{"id":25848,"date":"2024-11-14T10:57:15","date_gmt":"2024-11-14T13:57:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25848"},"modified":"2024-11-14T10:57:18","modified_gmt":"2024-11-14T13:57:18","slug":"mae-eu-sou-vocecritica-de-azirai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mae-eu-sou-vocecritica-de-azirai\/","title":{"rendered":"M\u00e3e, eu sou voc\u00ea<\/br>Cr\u00edtica de Azira&#8217;i"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>&#8220;O tempo ind\u00edgena \u00e9 o tempo circular. O tempo da natureza. E ela n\u00e3o anda pra frente. Ela anda sobre si mesma, \u201cpra tr\u00e1s\u201d nesse sentido&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Daniel Munduruku, escritor e professor<\/p>\n<div id=\"attachment_25851\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mae-eu-sou-vocecritica-de-azirai\/azirai-fotos-annelize-tozetto-2\/\" rel=\"attachment wp-att-25851\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25851\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25851\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0604_azira_i_fotografia_annelize_tozetto-1238_53636074552_o-scaled-e1731591768848.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25851\" class=\"wp-caption-text\">Zahy Tentehar em Azira&#8217;i. Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/atrizes-orquestras-e-teatralidade-exposta\/whatsapp-image-2024-07-11-at-13-17-28\/\" rel=\"attachment wp-att-25534\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25534 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/WhatsApp-Image-2024-07-11-at-13.17.28-e1721662527897.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\"><\/a>O escritor e professor Daniel Munduruku escreveu que \u201co tempo ind\u00edgena \u00e9 o tempo circular. O tempo da natureza\u201d. E que o passado \u201c\u00e9 o tempo da mem\u00f3ria\u201d. Zahy Tentehar, atriz e dramaturga ind\u00edgena, nos d\u00e1 a ver essa percep\u00e7\u00e3o de tempo a partir da rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e,&nbsp;<em>Azira\u2019i<\/em>, t\u00edtulo do espet\u00e1culo que lhe rendeu o pr\u00eamio Shell de melhor atriz, sendo essa a primeira vez que uma ind\u00edgena recebe esse reconhecimento. A montagem estreou no Rio de Janeiro no ano passado, passou pelo Festival Recife do Teatro Nacional, fez temporada em S\u00e3o Paulo e participou do Festival de Curitiba.<\/p>\n<p>Tendo como subt\u00edtulo \u201cUm musical de mem\u00f3rias\u201d, o espet\u00e1culo parece s\u00f3 ter sido poss\u00edvel gra\u00e7as a esse tempo circular a que se refere Munduruku, que \u00e9 o da natureza, dos ciclos, do amadurecimento, da sabedoria de revisitar o passado entendendo que ele se faz mem\u00f3ria. Tendo, sen\u00e3o curado, apaziguado as emo\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se deixando cair nas armadilhas dos julgamentos.<\/p>\n<p><em>Azira\u2019i&nbsp;<\/em>confunde os estere\u00f3tipos, conflui possibilidades de exist\u00eancias, expande os imagin\u00e1rios e n\u00e3o se disp\u00f5e a fazer concess\u00f5es, respeitando quem se \u00e9. O espet\u00e1culo se p\u00f5e de p\u00e9 a partir da dignidade que \u00e9 assumir a autoria da pr\u00f3pria narrativa e compartilh\u00e1-la em sua inteireza, explicitando dores e contradi\u00e7\u00f5es, mas esmiu\u00e7ando a beleza nos detalhes, seja na possibilidade de imaginar um c\u00e9u estrelado, na conta\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria sobre o macaco e o tatu no terreiro, na voz doce e l\u00edmpida de uma mulher que canta um lamento, no riso que vem de uma suposta bobagem do cotidiano.<\/p>\n<p>Para uma artista ind\u00edgena, colocar-se em primeiro plano, neste caso como dramaturga e atriz, \u00e9 assumir a dianteira da pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o, em vez de aceitar aquelas formuladas por terceiros, muitas vezes preconceituosas, fantasiosas, rom\u00e2nticas, constru\u00eddas ao longo dos s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o. Estar no palco se constitui como uma atitude pol\u00edtica, que reivindica visibilidade e pertencimento ao teatro, ao tomar as decis\u00f5es sobre quais hist\u00f3rias se deseja contar e a partir de quais perspectivas.<\/p>\n<p>A arte \u2013 e o teatro, em sentido expandido \u2013 est\u00e3o imbricados na exist\u00eancia ind\u00edgena: nos rituais, nos cantos, nas dan\u00e7as, nas pinturas, na conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias. Mas \u00e9 importante reconhecer, para que nunca se repita, que o teatro, como o conhecemos a partir do contato com o colonizador, foi instrumento de subjuga\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas no Brasil. Para o escritor, ambientalista e tradutor ind\u00edgena Kak\u00e1 Wer\u00e1, o teatro foi t\u00e3o mal\u00e9fico aos povos origin\u00e1rios quanto a guerra e as doen\u00e7as trazidas pelos que aqui chegaram. No livro&nbsp;<em>Teatralidade do Humano<\/em>, publicado em 2011, Wer\u00e1 afirmou: \u201cO teatro desestruturou cosmovis\u00f5es ancestrais, valores ancestrais, valores sagrados. Ele desestruturou o modo de pensar e o modo dos \u00edndios (sic) se relacionarem com a realidade, em nome de uma suposta verdade maior. Isso foi chamado de catequiza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a guerra n\u00e3o foi pior que o teatro\u201d.<\/p>\n<p>O trabalho de Zahy Tentehar e de outros artistas ind\u00edgenas pelo pa\u00eds afora, ao se apropriarem do espa\u00e7o do teatro, principalmente assumindo a constru\u00e7\u00e3o dos discursos, nos mostra que essa arte pode se inserir nos esfor\u00e7os decoloniais, na visibiliza\u00e7\u00e3o de cosmovis\u00f5es estruturadas noutras bases, que n\u00e3o a da explora\u00e7\u00e3o. O teatro precisa ser cada vez mais ind\u00edgena, para que seja de todos.<\/p>\n<div id=\"attachment_25852\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mae-eu-sou-vocecritica-de-azirai\/azirai-fotos-annelize-tozetto-3\/\" rel=\"attachment wp-att-25852\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25852\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25852\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0604_azira_i_fotografia_annelize_tozetto-1372_53636966596_o-scaled-e1731592007136.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25852\" class=\"wp-caption-text\">Zahy, como atriz e dramaturga, assume a dianteira da pr\u00f3pria narrativa. Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p>Em&nbsp;<em>Azira\u2019i<\/em>, especificamente, a presen\u00e7a de Zahy traz uma camada al\u00e9m: a artista \u00e9 nordestina, nascida na Aldeia Col\u00f4nia, na reserva ind\u00edgena Cana Brava, no Maranh\u00e3o. O historiador Durval Muniz de Albuquerque J\u00fanior, autor do livro&nbsp;<em>A inven\u00e7\u00e3o do Nordeste e outras artes<\/em>, escreveu sobre a invisibilidade dos povos ind\u00edgenas na regi\u00e3o em artigo para o Di\u00e1rio do Nordeste, publicado em 23 de maio de 2023. O autor explicita o quanto, na regi\u00e3o, temos vivenciado os processos nomeados de emerg\u00eancia ou ressurg\u00eancia \u00e9tnica, \u201cou seja, grupos que negavam ou n\u00e3o tinham consci\u00eancia de sua descend\u00eancia \u00e9tnica, de sua origem \u00e9tnica, e que passam a se reconhecer e se identificar com essa descend\u00eancia e com essa origem\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com dados do IBGE divulgados em 2023, a regi\u00e3o Nordeste concentra a segunda maior popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena do pa\u00eds, 31,22%, ficando atr\u00e1s apenas do Norte, com 44,48%. Ao mesmo tempo, como aponta Alburquerque J\u00fanior, o Nordeste, local onde come\u00e7ou o genoc\u00eddio dos povos origin\u00e1rios \u2013 antes mesmo que o Nordeste fosse \u201cinventado\u201d \u2013 \u00e9 considerado esse lugar ber\u00e7o da miscigena\u00e7\u00e3o entre brancos, ind\u00edgenas e negros, o que j\u00e1 sabemos que aconteceu tendo como contexto a viol\u00eancia em todos os \u00e2mbitos, dificultando a sobreviv\u00eancia e a manuten\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Zahy Tentehar carrega esses dois marcadores, ind\u00edgena e nordestina, mas consegue friccionar os estere\u00f3tipos relacionados a ambos, n\u00e3o se deixando enquadrar em caixinhas. Faz isso com intelig\u00eancia e destreza, numa encena\u00e7\u00e3o que nos envolve pela sensibilidade. No espet\u00e1culo, a atriz mostra como, em seu cotidiano, as tradi\u00e7\u00f5es e a cultura ind\u00edgenas est\u00e3o organicamente imbricadas com as viv\u00eancias de algu\u00e9m que mora em Copacabana, toma suco detox e come bofe frito, fala por chamada de v\u00eddeo com o filho que mora na Inglaterra com o pai, um ingl\u00eas que ela conheceu no Tinder, e se espanta mais com a m\u00fasica preferida tocando na r\u00e1dio, um forr\u00f3 da banda Magn\u00edficos, do que com o motorista de aplicativo que pergunta se ela \u00e9 indiana.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de ressaltar sua ida para o Sudeste, decide enfatizar as migra\u00e7\u00f5es que precisou fazer dentro do seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio para que pudesse, de acordo com o pensamento do pai, aprender a ser do jeito que ele tinha idealizado. De modo bem-humorado, resolve assinalar o machismo desse pai na sociedade patriarcal nordestina, ao n\u00e3o se conformar com uma \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d. A cada cena, Zahy compartilha conosco sua vis\u00e3o de mundo, n\u00e3o deixa passarem suas cr\u00edticas impunemente, mas faz isso com generosidade e leveza. Em nada nos remete ao discurso aguerrido, militante, embora instaure seu modo particular de ver as coisas. O espet\u00e1culo se expande assim em amplitude tem\u00e1tica: al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, fala das influ\u00eancias culturais a que os ind\u00edgenas s\u00e3o submetidos, de educa\u00e7\u00e3o, de rela\u00e7\u00e3o com a natureza, com o sagrado, de suas viv\u00eancias na cidade.<\/p>\n<p>No terreno das n\u00e3o concess\u00f5es do espet\u00e1culo, talvez a mais significativa diga respeito ao ze\u2019eng et\u00e9, l\u00edngua do tronco tupi-guarani. Em alguns momentos, Zahy Tentehar fala em ze\u2019eng et\u00e9, sem tradu\u00e7\u00f5es, assumindo a possibilidade de que a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limite ao campo do entendimento formal dos significados, mas da import\u00e2ncia de ouvir essa oralidade, de respeitar a l\u00edngua do outro e de compreender parte das viol\u00eancias lingu\u00edsticas a que os povos origin\u00e1rios foram submetidos. Zahy \u00e9 delicadeza quando ensina os espectadores, a partir da repeti\u00e7\u00e3o, a l\u00edngua ze\u2019eng et\u00e9. Rimos diante da dificuldade da pron\u00fancia das palavras ditas pela atriz e da sua express\u00e3o de \u201cih, n\u00e3o t\u00e1 l\u00e1 essas coisas, mas vamos tentar de novo\u201d. Depois de alguma insist\u00eancia no exerc\u00edcio da repeti\u00e7\u00e3o, a plateia engajada, um coro em ze\u2019eng et\u00e9, ficamos surpresos com a nossa pr\u00f3pria capacidade, ao que recebemos o elogio da professora.<\/p>\n<div id=\"attachment_25853\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mae-eu-sou-vocecritica-de-azirai\/azirai-fotos-annelize-tozetto-4\/\" rel=\"attachment wp-att-25853\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25853\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25853\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0604_azira_i_fotografia_annelize_tozetto-1544_53636074312_o-scaled-e1731592184593.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25853\" class=\"wp-caption-text\">Algumas cenas do espet\u00e1culo s\u00e3o faladas em ze\u2019eng et\u00e9 e a atriz tenta ensinar um pouquinho da l\u00edngua ao p\u00fablico. Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p>A partir dessa aula, uma pedagogia que se ergue no campo do afeto, a dramaturgia impulsiona no espectador o confronto com a viol\u00eancia do processo de educa\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas na l\u00edngua portuguesa. Zahy conta que, da primeira vez em que entrou numa sala de aula, n\u00e3o sabia o porqu\u00ea de as crian\u00e7as estarem sentadas em cadeiras e n\u00e3o entendia o que a mulher l\u00e1 na frente dizia. Como n\u00e3o conseguia corresponder \u00e0s expectativas daquele ensino, recebeu orelhas de jumento e foi obrigada a ficar em p\u00e9, virada para a parede. Por que ningu\u00e9m gosta do jumento? Ela gostava.<\/p>\n<p>Minutos antes, j\u00e1 tinha nos deixado aturdidos quando, depois de revelar que ze\u2019eng et\u00e9 significa \u201cfala verdadeira\u201d, perguntou o que significa \u201cessa outra l\u00edngua que eu tive que aprender para me comunicar com voc\u00eas\u201d. Sil\u00eancio na plateia.<\/p>\n<p>A dramaturgia de&nbsp;<em>Azira\u2019i<\/em>, assinada por Zahy em parceria com Duda Rios, \u00e9 tramada como um tecido cru num tear manual. Em determinado momento, percebemos o quanto o texto \u00e9 h\u00e1bil ao incentivar a partir das palavras a imagina\u00e7\u00e3o do espectador, ao lidar com a mat\u00e9ria do cotidiano e tecer rela\u00e7\u00f5es que se complementam. \u00c9 uma opera\u00e7\u00e3o laboriosa de uma dramaturgia que vai se construindo como uma trama, cada linha apoiada na seguinte, at\u00e9 que o tapete encanta os olhos pela sofistica\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada na simplicidade. A dire\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo \u00e9 assinada por Duda Rios e Denise Stutz.<\/p>\n<p><strong>A m\u00e3e, a primeira paj\u00e9 de Cana Brava<\/strong><\/p>\n<p>A professora, poeta, ensa\u00edsta e dramaturga, Leda Maria Martins, diz que \u201ca concep\u00e7\u00e3o ancestral africana inclui, no mesmo circuito fenomenol\u00f3gico, as divindades, a natureza c\u00f3smica, a fauna, a flora, os elementos f\u00edsicos, os mortos, os vivos e os que ainda v\u00e3o nascer, concebidos como anelos de uma complementariedade necess\u00e1ria, em cont\u00ednuo processo de transforma\u00e7\u00e3o e de devir\u201d. Tomo emprestada essa concep\u00e7\u00e3o de ancestralidade africana ao me deparar com Azira\u2019i, primeira paj\u00e9 da reserva de Cana Brava, no Maranh\u00e3o, atrav\u00e9s de sua filha mais nova, Zahy. A montagem promove essa compreens\u00e3o de que todos esses elementos nos constituem em suas singelezas e complexidades.<\/p>\n<div id=\"attachment_25855\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mae-eu-sou-vocecritica-de-azirai\/azirai-fotos-annelize-tozetto-6\/\" rel=\"attachment wp-att-25855\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25855\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25855\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0604_azira_i_fotografia_annelize_tozetto-1919_53637412565_o-scaled-e1731592493452.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25855\" class=\"wp-caption-text\">Zahy conta como era a m\u00e3e, Azira&#8217;i. Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p>Azira\u2019i tinha seis filhos quando perdeu o marido. O sogro, cacique, deu a nora para que um homem que vinha do Piau\u00ed se casasse com ela. O pai, como chama Zahy, tinha uma m\u00e1goa no cora\u00e7\u00e3o e os dois combinavam em muitas coisas, inclusive no sil\u00eancio e na cegueira, que os acometeria na velhice. Azira\u2019i, cantadora e contadora de hist\u00f3rias, paj\u00e9 com o poder da cura, tinha uma perturba\u00e7\u00e3o com a qual n\u00e3o sabia lidar e isso se refletia em epis\u00f3dios de viol\u00eancia com a filha, Zahy. O primeiro deles \u00e9 narrado de forma m\u00edtica: a m\u00e3e tira a crian\u00e7a de casa e a deixa do lado de fora; a crian\u00e7a chora, enquanto a m\u00e3e canta seus lamentos. Mais tarde, a crian\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1. No meio da mata, ela acorda banhada pela luz da lua cheia. Da\u00ed vem o seu nome, o nome da lua, Zahy.<\/p>\n<p>Os epis\u00f3dios seguintes s\u00e3o atravessados pela viol\u00eancia f\u00edsica, nos quais a m\u00e3e bate na crian\u00e7a at\u00e9 chegar \u00e0 exaust\u00e3o f\u00edsica e emocional. Aos 15 anos, Zahy enfrenta a m\u00e3e, perguntando se ela queria mesmo bater na filha. Apesar da tens\u00e3o que se instala na plateia nos momentos em que Zahy est\u00e1 narrando esses epis\u00f3dios, a dramaturgia passa ao largo da culpabiliza\u00e7\u00e3o, do julgamento, da vingan\u00e7a, e isso interfere na rela\u00e7\u00e3o que n\u00f3s, espectadores, estabelecemos com aquela personagem. Assim como Zahy, n\u00e3o julgamos o comportamento de Azira\u2019i, e isso \u00e9 muito bonito, inclusive pela desmistifica\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, por sua humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa trama, o passado \u00e9 visto como mem\u00f3ria, ajudou a nos fazer quem somos, mas n\u00e3o necessariamente nos determina. H\u00e1 um distanciamento nessa autofic\u00e7\u00e3o que se evidencia como respeito \u00e0 hist\u00f3ria do outro, que foi do jeito que foi, do modo como poderia acontecer diante das circunst\u00e2ncias da vida. Nesse movimento de ancestralidade que \u00e9 circular, Zahy reencontra a m\u00e3e, mas tamb\u00e9m a si mesma, como filha e como m\u00e3e de um menino. Ao longo do espet\u00e1culo, a atriz \u00e9 narradora de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e da hist\u00f3ria da m\u00e3e, em primeira ou terceira pessoa. E se, desde o in\u00edcio, a voz de Azira\u2019i ecoa no teatro, acompanhamos em algumas cenas a sua presentifica\u00e7\u00e3o por meio da representa\u00e7\u00e3o da filha, que se veste como ela se vestiria, se senta no ch\u00e3o com as pernas esticadas como ela, lida com as limita\u00e7\u00f5es trazidas pela cegueira, dan\u00e7a e, principalmente, canta.<\/p>\n<div id=\"attachment_25856\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mae-eu-sou-vocecritica-de-azirai\/azirai-fotos-annelize-tozetto-7\/\" rel=\"attachment wp-att-25856\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25856\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25856\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0604_azira_i_fotografia_annelize_tozetto-1607_53637412890_o-scaled-e1731592614268.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25856\" class=\"wp-caption-text\">Da m\u00e3e, Zahy herdou o dom do canto. Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p>A m\u00fasica, ali\u00e1s, foi o dom que a paj\u00e9&nbsp;suprema transmitiu para a filha mais nova, um elo entre as duas e entre elas e n\u00f3s. Zahy canta lindamente em muitos momentos do espet\u00e1culo, sejam lamentos que aprendeu com a m\u00e3e, m\u00fasicas compostas especialmente para a pe\u00e7a, o forr\u00f3 da banda Magn\u00edficos ou uma vers\u00e3o em ze\u2019eng et\u00e9 de&nbsp;<em>Assum preto<\/em>, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, numa das cenas que considero uma das mais bonitas do teatro brasileiro recente.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o musical do espet\u00e1culo \u00e9 de El\u00edsio Freitas, que assina algumas m\u00fasicas em parceria com Zahy e Duda Rios. Freitas refor\u00e7a conex\u00f5es que o espet\u00e1culo pode suscitar: ele \u00e9 o produtor respons\u00e1vel pelo \u00e1lbum&nbsp;<em>Nordeste Fic\u00e7\u00e3o<\/em>, de Juliana Linhares, provocado pela pe\u00e7a&nbsp;<em>A inven\u00e7\u00e3o do Nordeste<\/em>, do grupo Carmin, do Rio Grande do Norte, e pela pesquisa de Durval Muniz de Albuquerque J\u00fanior sobre a constru\u00e7\u00e3o, inclusive a partir das artes, do Nordeste e de uma identidade nordestina.<\/p>\n<p>Nesse alinhamento de refer\u00eancias, a encena\u00e7\u00e3o se estrutura sem que os elementos disputem espa\u00e7o narrativo. Nada est\u00e1 sobrando ou \u00e9 excessivo, uma coisa colabora com a outra. A m\u00fasica est\u00e1 l\u00e1 ajudando a contar o que se quer dizer. O cen\u00e1rio, que me lembrou as cortinas coloridas de palha da costa africana que dan\u00e7avam na instala\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>Sumidouro n.2 \u2013 Di\u00e1spora fantasma<\/em>, que La\u00eds Machado e Diego Ara\u00faja apresentaram na 35\u00aa Bienal de S\u00e3o Paulo, \u00e9 composto por uma cortina de corda crua, que abriga as proje\u00e7\u00f5es do multiartista Batman Zavareze. S\u00e3o instala\u00e7\u00f5es sonoras e visuais que conseguem instaurar outras dimens\u00f5es sensoriais no espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Afinal,&nbsp;<em>Azira\u2019i<\/em>&nbsp;\u00e9 sobre isso mesmo, sobre sentir. E viver. Do jeito mais digno e honesto conosco mesmos, com quem somos ou desejamos ser, independentemente das cobran\u00e7as dos outros. \u00c9 sobre lembrar que n\u00f3s j\u00e1 sabemos ser. De modo perverso, assim como&nbsp;<em>Assum Preto<\/em>, o p\u00e1ssaro da caatinga, tivemos nossos olhos furados pela coloniza\u00e7\u00e3o, pelo genoc\u00eddio ind\u00edgena, pela escraviza\u00e7\u00e3o, pela explora\u00e7\u00e3o, pelo capitalismo. Os nossos olhos continuam sendo furados cotidianamente, mas o canto em ze\u2019eng et\u00e9 nos resgata e reanima. A arte persiste. O teatro que Zahy articula sofisticadamente une mundos e temporalidades distintas, possibilita que ela e a m\u00e3e contem hist\u00f3rias e cantem juntas, e ao mesmo tempo nos faz perceber o quanto podemos ser mais livres, ao permitir que, por meio da arte, nossos corpos sejam afetados, nossas sensibilidades revolucionadas, nossos imagin\u00e1rios expandidos.<\/p>\n<p><strong>O espet\u00e1culo&nbsp;<em>Azira\u2019i<\/em>&nbsp;foi apresentado nos dias 6 e 7 de abril de 2024 no Festival de Curitiba.<\/strong><\/p>\n<p><strong>* Pollyanna Diniz escreveu cr\u00edticas de espet\u00e1culos que participaram do Festival de Curitiba a convite do Festival. A cr\u00edtica foi originalmente publicada no <a href=\"https:\/\/festivaldecuritiba.com.br\/noticias\/mae-eu-sou-voce\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">site do Festival de Curitiba<\/a>. <\/strong><\/p>\n<p><strong>O grupo de cr\u00edticos que trabalhou no festival incluiu ainda Annelise Schwarcz, Guilherme Diniz (<a href=\"https:\/\/www.horizontedacena.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Horizonte da Cena<\/a>) e Kil Abreu (<a href=\"https:\/\/cenaaberta.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cena Aberta<\/a>).<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\nUm solo de Zahy Tentehar<br \/>\n<strong>Dramaturgia:&nbsp;<\/strong>Zahy Tentehar e Duda Rios<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:&nbsp;<\/strong>Denise Stutz e Duda Rios<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de arte e design gr\u00e1fico:<\/strong>&nbsp;Batman Zavareze<br \/>\n<strong>Trilha sonora original:&nbsp;<\/strong>El\u00edsio Freitas<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o:&nbsp;<\/strong>Ana Luzia Molinari de Simoni<br \/>\n<strong>Figurinos:&nbsp;<\/strong>Carol Lobato<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica:<\/strong>&nbsp;Andr\u00e9a Alves e Leila Maria Moreno<\/p>\n<div id=\"attachment_25854\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mae-eu-sou-vocecritica-de-azirai\/azirai-fotos-annelize-tozetto-5\/\" rel=\"attachment wp-att-25854\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25854\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25854\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0604_azira_i_fotografia_annelize_tozetto-2136_53637413235_o-scaled-e1731592269505.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25854\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e3e de Zahy era paj\u00e9 em aldeia no Maranh\u00e3o. Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O tempo ind\u00edgena \u00e9 o tempo circular. O tempo da natureza. E ela n\u00e3o anda pra frente. Ela anda sobre si mesma, \u201cpra tr\u00e1s\u201d nesse sentido&#8221;. Daniel Munduruku, escritor e professor O escritor e professor Daniel Munduruku escreveu que \u201co tempo ind\u00edgena \u00e9 o tempo circular. O tempo da natureza\u201d. 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