{"id":25741,"date":"2024-10-01T11:39:31","date_gmt":"2024-10-01T14:39:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25741"},"modified":"2024-10-01T12:00:03","modified_gmt":"2024-10-01T15:00:03","slug":"hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"Hello, stranger<\/br>Cr\u00edtica de Apenas o fim do mundo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_25745\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/apenas-o-fim-do-mundo-10_foto-humberto-araujo\/\" rel=\"attachment wp-att-25745\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25745\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25745\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Apenas-o-fim-do-mundo-10_Foto-Humberto-Araujo-e1727791073908.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25745\" class=\"wp-caption-text\">Depois de anos de aus\u00eancia, Luiz volta \u00e0 casa da M\u00e3e e de Suzana. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/atrizes-orquestras-e-teatralidade-exposta\/whatsapp-image-2024-07-11-at-13-17-28\/\" rel=\"attachment wp-att-25534\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25534 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/WhatsApp-Image-2024-07-11-at-13.17.28-e1721662527897.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\"><\/a>\u2013 Boa noite! Entre, seja bem-vindo. Mas n\u00e3o espere ficar muito \u00e0 vontade. Voc\u00ea pode ser surpreendido com a exposi\u00e7\u00e3o de uma intimidade que n\u00e3o esperava, desconcertante. Os cumprimentos iniciais aparentam uma suposta formalidade, um distanciamento comedido: \u201cEstou bem. E voc\u00ea, como \u00e9 que vai voc\u00ea?\u201d. H\u00e1, no entanto, palavras que aguardam por serem ditas. Faz anos que est\u00e3o sendo maturadas. Talvez sejam faladas, num \u201cdomingo, evidentemente, ou ainda, ao longo de quase um ano inteiro\u201d, naquele reencontro familiar na casa da M\u00e3e e de Suzana.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo <em>Apenas o fim do mundo<\/em>, do grupo pernambucano Magiluth, \u00e9 um convite para que sejamos testemunhas. Sabe aquela vontade de, \u00e0s vezes, se transformar numa mosquinha para presenciar como foi aquela conversa, o que teria sido dito, como a pessoa reagiu, o clima que se instaurou? Na montagem do Magiluth, o compartilhamento da intimidade \u00e9 consentido e, assim como a mosquinha, neste jogo somos voyeurs, observadores do que acontece \u00e0 nossa revelia, como se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos ali, n\u00e3o f\u00f4ssemos notados, algo incomum na trajet\u00f3ria do grupo em rela\u00e7\u00e3o aos espectadores.<\/p>\n<div id=\"attachment_25753\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/53641587302_f91a578c9e_c\/\" rel=\"attachment wp-att-25753\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25753\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25753 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/53641587302_f91a578c9e_c-e1727792010761.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25753\" class=\"wp-caption-text\">Suzana (Bruno Parmera) e Luiz (Pedro Wagner). Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p>Estamos \u00e0 porta e somos chamados a entrar e a acompanhar a volta de Luiz, um escritor, filho mais velho da fam\u00edlia, que saiu de casa h\u00e1 bastante tempo. A M\u00e3e e os irm\u00e3os, Antonio e Suzana, permaneceram. H\u00e1 tamb\u00e9m Catarina, esposa de Antonio, que o cunhado s\u00f3 viria a conhecer nessa visita. Luiz nunca tinha voltado, mas agora havia um motivo concreto para o retorno. O escritor queria anunciar que, \u201cmais tarde, no ano seguinte \u2013 era a minha vez de morrer\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, o primog\u00eanito, que \u201cnunca esquecia as datas importantes das nossas vidas, os anivers\u00e1rios, fossem quais fossem\u201d, mandava \u201cpequenos bilhetes\u201d, lac\u00f4nicos, que vinham \u201csempre escritos em cart\u00f5es postais\u201d: \u201cEu estou bem e espero que voc\u00eas tamb\u00e9m estejam bem\u201d. Uma frase que n\u00e3o gera nem ao menos uma expectativa por ser respondida.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, um hiato complexo que abarca dimens\u00f5es m\u00faltiplas que se entrecruzam \u2013tempo, rela\u00e7\u00f5es, desejos, frustra\u00e7\u00f5es, aus\u00eancias, acusa\u00e7\u00f5es \u2013 para ser descortinado neste reencontro. O texto do franc\u00eas Jean-Luc Lagarce, dramaturgo e diretor, escrito em Berlim em 1990, e montado pela primeira vez em 1999, quatro anos depois de sua morte, escolhe conceder o foco a cada personagem por vez, promovendo mergulhos verticais em suas subjetividades. Quando decidem falar, em poucos minutos, vislumbramos o que d\u00f3i, como d\u00f3i, por que d\u00f3i. S\u00e3o conversas que se estabelecem geralmente como solil\u00f3quios, j\u00e1 que uma das pessoas, Luiz, se coloca como algu\u00e9m que escuta o que a outra tem a dizer. S\u00e3o discursos longos, com diminutas pausas, quase que para confirmar que o interlocutor ainda est\u00e1 ali, dispon\u00edvel \u00e0 escuta. Cada fala \u00e9 um jorro, um fluxo de pensamentos que nos enovela.<\/p>\n<div id=\"attachment_25746\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/apenas-o-fim-do-mundo-3_foto-humberto-araujo\/\" rel=\"attachment wp-att-25746\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25746\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25746\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Apenas-o-fim-do-mundo-3_Foto-Humberto-Araujo-e1727791177741.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25746\" class=\"wp-caption-text\">Em Curitiba, as sess\u00f5es de Apenas o fim do mundo foram no Pal\u00e1cio Garibaldi. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p>Quanto a n\u00f3s, espectadores, somos desafiados a estar presentes na escuta para n\u00e3o perdermos uma palavra, uma digress\u00e3o, um instante de hesita\u00e7\u00e3o, enquanto esses personagens se esvaziam ao menos do discurso que carregaram por tanto tempo. Ter\u00e3o como resposta um \u201csorriso\u201d ou \u201cduas ou tr\u00eas palavras\u201d. \u201cE eles se lembrar\u00e3o, mais tarde, a seguir, na sequ\u00eancia, \u00e0 noite adormecendo, eles se lembrar\u00e3o apenas desse sorriso, \u00e9 a \u00fanica coisa que v\u00e3o querer guardar de voc\u00ea, e \u00e9 esse sorriso que eles v\u00e3o discutir e discutir de novo\u201d.<\/p>\n<p>Nessa torrente, h\u00e1 um passado idealizado que, diante do correr dos anos, nem sabemos se aconteceu exatamente daquele modo, se era mesmo feliz. \u00c9 assim, por exemplo, na cena da m\u00e3e contando o passeio que a fam\u00edlia fazia aos domingos. Quem n\u00e3o tem uma av\u00f3, um pai, uma tia, que reconta a mesma hist\u00f3ria seguidas vezes, como se de alguma forma a lembran\u00e7a fosse capaz de se materializar? At\u00e9 que essa lembran\u00e7a vira melancolia pelo que foi e j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais, \u201ccomo \u00e9 que podemos saber como tudo desaparece\u201d.<\/p>\n<p>Em conson\u00e2ncia com a idealiza\u00e7\u00e3o do passado, a aus\u00eancia desemboca no desconhecimento e na imagina\u00e7\u00e3o. Depois de tantos anos, aquelas pessoas n\u00e3o se conhecem mais, n\u00e3o sabem mais quem s\u00e3o e quais ser\u00e3o suas rea\u00e7\u00f5es diante do inesperado da realidade do outro. \u201cEle n\u00e3o muda, eu imaginava ele exatamente assim, voc\u00ea n\u00e3o muda, ele n\u00e3o muda, \u00e9 assim que eu o imagino, ele n\u00e3o muda, o Luiz\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o fam\u00edlia, s\u00e3o estranhos entre si. Assim como na balada <em>Hello stranger<\/em> (coloque a\u00ed para ouvir no seu tocador de m\u00fasica!) de 1961, da norte-americana Barbara Lewis, que faz parte da trilha sonora, sempre especial nas pe\u00e7as do Magiluth, mas aqui em particular, pelos achados que s\u00e3o dramaturgia. \u201cHello, stranger. It seems so good to see you back again. How long has it been? Oh, seems like a mighty long time\u201d ou, em portugu\u00eas: \u201cOl\u00e1, estranho. \u00c9 t\u00e3o bom v\u00ea-lo novamente. Quanto tempo se passou? Oh, parece ter passado um longo tempo\u201d.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o familiar se organiza em torno da matriarca, a \u00fanica personagem que n\u00e3o tem nome, descrita apenas como a M\u00e3e, como se a sua subjetividade estivesse restrita ao papel materno, encarado de modo coletivo. A quem serve a m\u00e1xima \u2018m\u00e3e \u00e9 tudo igual\u2019? Aqui a M\u00e3e medeia os conflitos, prev\u00ea o que vai acontecer, mas n\u00e3o se coloca como autoridade, deixando entrever a sua fragilidade diante do que se desenrola ao redor. \u201cEles v\u00e3o querer te explicar e \u00e9 prov\u00e1vel que o fa\u00e7am, e sem jeito, o que eu quero dizer, porque eles v\u00e3o ter medo do pouco tempo que voc\u00ea d\u00e1 para eles, do pouco tempo que voc\u00eas v\u00e3o passar juntos\u201d. Uma das cenas mais tocantes do espet\u00e1culo \u00e9 justamente a conversa entre a M\u00e3e e Luiz, quando ela tece uma radiografia precisa da realidade \u00edntima daqueles personagens, dos seus anseios e frustra\u00e7\u00f5es. \u201cO que eles querem, o que eles queriam, talvez, \u00e9 que voc\u00ea os encorajasse \u2013 n\u00e3o foi sempre isso que faltou para eles, que a gente os encoraje?\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_25748\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/apenas-o-fim-do-mundo-5_foto-humberto-araujo\/\" rel=\"attachment wp-att-25748\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25748\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25748\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Apenas-o-fim-do-mundo-5_Foto-Humberto-Araujo-e1727791319248.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25748\" class=\"wp-caption-text\">A conversa entre a M\u00e3e (Erivaldo Oliveira) e Luiz (Pedro Wagner). Foto Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p>Talvez uma das principais qualidades do texto de Lagarce, que \u00e9 brilhante e aqui o adjetivo cabe sem receios, \u00e9 que o dramaturgo consegue experimentar a oralidade ao limite, encadeando longos textos de cunho pessoal, \u00edntimo, psicol\u00f3gico. As frases s\u00e3o entrecortadas por tempos verbais distintos, pensamentos que v\u00e3o se justapondo, que podem ser interrompidos e retomados instantes adiante, logo que eu terminar de falar uma coisinha que lembrei e quero dizer e talvez fa\u00e7a sentido ser dita aqui, assim como se d\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o cotidiana. Mas quando isso \u00e9 levado ao teatro, \u00e0 efemeridade da experi\u00eancia \u00fanica, esse texto se mant\u00e9m e ganha propor\u00e7\u00e3o pela consist\u00eancia e qualidade para ser compreendido em sua integralidade, proposta desta dramaturgia especificamente.<\/p>\n<p>E esse foi o principal desafio com o qual o Magiluth se deparou: o rigor na enuncia\u00e7\u00e3o que o texto demanda. O cuidado com as palavras, com os seus significados, sua ordem de encadeamento, com o modo e o tempo no qual elas precisam ser ditas. Foram poucas as montagens nas quais o Magiluth se dedicou a um texto dram\u00e1tico previamente escrito, levando-o tal e qual como escrito ao palco: <em>O canto de Greg\u00f3rio<\/em>, de 2011, texto de Paulo Santoro, e V<em>i\u00fava, por\u00e9m honesta<\/em>, de 2012, em comemora\u00e7\u00e3o ao centen\u00e1rio de Nelson Rodrigues. Mas, em ambas, especialmente em <em>Vi\u00fava, por\u00e9m honesta<\/em>, o registro da encena\u00e7\u00e3o, que era o do humor, o do sarcasmo, da ironia, n\u00e3o demandava exatamente rigor na enuncia\u00e7\u00e3o da dramaturgia.<\/p>\n<p>Nas outras montagens do repert\u00f3rio, textos dram\u00e1ticos foram utilizados como disparadores para o processo art\u00edstico, como em Dinamarca, de 2018, releitura de <em>Hamlet<\/em>, e <em>Estudo n\u00ba1: morte e vida<\/em>, a partir de <em>Morte e vida severina<\/em>, ou os atores criaram as dramaturgias a partir de outras refer\u00eancias, mas o trabalho coletivo na sala de ensaio, contemplando inclusive propostas e desejos individuais, sempre foi mais determinante na elabora\u00e7\u00e3o dos textos, escritos em processo e, talvez por isso, mais livres de amarras.<\/p>\n<p><em>Apenas o fim do mundo<\/em> estreou em abril de 2019, depois de quase um ano de momentos imersivos, entrecortados por meses de dist\u00e2ncia, de resid\u00eancias art\u00edsticas com Giovana Soar, tradutora do texto do franc\u00eas para o portugu\u00eas, atriz \u00e0 \u00e9poca da companhia brasileira de teatro, primeiro grupo a montar a dramaturgia no pa\u00eds, no ano de 2006; e com Luiz Fernando Marques Lubi, diretor parceiro do grupo desde Aquilo que o meu olhar guardou para voc\u00ea, em 2012, um dos artistas que mais conhece e se alinha com a din\u00e2mica do grupo. Depois de <em>Apenas o fim do mundo<\/em>, Lubi assinou ainda a dire\u00e7\u00e3o de <em>Estudo n\u00ba1: morte e vida<\/em>, que estreou em 2022.<\/p>\n<p>Esses momentos com os dois amigos e artistas colaboradores, que assinam conjuntamente a dire\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, geralmente eram marcados por oficinas e resultavam na apresenta\u00e7\u00e3o de ensaios ao p\u00fablico, um processo recorrente no Magiluth: a abertura dos trabalhos aos espectadores antes que eles possam ser tidos como \u201cprontos\u201d. No Sesc Avenida Paulista, por exemplo, dias antes da estreia, os oficineiros puderam acompanhar o trabalho de mesa dos atores, de leitura do texto, de entendimento do modo de enuncia\u00e7\u00e3o que a dramaturgia solicitava.<\/p>\n<p>Esse encontro entre o grupo, Giovana Soar e Lubi era o que o Magiluth precisava para erguer a lindeza que \u00e9 Apenas o fim do mundo, em toda sua humanidade, delicadeza e proximidade com o espectador. Veio de Giovana Soar o rigor no entendimento e na enuncia\u00e7\u00e3o do texto de Lagarce e o convite ao espa\u00e7o \u00edntimo proposto por essas palavras. E de Lubi, com quem o grupo tem a intimidade dos anos de trabalho conjunto, vieram a experi\u00eancia e a sagacidade com montagens site-specific, amealhada desde a cria\u00e7\u00e3o do XIX, grupo do qual Lubi \u00e9 um dos fundadores.<\/p>\n<p>Neste tipo de espet\u00e1culo, as montagens s\u00e3o criadas ou se adaptam a lugares que n\u00e3o necessariamente s\u00e3o locais tradicionais de exibi\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as, como teatros. Essas obras dependem da intera\u00e7\u00e3o com os espa\u00e7os para que possam alcan\u00e7ar suas pot\u00eancias. No caso do Magiluth, a ideia \u00e9 que o espectador experiencie esse reencontro entre Luiz e sua fam\u00edlia no espa\u00e7o proposto pela dramaturgia, uma casa. Parte da intimidade que a encena\u00e7\u00e3o prop\u00f5e com o espectador vem do espa\u00e7o c\u00eanico: vamos andando pelos c\u00f4modos da casa, acompanhando como se d\u00e1 cada conversa. No entanto, mesmo assistindo a tudo de muito perto, estando nas bordas da cena, somos voyeurs (a mosquinha, lembra?), n\u00e3o participamos da cena, e por isso o distanciamento, como se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos ali.<\/p>\n<p>Em 2019, a pe\u00e7a estreou no 13\u00ba e no 14\u00ba andares do Sesc Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo. Apesar de toda a engenhosidade da divis\u00e3o de c\u00f4modos e da cenografia, da beleza da vista da Paulista, mesmo que a encena\u00e7\u00e3o flu\u00edsse, havia uma compress\u00e3o. Eram espa\u00e7os \u00e0s vezes apertados demais para muitas pessoas assistirem a cenas longas. E era preciso imagina\u00e7\u00e3o para visualizar uma casa. No Recife, ainda em 2019, o espet\u00e1culo foi apresentado no Museu de Arte Moderna Alo\u00edsio Magalh\u00e3es (Mamam) e o pr\u00f3prio grupo diz que aquele espa\u00e7o era o ideal para a pe\u00e7a e que a cena da chegada de Luiz ganhava outra dimens\u00e3o tendo como vista a Rua da Aurora, o Rio Capibaribe e, ao fundo, a Rua do Sol.<\/p>\n<p>Em Curitiba, a pe\u00e7a ocupou o Pal\u00e1cio Garibaldi, um lindo casar\u00e3o cuja constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 1887, hoje conhecido como \u201ca casa da cultura italiana em Curitiba\u201d. Ali, o espa\u00e7o abra\u00e7ou a encena\u00e7\u00e3o, mesmo com todos os deslocamentos necess\u00e1rios, est\u00e1vamos numa casa, que se n\u00e3o tinha uma geladeira amarela como nas vers\u00f5es anteriores, ostentava um fusca azul na garagem que serviu para uma discuss\u00e3o ic\u00f4nica que terminou com Catarina, a cunhada, sozinha dentro do carro, com uma impag\u00e1vel cara de paisagem. Fato \u00e9 que o espa\u00e7o nos fez viver com mais verticalidade a encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que pode ser levada em conta quando pensamos nas diferen\u00e7as entre a estreia, em 2019, e a participa\u00e7\u00e3o no Festival de Curitiba, em 2024, com seis sess\u00f5es esgotadas, \u00e9 o pr\u00f3prio tempo de matura\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a. Ainda em 2019, o grupo precisou lidar com as especificidades do espet\u00e1culo, que dificultam sua circula\u00e7\u00e3o, e depois com a parada obrigat\u00f3ria imposta pela covid-19 a partir de mar\u00e7o de 2020. Inclusive, naquele ano, eles estariam no Festival de Curitiba com o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Vivemos o fim do mundo, em escala global. Se, de algum modo, a epidemia de Aids que vitimou Lagarce e que mataria Luiz, \u201calguns meses mais tarde, um ano no m\u00e1ximo\u201d, era o fim do mundo, a covid-19 levou o fim a n\u00edveis que n\u00e3o conhec\u00edamos. E os garotos que estavam na faculdade e que criaram um grupo em 2004, depois de uma atividade para uma disciplina no curso de Licenciatura em Artes C\u00eanicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), se tornaram homens, alguns s\u00e3o pais, viveram a pandemia e o medo do fim em m\u00faltiplas escalas. As dores sobre as quais o texto fala encontraram outros corpos em 2024.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental dizer que o Magiluth \u00e9 um grupo formado por homens e que essa \u00e9 sempre uma quest\u00e3o no momento de escolher um projeto. Em <em>Apenas o fim do mundo<\/em>, est\u00e3o em cena Pedro Wagner (que n\u00e3o fazia a pe\u00e7a desde 2019; na temporada que o grupo cumpriu no ano passado no Mamam, ele foi substitu\u00eddo por Edjalma Freitas), M\u00e1rio S\u00e9rgio Cabral, Giordano Castro, Erivaldo Oliveira e Bruno Parmera. Lucas Torres, o \u00fanico integrante que n\u00e3o possui personagem na pe\u00e7a, assina a assist\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o, faz todo o apoio t\u00e9cnico da montagem e ainda faz uma participa\u00e7\u00e3o, entrando em cena para tocar bateria.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dos atores interpretam personagens femininas: Giordano Castro \u00e9 a cunhada, Catarina; Erivaldo Oliveira \u00e9 a M\u00e3e; Bruno Parmera \u00e9 a irm\u00e3, Suzana. M\u00e1rio S\u00e9rgio Cabral \u00e9 o irm\u00e3o, Antonio; e Pedro Wagner interpreta Luiz. A meu ver, a op\u00e7\u00e3o sempre perigosa de ter homens interpretando mulheres deu certo porque eles n\u00e3o fazem caricaturas das figuras femininas ou exageram nos gestos e nos trejeitos das personagens.<\/p>\n<div id=\"attachment_25751\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/apenas-o-fim-do-mundo-4_foto-humberto-araujo\/\" rel=\"attachment wp-att-25751\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25751\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25751\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Apenas-o-fim-do-mundo-4_Foto-Humberto-Araujo-e1727791695660.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25751\" class=\"wp-caption-text\">Giordano Castro \u00e9 a cunhada, Catarina. Foto Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_25749\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/apenas-o-fim-do-mundo-12_annelize-tozetto\/\" rel=\"attachment wp-att-25749\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25749\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25749\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Apenas-o-fim-do-mundo-12_Annelize-Tozetto-e1727791424753.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25749\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio S\u00e9rgio Cabral \u00e9 Antonio, o irm\u00e3o. Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p>Nesta montagem, o elenco do Magiluth, como grupo, alcan\u00e7a maturidade na atua\u00e7\u00e3o. Pedro Wagner tem o dom\u00ednio do of\u00edcio, faz um Luiz cheio de hesita\u00e7\u00f5es, que lida com a sua inabilidade para se contrapor \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es de abandono, mostrando isso ao espectador a partir da express\u00e3o silenciosa do seu corpo. Antonio, de M\u00e1rio S\u00e9rgio Cabral, \u201ch\u00e1 muito tempo, \u00e9 o que eu acho, eu me tornei um homem cansado\u201d, foi se deixando endurecer pelas responsabilidades, e nos traz nuances entre a raiva e o medo de se permitir amar este irm\u00e3o. O seu \u00faltimo mon\u00f3logo \u00e9 um descarrego, cheio de for\u00e7a e humanidade.<\/p>\n<p>Giordano Castro faz uma Catarina comedida em gestos, de l\u00edngua afiada e interven\u00e7\u00f5es certeiras que se expressam no corpo. Erivaldo Oliveira \u00e9 o que talvez mais se apoie no gestual na constru\u00e7\u00e3o dessa M\u00e3e que l\u00ea a todos, que lida com as imperfei\u00e7\u00f5es de cada um, inclusive com as suas pr\u00f3prias, e que mesmo assim \u00e9 afeto. \u201cEla, ela me acaricia uma \u00fanica vez o rosto, lentamente, como para me explicar que ela me perdoa n\u00e3o sei bem quais crimes\u201d. E Bruno Parmera \u00e9 uma Suzana euf\u00f3rica com o reencontro com Luiz, que nos deixa tontos, mas que tem respiro para se auto traduzir ao irm\u00e3o.<\/p>\n<p>A maturidade, que \u00e9 da pr\u00f3pria trajet\u00f3ria como artistas, traz o autoconhecimento do que eles gostam e se permitem experimentar em cena. E, por isso, est\u00e1 l\u00e1, no meio da pe\u00e7a, uma banda de rock em decib\u00e9is alt\u00edssimos, como que para mostrar que o esp\u00edrito, em si, permanece o mesmo de <em>Vi\u00fava, por\u00e9m honesta<\/em>. Naquela tens\u00e3o discursiva, \u00e9 uma catarse que nos surpreende e captura.<\/p>\n<div id=\"attachment_25750\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/apenas-o-fim-do-mundo-6_foto-humberto-araujo\/\" rel=\"attachment wp-att-25750\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25750\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25750 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Apenas-o-fim-do-mundo-6_Foto-Humberto-Araujo-e1727791654388.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25750\" class=\"wp-caption-text\">De repente, uma banda de rock. Foto: Annelize Tozetto<\/p><\/div>\n<p>Ao comemorar 20 anos em 2024, o Magiluth envereda na viv\u00eancia dessa fam\u00edlia com muito mais propriedade. Eles pr\u00f3prios s\u00e3o fam\u00edlia, possuem la\u00e7os, est\u00e3o criando os filhos nessa comunidade que \u00e9 um grupo de teatro. E isso \u00e9 poderoso, na arte e na vida. Quando se tratam, na vida corrente, por \u201cminhas queridas irm\u00e3s\u201d, uma heran\u00e7a tchekhoviana que restou de <em>O ano em que sonhamos perigosamente<\/em>, o espet\u00e1culo que talvez seja o mais emblem\u00e1tico para a continuidade do grupo, revelam o afeto constru\u00eddo ao longo de duas d\u00e9cadas que permite proje\u00e7\u00e3o de futuro.<\/p>\n<p><strong>O espet\u00e1culo <em>Apenas o fim do mundo<\/em> foi apresentado nos dias 3, 4 e 5 de abril de 2024 no Festival de Curitiba.<\/strong><\/p>\n<p><strong>* Pollyanna Diniz escreveu cr\u00edticas de espet\u00e1culos que participaram do Festival de Curitiba a convite do Festival. A cr\u00edtica foi originalmente publicada no <a href=\"https:\/\/festivaldecuritiba.com.br\/noticias\/366602\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">site do Festival de Curitiba<\/a>. <\/strong><\/p>\n<p><strong>O grupo de cr\u00edticos que trabalhou no festival incluiu ainda Annelise Schwarcz, Guilherme Diniz (<a href=\"https:\/\/www.horizontedacena.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Horizonte da Cena<\/a>) e Kil Abreu (<a href=\"https:\/\/cenaaberta.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cena Aberta<\/a>).<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Giovana Soar e Luiz Fernando Marques Lubi<br \/>\n<strong>Assistente de dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Lucas Torres<br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong> Jean-Luc Lagarce<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Giovana Soar<br \/>\n<strong>Atores:<\/strong> Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, M\u00e1rio Sergio Cabral e Pedro Wagner<br \/>\n<strong>T\u00e9cnico:<\/strong> Lucas Torres<br \/>\n<strong>Desenho de luz:<\/strong> Grupo Magiluth<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de arte:<\/strong> Guilherme Luigi e Luiz Fernando Marques Lubi<br \/>\n<strong>Design gr\u00e1fico:<\/strong> Guilherme Luigi<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o:<\/strong> Grupo Magiluth<\/p>\n<div id=\"attachment_25752\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hello-strangercritica-de-apenas-o-fim-do-mundo\/apenas-o-fim-do-mundo-8_foto-humberto-araujo\/\" rel=\"attachment wp-att-25752\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25752\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25752\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Apenas-o-fim-do-mundo-8_Foto-Humberto-Araujo-e1727791785853.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25752\" class=\"wp-caption-text\">Apenas o fim do mundo em Curitiba. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 Boa noite! Entre, seja bem-vindo. Mas n\u00e3o espere ficar muito \u00e0 vontade. Voc\u00ea pode ser surpreendido com a exposi\u00e7\u00e3o de uma intimidade que n\u00e3o esperava, desconcertante. Os cumprimentos iniciais aparentam uma suposta formalidade, um distanciamento comedido: \u201cEstou bem. E voc\u00ea, como \u00e9 que vai voc\u00ea?\u201d. H\u00e1, no entanto, palavras que aguardam por serem ditas. 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