{"id":2541,"date":"2011-05-12T18:41:08","date_gmt":"2011-05-12T21:41:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=2541"},"modified":"2011-05-13T17:09:08","modified_gmt":"2011-05-13T20:09:08","slug":"concerto-poetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/concerto-poetico\/","title":{"rendered":"Concerto po\u00e9tico"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2561\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ispinhofulo2.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2561\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ispinhofulo2.jpg\" alt=\"\" title=\"Concerto de ispinho e ful\u00f4. Fotos:Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"size-full wp-image-2561\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ispinhofulo2.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ispinhofulo2-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2561\" class=\"wp-caption-text\">Dinho Lima e Flor <\/p><\/div>\n<p>&#8220;Poeta, cant\u00f4 de rua,<br \/>\nQue na cidade nasceu,<br \/>\nCante a cidade que \u00e9 sua,<br \/>\nQue eu canto o Sert\u00e3o que \u00e9 meu.<br \/>\nSe a\u00ed voc\u00ea teve estudo,<br \/>\nAqui, Deus me ensinou tudo,<br \/>\nSem de livro precis\u00e1<br \/>\nPor fav\u00f4, n\u00e3o m\u00eaxa aqui,<br \/>\nQue eu tamb\u00e9m n\u00e3o mexo a\u00ed,<br \/>\nCante l\u00e1, que eu canto c\u00e1&#8221; <\/p>\n<p>A R\u00e1dio Caldeir\u00e3o fez ontem, no Teatro Marco Camarotti, no bairro de Santo Amaro, uma conex\u00e3o S\u00e3o Paulo -Recife &#8211; Assar\u00e9. E saiu levando nesse caminho a poesia, a experi\u00eancia, as hist\u00f3rias, o lirismo que n\u00e3o t\u00eam regi\u00e3o geogr\u00e1fica; que t\u00eam raiz, mas n\u00e3o amarras: tanto que podem ser transmitidos a partir do teatro. Foi isso que fez a Cia do Tijolo com o espet\u00e1culo <em>Concerto de Ispinho e ful\u00f4<\/em>, uma homenagem ao poeta cearense Patativa do Assar\u00e9. Transformou cena em poesia, dor e amor em cantoria, viv\u00eancias pessoais em universais.<\/p>\n<p>O objetivo aqui n\u00e3o era apresentar uma biografia, mas colocar o p\u00fablico em contato com uma obra, com o universo do Sert\u00e3o, com a cr\u00edtica social ferrenha feita por um homem que nunca deixou o seu lugar de origem. Para isso, elementos v\u00e3o se cruzando. <\/p>\n<p>Primeiro, decidiram pelo musical, o que parece inevit\u00e1vel quando, por exemplo, Karen Menati, uma das atrizes, come\u00e7a a cantar lindamente. Depois, sa\u00edram reunindo pe\u00e7as como num quebra-cabe\u00e7as: uma r\u00e1dio que toca as m\u00fasicas e celebra o poeta; um grupo de atores que sa\u00ed de S\u00e3o Paulo em busca de um encontro com Patativa; a vis\u00e3o do estrangeiro na terra que n\u00e3o \u00e9 sua; uma massacre de civis que n\u00e3o foi registrado nos livros de hist\u00f3ria; a celebra\u00e7\u00e3o; a &#8220;sem-vergonhice&#8221; faceira e encantadora.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea teve induca\u00e7\u00e3o,<br \/>\nAprendeu munta cien\u00e7a,<br \/>\nMas das coisa do Sert\u00e3o<br \/>\nN\u00e3o tem boa esperien\u00e7a.<br \/>\nNunca fez uma paio\u00e7a,<br \/>\nNunca trabaiou na ro\u00e7a,<br \/>\nN\u00e3o pode conhec\u00ea bem,<br \/>\nPois nesta penosa vida,<br \/>\nS\u00f3 quem provou da comida<br \/>\nSabe o gosto que ela tem&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o posso lhe invej\u00e1<br \/>\nNem voc\u00ea invej\u00e1 eu,<br \/>\nO que Deus lhe deu por l\u00e1,<br \/>\nAqui Deus tamb\u00e9m me deu.<br \/>\nPois minha boa mui\u00e9,<br \/>\nMe estima com munta f\u00e9,<br \/>\nMe abra\u00e7a, beja e qu\u00e9 bem<br \/>\nE ningu\u00e9m pode neg\u00e1<br \/>\nQue das coisa natur\u00e1<br \/>\nTem ela o que a sua tem&#8221;.<\/p>\n<p>A montagem parece que mostra a que veio realmente, capturando de vez o p\u00fablico, a partir da viagem que o grupo de atores faz de S\u00e3o Paulo at\u00e9 Assar\u00e9 &#8211; de carro, numa divertida solu\u00e7\u00e3o c\u00eanica. Quando chegam, o primeiro impulso \u00e9 colocar aquele homem num pedestal; quando percebem &#8211; e a montagem \u00e9 sincera e acerta nisso -, que \u00e9 muito mais f\u00e1cil dialogar quando se olha de igual para igual. O embate entre os atores Dinho Lima Flor, que faz o Patativa, e Rodrigo Mercadante, o ator que queria conhecer o poeta, \u00e9 um dos momentos mais bonitos e desafiantes do espet\u00e1culo. Quando a poesia modernista de Drummond, Bilac, conversa com a poesia simples, mas profunda, com m\u00e9trica e rima, do Sert\u00e3o cearense.<\/p>\n<div id=\"attachment_2565\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ispinhofulo1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2565\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ispinhofulo1.jpg\" alt=\"\" title=\"Concerto de Ispinho e ful\u00f4\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"size-full wp-image-2565\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ispinhofulo1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ispinhofulo1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2565\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo foi exibido no Teatro Marco Carmarotti, no Recife<\/p><\/div>\n<p>A companhia consegue tamb\u00e9m, na pr\u00f3pria encena\u00e7\u00e3o, dissolver a quest\u00e3o sobre se seriam capazes &#8211; j\u00e1 que vindos de v\u00e1rios lugares do pa\u00eds &#8211; de falar de uma coisa que n\u00e3o viveram. Percebe-se que era uma d\u00favida mesmo do grupo, que foi levada e resolvida em cena, durante o processo de montagem. N\u00e3o precisavam ter vivido a seca que deixa o ch\u00e3o esturricado; ali\u00e1s, o que \u00e9 seca para cada um de n\u00f3s? \u00c9 dessa forma que teatro, inven\u00e7\u00e3o, a discuss\u00e3o sobre o fazer teatral, e vida real s\u00e3o costurados. \u00c9 assim que uma das atrizes conta que \u00e9 de Maring\u00e1; e que todos l\u00e1 vivem na &#8220;zona&#8221;, j\u00e1 que n\u00e3o existe bairro, e sim, zona; que j\u00e1 fazia teatro quando morava l\u00e1 e que participou de uma pesquisa para perguntar qual a programa\u00e7\u00e3o cultural preferida na cidade. A resposta foi &#8220;churrasco&#8221;! Ou Dinho Lima Flor fala de Tacaimb\u00f3, no interior de Pernambuco, da sua pra\u00e7a&#8230; e convida todos a cantarem: &#8220;S\u00f3 deixo o meu Cariri, no \u00faltimo pau de arara&#8221;. <\/p>\n<p>&#8220;Repare que deferen\u00e7a<br \/>\nIziste na vida nossa:<br \/>\nInquanto eu t\u00f4 na senten\u00e7a,<br \/>\nTrabaiando em minha ro\u00e7a,<br \/>\nVoc\u00ea l\u00e1 no seu descanso,<br \/>\nFuma o seu cigarro mando,<br \/>\nBem perfumado e sadio;<br \/>\nJ\u00e1 eu, aqui tive a sorte<br \/>\nDe fum\u00e1 cigarro forte<br \/>\nFeito de paia de mio. <\/p>\n<p>Voc\u00ea, vaidoso e fac\u00earo,<br \/>\nToda vez que qu\u00e9 fum\u00e1,<br \/>\nTira do b\u00f4rso um isqu\u00earo<br \/>\nDo mais bonito met\u00e1.<br \/>\nEu que n\u00e3o posso com isso,<br \/>\nPuxo por meu artifi\u00e7o<br \/>\nArranjado por aqui,<br \/>\nFeito de chifre de gado,<br \/>\nCheio de argod\u00e3o queimado,<br \/>\nBoa pedra e bom fuz\u00ed&#8221;. <\/p>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o ganha cheiro, gosto. Que pode ser de cacha\u00e7a, caju\u00edna ou caf\u00e9. <em>Mas teatro sem conflito, n\u00e3o \u00e9 teatro! <\/em>E ainda faltava resgatar o massacre do S\u00edtio Caldeir\u00e3o da Santa Cruz do Deserto, que vivia como uma esp\u00e9cie de Canudos, tendo a frente o beato Jos\u00e9 Louren\u00e7o, e foi aniquilado no governo de Get\u00falio Vargas, num ataque a\u00e9reo contra civis inocentes. Essas hist\u00f3rias v\u00e3o se amalgamando \u00e0 montagem, numa parede feita de v\u00e1rios tijolinhos que t\u00eam na perspic\u00e1cia da dire\u00e7\u00e3o de Rog\u00e9rio Tarifa, no talento de elenco e m\u00fasicos, o seu cimento. Conseguindo levar ao palco poesia de maneira fluida, mas profunda; fazer rir as senhoras &#8220;coqueluxe&#8221;; ou cantar junto o poema e a can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cenografia, ilumina\u00e7\u00e3o e figurino comp\u00f5em esse concerto de maneira acertada, \u00e0s vezes numa balburdia completa; outras na ordem focada necess\u00e1ria ao embate de palavras. O elenco da montagem \u00e9 formado por Dinho Lima Flor, L\u00edlian de Lima, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti e Tha\u00eds Pimp\u00e3o;  j\u00e1 o grupo de m\u00fasicos &#8211; numa trilha que tem Patativa, mas tamb\u00e9m Gonzag\u00e3o, Jackson do Pandeiro e ainda composi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, numa sele\u00e7\u00e3o que privilegia sempre a poesia &#8211; \u00e9 composto por Jonathan Silva, Alo\u00edsio Oliver e Maur\u00edcio Damasceno.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui findo esta verdade<br \/>\nToda cheia de raz\u00e3o:<br \/>\nFique na sua cidade<br \/>\nQue eu fico no meu Sert\u00e3o.<br \/>\nJ\u00e1 lhe mostrei um ispeio,<br \/>\nJ\u00e1 lhe dei grande conseio<br \/>\nQue voc\u00ea deve tom\u00e1.<br \/>\nPor fav\u00f4, n\u00e3o mexa aqui,<br \/>\nQue eu tamb\u00e9m n\u00e3o m\u00eaxo a\u00ed,<br \/>\nCante l\u00e1 que eu canto c\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>(Trechos de <em>Cante l\u00e1, que eu canto c\u00e1<\/em>, de Patativa do Assar\u00e9) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Poeta, cant\u00f4 de rua, Que na cidade nasceu, Cante a cidade que \u00e9 sua, Que eu canto o Sert\u00e3o que \u00e9 meu. 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