{"id":25539,"date":"2024-07-24T19:32:37","date_gmt":"2024-07-24T22:32:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25539"},"modified":"2024-07-24T19:32:40","modified_gmt":"2024-07-24T22:32:40","slug":"querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem\/","title":{"rendered":"Querido p\u00fablico pagante, sobrevivente de guerra<\/br>Cr\u00edtica de Cabar\u00e9 Coragem"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_25545\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem\/cabare-coragem-humberto-araujo-1\/\" rel=\"attachment wp-att-25545\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25545\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25545 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CABARE-CORAGEM-HUMBERTO-ARAUJO-1-e1721858887316.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25545\" class=\"wp-caption-text\">Cabar\u00e9 Coragem \u00e9 o primeiro espet\u00e1culo do Galp\u00e3o p\u00f3s pandemia de covid-19. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/atrizes-orquestras-e-teatralidade-exposta\/whatsapp-image-2024-07-11-at-13-17-28\/\" rel=\"attachment wp-att-25534\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25534 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/WhatsApp-Image-2024-07-11-at-13.17.28-e1721662527897.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\"><\/a>Neste cabar\u00e9, \u201ccantaremos, beberemos, dan\u00e7aremos!\u201d. Essa \u00e9 a promessa feita por Singapura, personagem de In\u00eas Peixoto em&nbsp;<em>Cabar\u00e9 Coragem<\/em>, espet\u00e1culo do grupo Galp\u00e3o, de Minas Gerais, que estreou no ano passado, j\u00e1 passou por alguns lugares do pa\u00eds, participa agora do Festival de Curitiba e come\u00e7a temporada neste m\u00eas de abril em S\u00e3o Paulo, no Sesc Belenzinho. Mesmo que proponha divers\u00e3o, Singapura nos lembra instantes adiante que \u00e9 importante estarmos alertas: nem tudo \u00e9 o que parece, as apar\u00eancias enganam. No foyer do Guairinha, na noite do \u00faltimo dia 30, a garrafa de cacha\u00e7a est\u00e1 \u00e0 m\u00e3o, mais dispon\u00edvel do que disputada, dos frequentadores do local.<\/p>\n<p>Quando entramos, a m\u00fasica alta da picape do DJ embala as conversas enquanto as pessoas procuram seus lugares e aguardam que o espet\u00e1culo comece, digamos, oficialmente. Lembro de ouvir Mar\u00edlia Mendon\u00e7a e Jo\u00e3o Gomes, s\u00f3 para ficar entre os meus preferidos. Algumas pessoas se balan\u00e7am nas cadeiras e h\u00e1 quem aceite o convite para dan\u00e7ar no palco ou no corredor. Os artistas que logo mais se apresentam neste cabar\u00e9 circulam pela plateia, conversam com as pessoas. Oferecem doses de cacha\u00e7a ou de conhaque. No canto do palco, sentada numa poltrona, a atriz Teuda Bara, 81 anos, ostenta peruca loura, sombra azul, blush rosado e batom vermelho.<\/p>\n<div id=\"attachment_25546\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem\/cabare-coragem-humberto-araujo-3\/\" rel=\"attachment wp-att-25546\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25546\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25546 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CABARE-CORAGEM-HUMBERTO-ARAUJO-3-e1721858954507.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25546\" class=\"wp-caption-text\">Teuda Bara \u00e9 madame, a dona do cabar\u00e9 do Galp\u00e3o. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p>A noite \u00e9 de festa, mas as contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o estabelecidas desde o in\u00edcio. Estamos aqui para nos divertir e viver esse momento. Quem sabe, dependendo do empenho e da entrega daquele conjunto formado por quem est\u00e1 no palco e na plateia, gozar. Mas gozar \u00e9 dif\u00edcil rotineiramente; o que podemos dizer ent\u00e3o sobre gozar de barriga vazia, estando faminto? Nesses instantes iniciais da encena\u00e7\u00e3o, o Galp\u00e3o pavimenta o caminho para os espectadores, anuncia a que veio.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma expectativa de celebra\u00e7\u00e3o que paira na plateia: al\u00e9m da possibilidade da instaura\u00e7\u00e3o no teatro desse inferninho do Galp\u00e3o, o reencontro com o grupo criado em 1982, com 26 espet\u00e1culos ao longo de sua trajet\u00f3ria, era aguardado. A \u00faltima pe\u00e7a,&nbsp;<em>Outros<\/em>, segunda dire\u00e7\u00e3o de Marcio Abreu para o grupo depois da disruptiva&nbsp;<em>N\u00f3s&nbsp;<\/em>(2016), estreou no distante ano de 2018, antes da pandemia. Eles sobreviveram. N\u00f3s tamb\u00e9m. Esse j\u00e1 seria motivo suficiente para cantar, beber e dan\u00e7ar, mas essa primeira cena deixa evidente que o Galp\u00e3o traz ao centro desse cabar\u00e9 o alem\u00e3o Bertolt Brecht (1898-1956), dramaturgo, poeta, encenador, para tomar uma cachacinha junto e explicitar a luta de classes. \u00c9 um cabar\u00e9 cujas refer\u00eancias foram forjadas nos cabar\u00e9s franceses e alem\u00e3es do come\u00e7o do s\u00e9culo XX, espa\u00e7os para discuss\u00e3o pol\u00edtica, experimentalismo e transgress\u00f5es.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, de modo mais recorrente na \u00faltima d\u00e9cada, estamos num contexto em que o teatro de grupo no Brasil, de modo geral, est\u00e1 refletindo muito mais a partir das identidades e das dissid\u00eancias, das quest\u00f5es de ra\u00e7a e de g\u00eanero: o teatro negro, o teatro feminista, o teatro queer. Alguns grupos continuam suas pesquisas insistindo na luta de classes, como a Companhia do Lat\u00e3o, de S\u00e3o Paulo, e o Coletivo de Teatro Alfenim, da Para\u00edba, mas essa n\u00e3o \u00e9 mais a t\u00f4nica dominante, como j\u00e1 foi por exemplo na d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p>O Galp\u00e3o resgata a tem\u00e1tica da luta de classes utilizando a irrever\u00eancia para desestabilizar o que de algum modo naturalizamos: as consequ\u00eancias do capitalismo, desigualdades, exclus\u00f5es e injusti\u00e7as. Roberto Schwarz, em seu texto&nbsp;<em>Altos e baixos da atualidade de Brecht<\/em>, no livro&nbsp;<em>Sequ\u00eancias brasileiras: ensaios,&nbsp;<\/em>diz que \u201cTrata-se de entender, em suma, que na realidade como no teatro os funcionamentos s\u00e3o sociais e, portanto, mud\u00e1veis\u201d, o que nos explica noutras palavras Singapura.<\/p>\n<div id=\"attachment_25549\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem\/cabare-coragem-humberto-araujo-2\/\" rel=\"attachment wp-att-25549\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25549\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25549 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CABARE-CORAGEM-HUMBERTO-ARAUJO-2-e1721859533399.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25549\" class=\"wp-caption-text\">Singura (In\u00eas Peixoto) nos d\u00e1 as boas-vindas neste cabar\u00e9 brechtiano. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p>As men\u00e7\u00f5es a Brecht est\u00e3o espalhadas ao longo da pe\u00e7a, desde o t\u00edtulo,&nbsp;<em>Cabar\u00e9 Coragem<\/em>, refer\u00eancia a&nbsp;<em>M\u00e3e Coragem e Seus Filhos<\/em>, texto de 1941. Mas nesse caso h\u00e1 tamb\u00e9m uma mem\u00f3ria afetiva que vem do mineiro Guimar\u00e3es Rosa (1908-1967), como afirmou In\u00eas Peixoto na coletiva de imprensa sobre o espet\u00e1culo no Festival de Curitiba. De&nbsp;<em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>&nbsp;talvez seja esse justamente o trecho mais citado e bonito: \u201cO correr da vida embrulha tudo. A vida \u00e9 assim: esquenta e esfria, aperta e da\u00ed afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente \u00e9 coragem\u201d.<\/p>\n<p>Teuda Bara \u00e9 a Madame, dona do cabar\u00e9, mas em seu n\u00famero encarna a M\u00e3e Coragem. A veterana fala sobre as consequ\u00eancias da guerra, o quanto teve coragem e, ao mesmo tempo, medo de perder os filhos, e depois engata os versos de&nbsp;<em>Mam\u00e3e coragem<\/em>, de Torquato Neto e Caetano Veloso, conhecida na voz de Gal Costa. Na m\u00fasica, que comp\u00f5e o \u00e1lbum coletivo&nbsp;<em>Tropic\u00e1lia ou Panis Et Circencis<\/em>&nbsp;(1968), considerado manifesto musical do Tropicalismo, um filho tenta consolar a m\u00e3e.<\/p>\n<div id=\"attachment_25547\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem\/cabare-coragem-humberto-araujo-9\/\" rel=\"attachment wp-att-25547\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25547\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25547 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CABARE-CORAGEM-HUMBERTO-ARAUJO-9-e1721859052553.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25547\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo atualiza debate sobre luta de classes. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p>O espet\u00e1culo, ali\u00e1s, quero colocar em letreiro ne\u00f3n, \u00e9 do elenco feminino do Galp\u00e3o: In\u00eas Peixoto, Lydia Del Picchia, Simone Ordones e Teuda Bara. Gente, essas atrizes! No palco, principalmente In\u00eas Peixoto e Lydia Del Picchia refor\u00e7am o estere\u00f3tipo da figura da mulher no cabar\u00e9-inferninho brasileiro, performando em seus figurinos e caracteriza\u00e7\u00f5es a mulher desejada por seu corpo, cujas formas s\u00e3o destacadas pelo brilho das roupas curtas e apertadas, pretas, de prefer\u00eancia, ao mesmo tempo em que trazem outras camadas ao feminino.<\/p>\n<p>Lydia Del Picchia come\u00e7a o espet\u00e1culo vestida com macac\u00e3o de mec\u00e2nico, bigode pintado, e se transforma no palco. \u201cVoc\u00eas devem ter reparado na minha roupinha, um brilhozinho b\u00e1sico, vulgar sem ser sexy. Cansei de ser sexy, agora eu sou s\u00f3 vulgar!\u201d, destacando o empoderamento e a liberdade no que se deseja ser, em se fazer desejante do modo que nos satisfa\u00e7a a n\u00f3s mulheres e n\u00e3o necessariamente aos outros.<\/p>\n<p>Noutro momento mais adiante, Simone Ordones ser\u00e1 transformada na mulher monstro defensora da moral e dos bons costumes, replicadora de memes e not\u00edcias falsas, que se acalma com as joias das Ar\u00e1bias. Em seu n\u00famero musical que se segue \u00e0 performance como mulher monstro, a m\u00fasica escolhida \u00e9&nbsp;<em>Mulher limpa<\/em>, de Juliana Perdig\u00e3o, criada a partir do poema de mesmo nome de Ang\u00e9lica Freitas, que est\u00e1 no livro&nbsp;<em>Um \u00fatero \u00e9 do tamanho de um punho<\/em>. Com toda ironia, Simone entoa e faz o p\u00fablico repetir os versos: \u201cUma mulher boa \/ \u00e9 uma mulher limpa \/ se ela \u00e9 uma mulher limpa \/ ela \u00e9 uma mulher boa. Uma mulher brava \/ n\u00e3o \u00e9 uma mulher boa \/ e se ela \u00e9 uma mulher boa \/ ela \u00e9 uma mulher limpa\u201d.<\/p>\n<p>Uma das camadas mais significativas quando pensamos no feminino retratado na pe\u00e7a \u00e9 a idade dessas mulheres. S\u00e3o quase todos corpos de mulheres mais velhas, se bem que\u2026 o que \u00e9 velho? Mas s\u00e3o corpos que n\u00e3o s\u00e3o enxergados comumente pela sociedade como desej\u00e1veis, como se a mulher tivesse um prazo de validade.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo \u00e9 atravessado pela quest\u00e3o da idade para al\u00e9m do feminino. Esse cabar\u00e9 \u00e9 um cabar\u00e9 de idosos, maravilhoso! Em determinado momento, quando os artistas questionam as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, a falta de comida, a precariedade, Madame responde com deboche: \u201cQuero ver quem \u00e9 que vai dar emprego para um bando de artista velho que nem voc\u00eas\u2026\u201d.<\/p>\n<p>O etarismo nosso de cada dia relega os mais velhos a posi\u00e7\u00f5es escamoteadas. A imagem comumente associada ao cabar\u00e9 \u00e9 a da juventude. Mesmo que a arte seja mais gentil com quem envelhece do que outros campos, como pontuou Antonio Edson durante a coletiva de imprensa, os preconceitos permeiam a viv\u00eancia da velhice, ignorando o fato de que a sociedade brasileira caminha rumo ao envelhecimento de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse lugar que fica mais vis\u00edvel na velhice, mas existe em todas as fases da vida, de levar em considera\u00e7\u00e3o o que conseguimos ou n\u00e3o fazer, de respeitar os pr\u00f3prios limites, mas n\u00e3o deixar de tentar transgredi-los, o Galp\u00e3o recria uma cena de acrobacia de Antonio Edson e Eduardo Moreira. Eles s\u00e3o atores e n\u00e3o acrobatas; e homens mais velhos. Mesmo assim, dispon\u00edveis ao jogo, levando os seus corpos a lugares poss\u00edveis e, nem por isso, menos dignos de celebra\u00e7\u00e3o. A trajet\u00f3ria do Galp\u00e3o \u00e9 admir\u00e1vel por muitos motivos, inclusive por este: a capacidade que o grupo possui de se colocar dispon\u00edvel, de experimentar, de n\u00e3o deixar que os anos de trabalho engendrem uma marca pesada demais para carregar.<\/p>\n<div id=\"attachment_25544\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem\/cabare-coragem-humberto-araujo-13\/\" rel=\"attachment wp-att-25544\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25544\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25544 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CABARE-CORAGEM-HUMBERTO-ARAUJO-13-e1721858322585.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25544\" class=\"wp-caption-text\">Discuss\u00e3o sobre etarismo permeia a encena\u00e7\u00e3o. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p>Voltando ao cap\u00edtulo Brecht, sem nunca ter sa\u00eddo dele, o Galp\u00e3o consegue esprai\u00e1-lo na montagem, de modo que algo vai te alcan\u00e7ar, voc\u00ea vai sair dali entendendo que a pe\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 sobre luta de classes, sobre questionar a realidade \u201cimut\u00e1vel\u201d na qual estamos inseridos. Na cena do ventr\u00edloquo e da sua bonequinha, foi incorporada a f\u00e1bula&nbsp;<em>Se os tubar\u00f5es fossem homens<\/em>, de autoria do dramaturgo alem\u00e3o. Explicando \u00e0 bonequinha, num dos trechos, o ventr\u00edloquo diz: \u201cSe os tubar\u00f5es fossem homens, eles fundariam escolas onde os peixinhos aprenderiam a nadar para dentro da boca dos tubar\u00f5es e a sempre acreditar nos tubar\u00f5es, especialmente quando eles dizem que v\u00e3o cuidar para que os peixinhos tenham um belo futuro\u201d.<\/p>\n<p>No n\u00famero seguinte, Lydia Del Picchia faz refer\u00eancia ao nome do bar da pe\u00e7a, repetido algumas vezes, Gangorra\u00b4s Bar: \u201cEu conhe\u00e7o este sistema, \u00e9 meu velho conhecido. Alguns poucos por cima, outros muitos em baixo\u201d. Os versos da m\u00fasica soam baratos e vagabundos, mas \u00e9 isso mesmo: \u201cAnalisando essa cadeia heredit\u00e1ria, quero me livrar dessa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria \/ Onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre \/ E o motivo todo mundo j\u00e1 conhece, \u00e9 que o de cima sobe e o de baixo desce\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda Antonio Edson cantando em alem\u00e3o&nbsp;<em>Die Moritat von Mackie Messer<\/em>,&nbsp;<em>A balada de Mac Navalha<\/em>, de A&nbsp;<em>\u00f3pera de tr\u00eas vint\u00e9ns<\/em>, de Brecht e Kurt Weill. H\u00e1 a vers\u00e3o&nbsp;<em>Tango dos a\u00e7ougueiros felizes<\/em>, da m\u00fasica&nbsp;<em>Les Joueux<\/em>, do franc\u00eas Boris Vian (1920-1959). A m\u00fasica gravada por Cida Moreira, que trabalhou com o Galp\u00e3o durante o processo de montagem, uma das artistas especialistas no cabar\u00e9 brechtiano no pa\u00eds, resultou numa cena cat\u00e1rtica. H\u00e1 a m\u00fasica&nbsp;<em>Singapura \u2013 Um copo de veneno<\/em>, tamb\u00e9m de Cida Moreira, que d\u00e1 nome \u00e0 personagem de In\u00eas Peixoto. E h\u00e1 a explicita\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es do sistema capitalista engendradas na pr\u00f3pria arte: \u201cAqui, quanto mais voc\u00ea paga, mais a gente brilha\u201d, \u201cquerido p\u00fablico pagante\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_25548\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem\/cabare-coragem-humberto-araujo-12\/\" rel=\"attachment wp-att-25548\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25548\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25548 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CABARE-CORAGEM-HUMBERTO-ARAUJO-12-e1721859365561.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25548\" class=\"wp-caption-text\">Galp\u00e3o, grupo mineiro, \u00e9 um dos principais representantes do teatro de grupo brasileiro, em atua\u00e7\u00e3o h\u00e1 42 anos. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p>A pe\u00e7a do Galp\u00e3o nos lembra que somos sobreviventes de guerra. H\u00e1 v\u00e1rios tipos de guerras. Mesmo que n\u00e3o traga o contexto pol\u00edtico brasileiro&nbsp;<em>ipsis litteris<\/em>, tamb\u00e9m \u00e9 sobre isso. Acompanhamos um golpe de Estado que tirou a primeira mulher presidenta do Brasil do poder, nunca esqueceremos. Vimos um pol\u00edtico se tornar presidente da rep\u00fablica rendendo louros a um torturador. Vivemos a pandemia, vivemos a pandemia com Bolsonaro na presid\u00eancia. Tivemos uma tentativa de romper com a democracia. O fantasma da extrema direita vive a nos assombrar. Mas a garantia do direito \u00e0 mem\u00f3ria \u2013 e o Galp\u00e3o \u00e9 mem\u00f3ria em cena e mem\u00f3ria encenada \u2013 continua a ser um desafio para nosso pa\u00eds. Assistimos no m\u00eas passado ao cancelamento dos atos em rep\u00fadio aos 60 anos do Golpe civil militar e das barb\u00e1ries praticadas pelos militares ap\u00f3s decis\u00e3o do presidente Lula.<\/p>\n<p>O Galp\u00e3o traz ao palco uma luta que n\u00e3o se restringe ao individual, um grupo de teatro que se mant\u00e9m no Brasil h\u00e1 42 anos apesar de todas as circunst\u00e2ncias, sejam pol\u00edticas, econ\u00f4micas, de descaso com a pol\u00edtica de Cultura no pa\u00eds. Eles s\u00e3o caminho percorrido e vislumbre de possibilidade com sua atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica e art\u00edstica. Ver o Galp\u00e3o em seu 26\u00ba espet\u00e1culo, no palco, \u00e9 pensar \u201cum pouco na realidade e muito na imagina\u00e7\u00e3o\u201d, como diria Roberto Schwarz, que o futuro pode ser bonito.<\/p>\n<p><strong>O espet\u00e1culo&nbsp;<em>Cabar\u00e9 Coragem<\/em>&nbsp;foi apresentado nos dias 30 e 31 de mar\u00e7o de 2024 no Festival de Curitiba.<\/strong><\/p>\n<p><strong>* Pollyanna Diniz escreveu cr\u00edticas de espet\u00e1culos que participaram do Festival de Curitiba a convite do Festival. A cr\u00edtica foi originalmente publicada no <a href=\"https:\/\/festivaldecuritiba.com.br\/noticias\/critica-atrizes-orquestras-e-teatralidade-exposta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">site do Festival de Curitiba<\/a>. <\/strong><\/p>\n<p><strong>O grupo de cr\u00edticos que trabalhou no festival incluiu ainda Annelise Schwarcz, Guilherme Diniz (<a href=\"https:\/\/www.horizontedacena.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Horizonte da Cena<\/a>) e Kil Abreu (<a href=\"https:\/\/cenaaberta.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cena Aberta<\/a>).<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_25543\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/querido-publico-pagante-sobrevivente-de-guerracritica-de-cabare-coragem\/cabare-coragem-humberto-araujo-6\/\" rel=\"attachment wp-att-25543\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25543\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25543 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CABARE-CORAGEM-HUMBERTO-ARAUJO-6-e1721858221273.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25543\" class=\"wp-caption-text\">Cabar\u00e9 Coragem no Festival de Curitiba 2024. Foto: Humberto Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Antonio Edson, Eduardo Moreira, In\u00eas Peixoto, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Simone Ordones e Teuda Bara<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> J\u00falio Maciel<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o musical, arranjos e trilha sonora:<\/strong> Luiz Rocha<br \/>\n<strong>Diretor assistente:<\/strong> David Maurity<br \/>\n<strong>Cenografia e figurino:<\/strong> M\u00e1rcio Medina<br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong> Coletiva<br \/>\n<strong>Supervis\u00e3o de dramaturgia:<\/strong> Vin\u00edcius de Souza<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de cena e coreografia:<\/strong> Rafael Bacelar<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o:<\/strong> Rodrigo Mar\u00e7al<br \/>\n<strong>Adere\u00e7os e pintura de arte:<\/strong> Marney Heitmann<br \/>\n<strong>Prepara\u00e7\u00e3o corporal e do gesto:<\/strong> Fernanda Vianna<br \/>\n<strong>Prepara\u00e7\u00e3o vocal:<\/strong> Babaya<br \/>\n<strong>Assist\u00eancia de figurino:<\/strong> Paulo Andr\u00e9 e Gilma Oliveira<br \/>\n<strong>Assist\u00eancia de cenografia:<\/strong> Vin\u00edcius de Andrade<br \/>\n<strong>Assessoria de ilumina\u00e7\u00e3o<\/strong>: Marina Arthuzzi<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de experimentos c\u00eanicos:<\/strong> Ernani Maletta, Luiz Rocha e Cida Moreira<br \/>\n<strong>Colabora\u00e7\u00e3o art\u00edstica:<\/strong> Paulo Andr\u00e9 e Jo\u00e3o Santos<br \/>\n<strong>Maquiagem e perucaria:<\/strong> Gabriela Dominguez<br \/>\n<strong>Assistente de maquiagem e perucaria:<\/strong> Ana Rosa Oliveira<br \/>\n<strong>Constru\u00e7\u00e3o cen\u00e1rio:<\/strong> Artes C\u00eanica Produ\u00e7\u00f5es<br \/>\n<strong>Confec\u00e7\u00e3o de figurinos:<\/strong> Taires Scatolin<br \/>\n<strong>T\u00e9cnico de palco<\/strong>: William Bililiu<br \/>\n<strong>Instala\u00e7\u00e3o de lumin\u00e1rias c\u00eanicas:<\/strong> Wellington Santos<br \/>\n<strong>Assessoria de imprensa:<\/strong> Polliane Elizi\u00e1rio (Personal Press)<br \/>\n<strong>Comunica\u00e7\u00e3o on-line:<\/strong> Rizoma Comunica\u00e7\u00e3o &amp; Arte<br \/>\n<strong>Fotos:<\/strong> Mateus Lustosa<br \/>\n<strong>Registro e cobertura audiovisual:<\/strong> Alicate<br \/>\n<strong>Projeto gr\u00e1fico:<\/strong> Filipe Lampejo e Rita Davis<br \/>\n<strong>Opera\u00e7\u00e3o de luz:<\/strong> Rodrigo Mar\u00e7al<br \/>\n<strong>Sonoriza\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o de som:<\/strong> F\u00e1bio Santos<br \/>\n<strong>Assistente t\u00e9cnico:<\/strong> William Teles<br \/>\n<strong>Assistente de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> M\u00e1rcia Bueno e Idylla Silmarovi<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o executiva:<\/strong> Beatriz Radicchi<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Gilma Oliveira<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Grupo Galp\u00e3o<br \/>\n<strong>M\u00fasicas<\/strong> Alabama Song, Moritat, Singapura e Tango dos A\u00e7ougueiros Felizes a partir dos arranjos musicais de Ernani Maletta<br \/>\n<strong>Fragmento do Texto:<\/strong> \u201cDiscurso sobre Nada\u201d de Marcio Abreu<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste cabar\u00e9, \u201ccantaremos, beberemos, dan\u00e7aremos!\u201d. Essa \u00e9 a promessa feita por Singapura, personagem de In\u00eas Peixoto em&nbsp;Cabar\u00e9 Coragem, espet\u00e1culo do grupo Galp\u00e3o, de Minas Gerais, que estreou no ano passado, j\u00e1 passou por alguns lugares do pa\u00eds, participa agora do Festival de Curitiba e come\u00e7a temporada neste m\u00eas de abril em S\u00e3o Paulo, no Sesc [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[630,101,7713,7710,634,7712,7708,222,3123,3588,7709,3587,7711,4903,635],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25539"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25539"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25539\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25552,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25539\/revisions\/25552"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}