerg\u00e1-los, vamos abri-los juntos, nesta epifania de 1h30min. Esperan\u00e7ar, na pe\u00e7a, depende do que chamo de resgate da mem\u00f3ria-verbo que est\u00e1, inclusive, no corpo das atrizes e atores. No corpo de Bianca, uma travesti dividindo cena com Renata Sorrah porque \u00e9 uma atriz \u00f3tima, uma cantora maravilhosa. E seu corpo diz por si. Sua voz diz por si. Precisamos de novas formas, afirma o texto do espet\u00e1culo. Formas que s\u00e3o ancoradas por corpos. Por vozes. E, ao lado do dito sotaque \u201cneutro\u201d de Renata Sorrah, o sotaque da televis\u00e3o que aplaina as diferen\u00e7as, o sotaque nordestino de Bianca explode com for\u00e7a. A frase n\u00e3o \u00e9 de Clarice, \u00e9 de Leminski, n\u00e3o est\u00e1 no espet\u00e1culo, mas poderia: \u201cIsso de ser exatamente o que se \u00e9 ainda vai nos levar al\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Vocalizar e sustentar o discurso que reage \u00e0 homofobia, \u00e0 transfobia, ao etarismo, \u00e0 ascens\u00e3o da extrema direita no pa\u00eds \u00e9 uma forma de esperan\u00e7ar novos mundos para plateias diversas. Espectadores muitas vezes atra\u00eddos ao teatro pelo nome de Renata Sorrah, e que n\u00e3o necessariamente ouviriam esses discursos de outra forma, sen\u00e3o na plateia de um teatro, um espa\u00e7o que proporciona essa conviv\u00eancia \u201cfor\u00e7ada\u201d com o outro por um tempo determinado.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a cumpre o papel de alcan\u00e7ar e falar diretamente com esse outro: <em>AO VIVO<\/em> estreou no ano passado, no dia 22 de agosto, e permaneceu em cartaz at\u00e9 1 de dezembro, com sess\u00f5es de quinta a domingo, esgotadas, no Sesi-SP, no Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo. Poucas pessoas abandonaram as sess\u00f5es no meio. Na porta desse pr\u00e9dio, por anos, as pessoas se reuniam e faziam vig\u00edlias para pedir por interven\u00e7\u00e3o militar no pa\u00eds. Um pato infl\u00e1vel de cinco metros criticava a pol\u00edtica tribut\u00e1ria do governo da presidenta Dilma Rousseff. Ent\u00e3o \u00e9 significativo que, neste lugar, um grupo de teatro que completa 25 anos em 2025 possa falar sobre os desejos de um novo Brasil, como um manifesto lindo e potente que anuncia esses passos, incluindo \u201cbanhar o Brasil\u201d, \u201cabra\u00e7ar a floresta\u201d, \u201cbeber \u00e1gua limpa\u201d, \u201cconvocar as bichas todas\u201d, \u201cbeijar as bocas\u201d, \u201cdesbrazilizar para existir Brasil\u201d.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo \u00e9 acolhido &#8211; o que n\u00e3o quer dizer que as pessoas concordem com o que est\u00e1 dito ali &#8211; porque consegue balancear radicalidade do discurso e humaniza\u00e7\u00e3o. A partir de <em>A Gaivota<\/em>, da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filho, por exemplo, Rafael Bacelar protagoniza uma cena em que se transforma em<em> drag queen<\/em> no palco &#8211; se maquia, coloca salto e peruca &#8211; e dialoga com um \u00e1udio de sua m\u00e3e. \u201cEu me conformei porque eu te vi feliz e ningu\u00e9m tem o direito de obrigar o outro a ser o que se quer ser\u201d. Que m\u00e3e n\u00e3o se identifica? Enquanto dan\u00e7a &#8211; propondo uma brincadeira de dan\u00e7ar apenas com o lado esquerdo do corpo &#8211; Rafael mistura sua hist\u00f3ria ao discurso pol\u00edtico e \u00e0 hist\u00f3ria recente do pa\u00eds: diz que come\u00e7ou a dan\u00e7ar com a esquerda em 2002, saiu da linha da pobreza, entrou na universidade p\u00fablica. O apelo da cena \u00e9 flagrante: o p\u00fablico, dividido pelo ator entre direita, esquerda e centr\u00e3o, entra na brincadeira. H\u00e1, no entanto, um discurso sobre esquerda que particulariza, que personaliza na figura do presidente Lula a pr\u00f3pria esquerda, e que, a despeito do que estamos vivendo hoje no Brasil, diz textualmente que recuperamos a radicalidade da esquerda. Quer\u00edamos que fosse verdade.<\/p>\n<div id=\"attachment_26362\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-9\/\" rel=\"attachment wp-att-26362\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26362\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26362\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-9-e1746470409754.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26362\" class=\"wp-caption-text\">Rafael Bacelar se transforma em drag queen no palco e protagoniza cena sobre direita e esquerda no pa\u00eds, Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p>Na mem\u00f3ria que \u00e9 verbo, de tempos entrela\u00e7ados, quem sabe isso possa se concretizar. Algum dia, outro tempo, nosso tempo. E o p\u00f4r do sol renove e brilhe de novo os nossos sorrisos, como diz a m\u00fasica de Luiz Melodia. O que fica desse tempo que n\u00e3o voltamos a viver? O que queremos guardar? O que queremos fazer novo? <em>AO VIVO&nbsp; [Dentro da cabe\u00e7a de algu\u00e9m] <\/em>\u00e9 esse vislumbre de esperan\u00e7a, que nos faz pensar quais outros mundos desejamos instituir. \u201cEscutar, correr e agir\u201d. E ser felizes. \u201cDiante de n\u00f3s, aquilo que formos capazes de construir agora\u201d, anuncia o texto.<\/p>\n<p><strong>O espet\u00e1culo <em>AO VIVO&nbsp; [Dentro da cabe\u00e7a de algu\u00e9m] <\/em>foi apresentado nos dias 27 e 28 de mar\u00e7o de 2025 no Festival de Curitiba.<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Texto e dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Marcio Abreu<br \/>\n<strong>Pesquisa e cria\u00e7\u00e3o:<\/strong> Marcio Abreu, Nadja Naira, C\u00e1ssia Damasceno e Jos\u00e9 Maria<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Renata Sorrah, Rodrigo Bolzan, Rafael Bacelar, B\u00e1rbara Arakaki e Bixarte<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o:<\/strong> Jos\u00e9 Maria e C\u00e1ssia Damasceno<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Nadja Naira<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o musical e trilha sonora original:<\/strong> Felipe Storino<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de movimento e colabora\u00e7\u00e3o criativa:<\/strong> Cristina Moura<br \/>\n<strong>Assist\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o criativa:<\/strong> F\u00e1bio Os\u00f3rio Monteiro<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o videogr\u00e1fica:<\/strong> Batman Zavareze<br \/>\n<strong>Figurinos:<\/strong> Lu\u00eds Cl\u00e1udio Silva | Apartamento 03<br \/>\n<strong>Cenografia:<\/strong> Batman Zavareze, Jo\u00e3o Boni, Marcio Abreu, Nadja Naira e Jos\u00e9 Maria<br \/>\n<strong>Assistente de arte:<\/strong> Gabriel Silveira<br \/>\n<strong>Edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo:<\/strong> Jo\u00e3o Oliveira<br \/>\n<strong>Capta\u00e7\u00e3o de imagens para v\u00eddeos:<\/strong> Cac\u00e1 Bernardes | Bruta Flor Filmes<br \/>\n<strong>Design de som:<\/strong> Chico Santarosa<br \/>\n<strong>Assist\u00eancia de cenografia:<\/strong> Kau\u00ea Mar<br \/>\n<strong>T\u00e9cnica de v\u00eddeo, luz e programa\u00e7\u00e3o videomapping:<\/strong> Michelle Bezerra, Ricardo Barbosa e Denis Kageyama<br \/>\n<strong>T\u00e9cnica de luz e som:<\/strong> Dafne Rufino<br \/>\n<strong>Cenot\u00e9cnica e maquinaria:<\/strong> Tinho Viana, Alexander Peixoto, Sasso Campanaro e Douglas Caldas<br \/>\n<strong>Fotos:<\/strong> Nana Moraes<br \/>\n<strong>Programa\u00e7\u00e3o visual:<\/strong> Pablito Kucarz e Miriam Fontoura<br \/>\n<strong>Cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> companhia brasileira de teatro<\/p>\n<div id=\"attachment_26363\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/manifesto-de-esperanca-critica-de-ao-vivo-dentro-da-cabeca-de-alguem\/ao-vivo-cia-brasileira-de-teatro-foto-lina-sumizono-13\/\" rel=\"attachment wp-att-26363\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26363\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26363\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/AO-VIVO-cia-brasileira-de-teatro-Foto-Lina-Sumizono-13-e1746470479557.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26363\" class=\"wp-caption-text\">Pe\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m uma homenagem \u00e0 Renata Sorrah. Foto: Lina Sumizono<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3ria deveria ser verbo. Sim, memorizar \u00e9 verbo, mas n\u00e3o diz o que eu gostaria. Quando falamos sobre memorizar, o sentido que salta, imediato, \u00e9 o de decorar, repetir at\u00e9 que saibamos algo de cor. No dicion\u00e1rio, memorizar tamb\u00e9m pode ser lembrar, recordar, relembrar. N\u00e3o \u00e9 isso. 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