{"id":25630,"date":"2024-08-21T15:29:22","date_gmt":"2024-08-21T18:29:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25630"},"modified":"2024-08-21T15:29:22","modified_gmt":"2024-08-21T18:29:22","slug":"jornada-de-resistencia-e-busca-por-liberdade-critica-da-peca-alguem-pra-fugir-comigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/jornada-de-resistencia-e-busca-por-liberdade-critica-da-peca-alguem-pra-fugir-comigo\/","title":{"rendered":"Jornada de resist\u00eancia e busca por liberdade <br\/> Cr\u00edtica da pe\u00e7a Algu\u00e9m pra fugir comigo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_25632\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pixelcut-export-5-scaled-e1724262591804.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25632\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25632\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pixelcut-export-5-scaled-e1724262591804.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"383\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25632\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo recifense <strong>Algu\u00e9m para fugir comigo<\/strong>. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p><strong><em>Algu\u00e9m pra fugir comigo<\/em><\/strong> \u00e9 um espet\u00e1culo de estrutura fragmentada e n\u00e3o linear, do Resta 1 Coletivo de Teatro, do Recife, que exp\u00f5e diversas formas de opress\u00e3o e de resist\u00eancia em diferentes tempos &#8211; desde o &#8220;per\u00edodo escravocrata&#8221; at\u00e9 os dias atuais. A pe\u00e7a tem apelos de humanidades perdidas; ou clamor desesperado de que seja poss\u00edvel encontrar algum fio que leve ao cora\u00e7\u00e3o das trevas.<\/p>\n<p>Como se configuram os dispositivos da montagem, a pe\u00e7a parece abra\u00e7ar as ideias de Chimamanda Ngozi Adichie sobre a import\u00e2ncia de contar hist\u00f3rias e de evitar o perigo da hist\u00f3ria \u00fanica.<\/p>\n<p>Seus personagens, figuras ou flashes humanos s\u00e3o pobres e oprimidos, e a op\u00e7\u00e3o da montagem \u00e9 a partir do olhar de luta delas e deles. Com isso, oferece ao p\u00fablico uma tape\u00e7aria complexa de experi\u00eancias de pessoas subalternizadas pelo sistema de ontem e de hoje. Pois como diz Adichie, &#8220;hist\u00f3rias importam&#8221;.<\/p>\n<p>Montado em 2016, o que resultou na forma\u00e7\u00e3o do Resta 1 Coletivo de Teatro, <strong><em>Algu\u00e9m pra fugir comigo<\/em><\/strong>&nbsp;atravessou o p\u00f3s-golpe de Dilma Rousseff, sobreviveu \u00e0 pandemia, e respirou aliviado depois de quase sumir com a\u00e7\u00f5es diretas e indiretas do pior presente do Brasil. Isso est\u00e1 encarnado no corpo dos atores, nos fluxos de tens\u00f5es e distens\u00f5es da encena\u00e7\u00e3o. Nos quadros que se articulam entre si h\u00e1 encaixes perfeitos e outros que n\u00e3o se acomodam, gritam isoladamente.<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o de Analice Croccia e Quiercles Santana, corajosa e pulsante, desafia ao seu jeito, as conven\u00e7\u00f5es teatrais, mesclando diferentes estilos e abordagens narrativas. \u00c9 uma trama que perpassa diferentes tempos e tipos, rasgando temas como desigualdade, resist\u00eancia, injusti\u00e7as e afetos. A origem conceitual e os disparadores v\u00eam de textos pol\u00edticos, l\u00edricos, filos\u00f3ficos; relatos de fatos ver\u00eddicos e imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nessa estrutura estilha\u00e7ada se enroscam diferentes \u00e9pocas e perspectivas. Desde a fuga de Liberdade, uma escravizada que busca escapar dos abusos da casa-grande, at\u00e9 reflex\u00f5es sobre nossa cidadania vez por outra amea\u00e7ada, a pe\u00e7a mexe um caldo de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>H\u00e1 imagens extremamente potentes, po\u00e9ticas, comoventes. Existe uma entrega na atua\u00e7\u00e3o do elenco, composto por Analice Croccia, Ane Lima, Ca\u00edque Ferraz, Clau Barros, Pollyanna Cabral, Raphael Bernardo e Wilamys Rosendo. Eles &#8220;abra\u00e7am&#8221; tipos cotidianos em situa\u00e7\u00f5es extremas e performance mais autoral. Mas h\u00e1 quebras, uns hiatos, umas ru\u00ednas expostas que se apresentam febris, mas podem cair em fragilidades.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o musical e o desenho de som de Kleber Santana, combinados com a ilumina\u00e7\u00e3o de Luciana Raposo e o figurino simples em tons past\u00e9is, criam uma atmosfera envolvente. Os trechos musicados e coreografados s\u00e3o carregados de po\u00e9tica on\u00edrica.<\/p>\n<div id=\"attachment_25633\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pixelcut-export-6-scaled-e1724263221241.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25633\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25633\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pixelcut-export-6-scaled-e1724263221241.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25633\" class=\"wp-caption-text\">Personagens questionam como conquistar a liberdade. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>A pe\u00e7a provoca uma gama de emo\u00e7\u00f5es no p\u00fablico, desde risos frouxos com o vocabul\u00e1rio escatol\u00f3gico de algum personagem at\u00e9 momentos de profunda reflex\u00e3o e como\u00e7\u00e3o. Minha amiga Inoc\u00eancia Galv\u00e3o foi \u00e0s l\u00e1grimas na sess\u00e3o de 15 de agosto, no Teatro Apolo.<\/p>\n<p>O grupo vai abrindo caminho em busca de uma linguagem pr\u00f3pria. Mas soa como uma provoca\u00e7\u00e3o\/cilada o aviso do elenco de que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 nada de novo ali&#8221; e que o p\u00fablico n\u00e3o deve esperar &#8220;isso&#8221; e &#8220;aquilo&#8221;. Pareceu-me um jogo de palavras para trazer o niilismo do quadro dif\u00edcil que o teatro pernambucano enfrenta h\u00e1 anos e que s\u00f3 piorou. Cria um sentido d\u00fabio sobre a obra. E n\u00e3o sei se devolve o efeito esperado pelos criadores\/criadoras da cena.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque, o espet\u00e1culo prop\u00f5e uma escuta c\u00famplice, emp\u00e1tica, de quem est\u00e1 \u00e0 beira do abismo, de quem n\u00e3o suporta mais tanta press\u00e3o, dos momentos em que o mundo espreme tanto que quase n\u00e3o sobra f\u00f4lego para viver. E como alimentar a coragem, eles v\u00e3o perguntando e vendo a resposta adiada.<\/p>\n<p><strong><em>Algu\u00e9m pra fugir comigo<\/em><\/strong> evita oferecer respostas simplistas ou conforto imediato. Mas mesmo assim, relembra que \u00e9 fundamental o exerc\u00edcio do afeto, da empatia e da solidariedade, especialmente em tempos de turbul\u00eancia e incerteza. Talvez por a cena ser dura, com epis\u00f3dios cru\u00e9is, sinalize para esse caminho de humanidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_25634\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pixelcut-export-7-scaled-e1724263479969.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25634\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25634\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pixelcut-export-7-scaled-e1724263479969.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"620\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25634\" class=\"wp-caption-text\">A dire\u00e7\u00e3o Analice Croccia e Quiercles Santana. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>O conceito de fuga \u00e9 central na encena\u00e7\u00e3o, servindo como met\u00e1fora para a busca por liberdade e autodescoberta. A pe\u00e7a questiona: &#8220;Quando fuga virou sin\u00f4nimo de liberdade? Justi\u00e7a \u00e9 sin\u00f4nimo de liberdade? Estar livre \u00e9 o mesmo que estar liberto?&#8221; Estas perguntas provocativas convidam o p\u00fablico a refletir sobre o verdadeiro significado de liberdade em diferentes contextos hist\u00f3ricos e pessoais.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de personagens como Liberdade, a pe\u00e7a explora quest\u00f5es de identidade e pertencimento. A pergunta &#8220;Essas s\u00e3o nossas terras e origens?&#8221; ressoa profundamente, especialmente no contexto da hist\u00f3ria brasileira e sua heran\u00e7a colonial.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o de Analice Croccia e Quiercles Santana cria um jogo teatral din\u00e2mico, mas com andamentos diferentes, da agilidade \u00e0 lentid\u00e3o. O uso de elementos simb\u00f3licos, como as malas carregadas pelos atores, funciona como met\u00e1fora para as bagagens emocionais e hist\u00f3ricas que todos carregamos.<\/p>\n<p>Como a pr\u00f3pria pe\u00e7a sugere, qualquer dia desses voc\u00ea pode estar mais fr\u00e1gil e precisar de uma m\u00e3o, de um bra\u00e7o, de um colo, de um abra\u00e7o, de um empurr\u00e3o. Talvez seja bom n\u00e3o esquecer disso.<\/p>\n<p>FICHA T\u00c9CNICA<br \/>\nAtuantes:<br \/>\n@analicecroccia<br \/>\n@ane_clima<br \/>\n@claubarros__<br \/>\n@pedrocaiqueferraz<br \/>\n@pollycabral<br \/>\n@rapha_berna<br \/>\n@wilamysrosendo<\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00e3o de luz de @lucianaraposoluz<br \/>\nPesquisa musical e execu\u00e7\u00e3o de @klebersantana_bill<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o de movimento de @patricia.costabailarina<br \/>\nPrepara\u00e7\u00e3o de canto de @katarinamenezescanto<br \/>\nTexto de Ana Paula S\u00e1 e Quiercles Santana<br \/>\nEncena\u00e7\u00e3o de Analice Croccia e @quiercles<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m pra fugir comigo \u00e9 um espet\u00e1culo de estrutura fragmentada e n\u00e3o linear, do Resta 1 Coletivo de Teatro, do Recife, que exp\u00f5e diversas formas de opress\u00e3o e de resist\u00eancia em diferentes tempos &#8211; desde o &#8220;per\u00edodo escravocrata&#8221; at\u00e9 os dias atuais. 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