{"id":25486,"date":"2024-05-21T17:09:40","date_gmt":"2024-05-21T20:09:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25486"},"modified":"2024-05-21T17:09:40","modified_gmt":"2024-05-21T20:09:40","slug":"a-cidade-e-um-corpo-marginal-repleto-de-poesia-critica-de-miro-estudo-no-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-cidade-e-um-corpo-marginal-repleto-de-poesia-critica-de-miro-estudo-no-2\/","title":{"rendered":"A cidade \u00e9 um corpo marginal , repleto de poesia <\/br> Cr\u00edtica de Mir\u00f3: Estudo n\u00ba 2"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_25490\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/MAGILUTH-MIRO-e1716321754537.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25490\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25490\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/MAGILUTH-MIRO-e1716321754537.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"587\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25490\" class=\"wp-caption-text\"><strong><em>Estudo N\u00b02 \u2013 Mir\u00f3<\/em><\/strong>. Erivaldo Oliveira e Bruno Parmera. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>O Grupo Magiluth, um dos mais atuantes do Brasil, est\u00e1 celebrando 20 anos de trajet\u00f3ria e, por isso, tem apresentado nos \u00faltimos meses algumas das pe\u00e7as de seu repert\u00f3rio no Recife. A trupe tem se notabilizado pelas experimenta\u00e7\u00f5es e busca de uma linguagem que pulse as inquieta\u00e7\u00f5es destes tempos. Em seus dois \u00faltimos trabalhos, <strong><em>Estudo N\u00b01 \u2013 Morte e Vida<\/em> <\/strong>e <strong><em>Estudo N\u00b02 \u2013 Mir\u00f3<\/em><\/strong>, enfatiza a import\u00e2ncia de &#8220;concretizar&#8221; na cena o estudo da pr\u00e1tica teatral, expandindo sua linguagem singular que combina jogo c\u00eanico e cr\u00edtica social, ironia e humor, pesquisa e performance. Na pe\u00e7a-palestra <em><strong>Mir\u00f3 &#8211;<\/strong> <strong>Estudo N\u00b02<\/strong><\/em>, a trupe investiga a t\u00eanue e complexa fronteira entre inteprerte e personagem.<\/p>\n<p>Uma cena exemplifica a transforma\u00e7\u00e3o de um coadjuvante em protagonista: durante uma abordagem policial violenta, tr\u00eas jovens da periferia s\u00e3o interpelados, e um deles \u00e9 agredido com um tapa no rosto por um dos policiais. Esse ato de viol\u00eancia faz com que o jovem se torne o protagonista da cena. E o que dizer disso tudo? O Magiluth d\u00e1 um curto-circuito para de uma apatia social e apontar para o p\u00fablico, que assiste passivamente, sem esbo\u00e7ar rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Mir\u00f3: Estudo N\u00b02<\/strong> <\/em>\u00e9 o 12\u00ba trabalho desse grupo e estreou em abril de 2023, no Ita\u00fa Cultural, em S\u00e3o Paulo. Mais do que uma biografia c\u00eanica, o espet\u00e1culo \u00e9 uma experi\u00eancia sensorial e po\u00e9tica que nos convida a perceber a cidade como um corpo vivo, feito de carne e concreto, sonhos e escombros.&nbsp;<\/p>\n<p>Mir\u00f3 da Muribeca, nome art\u00edstico de Jo\u00e3o Fl\u00e1vio Cordeiro da Silva (1960-2022), foi um poeta marginal do Recife, que fez das ruas da cidade seu palco, vendendo seus livros nas pontes e pra\u00e7as, declamando versos que falavam da realidade dura da periferia. Sua poesia, inicialmente l\u00edrica, ganhou contornos pol\u00edticos ao denunciar a viol\u00eancia, o preconceito e a desigualdade que marcam a vida dos pobres e negros nas grandes cidades brasileiras.<\/p>\n<p>No palco, os atores Giordano Castro, Erivaldo Oliveira e Bruno Parmera investigam o processo de cria\u00e7\u00e3o de um personagem teatral, se revezam nos pap\u00e9is de protagonista, antagonista, coadjuvante e figurante, numa estrutura que questiona as poss\u00edveis hierarquias do teatro e a rela\u00e7\u00e3o entre arte, cidade e resist\u00eancia, desestabilizando esses pap\u00e9is com o protagonismo de um poeta que deu voz aos invisibilizados.<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o explora a linguagem h\u00edbrida que tem sido uma das marcas do Magiluth, conectando teatro, performance, m\u00fasica, v\u00eddeo e poesia. Essa pesquisa de linguagem do grupo \u00e9 muito importante, e quem acompanha a trajet\u00f3ria dessa trupe percebe as tentativas de ampliar e aprofundar a linguagem pr\u00f3pria do grupo. As cenas se sucedem num fluxo fragmentado, como lampejos de mem\u00f3ria, evocando a trajet\u00f3ria de Mir\u00f3 e a hist\u00f3ria do Recife, com a cidade como personagem, revelando suas contradi\u00e7\u00f5es e encruzilhadas.<\/p>\n<p>Erivaldo Oliveira assume o papel de Mir\u00f3, buscando uma comunh\u00e3o com a ess\u00eancia inquieta e a criatividade febril do poeta, sem apagar o Erivaldo. Em cena, Mir\u00f3 ganha pot\u00eancia para denunciar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que destruiu o conjunto habitacional da Muribeca, onde viveu, para celebrar a palavra e para rir e chorar diante das grandezas e mazelas da vida na periferia.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo nos provoca a repensar as rela\u00e7\u00f5es entre centro e periferia, entre a cidade oficial dos cart\u00f5es-postais e a cidade real dos becos e favelas. Mir\u00f3 \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o po\u00e9tica dessa cidade \u00e0 margem, ou dessa por\u00e7\u00e3o da urbe, feita de carne e sonho, que resiste e se reinventa a cada dia. Sua poesia \u00e9 indissoci\u00e1vel de que ele foi &#8211; poeta, negro, perif\u00e9rico, das ruas onde viveu e amou, das pontes onde declamou seus versos.<\/p>\n<div id=\"attachment_24970\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Miro-_-Estudo-no-2_Fotos_-Joao-Maria-Silva-Jr_05-scaled-e1716322036292.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24970\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24970\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Miro-_-Estudo-no-2_Fotos_-Joao-Maria-Silva-Jr_05-scaled-e1716322036292.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24970\" class=\"wp-caption-text\">Giordano Castro. Foto: Jo\u00e3o Maria Silva Jr\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Com Mir\u00f3, o Magiluth celebra a for\u00e7a da poesia como arma de combate num mundo cada vez mais prosaico e desencantado.&nbsp;<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o fragmentada articula realidade e fic\u00e7\u00e3o, biografia e poesia. As rupturas e repeti\u00e7\u00f5es na linguagem c\u00eanica podem ser lidas como met\u00e1foras dos ciclos de viol\u00eancia e resist\u00eancia que marcam a experi\u00eancia de quem vive \u00e0 margem. Grita a dimens\u00e3o pol\u00edtica do espa\u00e7o urbano e a necessidade de reinvent\u00e1-lo a partir do perif\u00e9rico.&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse sentido, a destrui\u00e7\u00e3o do conjunto habitacional da Muribeca, onde Mir\u00f3 viveu, surge como s\u00edmbolo dos processos de exclus\u00e3o e apagamento que caracterizam o desenvolvimento urbano no Brasil. A especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria aparece como for\u00e7a antagonista, que expulsa os pobres para os abismos da cidade e da cidadania, conectando-se com lutas hist\u00f3ricas pelo direito \u00e0 moradia e \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Conhecido por incorporar refer\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es de seus trabalhos anteriores em suas novas montagens, esse procedimento do Magiluth sugere uma compreens\u00e3o do fazer teatral como um processo cont\u00ednuo e interconectado, onde cada obra n\u00e3o \u00e9 apenas uma resposta \u00e0s quest\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5es do mundo atual, mas tamb\u00e9m estabelece um di\u00e1logo com a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria art\u00edstica do grupo. Ao revisitar e ressignificar elementos de suas obras passadas, o Magiluth cria uma narrativa metateatral,.<\/p>\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o no Teatro do Parque, ontem, 20 de maio, durante o Festival Palco Girat\u00f3rio, no Recife, algumas falas dos atores foram perdidas, &#8211; seja por terem sido pronunciadas em volume baixo, sem proje\u00e7\u00e3o, ou por terem sido sobrepostas por m\u00fasicas ou sons, ou por existir um problema de ac\u00fastica no teatro -, o que dificultou o entendimento de algumas passagens. Como a poesia de Mir\u00f3 \u00e9 um elemento central do espet\u00e1culo e deve ser ouvida pelo p\u00fablico, \u00e9 importante que o grupo fique atento a essas quest\u00f5es pontuais para garantir a melhor experi\u00eancia poss\u00edvel para a plateia.<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica:<\/strong><br \/>\n<em>Mir\u00f3: Estudo n\u00ba2<\/em>, do grupo Magiluth<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;Grupo Magiluth<br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong>&nbsp;Grupo Magiluth<br \/>\n<strong>Atores:&nbsp;<\/strong>Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira e Giordano Castro<br \/>\n<strong>Stand in:<\/strong>&nbsp;M\u00e1rio Sergio Cabral e Lucas Torres<br \/>\n<strong>Fotografia:<\/strong>&nbsp;Ashlley Melo<br \/>\n<strong>Design gr\u00e1fico:<\/strong>&nbsp;Bruno Parmera<br \/>\n<strong>Colabora\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;Grace Pass\u00f4, Kenia Dias, Anna Carolina Nogueira e Luiz Fernando Marques<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;Grupo Magiluth<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Grupo Magiluth, um dos mais atuantes do Brasil, est\u00e1 celebrando 20 anos de trajet\u00f3ria e, por isso, tem apresentado nos \u00faltimos meses algumas das pe\u00e7as de seu repert\u00f3rio no Recife. 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