{"id":25392,"date":"2024-03-18T16:22:13","date_gmt":"2024-03-18T19:22:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25392"},"modified":"2024-03-18T16:22:13","modified_gmt":"2024-03-18T19:22:13","slug":"monga-um-espetaculo-em-construcao-farofa-do-processo-segunda-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/monga-um-espetaculo-em-construcao-farofa-do-processo-segunda-parte\/","title":{"rendered":"Monga, um espet\u00e1culo em constru\u00e7\u00e3o <\/br> Farofa do Processo <\/br> Segunda parte"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_25393\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/MONGA_FAROFA24_foto_ligiajardim-1-scaled-e1710439236621.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25393\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25393\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/MONGA_FAROFA24_foto_ligiajardim-1-scaled-e1710439236621.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25393\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Monga<\/strong>, trabalho em andamento de J\u00e9ssica Teixeira, na <strong><em>Farofa do Processo<\/em><\/strong>. Foto: Ligia Jardim \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/logo-arquipe\u0301lago--e1669689165758.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24736 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/logo-arquipe\u0301lago--e1669689165758.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"84\"><\/a>O espet\u00e1culo em processo <em><strong>Monga<\/strong><\/em>, concebido e protagonizado por J\u00e9ssica Teixeira visita o lugar do estranho com ousadia, para falar de si e de uma din\u00e2mica do mundo opressor\/repressor. Para isso, a artista mergulha na jornada de Julia Pastrana, mexicana que adquiriu notoriedade sob a alcunha depreciativa de &#8220;mulher-macaco&#8221;, figurando como uma das principais inspira\u00e7\u00f5es dos espet\u00e1culos de curiosidades, conhecidos como Freak Shows, no Brasil e no mundo. O trabalho <em><strong>Monga<\/strong> <\/em>foi apresentado na <em><strong>Farofa do Processo<\/strong><\/em>, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, e n\u00f3s assistimos no dia 5 de mar\u00e7o, na sess\u00e3o das 11h.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos nossa reflex\u00e3o por Julia Pastrana (1834-1860), uma mulher ind\u00edgena mexicana que se tornou conhecida mundialmente como &#8220;a mulher mais feia do mundo&#8221; devido a uma condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica rara, designada como hipertricose terminal (caracterizada por um crescimento excessivo de pelos em partes do corpo), combinada com uma poss\u00edvel forma de acromegalia, que conferiam tra\u00e7os faciais e dent\u00e1rias incomuns.<\/p>\n<p>Pastrana foi vendida ou entregue a um administrador de espet\u00e1culos, Theodore Lent, que se tornou seu empres\u00e1rio e mais tarde seu marido. Lent explorou a apar\u00eancia de Pastrana, exibindo-a em shows por toda a Europa e Am\u00e9rica do Norte, onde ela era anunciada como a &#8220;mulher-urso&#8221; ou &#8220;mulher macaco&#8221;.<\/p>\n<p>Julia era uma artista talentosa, com habilidades que inclu\u00edam canto e dan\u00e7a. Ela possu\u00eda uma voz mezzo-soprano \u2013 dizem que encantadora \u2013 e apresentava pe\u00e7as musicais desde \u00f3pera a can\u00e7\u00f5es populares da \u00e9poca. Poliglota, ela falava v\u00e1rias l\u00ednguas, incluindo espanhol (sua l\u00edngua materna), ingl\u00eas e franc\u00eas, o que facilitava sua comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico de v\u00e1rios pa\u00edses, durante suas turn\u00eas.<\/p>\n<p>Apesar de sua fama, a artista teve uma vida marcada por explora\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o, o que evidencia o in\u00edcio do entretenimento comercial baseado na objetifica\u00e7\u00e3o e na explora\u00e7\u00e3o de corpos n\u00e3o normativos.<\/p>\n<p>Os conceitos te\u00f3ricos e as refer\u00eancias nos permitem entender seu caso n\u00e3o apenas como um evento isolado, mas como parte de uma estrutura mais ampla de opress\u00e3o e objetifica\u00e7\u00e3o. Em <em>Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color<\/em>, Kimberl\u00e9 Crenshaw desenvolve o conceito de interseccionalidade para explicar como diferentes sistemas de opress\u00e3o (ra\u00e7a, g\u00eanero, classe) interagem na vida das mulheres negras. Aplicado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de Pastrana, esse conceito ajuda a entender como sua explora\u00e7\u00e3o foi moldada n\u00e3o somente por seu g\u00eanero, mas tamb\u00e9m por sua etnicidade e suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas.<\/p>\n<p><em>Prazer Visual e Cinema Narrativo<\/em>, de Laura Mulvey, \u00e9 um texto seminal que introduz a ideia do \u201cmale gaze\u201d argumentando que as mulheres s\u00e3o objetificadas nas narrativas cinematogr\u00e1ficas para o prazer do espectador masculino. Embora Mulvey se concentre no cinema, seu conceito pode ser utilizado ao contexto de Pastrana, onde ela foi objetificada e desumanizada para entretenimento p\u00fablico.<\/p>\n<p>Judith Butler discute, em <em>Problemas de G\u00eanero: Feminismo e a Subvers\u00e3o da Identidade<\/em>&#8220;, a performatividade do g\u00eanero e como as normas de g\u00eanero s\u00e3o socialmente constru\u00eddas e mantidas atrav\u00e9s de atos performativos repetidos. A explora\u00e7\u00e3o de Pastrana destaca a rigidez e a crueldade das normas de g\u00eanero e beleza, bem como a viol\u00eancia da n\u00e3o conformidade.<\/p>\n<p>Essas refer\u00eancias te\u00f3ricas fornecem uma estrutura para compreender a vida e a explora\u00e7\u00e3o de Julia Pastrana n\u00e3o apenas como um caso de curiosidade do s\u00e9culo 19, mas como um exemplo da cont\u00ednua objetifica\u00e7\u00e3o, marginaliza\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o de corpos n\u00e3o normativos e da persistente constru\u00e7\u00e3o do &#8220;outro&#8221; nas sociedades patriarcais e coloniais.<\/p>\n<p>Ao explorar essas dimens\u00f5es, podemos reconhecer a relev\u00e2ncia cont\u00ednua de sua hist\u00f3ria para as discuss\u00f5es feministas contempor\u00e2neas sobre corpo, identidade e resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sua morte em 1860, o abuso persistiu com a exibi\u00e7\u00e3o de seu corpo e do seu filho. Essa explora\u00e7\u00e3o, iniciada por seu marido Theodore Lent, reflete a objetifica\u00e7\u00e3o de Julia em vida e a desumaniza\u00e7\u00e3o ap\u00f3s sua morte, configurando a extens\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o patriarcal. No s\u00e9culo 20, os corpos foram esquecidos e depois redescobertos, mostrando a fascina\u00e7\u00e3o cont\u00ednua pela imagem de Julia. Somente no s\u00e9culo 21, ap\u00f3s esfor\u00e7os de ativistas e do governo mexicano, Julia foi repatriada e enterrada no M\u00e9xico em 2013, um gesto simb\u00f3lico para restaurar sua dignidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_25394\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/monga-jessica-teixeira-e1710439344631.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25394\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25394\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/monga-jessica-teixeira-e1710439344631.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"900\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25394\" class=\"wp-caption-text\">Cena do espet\u00e1culo em andamento <strong><em>Monga, <\/em><\/strong>com Jessica Teixeira. Foto: Ligia Jardim \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>J\u00e9ssica Teixeira sinaliza nas tramas de <strong><em>Monga<\/em><\/strong> os preceitos do \u201crealismo traum\u00e1tico\u201d de Hal Foster. A pe\u00e7a se ergue em um complexo de c\u00e9lulas narrativas, incluindo a jornada de Julia Pastrana, o poema-prosa <em>Entre fechaduras e rinocerontes<\/em> de Frei Betto, uma conversa com Deus, reflex\u00f5es sobre a aus\u00eancia, intera\u00e7\u00f5es com a plateia, algumas m\u00fasicas incluindo uma sobre o inferno, numa explora\u00e7\u00e3o crua da percep\u00e7\u00e3o social dos corpos e da incessante busca por sentido em um mundo fragmentado.<\/p>\n<p>Teixeira, habilmente, n\u00e3o se limita \u00e0 representa\u00e7\u00e3o direta da realidade; em vez disso, ela convoca uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicas que sugerem um encontro falho com o real, alinhando-se com a teoria de Foster. A utiliza\u00e7\u00e3o de luzes estrobosc\u00f3picas, microfones e uma varia\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios do claro ao escuro forja uma atmosfera imersiva e projeta a repeti\u00e7\u00e3o do irrepresent\u00e1vel, gerando um choque que supera o visual ou tem\u00e1tico para perturbar a pr\u00f3pria estrutura da obra.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o despojada, com a atriz por vezes usando uma m\u00e1scara de macaco, critica a busca incessante por um ideal inating\u00edvel de perfei\u00e7\u00e3o. Esse ato desafia os espectadores a confrontar suas pr\u00f3prias percep\u00e7\u00f5es e preconceitos.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a <strong><em>Monga<\/em><\/strong> se engaja com o conceito de &#8220;abjeto&#8221;, conforme explorado por Foster, ao abordar temas considerados repulsivos e marginalizados como meio de confrontar e refletir sobre as condi\u00e7\u00f5es sociais contempor\u00e2neas. A conversa com Deus e a m\u00fasica que proclama que &#8220;o inferno est\u00e1 cheio&#8221; provocam diretamente o p\u00fablico, desafiando cren\u00e7as religiosas e sociais arraigadas. Enquanto a intera\u00e7\u00e3o direta com a plateia questiona a vida e nossa dura\u00e7\u00e3o neste planeta e a suposta completude dos corpos ou corpos perfeitos.<\/p>\n<p>Ao incorporar o texto de Frei Betto, <em>Entre fechaduras e rinocerontes<\/em>, Teixeira enriquece a narrativa. Embora a ess\u00eancia po\u00e9tica do texto original ofere\u00e7a profundas reflex\u00f5es sobre a vulnerabilidade humana, penso que uma adapta\u00e7\u00e3o mais radical \u2013 com cortes e justaposi\u00e7\u00f5es \u2013 removendo as camadas de moralidade cat\u00f3lica poderiam destilar suas qualidades sem perder a ess\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><em>Monga<\/em><\/strong> oferece insights valiosos sobre as din\u00e2micas da arte contempor\u00e2nea e sua capacidade de engajamento com a realidade traum\u00e1tica. \u00c9 um meio de explorar e expressar as complexidades e contradi\u00e7\u00f5es do mundo atual, destacando os desafios de representa\u00e7\u00e3o, engajamento e resist\u00eancia em um mundo p\u00f3s-ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A intera\u00e7\u00e3o com a plateia, um momento crucial de <em><strong>Monga<\/strong> <\/em>pode requerer ajustes em sua dramaturgia. Em vez de questionar diretamente a presen\u00e7a de burgueses na audi\u00eancia, por exemplo, Teixeira poderia optar por um caminho mais indireto, lan\u00e7ando uma s\u00e9rie de perguntas provocativas que funcionem como espelho, refletindo os preconceitos e as suposi\u00e7\u00f5es do p\u00fablico. Esse mecanismo pode desarmar e chegar ao miolo das cren\u00e7as e atitudes do espectador.<\/p>\n<p>A artista, ao se declarar habitante e dona de um &#8220;corpo extremo&#8221;, estabelece uma conex\u00e3o com Pastrana, desafiando as normativas sociais que moldam a percep\u00e7\u00e3o dos corpos e questionando as fronteiras entre o normal e o anormal. Essa liga\u00e7\u00e3o honra a mem\u00f3ria de Pastrana e amplifica a posi\u00e7\u00e3o de <strong><em>Monga<\/em><\/strong> na defesa da dignidade inerente de cada ser humano, independentemente de sua apar\u00eancia.<\/p>\n<p><em><strong>Monga<\/strong><\/em> se apresenta como uma obra que desafia as conven\u00e7\u00f5es, tanto em forma quanto em conte\u00fado. A atua\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o de Teixeira sintetizam uma dan\u00e7a entre luz e sombra, entre o vis\u00edvel e o invis\u00edvel, criando um espa\u00e7o onde o realismo traum\u00e1tico de Hal Foster encontra um novo sopro.<\/p>\n<h2>Este texto integra o&nbsp;<strong><em><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/projeto-arquipelago\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">projeto arquip\u00e9lago<\/a>&nbsp;<\/em><\/strong>de fomento \u00e0 cr\u00edtica, com apoio da&nbsp;<strong><a href=\"http:\/\/corporastreado.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Corpo Rastreado<\/a>.<\/strong><\/h2>\n<p><img src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/WhatsApp-Image-2022-11-09-at-18.21.49-e1669690492534.jpeg\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O espet\u00e1culo em processo Monga, concebido e protagonizado por J\u00e9ssica Teixeira visita o lugar do estranho com ousadia, para falar de si e de uma din\u00e2mica do mundo opressor\/repressor. 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