{"id":25517,"date":"2024-07-20T23:41:07","date_gmt":"2024-07-21T02:41:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25517"},"modified":"2024-07-20T23:42:06","modified_gmt":"2024-07-21T02:42:06","slug":"cinderela-um-fenomeno-imortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/cinderela-um-fenomeno-imortal\/","title":{"rendered":"Cinderela, um fen\u00f4meno imortal"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_25519\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/cinderela-melhor-recorte-e1721493868522.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25519\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25519\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/cinderela-melhor-recorte-e1721493868522.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"406\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25519\" class=\"wp-caption-text\">Jeison Wallace na pe\u00e7a <strong>Cinderela, A Hist\u00f3ria que a Sua M\u00e3e N\u00e3o Contou<\/strong>&#8230; Foto: Renan Andrade \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong><em><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/logo-arquipe\u0301lago--e1669689165758.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24736 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/logo-arquipe\u0301lago--e1669689165758.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"84\"><\/a>Cinderela, a hist\u00f3ria que sua m\u00e3e n\u00e3o contou&#8230;<\/em><\/strong> transp\u00f5e o cl\u00e1ssico conto de fadas para a realidade do sub\u00farbio do Recife, compondo Cinderela e as outras personagens femininas interpretadas por atores. A pe\u00e7a usa e abusa da grosseria verbal e do deboche ao situar a protagonista como uma &#8220;bichinha&#8221; negra e perif\u00e9rica, com trejeitos exagerados, vocabul\u00e1rio cheio de g\u00edrias e bord\u00f5es como o famoso &#8220;Oxe, mainha!&#8221;, que caiu na boca do povo.<\/p>\n<p>A montagem se tornou um fen\u00f4meno teatral nos anos 1990 e revelou o desconcertante talento e a for\u00e7a midi\u00e1tica do ator Jeison Wallace. Mais de tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a estreia, a pe\u00e7a da Trupe do Barulho ainda surpreende o p\u00fablico com seu humor \u00e1cido, personagens caricatos e um enredo recheado de refer\u00eancias \u00e0 cultura pop e \u00e0 periferia pernambucana.<\/p>\n<p>Neste domingo, o espet\u00e1culo faz duas apresenta\u00e7\u00f5es especiais no Teatro Guararapes para celebrar seus 32 anos. O Guararapes \u00e9 um teatro com 2.495 poltronas entre plateia e balc\u00e3o e as duas sess\u00f5es est\u00e3o praticamente lotadas.&nbsp;<\/p>\n<p>As sess\u00f5es comemorativas trazem de volta ao palco parte do elenco original como Roberto Costa no papel da Fada Madrinha e Paulo de Pontes como a Madrasta, al\u00e9m dos atores convidados Andr\u00e9 Lins, Luan Alves, Petreson Eloy, Rick Thompson e Ven\u00e2ncio Torres, que se revezam em outros papeis. Wallace assina a dire\u00e7\u00e3o e atualizou pontualmente o texto para dialogar com o momento atual.<\/p>\n<div id=\"attachment_25520\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/cinderela__FOTO-RENAN-ANDRADE-e1721495860676.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25520\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25520\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/cinderela__FOTO-RENAN-ANDRADE-e1721495860676.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"415\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25520\" class=\"wp-caption-text\">Paulo de Pontes, como a Madrasta e Jeison. Foto: Foto: Renan Andrade \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A protagonista desta releitura subverte todos os estere\u00f3tipos associados \u00e0 Cinderela tradicional. Longe da princesa alva e delicada, temos aqui uma mulher negra que desafia os padr\u00f5es est\u00e9ticos vigentes. Sua apar\u00eancia \u00e9 marcada por uma maquiagem carregada, cabelos desgrenhados e \u00f3culos chamativos, elementos que a distanciam do ideal de beleza feminino socialmente imposto.<\/p>\n<p>Seu comportamento tamb\u00e9m rompe com as expectativas de recato e fragilidade comumente atribu\u00eddas \u00e0s personagens femininas dos contos de fada. Ela se movimenta com firmeza e determina\u00e7\u00e3o, seus gestos s\u00e3o amplos e por vezes obscenos, nada da delicadeza e comedimento esperados de uma princesa. Sua fala \u00e9 igualmente transgressora, reproduzindo a pros\u00f3dia e o linguajar t\u00edpicos das periferias recifenses, permeados de g\u00edrias e palavr\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa constru\u00e7\u00e3o da personagem se afasta radicalmente da imagem cl\u00e1ssica da Cinderela, propondo uma representa\u00e7\u00e3o que desafia no\u00e7\u00f5es preconcebidas de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe. Ao trazer para o centro da narrativa uma protagonista que incorpora marcadores sociais frequentemente marginalizados, a montagem provoca reflex\u00f5es sobre os estere\u00f3tipos que permeiam tanto os contos de fada quanto a pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p>Uma curiosidade da montagem \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do tradicional sapatinho de cristal por uma peruca. Na fuga do baile, Cinderela acaba perdendo o adere\u00e7o, que se torna a chave para o pr\u00edncipe reencontr\u00e1-la. Assim, ele passa a percorrer o reino fazendo as mo\u00e7as experimentarem a peruca, na esperan\u00e7a de achar sua amada.<\/p>\n<div id=\"attachment_25521\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CINDERELA-ELENCO-ORIGINAL-FOTO-jO-RIBEIRO-e1721497840545.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25521\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25521\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/CINDERELA-ELENCO-ORIGINAL-FOTO-jO-RIBEIRO-e1721497840545.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"389\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25521\" class=\"wp-caption-text\">Elenco original, com Edilson Rygaard como Pr\u00edncipe. A foto \u00e9 de J\u00f4 Ribeiro, ator, produtor cultural e maquiador, que atuou em v\u00e1riias fun\u00e7\u00f5es na Trupe do Brarulho, morto em 2020<\/p><\/div>\n<p>O espet\u00e1culo estreou na sess\u00e3o da meia-noite no Teatro Valdemar de Oliveira, espa\u00e7o hist\u00f3rico recentemente atingido por um inc\u00eandio e que corre o risco de desaparecer, cedendo lugar a mais um empreendimento imobili\u00e1rio. Diante de um p\u00fablico escasso e certo desd\u00e9m da classe art\u00edstica, a montagem foi inicialmente relegada pela cr\u00edtica. No entanto, com uma habilidade impressionante, a Trupe do Barulho reverteu a situa\u00e7\u00e3o. ]<\/p>\n<p>O elenco dos primeiros anos era formado por <span style=\"font-size: 1rem;\">Jeison Wallace, <\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">Aurino Xavier, <\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">Edilson Rygaard, <\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">Fl\u00e1vio Luiz, <\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">Inaldo Oliveira, <\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">J\u00f4 Ribeiro, <\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">Luciano Rodrigues, depois Paulo Pontes, <\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">Roberto Costa.<\/span><\/p>\n<p><strong><em>Cinderela<\/em> <\/strong>permaneceu em cartaz por uma d\u00e9cada e estabeleceu recordes de bilheteria e p\u00fablico no Recife. A pe\u00e7a, escrita por Henrique Celibi, ator e dramaturgo que veio a falecer em 2017, estreou originalmente em 20 de setembro de 1991 .<\/p>\n<p>A c\u00e9lula primeira do espet\u00e1culo foi encenada pelo pr\u00f3prio Celibi em 1985 numa boate recifense. Quando Jeison Wallace assumiu a montagem, o texto foi enriquecido com novas camadas e improvisos, que acabaram sendo incorporados \u00e0 obra. Esse processo resultou em uma dramaturgia que foi al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o inicial de Celibi, agregando as vozes e contribui\u00e7\u00f5es de Wallace e dos diversos atores que fizeram parte da jornada da pe\u00e7a ao longo desses anos.<\/p>\n<p>O deboche e a irrever\u00eancia eram suas armas de ataque, incorporados em todos os aspectos da produ\u00e7\u00e3o. Na entrada, um dos integrantes do grupo entregava a cada espectador um peda\u00e7o de papel higi\u00eanico, avisando: &#8220;A pe\u00e7a \u00e9 uma merda&#8221;. Com isso, al\u00e9m de usar o tradicional jarg\u00e3o de boa sorte do teatro, &#8220;merda&#8221;, eles tentavam j\u00e1 de antem\u00e3o anular, ou zombar, das poss\u00edveis cr\u00edticas negativas.<\/p>\n<p>Apesar do crescente sucesso de p\u00fablico, <em>Cinderela, A Hist\u00f3ria que a Sua M\u00e3e N\u00e3o Contou<\/em>&nbsp;enfrentou resist\u00eancia de parte da classe art\u00edstica pernambucana. Muitos diziam que &#8220;aquilo n\u00e3o era teatro&#8221;.<\/p>\n<p>Um momento decisivo para a populariza\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo foi o Carnaval de 1992. A convite do jornalista Jos\u00e9 M\u00e1rio Austreg\u00e9silo, o grupo realizou a cobertura televisiva do desfile do bloco &#8220;As Virgens do Bairro Novo&#8221;, em Olinda, pela TV Jornal. Essa exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia despertou a curiosidade do p\u00fablico sobre a montagem, que parecia ser infantil, mas trazia um humor adulto e transgressivo.<\/p>\n<p>No entanto, no ano seguinte, a diretoria do bloco proibiu a participa\u00e7\u00e3o da Trupe do Barulho.&nbsp;Em seu livro reportagem <em>Cinderela: Hist\u00f3ria de um Sucesso Teatral dos Anos 90<\/em>, Lu\u00eds Augusto Reis, relata isso e especula que pode ter sido porque o travestismo do grupo, apesar das semelhan\u00e7as, diferia significativamente do costume local de homens se vestirem de mulher no carnaval, parodiando o &#8220;travesti suburbano&#8221;. Ou talvez porque os atores ofuscaram os outros integrantes com seu talento e improviso.<\/p>\n<p>Sem se abater, eles partiram ent\u00e3o para a cobertura do tradicional bloco Galo da Madrugada, ampliando ainda mais a visibilidade de Cinderela.<\/p>\n<p>Essa sequ\u00eancia de eventos foi fundamental para consolidar a popularidade do espet\u00e1culo. A cada apari\u00e7\u00e3o no Carnaval, mais pessoas ficavam intrigadas com aquela releitura irreverente do conto de fadas e queriam conferir a pe\u00e7a nos teatros. Assim, mesmo enfrentando preconceitos e resist\u00eancias iniciais, &#8220;Cinderela, A Hist\u00f3ria que a Sua M\u00e3e N\u00e3o Contou&#8221; foi conquistando seu espa\u00e7o e se firmando como um fen\u00f4meno cultural que rompeu barreiras e atraiu um p\u00fablico diverso, como na apresenta\u00e7\u00e3o no gin\u00e1sio Gerald\u00e3o para 15 mil pessoas, e entrou para o imagin\u00e1rio do Recife.<\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<h2>Este texto integra o&nbsp;<strong><em><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/projeto-arquipelago\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">projeto arquip\u00e9lago<\/a>&nbsp;<\/em><\/strong>de fomento \u00e0 cr\u00edtica, com apoio da&nbsp;<strong><a href=\"http:\/\/corporastreado.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Corpo Rastreado<\/a>.<\/strong><\/h2>\n<p><img src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/WhatsApp-Image-2022-11-09-at-18.21.49-e1669690492534.jpeg\"><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cinderela, a hist\u00f3ria que sua m\u00e3e n\u00e3o contou&#8230; transp\u00f5e o cl\u00e1ssico conto de fadas para a realidade do sub\u00farbio do Recife, compondo Cinderela e as outras personagens femininas interpretadas por atores. 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