{"id":26343,"date":"2025-05-03T19:18:37","date_gmt":"2025-05-03T22:18:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26343"},"modified":"2025-05-03T19:50:49","modified_gmt":"2025-05-03T22:50:49","slug":"uma-comedia-que-quase-ri-da-nossa-insanidade-critica-simples-assim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-comedia-que-quase-ri-da-nossa-insanidade-critica-simples-assim\/","title":{"rendered":"Uma com\u00e9dia que quase ri da nossa insanidade <\/br> Cr\u00edtica: Simples Assim"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26344\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/georgiana-goes-e-julia-lemmertz-simples-assim-peca.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26344\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26344\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/georgiana-goes-e-julia-lemmertz-simples-assim-peca-e1746308694659.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"360\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26344\" class=\"wp-caption-text\">Georgiana G\u00f3es e Julia Lemmertz em Simples assim. Foto: Victor Hugo Ceccato.<\/p><\/div>\n<p>Uma falha no sistema de microfones nos primeiros minutos da apresenta\u00e7\u00e3o quase comprometeu a estreia de <em>Simples Assim<\/em> no Teatro Luiz Mendon\u00e7a, Parque Dona Lindu, no Recife, na \u00faltima sexta-feira \u2013 ironia n\u00e3o planejada para um espet\u00e1culo que justamente discute nossa depend\u00eancia tecnol\u00f3gica. A pe\u00e7a, que ainda cumpre duas sess\u00f5es no fim de semana, abre com uma cena aleg\u00f3rica: um \u00e2ncora de telejornal (Pedroca Monteiro) que, ao noticiar uma sequ\u00eancia infind\u00e1vel de trag\u00e9dias \u2013 \u201cmilitares disparam mais de 80 tiros contra um carro com fam\u00edlia\u201d, fogo no parquinho, corrup\u00e7\u00e3o, &nbsp;\u2013 gradualmente esmorece at\u00e9 confessar: \u201cCheguei no meu limite\u201d. O quadro sintetiza a proposta do espet\u00e1culo: retratar com humor leve as pequenas insanidades de nosso cotidiano. Essa cena toda, que deveria chegar por cima para provocar a indigna\u00e7\u00e3o e risos, perdeu a for\u00e7a devido ao problema de microfones, o que dificultou a recep\u00e7\u00e3o desses primeiro quadro.<\/p>\n<p>Baseada nas cr\u00f4nicas de Martha Medeiros e adaptada pela pr\u00f3pria autora em parceria com Rosane Lima, a montagem apresenta dez cenas inspiradas nas colet\u00e2neas <em>Quem Diria que Viver Iria Dar Nisso<\/em> e <em>Simples Assim<\/em>. As cr\u00f4nicas, conhecidas por seu tom leve e ocasionalmente divertido, n\u00e3o trazem revela\u00e7\u00f5es surpreendentes, mas capturam pequenos dramas cotidianos com precis\u00e3o. O elenco, composto por Julia Lemmertz, Georgiana G\u00f3es e Pedroca Monteiro, transita por diferentes personagens que se interconectam atrav\u00e9s de uma engenhosa estrutura circular onde cada cena compartilha um personagem com a seguinte, criando uma teia narrativa que conecta diferentes neuroses atuais.<\/p>\n<p>O apresentador de telejornal exausto pelas not\u00edcias tr\u00e1gicas surta no ar e deixa contrariada sua produtora, que vai ajudar uma amiga que diz que vai viajar para outro planeta; esta amiga abandona o amante executivo viciado em tecnologia; este homem, que s\u00f3 consegue dialogar atrav\u00e9s das telas, \u00e9 marido da mulher que, sobrecarregada pela rotina, contrata uma dubl\u00ea para substitu\u00ed-la em compromissos familiares; e assim segue a cadeia de personagens, conectando cada quadro ao seguinte numa estrutura que espelha o ciclo de desencontros.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma com\u00e9dia de reflex\u00f5es profundas, mas sim um retrato bem-humorado do cotidiano da classe m\u00e9dia branca brasileira, com seus problemas e privil\u00e9gios espec\u00edficos. No entanto, as cenas sobre nossa rela\u00e7\u00e3o com a tecnologia, o isolamento social e a superficialidade das rela\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas acabam se tornando, ironicamente, superficiais demais. A expectativa era que a cena como um todo tivesse mais humor e provocasse mais risos, como prometido nos an\u00fancios, o que n\u00e3o se concretiza durante boa parte da apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Veterano nos textos de Martha Medeiros, Ernesto Piccolo apresenta sua terceira montagem da autora com uma dire\u00e7\u00e3o conservadora. Conhecido por trabalhos mais ousados em outras produ\u00e7\u00f5es, o diretor aqui opta por uma abordagem que contradiz a irrever\u00eancia sugerida pelo tema. Seu trabalho oscila entre lampejos de inspira\u00e7\u00e3o e longos trechos de marasmo c\u00eanico que drenam a energia c\u00f4mica. Quando aposta na intera\u00e7\u00e3o direta com o p\u00fablico ou em solu\u00e7\u00f5es mais arriscadas, a com\u00e9dia respira; quando se acomoda em escolhas mais convencionais, a din\u00e2mica desacelera. As transi\u00e7\u00f5es entre os quadros, embora tecnicamente funcionais, carecem de efeito c\u00f4mico, principalmente na primeira parte do espet\u00e1culo especialmente morosa.<\/p>\n<p>As cr\u00f4nicas de Martha, que cintilam na intimidade entre leitor e p\u00e1gina com sua precis\u00e3o do trivial, enfrentam no palco o desafio da adapta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: transformar o que \u00e9 sussurro confidencial em voz projetada. O que no papel convida \u00e0 reflex\u00e3o solit\u00e1ria e sorrisos de reconhecimento exigiria no teatro uma tradu\u00e7\u00e3o c\u00eanica mais provocativa, capaz de recriar coletivamente aquela fa\u00edsca de identifica\u00e7\u00e3o que a autora alcan\u00e7a t\u00e3o naturalmente na solid\u00e3o da leitura.<\/p>\n<p>Os figurinos de Helena Ara\u00fajo s\u00e3o um dos pontos altos da produ\u00e7\u00e3o, com pe\u00e7as coloridas e vers\u00e1teis que auxiliam na r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o dos atores entre personagens. A ilumina\u00e7\u00e3o de Fel\u00edcio Mafra cria ambientes distintos com sutileza, conseguindo delimitar espa\u00e7os dentro do palco aberto sem quebrar o ritmo das transi\u00e7\u00f5es. A cenografia tem poucos elementos no palco al\u00e9m de algumas cadeiras e um grande tel\u00e3o ao fundo. Este tel\u00e3o projeta cenas de not\u00edcias e, por vezes, imagens dos pr\u00f3prios atores em diferentes situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_26345\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/espetaculo-simples-assim-com-julia-lemmertz--e1746309335164.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26345\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26345\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/espetaculo-simples-assim-com-julia-lemmertz--e1746309335164.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"337\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26345\" class=\"wp-caption-text\">Pedroca Monteiro e Julia Lemmertz. Foto: Victor Hugo Ceccato<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 um jogo interessante entre as duas atrizes e o ator em cena, que transitam entre diferentes personagens com alguma versatilidade. Esta energia entre eles, contudo, nem sempre consegue contagiar o p\u00fablico. Quando isso acontece, principalmente na segunda metade do espet\u00e1culo, a pe\u00e7a ganha a leveza prometida.<\/p>\n<p>Julia Lemmertz leva pro palco a sofistica\u00e7\u00e3o e a credibilidade conquistadas em d\u00e9cadas de atua\u00e7\u00e3o na TV e no cinema. Conhecida por personagens de maior densidade dram\u00e1tica, a atriz segura o c\u00f4mico com eleg\u00e2ncia. Um de seus momentos mais desafiadores acontece quando desce \u00e0 plateia para interpretar uma mulher com &#8220;nomofobia&#8221; \u2013 o medo irracional de ficar sem celular. Lemmertz estabelece um v\u00ednculo especial com os espectadores, mesclando a familiaridade de seu rosto conhecido \u00e0 capacidade de capturar, com delicadeza, as pequenas neuroses do nosso tempo.<\/p>\n<p>A versatilidade \u00e9 a marca do trabalho de Georgiana G\u00f3es nesta montagem. Quando encarna a personifica\u00e7\u00e3o da Morte \u2013 vestida de branco, \u2013 a atriz cria um dos raros momentos de tens\u00e3o genu\u00edna do espet\u00e1culo. Enquanto esquadrinha a plateia procurando \u201calgu\u00e9m\u201d, G\u00f3es provoca um riso nervoso, quase desconfort\u00e1vel, transformando o quadro em uma experi\u00eancia emocionalmente amb\u00edgua.<\/p>\n<p>J\u00e1 Pedroca Monteiro inicia com uma energia inconsistente que afeta o ritmo inicial do espet\u00e1culo. O que parece inseguran\u00e7a revela-se, aos poucos, como uma escolha para alguns personagens mais exaltados. O ator encontra seu melhor momento na pele do j\u00e1 mencionado apresentador de telejornal que, diante da enxurrada de not\u00edcias tr\u00e1gicas, tem um colapso existencial em pleno ar, mas que depois retorna como uma vers\u00e3o transformada de si mesmo.<\/p>\n<p><strong>Plateia: term\u00f4metro de uma com\u00e9dia que hesita<\/strong><\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico funciona como um infal\u00edvel indicador da efic\u00e1cia de uma com\u00e9dia, e aqui os sinais foram preocupantes: sil\u00eancio predominante na primeira metade, com risos escassos e educados. O espet\u00e1culo s\u00f3 ganha vivacidade quando os atores come\u00e7am a improvisar, soltar &#8220;cacos&#8221; sobre locais, personalidades e situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas da cidade, provocando finalmente as gargalhadas espont\u00e2neas.<\/p>\n<p><em>Simples Assim<\/em>, que iniciou sua trajet\u00f3ria em S\u00e3o Paulo em setembro de 2019 e agora percorre o Brasil, oferece 90 minutos de uma pausa agrad\u00e1vel em nosso fren\u00e9tico cotidiano. Com classifica\u00e7\u00e3o indicativa de 12 anos, a montagem<span style=\"font-size: 1rem;\">&nbsp;cumpre seu papel ao retratar com honestidade e alguns momentos de gra\u00e7a as neuroses e ansiedades de uma classe m\u00e9dia que se v\u00ea cada vez mais desconectada apesar (ou por causa) de toda sua hiperconex\u00e3o digital. E oferece um espelho onde parte do p\u00fablico consegue se reconhecer \u2013 \u00e0s vezes com um sorriso, outras com um desconfort\u00e1vel aceno de cabe\u00e7a.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_26346\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/julia-e-monteiro-e1746309700616.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26346\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26346\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/julia-e-monteiro-e1746309700616.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"315\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26346\" class=\"wp-caption-text\">Pedroca Monteiro e Julia Lemmertz em cena de acerto de contas. Foto: Victor Hugo Ceccato<\/p><\/div>\n<p>Ficha T\u00e9cnica<br \/>\nTexto e adapta\u00e7\u00e3o: Martha Medeiros e Rosane Lima.<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o Art\u00edstica: Ernesto Piccolo.<br \/>\nElenco: Julia Lemmertz, Georgiana G\u00f3es e Pedroca Monteiro.<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o e idealiza\u00e7\u00e3o: Gustavo Nunes.<br \/>\nCenografia: Clivia Cohen.<br \/>\nProje\u00e7\u00f5es C\u00eanicas: Rico Vilarouca \/ Renato Vilarouca.<br \/>\nFigurino: Helena Ara\u00fajo e Alfaiataria Conrado.<br \/>\nLuz: Fel\u00edcio Mafra.<br \/>\nTrilha Sonora: Rodrigo Penna.<br \/>\nVisagismo: Uirand\u00ea Holanda.<br \/>\nProdutora de Elenco: Yolanda Rodrigues.<br \/>\nPrepara\u00e7\u00e3o Corporal: Cristina Moura.<br \/>\nDesigner<br \/>\nFotos: Victor Hugo Ceccato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/WhatsApp-Image-2022-11-09-at-18.21.49-e1669690492534.jpeg\"><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma falha no sistema de microfones nos primeiros minutos da apresenta\u00e7\u00e3o quase comprometeu a estreia de Simples Assim no Teatro Luiz Mendon\u00e7a, Parque Dona Lindu, no Recife, na \u00faltima sexta-feira \u2013 ironia n\u00e3o planejada para um espet\u00e1culo que justamente discute nossa depend\u00eancia tecnol\u00f3gica. 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