{"id":26217,"date":"2025-04-09T17:05:55","date_gmt":"2025-04-09T20:05:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26217"},"modified":"2025-04-09T22:45:26","modified_gmt":"2025-04-10T01:45:26","slug":"dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/","title":{"rendered":"Dois portos: reflex\u00f5es sobre diversidade, disparidade e deslocamentos*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26219\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/015-trivial_foto-nando-espinosa_08-1\/\" rel=\"attachment wp-att-26219\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26219\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26219\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/015.-Trivial_foto-Nando-Espinosa_08-1-scaled-e1744128112955.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26219\" class=\"wp-caption-text\">Projeto Conex\u00f5es Norte Sul reuniu espet\u00e1culos e a\u00e7\u00f5es de Porto Velho e Porto Alegre. Na foto, Trivial &#8211; Um espet\u00e1culo de B-boys, de Porto Alegre.&nbsp; Foto: Nando Espinosa<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26231\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/copia-de-20250314_agenciaophelia_1727\/\" rel=\"attachment wp-att-26231\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26231\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26231\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Copia-de-20250314_agenciaophelia_1727-scaled-e1744228735337.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26231\" class=\"wp-caption-text\">A Cabe\u00e7a de Tereza foi criado no \u00e2mbito da Universidade Federal de Rond\u00f4nia. Foto: Ag\u00eancia Oph\u00e9lia<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando se trabalha com arte no Brasil e, especificamente, com as artes da cena, partindo de lugares que n\u00e3o aqueles considerados \u201ceixo\u201d, ou seja, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, no Sudeste do pa\u00eds, o que se h\u00e1 de fazer \u00e9 n\u00e3o se deixar enquadrar. Mover-se por dentro e por fora para instaurar as nossas pr\u00f3prias realidades. O Brasil \u00e9 muito grande para caber num eixo s\u00f3. Imaginar &#8211; e percorrer &#8211; os caminhos que podem ser tra\u00e7ados se mostra uma tarefa de liberdade e de resist\u00eancia. E essa n\u00e3o \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica ou que idealiza desigualdades e precariedades. Falo de uma opera\u00e7\u00e3o cotidiana, repetitiva, trabalhosa, por vezes exaustiva, mas imprescind\u00edvel quando lidamos n\u00e3o s\u00f3 com sobreviv\u00eancia, mas com o que nos move. A vista nem alcan\u00e7a os caminhos reais e simb\u00f3licos que podem ser forjados, quais mapas desenhamos quando as miradas s\u00e3o ampliadas.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fazendo perguntas que promovem esses deslocamentos de imagin\u00e1rios, o projeto <\/span><b>Conex\u00f5es Norte Sul<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, idealizado pelo Ita\u00fa Cultural em parceria com o Sesc Rio Grande do Sul, e curadoria de Jane Schoninger, coordenadora de Artes C\u00eanicas, Visuais e Arte Educa\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o (Porto Alegre\/RS), e Andressa Batista (Porto Velho\/RO), artista, gestora e produtora cultural, partilhou<strong> espet\u00e1culos, conversas com espectadores e debates<\/strong> entre 6 e 16 de mar\u00e7o. Quais conex\u00f5es entre dois Portos, um no Norte e outro no Sul do pa\u00eds, podemos alinhavar? <strong>Porto Velho, em Rond\u00f4nia<\/strong>, estado criado oficialmente em 1982, e <strong>Porto Alegre, no Rio Grande do Sul<\/strong>, estado devastado por enchentes que mataram 183 pessoas e deixaram 27 desaparecidos no primeiro semestre do ano passado? A dist\u00e2ncia entre as duas cidades, localizadas cada uma num extremo, refor\u00e7a o quanto o Brasil \u00e9 enorme e as dificuldades implicadas nessa obviedade.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se a arte precisa circular, alcan\u00e7ar p\u00fablicos diversos, ser colocada em fric\u00e7\u00e3o a partir do encontro com outras realidades, gerar rela\u00e7\u00f5es, isso fica muito mais dif\u00edcil quando levamos em considera\u00e7\u00e3o, por exemplo, o custo amaz\u00f4nico, que s\u00e3o as despesas relacionadas \u00e0 transporte e log\u00edstica na regi\u00e3o. Quando os investimentos j\u00e1 anunciados e provisionados por meio de pol\u00edticas p\u00fablicas atrasam meses ou mesmo nem chegam. Quando os or\u00e7amentos para a cultura no pa\u00eds s\u00e3o cortados pela inaptid\u00e3o pol\u00edtica em reconhecer a economia criativa como um motor de desenvolvimento para as diversas regi\u00f5es do pa\u00eds. Quando produtores e artistas n\u00e3o encontram parceiros na iniciativa privada interessados em deslocar os seus investimentos do \u201ceixo\u201d que supostamente gera visibilidade. S\u00e3o muitos os \u201cquandos\u201d. Quest\u00f5es como essas foram abordadas na mesa<strong> \u201cModos de produ\u00e7\u00e3o e seus oper\u00e1rios\u201d<\/strong>, com a participa\u00e7\u00e3o das produtoras Luka Ibarra e Cynthia Margareth, a primeira de Porto Alegre e a segunda de Limeira (SP), residente em S\u00e3o Paulo, e do ator Chic\u00e3o Santos, de Porto Velho, com media\u00e7\u00e3o do cr\u00edtico Kil Abreu, de Bel\u00e9m do Par\u00e1, residente em S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na segunda mesa do evento, a discuss\u00e3o teve como tema <strong>\u201cCuradorias, circula\u00e7\u00f5es\u201d<\/strong>, com as curadoras Galiana Brasil, recifense que reside em S\u00e3o Paulo, e Jane Schoninger, de Porto Alegre, e Kil Abreu. A conversa prop\u00f4s questionamentos que perpassam o poder que as curadorias exercem num pa\u00eds desigual e diverso como o Brasil. Quem s\u00e3o as pessoas que possuem o poder de decidir quais artistas, grupos e trabalhos v\u00e3o circular? Por quais lugares do pa\u00eds esses curadores se movem e estabelecem rela\u00e7\u00f5es? E, mesmo que sejam curadores de lugares fora do \u201ceixo\u201d, quando levam trabalhos aos seus territ\u00f3rios, quais as refer\u00eancias? Qual o lugar do pensamento e da cr\u00edtica na constru\u00e7\u00e3o de uma cena que possa, de fato, ser chamada de brasileira? Quais as repercuss\u00f5es dos festivais e das circula\u00e7\u00f5es para os artistas de uma cidade? At\u00e9 que ponto as curadorias desenhadas no pa\u00eds, seja por curadores de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou privadas e por curadores independentes, podem ser consideradas instrumentos que questionam uma estrutura colonialista de pensamento e a\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_26237\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/whatsapp-image-2025-04-09-at-17-29-52\/\" rel=\"attachment wp-att-26237\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26237\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26237\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/WhatsApp-Image-2025-04-09-at-17.29.52-e1744230687525.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"461\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26237\" class=\"wp-caption-text\">Participantes da mesa Modos de produ\u00e7\u00e3o e seus oper\u00e1rios. Foto: Pollyanna Diniz<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26232\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/copia-de-20250312_ic_ophelia_4483\/\" rel=\"attachment wp-att-26232\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26232\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26232\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Copia-de-20250312_IC_Ophelia_4483-scaled-e1744228973337.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26232\" class=\"wp-caption-text\">Jane <span style=\"font-weight: 400;\">Schoninger<\/span>, Galiana Brasil e Kil Abreu compartilharam suas experi\u00eancias na mesa Curadorias, circula\u00e7\u00f5es. Foto: Ag\u00eancia Oph\u00e9lia<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26233\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/copia-de-20250312_ic_ophelia_4476\/\" rel=\"attachment wp-att-26233\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26233\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26233\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Copia-de-20250312_IC_Ophelia_4476-scaled-e1744229126426.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26233\" class=\"wp-caption-text\">Artistas, curadores e cr\u00edticos participaram da mesa Curadoria, circula\u00e7\u00f5es. Foto: Ag\u00eancia Oph\u00e9lia<\/p><\/div>\n<p><b>Espet\u00e1culos como met\u00e1foras<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o, de fato, muitas perguntas. Parece que giramos em c\u00edrculos quando falamos, por exemplo, sobre pol\u00edtica cultural no Brasil. Nessa espiral, o que me interessa \u00e9 imaginar outras possibilidades, tanto de questionamentos quanto de respostas. E os espet\u00e1culos que perpassam essa conex\u00e3o Porto Velho &#8211; Porto Alegre s\u00e3o meios de estabelecer di\u00e1logo, dissenso, provoca\u00e7\u00e3o, encantamento. De modo diverso, enxergo que <strong>cada um deles carrega met\u00e1foras que podem ser relacionadas \u00e0s discuss\u00f5es que o projeto Conex\u00f5es Norte Sul prop\u00f5e<\/strong>.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_26224\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/01-novos-velhos-corpos_foto-adriana-marchiori\/\" rel=\"attachment wp-att-26224\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26224\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26224\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/01.-Novos-Velhos-Corpos_foto-Adriana-Marchiori-e1744142067387.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26224\" class=\"wp-caption-text\">Novos Velhos Corpos 50+ traz veteranos da dan\u00e7a em Porto Alegre. Foto: Adriana Marchiori<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No espet\u00e1culo <\/span><strong><i>Novos Velhos Corpos 50+<\/i><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, de Porto Alegre, est\u00e3o em cena artistas da dan\u00e7a com trajet\u00f3rias relevantes, todos com mais de 50, 60, 70 anos: Eduardo Severino, Eva Schul, Robson Lima Duarte, Monica Dantas e Suzi Weber. Essa \u00faltima assina a dire\u00e7\u00e3o geral do espet\u00e1culo. Os bailarinos est\u00e3o acompanhados por m\u00fasicos que fazem a trilha sonora ao vivo: Dora Avila, Flavio Flu, Marcelo Fornazier e Vasco Piva.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A mais direta das met\u00e1foras entre o espet\u00e1culo e o Conex\u00f5es Norte Sul diz respeito a permanecer criando arte ao longo do tempo, das d\u00e9cadas que se sucedem, a despeito das circunst\u00e2ncias que possam se interpor nesse caminho. Continuidade, persist\u00eancia, resist\u00eancia. Na dan\u00e7a ocidental, os bailarinos carregavam em seus corpos, seus instrumentos de trabalho, um prazo de validade. De algum tempo para c\u00e1, brechas est\u00e3o sendo abertas nesse cen\u00e1rio. Por que n\u00e3o permanecer em cena? Por que ser destitu\u00edda do direito de criar com o pr\u00f3prio corpo? E aqui falo no feminino porque, como mulher, entendo que essa discuss\u00e3o, quando cruza o g\u00eanero, adquire contornos muito cru\u00e9is. E se agregarmos classe, a quest\u00e3o fica ainda mais complexa, porque somos mat\u00e9ria-prima mo\u00edda por uma ind\u00fastria. S\u00e3o as mulheres aquelas cobradas a se enquadrarem em padr\u00f5es est\u00e9ticos irreais e que mudam o tempo inteiro no mundo capitalista do consumo. Somos n\u00f3s, mulheres, que h\u00e1 pouco tempo perd\u00edamos espa\u00e7o radicalmente por conta da idade: desde o teatro e as produ\u00e7\u00f5es audiovisuais, nas quais as mulheres mais velhas tinham pap\u00e9is socialmente muito determinados, at\u00e9 o mercado de trabalho tradicional.&nbsp;<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_26222\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/07-meu-amigo-ingles_foto-eliane-viana\/\" rel=\"attachment wp-att-26222\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26222\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26222\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/07.-Meu-Amigo-Ingles_foto-Eliane-Viana-e1744141432445.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"601\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26222\" class=\"wp-caption-text\">Meu Amigo Ingl\u00eas traz ao palco um artista que lida com as consequ\u00eancias do mal de Parkinson. Foto: Eliane Viana<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O corpo velho tamb\u00e9m est\u00e1 em cena em <\/span><strong><i>Meu amigo ingl\u00eas<\/i><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, espet\u00e1culo de Rond\u00f4nia, com Chic\u00e3o Santos e Fl\u00e1via Diniz, texto e dire\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Zumba. Neste caso, o corpo de um homem, que lida com as consequ\u00eancias do mal de Parkinson. A tem\u00e1tica \u00e9 aderente por conta da sua amplitude e da sua humanidade, dos impactos sociais que a doen\u00e7a acarreta, no \u00e2mbito pessoal e na fam\u00edlia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A dramaturgia e a encena\u00e7\u00e3o esbarram, no entanto, na armadilha da reprodu\u00e7\u00e3o do machismo, do sexismo e de viol\u00eancias simb\u00f3licas na rela\u00e7\u00e3o que se estabelece entre os personagens, marido e mulher, ela muito mais nova do que ele. Num pa\u00eds t\u00e3o plural como o Brasil, mas desigual, violento e mis\u00f3gino, as problematiza\u00e7\u00f5es da nossa realidade e as revolu\u00e7\u00f5es de pensamento e atitude precisam acontecer desde o espa\u00e7o da cria\u00e7\u00e3o e da frui\u00e7\u00e3o art\u00edstica, em cada canto do Brasil.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O espa\u00e7o universit\u00e1rio pode ser propulsor dessas revolu\u00e7\u00f5es. \u00c9 o que nos lembra <\/span><strong><i>A cabe\u00e7a de Tereza<\/i><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, tamb\u00e9m de Rond\u00f4nia, que tem dramaturgia e atua\u00e7\u00e3o de Jam Soares e dire\u00e7\u00e3o do professor Luiz Lerro, e foi concebido no \u00e2mbito do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rond\u00f4nia, institui\u00e7\u00e3o criada em 1982. A universidade tem papel fundamental no questionamento de conceitos e na elabora\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o de novos saberes. Perguntas \u201cantigas\u201d precisam de respostas cont\u00ednuas: como definimos, por exemplo, o que \u00e9 centro e o que \u00e9 periferia quando olhamos para o Brasil? Como determinamos o que \u00e9 arte regional e o que \u00e9 arte nacional? Como imaginar projetos que contemplem os nossos lugares de partida e os nossos desejos? Jam Soares, mulher jovem afro amaz\u00f4nida, criou um espet\u00e1culo que \u00e9 um manifesto pela mem\u00f3ria de mulheres invisibilizadas na nossa hist\u00f3ria a partir da personagem ficcional Tereza Sankofa, uma homenagem a Tereza de Benguela que, por cerca de 20 anos, foi l\u00edder do maior quilombo no territ\u00f3rio que hoje \u00e9 o Mato Grosso.&nbsp;<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_26230\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/copia-de-20250309_ic_ophelia_9241\/\" rel=\"attachment wp-att-26230\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26230\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26230\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Copia-de-20250309_IC_Ophelia_9241-scaled-e1744228623934.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26230\" class=\"wp-caption-text\">Ensaio geral faz homenagem a Selma Bustamante. Foto: Ag\u00eancia Oph\u00e9lia<\/p><\/div>\n<p><strong><i>Ensaio geral<\/i><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, espet\u00e1culo de teatro de rua de Klindson Cruz, manauara residente em Porto Velho, tamb\u00e9m \u00e9 uma homenagem a uma mulher. Protagonizado pelo palha\u00e7o Pingo, o trabalho celebra a vida e a trajet\u00f3ria de Selma Bustamante, atriz do grupo Ventoforte, em S\u00e3o Paulo, falecida em 2019, que morou por bastante tempo no Amazonas. Embora artif\u00edcios dramat\u00fargicos e de encena\u00e7\u00e3o se desgastem ao longo das cenas, como a procura repetitiva por objetos em malas, e o artista perca possibilidades interessantes a partir da intera\u00e7\u00e3o com os espectadores, o palha\u00e7o meio mal-humorado captura a aten\u00e7\u00e3o e a curiosidade do p\u00fablico. E o mote \u00e9 t\u00e3o importante para o espet\u00e1culo quanto para o projeto Conex\u00f5es Norte Sul: o processo art\u00edstico, o ensaio, a transmiss\u00e3o de saberes entre os artistas, a celebra\u00e7\u00e3o aos que vieram antes de n\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O espet\u00e1culo <\/span><strong><i>Teatro dos seres imagin\u00e1rios<\/i><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, da Cia Seres Imagin\u00e1rios, de Porto Alegre, que tamb\u00e9m foi apresentado na rua, mas com uma estrutura bastante espec\u00edfica, provoca encantamento no espectador, nos lembrando que teatro \u00e9 exerc\u00edcio pol\u00edtico de imagina\u00e7\u00e3o e criatividade. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Livro dos Seres Imagin\u00e1rios<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de Jorge Lu\u00eds Borges e Margarita Guerrero, \u00e9 a inspira\u00e7\u00e3o para um espet\u00e1culo com bonecos que saem da cabe\u00e7a do autor &#8211; um boneco &#8211; para dividir o espa\u00e7o c\u00eanico com as cabe\u00e7as dos espectadores, fazendo as pessoas se moverem em volta de si mesmas na busca por acompanhar aquelas criaturas intrigantes, assustadoras, curiosas. O p\u00fablico, de apenas 18 pessoas, coloca as cabe\u00e7as numa esp\u00e9cie de caixa de tecido suspensa a 1,5 metro do ch\u00e3o, e o espet\u00e1culo de bonecos, que tem dire\u00e7\u00e3o de arte e m\u00fasica primorosas, se desenrola dentro daquele espa\u00e7o. A manipula\u00e7\u00e3o \u00e9 feita pelos artistas Cac\u00e1 Sena, Charles Kray, Elaine Regina e Silvia Regina Ferrare e a m\u00fasica \u00e9 de S\u00e9rgio Olive.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De volta ao palco, <\/span><strong><i>Trivial \u2013 Um Espet\u00e1culo de B-boys<\/i><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, com dire\u00e7\u00e3o e coreografia de Driko Oliveira, de Porto Alegre, traz a cultura break como motor para um espet\u00e1culo que tem na dan\u00e7a sua for\u00e7a f\u00edsica e na palavra a exposi\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade que pode ser transformadora. Est\u00e3o em cena os Bboys Daniel Carvalheiro, T2, Deaf, Julinho RC e C\u00e9sar RC e a B-girl Naju. Com os seus corpos, eles nos mostram o quanto a arte no Brasil \u00e9 diversa e n\u00e3o aceita caixinhas. O break \u00e9 da rua, \u00e9 do palco, \u00e9 do esporte, \u00e9 de qualquer lugar. Mas quando exp\u00f5em por meio de relatos pessoais demandas de suas realidades, como a disparidade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, a invisibilidade de jovens negros, as viol\u00eancias a que s\u00e3o submetidos, o espet\u00e1culo toma f\u00f4lego de mudan\u00e7a, de ruptura.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 esse f\u00f4lego, de artistas que se colocam em suas inteirezas e fragilidades, que precisamos tomar para continuar lidando com o cotidiano de diversidades e disparidades, aqui especificamente nas artes da cena no Brasil. E para lembrar que n\u00e3o lutamos somente por n\u00f3s, seja qual for a nossa circunst\u00e2ncia. As reflex\u00f5es e provoca\u00e7\u00f5es do projeto Conex\u00f5es Norte Sul nos levam ao entendimento de que a briga precisa ser coletiva e deve abarcar todas as realidades: desde os artistas que t\u00eam fome, aqueles que andam de metr\u00f4 ou de avi\u00e3o, os que est\u00e3o come\u00e7ando, est\u00e3o na universidade, que possuem trajet\u00f3rias consolidadas, que j\u00e1 conseguem circular pelo pa\u00eds por meios pr\u00f3prios, que sonham em ver o que criaram extrapolar&nbsp; limites. Artistas que, independentemente de suas situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, se inquietam e desejam colocar na roda possibilidades coletivas de construir novas realidades.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>*<strong>Texto escrito como uma das a\u00e7\u00f5es do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/secoes\/agenda-cultural\/confira-a-programacao-do-conexoes-norte-sul\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/secoes\/agenda-cultural\/confira-a-programacao-do-conexoes-norte-sul\">Projeto Conex\u00f5es Norte Sul<\/a>, a convite do Ita\u00fa Cultural e Sesc RS<\/strong>.<strong> Al\u00e9m de Pollyanna Diniz, do Satisfeita, Yolanda?, participaram do acompanhamento cr\u00edtico do evento Valmir Santos, do <a href=\"https:\/\/teatrojornal.com.br\/2025\/03\/vaos-e-vens\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teatrojornal<\/a>, e Kil Abreu, do <a href=\"https:\/\/cenaaberta.com.br\/2025\/03\/28\/imaginacao-cenica-nos-extremos-do-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cena Aberta<\/a>.<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_26221\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dois-portos-reflexoes-sobre-diversidade-disparidade-e-deslocamentos\/019-teatro-dos-seres-imaginarios_drago_foto-rique-barbo\/\" rel=\"attachment wp-att-26221\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26221\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-26221 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/019.-Teatro-dos-Seres-Imaginarios_drago_foto-Rique-Barbo.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"424\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/019.-Teatro-dos-Seres-Imaginarios_drago_foto-Rique-Barbo.jpeg 640w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/019.-Teatro-dos-Seres-Imaginarios_drago_foto-Rique-Barbo-300x199.jpeg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/019.-Teatro-dos-Seres-Imaginarios_drago_foto-Rique-Barbo-624x413.jpeg 624w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-26221\" class=\"wp-caption-text\">Teatro dos Seres Imagin\u00e1rios se inspira em livro de Jorge Lu\u00eds Borges e Margarita Guerrero. Foto: Rique Barbo<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se trabalha com arte no Brasil e, especificamente, com as artes da cena, partindo de lugares que n\u00e3o aqueles considerados \u201ceixo\u201d, ou seja, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, no Sudeste do pa\u00eds, o que se h\u00e1 de fazer \u00e9 n\u00e3o se deixar enquadrar. Mover-se por dentro e por fora para instaurar as nossas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[8173,1517,8179,8188,8180,8161,8178,8153,8156,8160,8184,8186,8190,2967,8181,8163,8171,8167,80,1314,8175,8157,8187,2015,8176,8174,8159,8168,8172,8170,8158,2973,8189,8162,8166,8155,8154,8164,8182,8165,8185,8177,8183,8169],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26217"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26217"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26217\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26238,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26217\/revisions\/26238"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}