{"id":25439,"date":"2024-05-12T15:59:03","date_gmt":"2024-05-12T18:59:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25439"},"modified":"2024-05-12T16:04:19","modified_gmt":"2024-05-12T19:04:19","slug":"o-magiluth-desnuda-as-engrenagens-do-colapso-critica-do-espetaculo-estudo-no1-morte-e-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-magiluth-desnuda-as-engrenagens-do-colapso-critica-do-espetaculo-estudo-no1-morte-e-vida\/","title":{"rendered":"O Magiluth desnuda as engrenagens do colapso <br\/> Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Estudo N\u00ba1: Morte e Vida"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_23691\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/10.-Divulgacao-Estudo-N\u00b01_-Morte-e-Vida-Grupo-Magiluth-Credito_-Foto_Vitor-Pessoa_.jpeg-e1644427134491.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23691\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23691\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/10.-Divulgacao-Estudo-N\u00b01_-Morte-e-Vida-Grupo-Magiluth-Credito_-Foto_Vitor-Pessoa_.jpeg-e1644427134491.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"443\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23691\" class=\"wp-caption-text\">Temporada comemorativa dos 20 anos do grupo. Foto: Vitor-Pessoa<\/p><\/div>\n<h3>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Por Ivana Moura<\/h3>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/logo-arquipe\u0301lago--e1669689165758.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24736 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/logo-arquipe\u0301lago--e1669689165758.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"84\"><\/a>&#8220;N\u00e3o faltaram alertas. As sirenes apitaram o tempo todo. A consci\u00eancia dos desastres ecol\u00f3gicos \u00e9 antiga, viva, fundamentada, documentada, provada, mesmo desde o in\u00edcio da chamada &#8216;era industrial&#8217; ou &#8216;civiliza\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina&#8217;. N\u00e3o podemos dizer que n\u00e3o sab\u00edamos.&nbsp; Contudo, existem muitas maneiras de saber e de ignorar ao mesmo tempo&#8221;, pondera o fil\u00f3sofo franc\u00eas Bruno Latour no seu livro <em>Diante de Gaia: Oito Confer\u00eancias sobre a Natureza no Antropoceno <\/em>(Ubu Editora, 2020), um dos mais contundentes manifestos sobre as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que assombram nosso presente. Para Latour, vivemos um momento de profunda ruptura, em que as certezas da modernidade desmoronam diante de Gaia, essa for\u00e7a indom\u00e1vel que reage \u00e0s agress\u00f5es humanas e nos obriga a repensar radicalmente nossa rela\u00e7\u00e3o com a Terra.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio de urg\u00eancia e perplexidade que se insere <strong><em>Estudo N\u00ba1: Morte e Vida, <\/em><\/strong>um mergulho visceral nas entranhas do nosso tempo, conduzido por um grupo de artistas-pesquisadores que se lan\u00e7am no desafio de atualizar a obra de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto \u00e0 luz das urg\u00eancias do presente. Nessa travessia, o Grupo Magiluth &#8211; formado pelos atores Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, M\u00e1rio Sergio Cabral, Lucas Torres e Pedro Wagner (que n\u00e3o est\u00e1 no elenco desta montagem) &#8211; mobiliza um arsenal de recursos c\u00eanicos e dramat\u00fargicos para expor as engrenagens do capitalismo global e seus impactos sobre a vida humana e o planeta. A pe\u00e7a est\u00e1 em cartaz no Teatro Arraial Ariano Suassuna como parte das comemora\u00e7\u00f5es dos 20 anos de trajet\u00f3ria da trupe recifense.<\/p>\n<p>Com dire\u00e7\u00e3o de Luiz Fernando Marques e dire\u00e7\u00e3o musical de Rodrigo Mercadante, o Magiluth implode as fronteiras entre o teatro, a performance e a instala\u00e7\u00e3o para dissecar as v\u00edsceras expostas de um sistema que produz morte e desigualdade em escala mundial. No palco-mundo, os &#8220;severinos&#8221; do nosso tempo ganham carne, osso e grito: refugiados clim\u00e1ticos, trabalhadores precarizados, popula\u00e7\u00f5es deslocadas pela seca, pelas guerras e pela fome.<\/p>\n<p>Ao longo do espet\u00e1culo, somos chacoalhados por imagens que nos arrancam da zona de conforto e nos obrigam a encarar a realidade crua da crise que nos devora. Das enchentes que arrasaram o sul do Brasil \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos oceanos que amea\u00e7a engolir na\u00e7\u00f5es insulares como Kiribati, o Magiluth cartografa a geografia desigual dos desastres ambientais, expondo como eles atingem de forma desproporcional os mais pobres e marginalizados. Uma radiografia implac\u00e1vel da insustentabilidade do modelo de desenvolvimento predat\u00f3rio que rege nossa civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ressoa no palco as consequ\u00eancias da crise clim\u00e1tica no Rio Grande do Sul, que s\u00e3o devastadoras: mais de 1 milh\u00e3o de pessoas impactadas, mais de cem mortos e desaparecidos. Um cen\u00e1rio de guerra alertado pela ci\u00eancia h\u00e1 d\u00e9cadas e que hoje \u00e9 parte da nova (e grave) realidade do clima. Uma realidade que se imp\u00f5e de forma brutal, escancarando a neglig\u00eancia e a gan\u00e2ncia dos pol\u00edticos abutres que historicamente trataram a quest\u00e3o ambiental com desprezo no Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que <strong><em>Estudo N\u00ba1: Morte e Vida<\/em><\/strong>&nbsp;estreou em janeiro de 2022, em um momento de grande tens\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds, \u00e0s v\u00e9speras de uma elei\u00e7\u00e3o presidencial decisiva. Naquele contexto, o espet\u00e1culo j\u00e1 trazia em suas camadas de sentido uma reflex\u00e3o sobre o papel crucial do Nordeste e de seu povo na resist\u00eancia democr\u00e1tica, como ficou evidente com a vit\u00f3ria de Lula sobre Bolsonaro, gra\u00e7as em grande parte aos votos nordestinos.<\/p>\n<p>Agora, em maio de 2024, na temporada comemorativa dos 20 anos do Magiluth, as quest\u00f5es ambientais abordadas na pe\u00e7a ganham ainda mais relev\u00e2ncia e urg\u00eancia, diante da trag\u00e9dia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Mas <strong><em>Estudo N\u00ba1: Morte e Vida<\/em><\/strong> n\u00e3o se limita a um diagn\u00f3stico sombrio do presente. Ele \u00e9, sobretudo, um grito de alerta e convoca\u00e7\u00e3o, que nos desafia a reimaginar radicalmente nossa rela\u00e7\u00e3o com a natureza, com os outros seres e com o pr\u00f3prio sistema econ\u00f4mico que nos governa. Ao atualizar a obra de Jo\u00e3o Cabral \u00e0 luz das urg\u00eancias do nosso tempo, o Magiluth reafirma o papel da arte como trincheira de luta por um mundo mais justo e sustent\u00e1vel, capaz de fabular outros futuros poss\u00edveis a partir dos escombros do Antropoceno.<\/p>\n<p>Essa postura implica em reconhecer que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00eddas f\u00e1ceis ou individuais para a crise sist\u00eamica que vivemos, e que precisamos construir coletivamente novas formas de exist\u00eancia e coexist\u00eancia na Terra. Formas que passam necessariamente por uma reinven\u00e7\u00e3o radical de nossa rela\u00e7\u00e3o com os outros seres, com os ecossistemas e com os pr\u00f3prios limites do planeta. Uma reinven\u00e7\u00e3o que exige criatividade, coragem e compromisso \u00e9tico-pol\u00edtico, para al\u00e9m das f\u00f3rmulas prontas e das solu\u00e7\u00f5es de mercado.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido \u00e9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o e dar visibilidade \u00e0s hist\u00f3rias, pr\u00e1ticas e modos de vida que brotam nas brechas e nas ru\u00ednas do capitalismo. Modos de vida que muitas vezes s\u00e3o invisibilizados ou desqualificados pelos discursos hegem\u00f4nicos, mas que carregam consigo sementes de resist\u00eancia e reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_23689\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/8.-Divulgacao-Estudo-N\u00b01_-Morte-e-Vida-Grupo-Magiluth-Credito_-Foto_Vitor-Pessoa_.jpeg-scaled-e1644431090162.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23689\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23689\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/8.-Divulgacao-Estudo-N\u00b01_-Morte-e-Vida-Grupo-Magiluth-Credito_-Foto_Vitor-Pessoa_.jpeg-scaled-e1644431090162.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"424\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23689\" class=\"wp-caption-text\">Cena do canavial, trabalhador da cana dan\u00e7a Michael Jackson.&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>Sugiro que o espet\u00e1culo do Magiluth se alinha a uma postura \u00e9tico-est\u00e9tica de habitar as contradi\u00e7\u00f5es do presente e de buscar sa\u00eddas coletivas para a crise que nos assola. Uma postura que se traduz na pr\u00f3pria forma fragment\u00e1ria e multivocal da encena\u00e7\u00e3o, que recusa as narrativas lineares e totalizantes em prol de uma dramaturgia mais aberta e porosa, em condi\u00e7\u00f5es de acolher diferentes vozes, saberes e modos de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ao trazer para o palco os corpos e as hist\u00f3rias dos &#8220;severinos&#8221; do nosso tempo &#8211; os refugiados clim\u00e1ticos, os trabalhadores precarizados, as popula\u00e7\u00f5es deslocadas pela seca e pela fome -, o Magiluth parece abra\u00e7ar a densidade po\u00e9tica desses modos de vida que resistem e reexistem nas margens do capitalismo. Modos de vida que carregam consigo n\u00e3o apenas o testemunho da cat\u00e1strofe em curso, mas tamb\u00e9m a pot\u00eancia de outros mundos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Bruno Latour no pref\u00e1cio de <em>Diante de Gaia<\/em>, escrito para a edi\u00e7\u00e3o brasileira lan\u00e7ada em 2020, fala que, naquele momento, o Brasil enfrentava uma verdadeira &#8220;tempestade perfeita&#8221;, com a sobreposi\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas crises &#8211; sanit\u00e1ria, pol\u00edtica, ecol\u00f3gica, moral e religiosa. Um cen\u00e1rio agravado pela postura negacionista e irrespons\u00e1vel do governo Bolsonaro, que n\u00e3o apenas negligenciou a gravidade da pandemia, mas tamb\u00e9m aprofundou o desmonte das pol\u00edticas ambientais e o ataque aos direitos dos povos ind\u00edgenas e das popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Na estreia de <strong><em>Estudo N\u00ba1: Morte e Vida<\/em><\/strong> em janeiro de 2022, viv\u00edamos em meio \u00e0s incertezas de um ano eleitoral decisivo para os rumos do pa\u00eds. Naquele momento, a cena em que os atores entoam &#8220;ol\u00e9, ol\u00e9, ol\u00e1, Severino, Severino&#8221; ganhava uma conota\u00e7\u00e3o pol\u00edtica expl\u00edcita, com o p\u00fablico progressista respondendo com o grito de &#8220;Lula l\u00e1&#8221;. Uma manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da esperan\u00e7a de que a elei\u00e7\u00e3o de Lula representasse uma inflex\u00e3o no enfrentamento das crises que assolavam (e ainda assolam) o Brasil.<\/p>\n<p>Passados dois anos, e com Lula novamente \u00e0 frente do governo, o espet\u00e1culo ganha novas camadas de sentido em sua temporada comemorativa dos 20 anos do Magiluth. Se, por um lado, a cena do &#8220;ol\u00e9, ol\u00e9, ol\u00e1&#8221;&#8221; perde protagonismo, por outro ela se reveste de uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica, como um lampejo da mem\u00f3ria de um tempo que n\u00e3o podemos esquecer. Um tempo em que a pr\u00f3pria possibilidade de vislumbrar outros futuros parecia amea\u00e7ada pela sombra do autoritarismo.<\/p>\n<p>Paralelamente, as quest\u00f5es das migra\u00e7\u00f5es e da crise clim\u00e1tica, que j\u00e1 estavam presentes no espet\u00e1culo desde sua estreia, ganham ainda mais relev\u00e2ncia e urg\u00eancia no contexto atual.<\/p>\n<p>Mudar nossa ideia sobre a Terra, sobre a vida, sobre n\u00f3s mesmos. Eis o desafio que o Magiluth nos lan\u00e7a, com a coragem de quem sabe que a arte n\u00e3o pode mais se dar ao luxo da inoc\u00eancia.&nbsp; E \u00e9 nessa travessia incerta, feita de perguntas sem resposta e de gestos de reinven\u00e7\u00e3o, que o teatro se faz trincheira e semente, luto e luta, morte e vida severina. Um teatro que nos ajuda a fabular outros mundos, antes que seja tarde demais.<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o<\/strong><br \/>\nEspet\u00e1culo <em>Estudo n\u00ba1: Morte e Vida<\/em><br \/>\nTeatro Arraial Ariano Suassuna (Rua da Aurora, 457, Boa Vista \u2013 Recife-PE)<br \/>\nDias: 9, 10, 11, 12, 16, 17, 18 e 19 de maio de 2024<br \/>\nHor\u00e1rios: Quintas, sextas e s\u00e1bados, \u00e0s 20h; Domingos, \u00e0s 17h<br \/>\nR$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia), \u00e0 venda no Sympla<br \/>\nClassifica\u00e7\u00e3o indicativa: 16 anos<\/p>\n<p><strong>Leia Mais. A cr\u00edtica da temporada de estreia em 2022:&nbsp; <\/strong><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ole-ole-ola-severino-severino-critica-do-espetaculo-estudo-no1-morte-e-vida-do-grupo-magiluth\/#:~:text=Ao%20se%20arriscar%2C%20Estudo%20N%C2%BA1,e%20os%20atritos%20do%20real.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ensaio n\u00ba 1: Morte e Vida. 2022.<\/a><\/p>\n<h2>&nbsp;<\/h2>\n<h2>Este texto integra o&nbsp;<strong><em><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/projeto-arquipelago\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">projeto arquip\u00e9lago<\/a>&nbsp;<\/em><\/strong>de fomento \u00e0 cr\u00edtica, com apoio da&nbsp;<strong><a href=\"http:\/\/corporastreado.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Corpo Rastreado<\/a>.<\/strong><\/h2>\n<p><img src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/WhatsApp-Image-2022-11-09-at-18.21.49-e1669690492534.jpeg\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Por Ivana Moura &#8220;N\u00e3o faltaram alertas. 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