{"id":26047,"date":"2024-12-19T12:18:57","date_gmt":"2024-12-19T15:18:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=26047"},"modified":"2024-12-19T12:18:57","modified_gmt":"2024-12-19T15:18:57","slug":"sinfonia-de-silencios-e-palavras-explosivas-critica-de-apenas-o-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/sinfonia-de-silencios-e-palavras-explosivas-critica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"Sinfonia de sil\u00eancios e palavras explosivas <\/br>Cr\u00edtica de Apenas o Fim do Mundo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26050\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/apenasx2-scaled-e1734603199957.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26050\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26050\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/apenasx2-scaled-e1734603199957.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"344\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26050\" class=\"wp-caption-text\">Bruno Parmera (Suzanne) e Pedro Wagner (Louis), em <strong>Apenas o fim do mundo<\/strong>. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_26051\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/apenas-x1z1-e1734603366837.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26051\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26051\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/apenas-x1z1-e1734603366837.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"535\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26051\" class=\"wp-caption-text\">A proximidade do p\u00fablico cria uma intimidade desconfort\u00e1vel. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Durante infind\u00e1veis cinco minutos (ou foram cinco horas ou cinco anos), um grupo de desconhecidos (ou quase) e eu, aguardamos pela chegada de Louis (ou Luiz, como queiram), o filho que partiu 12 ou 14 anos antes, e muito pouco ou quase nada enviou de not\u00edcias e afetos para a fam\u00edlia. Essa espera pensativa aciona as mem\u00f3rias de cada pessoa, mas tamb\u00e9m de uma cidade, o Recife. Mesmo que o texto original seja franc\u00eas, o corpo do Magiluth \u00e9 recifense e isso transpira, ainda mais quando o site specific, o lugar da encena\u00e7\u00e3o, \u00e9 o Museu de Arte Moderna Alo\u00edsio Magalh\u00e3es (Mamam), que fica na Rua da Aurora, de frente para o Rio Capibaribe, tendo como fundo a Rua do Sol. As portas abertas, os port\u00f5es de ferro fechados, mas por onde vemos os carros passarem, \u00f4nibus e motos tamb\u00e9m deixam seus rastros nesse quadro. O registro ac\u00fastico de fora contrasta com o sil\u00eancio c\u00famplice dos que velam. Ouvimos o fluxo do Capibaribe e sentimos a dramaturgia sonora inicial de uma cidade que quase se esquece do seu centro \u00e0 noite, em contraste com a expectativa de uma plateia pela personagem, que vem anunciar sua morte pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>&nbsp;A volta de Louis <strong>n\u00e3o<\/strong> segue o<em> script<\/em> do filho pr\u00f3digo b\u00edblico; talvez convoque outro mito, de Caim e Abel, em que as disputas e ci\u00fames ativam m\u00e1goas antigas. Antoine, o irm\u00e3o do meio, que permaneceu \u201cem casa\u201d, n\u00e3o suporta imaginar a vida vibrante de Louis mundo afora, t\u00e3o diferente da sua pr\u00f3pria. Esse retorno desavisado acende sentimentos de ofensa, de inveja, algo aquebrantado, intensificando o conflito dom\u00e9stico. N\u00e3o h\u00e1 celebra\u00e7\u00e3o nem abra\u00e7os calorosos na chegada; vinga a mudez dos segredos de emo\u00e7\u00f5es \u00edntimas e as palavras que quando surgem s\u00e3o explosiva ou devastadoras.<\/p>\n<p>O franc\u00eas Jean-Luc Lagarce escreveu <strong><em>Apenas o fim do mundo<\/em><\/strong> &#8211; uma obra de sutilezas e que verticaliza a pulsa\u00e7\u00e3o humana &#8211; em 1990, per\u00edodo em que j\u00e1 estava ciente de seu diagn\u00f3stico de AIDS, uma condi\u00e7\u00e3o que, na \u00e9poca, era praticamente uma senten\u00e7a de morte. Ele continuou a refinar o texto at\u00e9 1995, ano de sua morte aos 38 anos. Sua pe\u00e7a proporciona uma delicada e impiedosa reflex\u00e3o sobre a finitude, algo inexor\u00e1vel, e joga desde o seu t\u00edtulo (o desaparecimento de algu\u00e9m <strong>n\u00e3o<\/strong> \u00e9 o fim do mundo) com as ironias dessa experi\u00eancia que \u00e9 viver.<\/p>\n<div id=\"attachment_26052\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/snapedit_1734607616887-e1734607768270.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26052\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26052\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/snapedit_1734607616887-e1734607768270.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"383\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26052\" class=\"wp-caption-text\">Almo\u00e7o ou jantar em fam\u00edlia. Foto Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">A musicalidade e o ritmo singular do original franc\u00eas s\u00e3o alimentados na tradu\u00e7\u00e3o sens\u00edvel de Giovana Soar, que articula em portugu\u00eas as hesita\u00e7\u00f5es e repeti\u00e7\u00f5es, as pausas e frases inacabadas, bem como o embara\u00e7o desses titubeios. Essa tradu\u00e7\u00e3o captura a tempestade de emo\u00e7\u00f5es reprimidas e os rancores abafados, sustentados por anos de dist\u00e2ncia, criando assim uma verdadeira partitura verbal.<\/span><\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o de Giovana Soar e Luiz Fernando Marques (Lubi) transforma o texto desafiador de Lagarce em uma experi\u00eancia teatral imersiva e sensorial que dura aproximadamente duas horas e meia. Como teatro site-specific, a dupla cria um labirinto emocional nos espa\u00e7os apresentados que equivale \u00e0 jornada interna das personagens.<\/p>\n<p>No Mamam, o p\u00fablico \u2013 limitado a cerca de 60 pessoas por sess\u00e3o \u2013 \u00e9 convidado a seguir os atores por diferentes ambientes do museu, ajustado para a pe\u00e7a pela dire\u00e7\u00e3o de arte de Guilherme Luigi e Lubi. A cada nova cena, somos confrontadas com outra faceta do drama familiar. Nessa cenografia din\u00e2mica e reativa, objetos s\u00e3o desarrumados no decorrer da encena\u00e7\u00e3o, mesas se partem durante discuss\u00f5es acaloradas, criando um ambiente ca\u00f3tico que reflete o tumulto interno dessas figuras.&nbsp;<\/p>\n<p>A proximidade do p\u00fablico, nesse contexto, \u00e9 uma escolha deliberada da dire\u00e7\u00e3o. Essa estrat\u00e9gia visa criar uma intimidade desconfort\u00e1vel que espelha e intensifica a paleta de sentimentos de abandono e desemparo que cada personagem carrega. Ao reduzir a dist\u00e2ncia f\u00edsica, a produ\u00e7\u00e3o busca envolver os espectadores de maneira mais intensa, permitindo que eles experimentem as emo\u00e7\u00f5es complexas e muitas vezes dolorosas que permeiam a narrativa. Essa proximidade favorece uma conex\u00e3o emocional mais intensa, na qual cada gesto, express\u00e3o facial e nuance vocal dos atores s\u00e3o amplificados.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o apresenta momentos que oscilam entre tons amarelo-s\u00e9pia, evocativos de lembran\u00e7as empoeiradas, e azuis et\u00e9reos, que sugerem uma realidade quase on\u00edrica. A trilha sonora aprofunda o rasgo melanc\u00f3lico, com uma suspens\u00e3o desse clima na performance rock da banda que se instala no meio da sala.<\/p>\n<div id=\"attachment_26061\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/20241210_215529-scaled-e1734617735825.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26061\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26061\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/20241210_215529-scaled-e1734617735825.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"486\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26061\" class=\"wp-caption-text\">A banda de rock. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Tive a oportunidade de assistir a esta obra teatral quatro vezes: duas no SESC Avenida Paulista, onde estreou em 2019, uma no Mamam no mesmo ano, e agora novamente em 2024, na temporada comemorativa. \u00c9 gratificante observar o amadurecimento do Magiluth, pois, em termos art\u00edsticos, parece ser um processo sempre em constru\u00e7\u00e3o. Com 20 anos de uma trajet\u00f3ria inspiradora, o grupo reafirma seu compromisso com a arte. Esta pe\u00e7a, tristemente bela, me faz pensar e sentir mais a cada sess\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_26060\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/20241210_220720-scaled-e1734617799614.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26060\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26060\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/20241210_220720-scaled-e1734617799614.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"383\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26060\" class=\"wp-caption-text\">A discuss\u00e3o antes da despedida. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Embora o texto de Lagarce tenha sido escrito no contexto da &#8220;epidemia do HIV\/AIDS&#8221; no mundo, dos anos 1990, sua montagem no Brasil em 2019 pelo Magiluth (e sua continua\u00e7\u00e3o em 2024) ganha outras camadas de sentido no contexto sociopol\u00edtico atual. A men\u00e7\u00e3o \u00e0 extin\u00e7\u00e3o do departamento de AIDS do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade pelo governo Bolsonaro, citada no in\u00edcio do espet\u00e1culo, estabelece uma ponte entre o drama pessoal de Louis e quest\u00f5es mais amplas de sa\u00fade p\u00fablica e pol\u00edtica. Esta conex\u00e3o sublinha a relev\u00e2ncia cont\u00ednua da obra de Lagarce e a habilidade do Grupo Magiluth em fazer pulsar o pol\u00edtico no teatro.<\/p>\n<div id=\"attachment_26055\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/20241210_2214450-scaled-e1734612925267.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26055\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26055\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/20241210_2214450-scaled-e1734612925267.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"288\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26055\" class=\"wp-caption-text\">&nbsp;Catherine (Giordano Castro), encarada por Antoine (Mario Sergio), observado por Louis. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p><strong><em>Apenas o fim do mundo<\/em><\/strong> \u00e9 uma pe\u00e7a que, perturbadoramente, fala de amor, de forma brutal, desenterrando o que ficou escondido, as recorda\u00e7\u00f5es, m\u00e1goas, ressentimentos e culpas. \u00c9 uma pe\u00e7a densa e triste, uma beleza melanc\u00f3lica que me toca profundamente.<\/p>\n<p>A vivacidade do jogo f\u00edsico, caracter\u00edstica marcante do grupo, \u00e9 transposta para o jogo de palavras. O percurso, o deslocamento e a apropria\u00e7\u00e3o dos ambientes do Mamam imp\u00f5em sensa\u00e7\u00f5es \u00fanicas. A conex\u00e3o com o p\u00fablico est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 experi\u00eancia de ocupar esses ambientes, potencializada pelo inc\u00f4modo e desconforto do pr\u00f3prio deslocamento. A vis\u00e3o \u00e9 fragmentada, variando conforme o ponto de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa fragmenta\u00e7\u00e3o do olhar da plateia projeta as perspectivas diferenciadas de cada personagem, motivadas pela partida de Louis. Assim como o p\u00fablico percebe a cena de maneira parcial, dependendo de sua localiza\u00e7\u00e3o, cada personagem tamb\u00e9m possui uma vis\u00e3o limitada e subjetiva dos eventos, influenciada por suas emo\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias pessoais.<\/p>\n<div id=\"attachment_26057\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/apenasx7-e1734615845369.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26057\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26057\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/apenasx7-e1734615845369.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"552\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26057\" class=\"wp-caption-text\">Pedro Wagner no papel de Louis. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Em <strong><em>Apenas o fim do mundo<\/em><\/strong>, o Grupo Magiluth cria um <em>ensemble<\/em> afinado. Pedro Wagner, no papel de Louis, entrega uma performance de conten\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel. H\u00e1 uma gravidade maior na maneira como Pedro Wagner mastiga aquelas palavras em sil\u00eancio, para depois cuspi-las. Sua atua\u00e7\u00e3o possui uma densidade mais intensa do que em 2019, quando a pe\u00e7a estreou. Naquele ano, est\u00e1vamos todas assustadas com o pandem\u00f4nio e sua gangue, que, alguns anos depois, come\u00e7a a ser desmascarado. A eloqu\u00eancia de Louis \u00e9 carregada pelo sil\u00eancio que pesa fisicamente sobre todos os presentes.<\/p>\n<p>Interpretando a M\u00e3e, Erivaldo Oliveira desafia as conven\u00e7\u00f5es de g\u00eanero com uma atua\u00e7\u00e3o que transmite fragilidade e empoderamento da matriarca. A personagem, \u00fanica sem nome, conhece profundamente cada um de seus filhos. Sua tentativa de promover a harmonia entre eles \u00e9 evidente, assim como seu esfor\u00e7o para garantir seu lugar na mem\u00f3ria familiar, relembrando os domingos de ver\u00f5es passados nas conversas durante as refei\u00e7\u00f5es.&nbsp;Em uma cena delicada, ela explica a Louis que seus irm\u00e3os desejam falar e conversar, destacando a justeza de cada um que permaneceu e a necessidade de serem encorajados. O ator navega habilmente entre a afli\u00e7\u00e3o e o humor.<\/p>\n<p>Suzanne, a irm\u00e3 mais nova, \u00e9 vivida por Bruno Parmera, que a interpreta com uma energia nervosa que beira o fren\u00e9tico. A pros\u00f3dia do ator traduz a urg\u00eancia da personagem em conhecer o mundo, na esperan\u00e7a de um dia poder explor\u00e1-lo como Louis fez anos antes, e tamb\u00e9m em expressar sua pr\u00f3pria identidade. Seus movimentos s\u00e3o \u00e1geis e entrecortados, refletindo essa inquieta\u00e7\u00e3o interna. Quando Suzanne encontra o irm\u00e3o mais velho, ela fala incessantemente, confessando que esse comportamento n\u00e3o \u00e9 habitual. Essa din\u00e2mica indica tanto sua admira\u00e7\u00e3o por Louis quanto seu desejo de se afirmar em um mundo que ainda est\u00e1 descobrindo.<\/p>\n<p>Assumindo o personagem de Antoine, o irm\u00e3o do meio, Mario Sergio Cabral entrega uma atua\u00e7\u00e3o impressionante, um verdadeiro <em>tour de force<\/em>, onde projeta suas emo\u00e7\u00f5es como um vulc\u00e3o prestes a entrar em erup\u00e7\u00e3o. Descrito pela M\u00e3e como um homem de pouca imagina\u00e7\u00e3o, Antoine surpreende ao revelar gradualmente seus sentimentos em rela\u00e7\u00e3o ao irm\u00e3o. \u00c9 desconcertante e ao mesmo tempo envolvente observar como ele, com sua rudeza, fala de amor de maneira t\u00e3o crua e sincera, tornando suas emo\u00e7\u00f5es quase palp\u00e1veis. Quando Antoine se permite chorar, o p\u00fablico inevitavelmente se comove, derretendo-se diante da vulnerabilidade que ele exp\u00f5e.<\/p>\n<p>No papel de Catherine, a cunhada, Giordano Castro, fornece uma perspectiva externa vital para a din\u00e2mica familiar. Entre o riso e o esc\u00e1rnio, e sem a mem\u00f3ria da inf\u00e2ncia por n\u00e3o ser parte integrante daquele n\u00facleo desde sempre, o ator investe em pequenos gestos e sutis altera\u00e7\u00f5es vocais para expor verdades ditas a meia-voz, revelando as nuances das intimidades daquela fam\u00edlia. Casada com Antoine, Catherine navega entre a vergonha dos pequenos esc\u00e2ndalos, as explos\u00f5es temperamentais do marido e a perturbadora presen\u00e7a de Louis, o cunhado cuja chegada abalou o t\u00eanue equil\u00edbrio parental. Em meio a esse tumulto, ela se esfor\u00e7a para proteger Antoine, enquanto sugere que guarda cuidadosamente seus pr\u00f3prios segredos.<\/p>\n<p>Mas nessa pe\u00e7a de tantos desafios h\u00e1 sobretudo um dom\u00ednio impressionante da t\u00e9cnica. Da t\u00e9cnica interpretativa em que os atores, em alguns momentos, saem de suas personagens para cuidar da artesania dos bastidores, \u00e0 medida que a casa vai se revelando e se distorcendo ao longo do espa\u00e7o. Este espet\u00e1culo exige um rigoroso controle na administra\u00e7\u00e3o da sequ\u00eancia das cenas. E o maestro dessa opera\u00e7\u00e3o \u00e9 o ator Lucas Torres, que atua como contrarregra, garantindo que toda a engrenagem funcione perfeitamente. H\u00e1 uma camada metateatral, com Lucas Torres dando instru\u00e7\u00f5es no in\u00edcio da sess\u00e3o, percorrendo todas as cenas e aparecendo como o baterista da banda na sala de jantar. Todo o elenco permanece atento ao andamento da encena\u00e7\u00e3o e aos seus detalhes, frequentemente oferecendo orienta\u00e7\u00f5es \u00e0 equipe de apoio.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a se desenrola como uma dan\u00e7a intricada em torno de um vazio central, com cada personagem orbitando em torno da verdade que Louis veio compartilhar, mas que nunca consegue expressar plenamente. Os movimentos se transformam em uma coreografia elaborada de aproxima\u00e7\u00f5es e afastamentos, espelhando as tentativas frustradas de conex\u00e3o entre eles. N\u00e3o h\u00e1 reden\u00e7\u00e3o. Com <strong><em>Apenas o fim do mundo<\/em><\/strong>, o Magiluth nos incita a ampliar nossas perspectivas de afeto e a ter cuidado com os segredos e com as verdades que criamos.<\/p>\n<div id=\"attachment_26058\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/apnasx6-scaled-e1734616058706.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26058\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26058\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/apnasx6-scaled-e1734616058706.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"436\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26058\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e3e conversa com o filho mais velho. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<h3>Leia outras cr\u00edticas de <em>Apenas o fim do mundo<\/em>,<br \/>\na de Pollyanna Diniz <a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/\">Hello stranger<\/a><br \/>\ne outra de Ivana Moura <a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/magiluth-vasculha-politica-nos-lacos-afetivos\/\">Magiluth vasculha pol\u00edtica nos la\u00e7os afetivos<\/a><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Apenas o fim do mundo<\/em><br \/>\nFicha t\u00e9cnica:<\/strong><br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;Giovana Soar e Luiz Fernando Marques Lubi<br \/>\n<strong>Assistente de dire\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;Lucas Torres<br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong>&nbsp;Jean-Luc Lagarce<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;Giovana Soar<br \/>\n<strong>Atores:<\/strong>&nbsp;Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, M\u00e1rio Sergio Cabral e Pedro Wagner<br \/>\n<strong>T\u00e9cnico:<\/strong>&nbsp;Lucas Torres<br \/>\n<strong>Desenho de luz:<\/strong>&nbsp;Grupo Magiluth<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de arte:<\/strong>&nbsp;Guilherme Luigi e Luiz Fernando Marques Lubi<br \/>\n<strong>Design gr\u00e1fico:<\/strong>&nbsp;Guilherme Luigi<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;Grupo Magiluth<\/p>\n<h2>&nbsp;<\/h2>\n<h2>O<em>&nbsp;Satisfeita, Yolanda?<\/em>&nbsp;faz parte do&nbsp;<strong><em><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/projeto-arquipelago\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">projeto arquip\u00e9lago<\/a>&nbsp;<\/em><\/strong>de fomento \u00e0 cr\u00edtica, &nbsp;apoiado pela produtora&nbsp;<strong><a href=\"http:\/\/corporastreado.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Corpo Rastreado,<\/a>&nbsp;junto \u00e0s seguintes casas : CENA ABERTA, Guia OFF, Farofa Cr\u00edtica, Horizonte da Cena,<\/strong><strong> Ru\u00edna Acesa e Tudo menos uma cr\u00edtica<\/strong><\/h2>\n<p><img src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/WhatsApp-Image-2022-11-09-at-18.21.49-e1669690492534.jpeg\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante infind\u00e1veis cinco minutos (ou foram cinco horas ou cinco anos), um grupo de desconhecidos (ou quase) e eu, aguardamos pela chegada de Louis (ou Luiz, como queiram), o filho que partiu 12 ou 14 anos antes, e muito pouco ou quase nada enviou de not\u00edcias e afetos para a fam\u00edlia. Essa espera pensativa aciona [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[5251,6187,1583,606,304,2877,301,2720,607,2353,7411,548,2748,8070,306,7373,1952,65,1268,2315],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26047"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26047"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26047\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26064,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26047\/revisions\/26064"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}