{"id":25553,"date":"2024-07-28T17:49:36","date_gmt":"2024-07-28T20:49:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25553"},"modified":"2024-07-29T18:10:39","modified_gmt":"2024-07-29T21:10:39","slug":"delirio-perplexo-no-km-23-brasil-critica-a-partir-do-espetaculo-neste-mundo-louco-nesta-noite-brilhante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/delirio-perplexo-no-km-23-brasil-critica-a-partir-do-espetaculo-neste-mundo-louco-nesta-noite-brilhante\/","title":{"rendered":"Del\u00edrio perplexo no Km 23, Brasil <\/br> Cr\u00edtica a partir do espet\u00e1culo <\/br>Neste mundo louco, nesta noite brilhante"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_25554\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Neste-mundo-louco-nesta-noite-brilhante2.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25554\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25554\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Neste-mundo-louco-nesta-noite-brilhante2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Neste-mundo-louco-nesta-noite-brilhante2.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Neste-mundo-louco-nesta-noite-brilhante2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-25554\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Yara de Novaes e D\u00e9bora Falabella em cena do espet\u00e1culo <strong><em>Neste mundo louco, nesta noite brilhante<\/em><\/strong>. Foto: S\u00e9rgio Silva \/ Divulga\u00e7\u00e3o &nbsp;<\/span><\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/logo-arquipe\u0301lago--e1669689165758.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24736 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/logo-arquipe\u0301lago--e1669689165758.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"84\"><\/a>Quando assisti ao espet\u00e1culo <strong><em>Neste mundo louco, nesta noite brilhante<\/em><\/strong> pela primeira vez em 2019, no Sesc Consola\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, vivenciei um epis\u00f3dio de medo e inseguran\u00e7a nas ruas da cidade. Descendo, depois da sess\u00e3o, pela Rua Dona Veridiana sem estrelas e sem luar, ao lado de uma amiga, fomos surpreendidas por um homem que caminhava na nossa dire\u00e7\u00e3o e que despertou os piores sentimentos de pavor e vulnerabilidade. O que havia visto no palco com D\u00e9bora Falabella e Yara de Novaes ainda reverberava intensamente em mim, e os dados alarmantes de viol\u00eancia contra as mulheres acionavam mecanismos estranhos. Minha amiga correu por uma rua lateral, enquanto eu, n\u00e3o sei exatamente porqu\u00ea, fui em dire\u00e7\u00e3o ao sujeito. Tudo parecia muito r\u00e1pido. Minha amiga encontrou uma viatura da pol\u00edcia que se prontificou a nos deixar perto de casa, depois de nos fichar. Eu me recusei, n\u00e3o querendo estar nas fichas da pol\u00edcia. Minha amiga ficou possessa comigo e seguimos a p\u00e9, com a amizade quase se rompendo ali, ou perdendo um pouco do romantismo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Esse incidente ocorreu antes da pandemia de Covid-19, que paralisou o planeta e alimentou a utopia de que a humanidade iria aprender com os milh\u00f5es de mortes; mas qual o qu\u00ea! Tamb\u00e9m foi antes da opera\u00e7\u00e3o policial realizada em 2022 na Pra\u00e7a Princesa Isabel, onde estava concentrada a Cracol\u00e2ndia naquela \u00e9poca. Ap\u00f3s a a\u00e7\u00e3o, os usu\u00e1rios de crack se dispersaram para outras ruas da regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo, como a Rua Helv\u00e9tia, a Alameda Dino Bueno e outras dos bairros de Santa Cec\u00edlia, Campos El\u00edsios, Rep\u00fablica e adjac\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A montagem de <strong><em>Neste mundo louco, nesta noite brilhante<\/em><\/strong>, agora em cartaz no Teatro Firjan SESI Centro, no Rio de Janeiro, at\u00e9 18 de agosto, foi muito bem recebida em todas as temporadas e por onde esteve em cartaz. Um casal de amigos da \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o de org\u00e2nicos que passava a semana no Rio de Janeiro, a quem indiquei o espet\u00e1culo, retornou entusiasmado: &#8220;Gratid\u00e3o amiga, a pe\u00e7a \u00e9 estupenda&#8221;. Fui buscar aquelas imagens e sensa\u00e7\u00f5es ainda acesas, que tanto me impactaram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Muitas produ\u00e7\u00f5es teatrais t\u00eam trabalhado com a tem\u00e1tica da viol\u00eancia contra a mulher no palco, e h\u00e1 diversas formas de representar uma quest\u00e3o t\u00e3o dura, t\u00e3o real, t\u00e3o abomin\u00e1vel. O que pode fazer a diferen\u00e7a \u00e9 a linguagem, esse treco que faz amarra\u00e7\u00f5es incr\u00edveis para mergulhar em assuntos complexos sem querer apresentar solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas. No caso desta pe\u00e7a, a est\u00e9tica n\u00e3o realista e po\u00e9tica vem associada a um humor \u00e1cido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A viola\u00e7\u00e3o de uma mulher \u00e9 uma barb\u00e1rie que continua sendo praticada, sem que os homens no poder, ou os que se autointitulam de bem, se sintam realmente atravessados como se fosse na pr\u00f3pria carne. Nenhum homem sabe de verdade o que \u00e9 sentir no corpo o irrepar\u00e1vel do estupro. Os dados s\u00e3o alarmantes e as taxas crescem. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Segundo o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2024, houve 61.243 casos de estupro no Brasil em 2023, um aumento de 9,2% em rela\u00e7\u00e3o a 2022. Isso significa que, em m\u00e9dia, uma mulher \u00e9 estuprada no pa\u00eds a cada 9 minutos. Nove minutos; repito! Al\u00e9m disso, o Brasil registrou 1.427 casos de feminic\u00eddio em 2023, um aumento de 8,2% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Esses n\u00fameros chocantes evidenciam a urg\u00eancia de se discutir e enfrentar a viol\u00eancia contra a mulher em todas as suas formas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">As ra\u00edzes dessa viol\u00eancia se entrela\u00e7am com as estruturas patriarcais que permeiam nossa sociedade, perpetuando a domina\u00e7\u00e3o masculina. O patriarcado \u00e9 um emaranhado complexo de rela\u00e7\u00f5es de poder que se infiltra em todas as esferas da vida, desde as intera\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas at\u00e9 as institui\u00e7\u00f5es que moldam nossa exist\u00eancia compartilhada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Essa l\u00f3gica perversa de domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita a aspectos isolados, mas se alastra, contaminando a pol\u00edtica, a economia, a cultura e at\u00e9 mesmo nossa psique. \u00c9 ela que sustenta a cultura do estupro, que normaliza a viol\u00eancia sexual e culpa a v\u00edtima por sua pr\u00f3pria viola\u00e7\u00e3o. \u00c9 ela que mant\u00e9m a viol\u00eancia de g\u00eanero como uma sombra constante, um fantasma que assombra a vida de milh\u00f5es de mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O patriarcado se adapta e se reinventa, encontrando novas formas de se manifestar em um mundo em constante mudan\u00e7a. Seja atrav\u00e9s de microagress\u00f5es cotidianas, da desigualdade salarial, da sub-representa\u00e7\u00e3o feminina nos espa\u00e7os de poder ou da viol\u00eancia f\u00edsica e sexual, o patriarcado se faz presente, limitando e oprimindo as mulheres.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_25555\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Foto-Joao-Caldas-Fo_85739press-scaled-e1722125858798.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25555\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25555\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Foto-Joao-Caldas-Fo_85739press-scaled-e1722125858798.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"408\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25555\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">A dramaturgia \u00e9 de Silvia Gomez. Foto: Joao Caldas F\u00ba \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Um dos pontos de inspira\u00e7\u00e3o da dramaturgia da montagem foi um epis\u00f3dio real ocorrido no Piau\u00ed em 2015, quando quatro meninas foram estupradas e jogadas de um abismo. No entanto, a pe\u00e7a n\u00e3o se limita a esse evento tr\u00e1gico. Muitas linhas se cruzam e muitas hist\u00f3rias se acumulam, dialogando em camadas na trama tecida por Silvia Gomez.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A dramaturga &#8211; autora de pe\u00e7as como <em>O C\u00e9u Cinco Minutos Antes da Tempestade<\/em>, <em>O Amor e Outros Estranhos Rumores<\/em>, <em>Marte, Voc\u00ea Est\u00e1 a\u00ed?<\/em> e <em>Mantenha Fora do Alcance do Beb\u00ea &#8211;<\/em>, constr\u00f3i uma narrativa com palavras afiadas que penetram nas camadas mais subterr\u00e2neas da sociedade, expondo as entranhas de um sistema que normaliza o inaceit\u00e1vel.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Gomez encontra no del\u00edrio a chave para destrancar as portas da perplexidade e do horror. Sua escrita carrega uma qualidade cir\u00fargica, trabalhada com precis\u00e3o para expor as estruturas mais profundas e as v\u00edsceras de uma sociedade que normalizou a viol\u00eancia a tal ponto que chegou \u00e0 indiferen\u00e7a, corroendo nossa humanidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Na encena\u00e7\u00e3o de Gabriel Fontes Paiva, o tema delicado e dif\u00edcil do estupro coletivo \u00e9 tratado com sensibilidade. D\u00e9bora Falabella interpreta a garota violentada que, em meio ao turbilh\u00e3o do trauma, busca desesperadamente um fio de sentido para n\u00e3o sucumbir. Yara de Novaes, como a vigia testemunha do quil\u00f4metro 23, cen\u00e1rio do crime, encarna a impot\u00eancia e o atordoamento diante da barb\u00e1rie, oscilando entre a empatia e a descren\u00e7a. Juntas, elas tra\u00e7am uma cumplicidade c\u00eanica desconcertante, que anos de conv\u00edvio art\u00edstico no teatro de grupo proporciona.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Trago algumas reflex\u00f5es sobre performance, trauma e representa\u00e7\u00e3o. No livro <em>The Body in Pain: The Making and Unmaking of the World<\/em> (1985), Elaine Scarry explora como a dor f\u00edsica, especialmente a dor extrema como a da tortura, resiste \u00e0 representa\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica. Scarry argumenta que a dor destr\u00f3i a linguagem convencional, tornando-a fragment\u00e1ria e incoerente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Outro autor que aborda quest\u00f5es semelhantes \u00e9 o te\u00f3rico de performance e trauma Patrick Duggan. Na publica\u00e7\u00e3o <em>Trauma-Tragedy: Symptoms of Contemporary Performance<\/em> (2012), Duggan investiga como as performances contempor\u00e2neas lidam com o trauma. Ele sugere que a performance pode servir como um meio de &#8220;testemunhar&#8221; o trauma, n\u00e3o atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o direta, mas atrav\u00e9s da evoca\u00e7\u00e3o de seus efeitos e sintomas, muitas vezes atrav\u00e9s de meios n\u00e3o verbais como o corpo, o som e a imagem, criando &#8220;efeitos de presen\u00e7a&#8221; do trauma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 a te\u00f3rica da performance Diana Taylor, em seu livro <em>The Archive and the Repertoire: Performing Cultural Memory in the Americas<\/em> (2003), investe na rela\u00e7\u00e3o entre performance e mem\u00f3ria traum\u00e1tica. Taylor sugere que a performance, como um &#8220;repert\u00f3rio&#8221; de mem\u00f3ria corporificada, pode transmitir experi\u00eancias traum\u00e1ticas de maneiras que escapam ao discurso verbal e \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o escrita.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_25557\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Foto-Joao-Caldas-Fo_86050press-1-scaled-e1722190742602.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25557\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25557\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Foto-Joao-Caldas-Fo_86050press-1-scaled-e1722190742602.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"455\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25557\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">A pe\u00e7a \u00e9 uma montagem do Grupo 3 de Teatro com dire\u00e7\u00e3o de Gabriel Fontes Paiva. Foto: Jo\u00e3o Caldas F\u00ba<\/span><\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>Neste mundo louco, nesta noite brilhante<\/em><\/strong> tem a capacidade de &#8220;testemunhar o &#8220;intestemunh\u00e1vel&#8221;, ou seja, tocar em experi\u00eancias traum\u00e1ticas que desafiam a representa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de Andr\u00e9 Cortez funciona como uma met\u00e1fora visual para o n\u00e3o-lugar da viol\u00eancia, esse espa\u00e7o de suspens\u00e3o onde a realidade se desintegra. \u00c9 um territ\u00f3rio on\u00edrico, onde os pesadelos ganham forma e a linha entre o real e o surreal se dissolve. As proje\u00e7\u00f5es de v\u00eddeo s\u00e3o como fragmentos de mem\u00f3ria, ecos deformados de um trauma que se recusa a ser esquecido. Elas sugerem a natureza intrusiva e repetitiva das mem\u00f3rias traum\u00e1ticas, que voltam incessantemente, muitas vezes de forma despeda\u00e7ada. A ilumina\u00e7\u00e3o cria uma atmosfera de claustrofobia, como se o palco fosse a pr\u00f3pria mente aprisionada no labirinto do trauma.<\/p>\n<p>A trilha sonora, composta por Lucas Santana e F\u00e1bio Pinczowisk, adiciona mais uma camada \u00e0 narrativa. Durante as apresenta\u00e7\u00f5es no Sesc Consola\u00e7\u00e3o, a banda boliviana Las Majas a executava ao vivo, criando uma atmosfera \u00fanica. Nessa temporada no Teatro Firjan SESI Centro, a trilha \u00e9 gravada,&nbsp; mantendo sua for\u00e7a e impacto.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O Grupo 3 de Teatro &#8211; que j\u00e1 montou espet\u00e1culos como <em>Contra\u00e7\u00f5es<\/em> (2013), com dire\u00e7\u00e3o de Grace Pass\u00f4, e <em>Love, Love, Love<\/em> (2017), dirigido por Eric Lenate -, utiliza a po\u00e9tica do desconforto como estrat\u00e9gia est\u00e9tica. Essa po\u00e9tica visa desestabilizar o p\u00fablico, tir\u00e1-lo da zona de conforto das certezas e confront\u00e1-lo com o inc\u00f4modo, o mal-estar. \u00c9 uma linguagem que se recusa a ser complacente, que escolhe a vertigem do estranhamento como forma de provocar reflex\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Ao abra\u00e7ar o desconforto, o Grupo 3 de Teatro nos convida a encarar as sombras dentro de n\u00f3s mesmos, a questionar as estruturas que sustentam a viol\u00eancia e a reconhecer nossa pr\u00f3pria cumplicidade silenciosa.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 dif\u00edcil transmitir a intensidade e a complexidade das experi\u00eancias encarnadas pelas atrizes. Ao longo da pe\u00e7a, as atrizes D\u00e9bora Falabella e Yara de Novaes utilizam uma linguagem corporal descont\u00ednua para evocar os estados internos da mulher violentada e da testemunha solid\u00e1ria. Os movimentos convulsivos, os gritos sufocados, os sil\u00eancios carregados &#8211; todos esses elementos evocam o impacto da viol\u00eancia.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Ao mesmo tempo, a estrutura n\u00e3o linear e on\u00edrica da cena, com suas transi\u00e7\u00f5es abruptas e justaposi\u00e7\u00f5es ins\u00f3litas, reflete a natureza descont\u00ednua e desorientadora da mem\u00f3ria traum\u00e1tica. N\u00e3o h\u00e1 uma narrativa clara de causa e efeito, nenhuma resolu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil &#8211; em vez disso, somos imersos em um espa\u00e7o psicol\u00f3gico onde o tempo \u00e9 distorcido, as identidades s\u00e3o fluidas e as fronteiras entre o real e o imaginado s\u00e3o borradas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Esse reconhecimento, esse ato de &#8220;testemunho secund\u00e1rio&#8221;, implica o p\u00fablico. Ao sermos confrontados com a realidade crua da viol\u00eancia e suas consequ\u00eancias devastadoras, n\u00e3o podemos mais manter uma dist\u00e2ncia segura. Somos chamados a sentir, a nos envolver em um n\u00edvel profundamente pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Assim, <strong><em>Neste mundo louco, nesta noite brilhante<\/em><\/strong> se mostra como um ato de resist\u00eancia contra o sil\u00eancio e a invisibilidade que muitas vezes cercam a viol\u00eancia sexual, lembrando que essa ferida coletiva requer um engajamento coletivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong><span style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\">Ficha t\u00e9cnica:<\/span><\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Elenco<\/strong>: D\u00e9bora Falabella e Yara de Novaes <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Texto<\/strong>: Silvia Gomez <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Gabriel Fontes Paiva <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Cenografia<\/strong>: Andr\u00e9 Cortez <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>V\u00eddeo-cen\u00e1rio<\/strong>: Luiz Duva <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Figurino<\/strong>: Fabio Namatame <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Ilumina\u00e7\u00e3o<\/strong>: Gabriel Fontes Paiva e Andr\u00e9 Prado <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Trilha sonora original<\/strong>: Lucas Santtana e F\u00e1bio Pinczowisk<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong><span style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\">Servi\u00e7o:<\/span><\/strong><\/span><br \/>\n<em><span style=\"color: #000000;\">Neste mundo louco, nesta noite brilhante<\/span><\/em><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Quando:<\/strong>&nbsp;Quinta e Sexta \u00e0s 19h, S\u00e1bado e Domingo \u00e0s 18h. De 28 de Julho a 18 de Agosto<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Onde<\/strong>: Teatro Firjan SESI Centro. &#8211; Avenida Gra\u00e7a Aranha, 1, Rio de Janeiro &#8211; Rio de Janeiro<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>Quanto<\/strong>: Ingressos entre R$ 20,00 e R$ 40,00<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Este texto integra o&nbsp;<strong><em><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/projeto-arquipelago\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">projeto arquip\u00e9lago<\/a>&nbsp;<\/em><\/strong>de fomento \u00e0 cr\u00edtica, com apoio da&nbsp;<strong><a href=\"http:\/\/corporastreado.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Corpo Rastreado<\/a>.<\/strong><\/h2>\n<p><img src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/WhatsApp-Image-2022-11-09-at-18.21.49-e1669690492534.jpeg\"><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando assisti ao espet\u00e1culo Neste mundo louco, nesta noite brilhante pela primeira vez em 2019, no Sesc Consola\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, vivenciei um epis\u00f3dio de medo e inseguran\u00e7a nas ruas da cidade. Descendo, depois da sess\u00e3o, pela Rua Dona Veridiana sem estrelas e sem luar, ao lado de uma amiga, fomos surpreendidas por um homem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[5950,7716,4637,5709,7718,5799,7717,7715,5820,716,5798,7714,224],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25553"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25553"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25553\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25570,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25553\/revisions\/25570"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25553"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25553"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25553"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}