{"id":25101,"date":"2023-07-24T08:53:39","date_gmt":"2023-07-24T11:53:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=25101"},"modified":"2023-07-24T12:22:56","modified_gmt":"2023-07-24T15:22:56","slug":"depois-de-um-ato-tao-violento-nao-se-entende-o-que-e-o-amor-entrevista-carolina-bianchi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/depois-de-um-ato-tao-violento-nao-se-entende-o-que-e-o-amor-entrevista-carolina-bianchi\/","title":{"rendered":"\u201cDepois de um ato t\u00e3o violento <br\/>n\u00e3o se entende o que \u00e9 o amor\u201d <br\/>Entrevista || Carolina Bianchi"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_25102\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/330020_6419c4d6dcd9c-1-scaled.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25102\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-25102 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/330020_6419c4d6dcd9c-1-scaled-e1690026707148.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25102\" class=\"wp-caption-text\">Carolina Bianchi em cena de <strong><em>A Noiva e o Boa Noite Cinderela &#8211; Cap\u00edtulo 1 da Trilogia Cadela For\u00e7a.<\/em><\/strong> Foto: Christophe Raynaud de Lage \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_25103\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/334470_641b0995aa29c-1-scaled-e1690026307401.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25103\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25103\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/334470_641b0995aa29c-1-scaled-e1690026307401.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25103\" class=\"wp-caption-text\">Carolina Bianchi. Christophe Raynaud de Lage \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A norte-americana Emilie Dickinson (1830-1886) intrigou e chocou seus contempor\u00e2neos com sua poesia \u201cexplosiva e espasm\u00f3dica\u201d. Dickinson \u00e9 uma das grandes inspira\u00e7\u00f5es de arte para a encenadora, atriz, dramaturga e performer Carolina Bianchi. A diretora do coletivo Cara de Cavalo, de S\u00e3o Paulo, com quem criou as pe\u00e7as <em>O Tremor Magn\u00edfico<\/em> (2020), <em>Lobo<\/em> (2018), <em>Quiero hacer el amor<\/em> (<em>Quero fazer amor<\/em>) (2017) e <em>Mata-me de Prazer <\/em>(2016)&nbsp;recebe os versos de Dickinson como uma \u201ctentativa de elaborar coisas imposs\u00edveis, uma dor constante, uma negocia\u00e7\u00e3o entre a dor e a beleza, que me toca muito\u201d.<\/p>\n<p>Nessa tentativa de elaborar coisas imposs\u00edveis, Bianchi encara de frente o monstro, o fantasma, a quest\u00e3o da viol\u00eancia sexual no espet\u00e1culo <strong><em>A Noiva e o Boa Noite Cinderela &#8211; Cap\u00edtulo 1 da Trilogia Cadela For\u00e7a<\/em><\/strong>, que estreou no Festival de Avignon, com uma repercuss\u00e3o incr\u00edvel. O grupo ataca de frente as quest\u00f5es de viol\u00eancia sexual, estupro, feminic\u00eddio. E leva \u00e0 cena de maneira potente a perda de consci\u00eancia, o apagar da mem\u00f3ria, um territ\u00f3rio borrado, num espet\u00e1culo muito rico em camadas. &nbsp;<\/p>\n<p>Bianchi e o coletivo Cara de Cavalo p\u00f5em um p\u00e9 no inferno nessa pe\u00e7a que j\u00e1 no t\u00edtulo projeta os dois n\u00facleos da dramaturgia do trabalho. <em>A Noiva<\/em> \u00e9 a parte da palestra no espet\u00e1culo, em que a atriz compartilha seus estudos sobre o caso de uma artista italiana, Pippa Bacca, que foi estuprada e assassinada durante uma performance, em que estava vestida de noiva.<\/p>\n<p>A outra parte do t\u00edtulo, <em>Boa noite Cinderela<\/em>, \u00e9 o nome que se usa no Brasil para uma combina\u00e7\u00e3o de sedativos colocados nas bebidas das pessoas nas festas; no caso das mulheres, geralmente com o intuito do estupro enquanto est\u00e3o desacordadas.<\/p>\n<p>Ao tentar elaborar essa viol\u00eancia, o espet\u00e1culo busca amparos po\u00e9ticos em artistas como Dante Alighieri ou o escritor chileno Roberto Bola\u00f1o, a partir do seu livro <em>2666<\/em>. \u201cO objetivo da pe\u00e7a n\u00e3o \u00e9 encontrar sentido para essa viol\u00eancia, porque isso \u00e9 imposs\u00edvel. Mas acredito que o teatro \u00e9 um campo onde essa repeti\u00e7\u00e3o pode ser poss\u00edvel atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de uma linguagem. N\u00e3o apenas o depoimento sobre a viol\u00eancia, mas a cria\u00e7\u00e3o de uma maneira de tocar nesses assuntos, inventar, imaginar\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_25105\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/carolina-entr-foto-ivana-1-e1690026622868.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-25105\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-25105\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/carolina-entr-foto-ivana-1-e1690026622868.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"383\"><\/a><p id=\"caption-attachment-25105\" class=\"wp-caption-text\">Carolina Bianchi. Foto Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p><strong>Entrevista || Carolina Bianchi<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea conseguiu furar a bolha e chegar \u00e0 programa\u00e7\u00e3o principal do festival de Avignon?<\/strong><\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que o Tiago (Rodrigues, diretor do festival a partir desta edi\u00e7\u00e3o) e Magda (Bizarro) me conhecem h\u00e1 muitos anos. Eles viram meus trabalhos:<em> Lobo<\/em> (2018) e <em>O Tremor Magn\u00edfico<\/em> (2020). Eu estava fazendo uma resid\u00eancia dentro do Festival Proximamente (no KVS, em Bruxelas) e quando eu abro ao p\u00fablico a primeira parte do trabalho \u2013 estava pesquisando essa parte da confer\u00eancia \u2013, nessa noite, a Magda (que \u00e9 parceira do Tiago Rodrigues e est\u00e1 trabalhando na curadoria do festival) assiste ao trabalho e essa conversa come\u00e7a. Isso tem quase dois anos.<\/p>\n<p>Depois, o Tiago assistiu \u00e0 finaliza\u00e7\u00e3o do meu mestrado na DAS Th\u00e9\u00e2tre, ainda como processo aberto, e essa conversa continua. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia. E eu acho isso muito importante de deixar claro. Porque n\u00e3o \u00e9 um trabalho para que isso aconte\u00e7a&#8230; Foi realmente o trabalho, a pesquisa, uma pesquisa continuada de uma artista que est\u00e1 no corre h\u00e1 muitos anos. Por isso esse espa\u00e7o se abre, se apresenta como poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma possibilidade de o trabalho chegar noutros campos.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Vamos nomear as coisas, vamos nomear estupro, vamos nomear essa viol\u00eancia. E ao nomear isso eu sinto que consigo, qui\u00e7\u00e1, criar um trabalho que abre um escopo de comunica\u00e7\u00e3o muito mais amplo.<\/p>\n<p><strong>Como artista brasileira que n\u00e3o est\u00e1 morando no Brasil, a estreia aqui permite horizontes amplos. N\u00e3o lembro o \u00faltimo trabalho brasileiro que esteve em Avignon na programa\u00e7\u00e3o oficial.<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 Christiane Jatahy, que j\u00e1 est\u00e1 em Paris h\u00e1 muitos anos e \u00e9 associada de v\u00e1rios teatros na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Nesse ponto \u00e9 um gesto muito importante. N\u00f3s somos um grupo de teatro independente da&nbsp; cena de S\u00e3o Paulo, um grupo que n\u00e3o teve apoio institucional em S\u00e3o Paulo em nenhum dos meus \u00faltimos trabalhos. <strong><em>Lobo<\/em><\/strong> foi feito com crowdfunding (financiamento participativo), <strong><em>Tremor Magn\u00edfico<\/em><\/strong> foi feito sem nenhum apoio. Est\u00e1vamos trabalhando num sistema superprec\u00e1rio. O que acontecia \u00e9 que a gente conseguia juntar um grupo interessado e, no caso de <em>Lobo,<\/em> isso dava alguma visibilidade. Eu sempre fui uma pessoa comprometida em compartilhar os meus processos atrav\u00e9s de workshops, a gente fazia girar uma cena de workshops. Eram trabalhos que tinham sempre muita gente ao redor, que estavam sendo feitos continuamente, mas n\u00e3o estavam&nbsp; sendo sustentados financeiramente. Ent\u00e3o \u00e9 um grupo de teatro independente que vem para um programa da cena principal de Avignon. E acho que isso \u00e9 alguma coisa.<\/p>\n<p>Lembro que, quando soltaram a programa\u00e7\u00e3o, recebi muitas mensagens de amigas minhas do Brasil, diretoras, inclusive muitas que foram minhas alunas, dizendo: \u201cUau! Agora a gente pode sonhar que isso \u00e9 poss\u00edvel!\u201d. E eu me reconhe\u00e7o nisso, porque n\u00e3o achava que era poss\u00edvel. Uma diretora como eu, que vem de uma fam\u00edlia de classe baixa, que tem um monte de gente que est\u00e1 no mesmo corre. A gente s\u00f3 tinha 247 empregos para conseguir fazer o que a gente precisa fazer! Estou falando isso, mas n\u00e3o \u00e9 para dizer \u201cVejam como a gente fez um caminho \u00e1rduo\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 essa a narrativa, n\u00e3o tem a narrativa heroica. Eu j\u00e1 dizia isso no Brasil. As pessoas falavam: \u201cMas voc\u00eas conseguem se virar, fizeram <strong><em>Lobo<\/em><\/strong> com crowdfunding&#8230;&#8221; e eu respondia: \u201cV\u00e3o se fuder! N\u00e3o exaltem isso. Eu n\u00e3o estou exaltando essa precariedade\u201d. Mas, pra mim, a coisa mais importante \u00e9 que outras diretoras entendam que espa\u00e7os como esse s\u00e3o poss\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>Nessa mudan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o do festival, Tiago Rodrigues defendia, entre outras coisas, a paridade, e conseguiu por em pr\u00e1tica nesta edi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma m<\/strong><strong>aioria de mulheres que dirigem espet\u00e1culos na programa\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Totalmente. Acho que somado a tudo, h\u00e1 uma mudan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o para um artista incr\u00edvel, que \u00e9 o Tiago Rodrigues, uma pessoa muito sens\u00edvel, que tem uma rela\u00e7\u00e3o profunda com o Brasil, com a Am\u00e9rica Latina. Ent\u00e3o muda essa estrutura de ter na programa\u00e7\u00e3o s\u00f3 espet\u00e1culos que s\u00e3o inalcan\u00e7\u00e1veis. Nesse contexto, que acho que tem a ver com quest\u00f5es de classe, mas isso \u00e9 outro assunto, acho importante que a gente comece a poder estar nesses espa\u00e7os<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que essa participa\u00e7\u00e3o em Avignon j\u00e1 deu uma nova dire\u00e7\u00e3o, um outro rumo para seu trabalho. J\u00e1 est\u00e1 repercutindo?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, no sentido de que a gente j\u00e1 tem turn\u00eas, j\u00e1 tem espa\u00e7os que est\u00e3o interessados no projeto. E sobretudo poder trabalhar com dignidade com o meu coletivo. Conhecer, eu diria, como \u00e9 poss\u00edvel fazer um teatro assim.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 fazer um teatro com dignidade? Voc\u00ea est\u00e1 falando economicamente ?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 economicamente&#8230; quase que psiquicamente. Voc\u00ea come\u00e7a a ver que o trabalho est\u00e1 gerando retornos. Voc\u00ea vai vendo palpavelmente o que pode acontecer. Isso para mim \u00e9 in\u00e9dito.<\/p>\n<p><strong>Sa\u00edram cr\u00edticas bacanas no <em>Le Monde<\/em> e em muitos jornais e revistas importantes de v\u00e1rios pa\u00edses da Europa.<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 in\u00e9dito. A gente falava isso, no Brasil, n\u00e3o sa\u00eda nada. A gente ia fazer site e n\u00e3o tinha fortuna cr\u00edtica. Claro, j\u00e1 sinto que h\u00e1 uma grande mudan\u00e7a. Pra mim, uma das coisas mais lindas era abrir a <em>Folha<\/em> e ver l\u00e1 uma cr\u00edtica da Jana\u00edna Leite, minha amiga, e a gente dizia \u201cAlguma coisa est\u00e1 acontecendo\u201d, porque h\u00e1 algum tempo a gente n\u00e3o tinha nem espa\u00e7o; eram as pessoas de sempre ali, os espa\u00e7os centrados nos mesmos diretores, ent\u00e3o vamos furando esse lugar que, pra mim, \u00e9 muito importante.<\/p>\n<blockquote>\n<h3><em>&#8220;Como se esse corpo estivesse<br \/>\nsempre tentando se aproximar<br \/>\ntentando desvendar<br \/>\num enigma imposs\u00edvel.<br \/>\nEnt\u00e3o isso \u00e9 a linguagem&#8221;.<\/em><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Gostaria que voc\u00ea falasse mais sobre linguagem e o desenvolvimento da sua pesquisa sobre feminic\u00eddio, feminino e tal. Porque a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o tema, n\u00e3o \u00e9 assunto, mas a linguagem. O que \u00e9 a sua linguagem, como voc\u00ea desenvolve essa linguagem e isso entra para mexer com o teatro brasileiro e agora para al\u00e9m? <\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos meus temas preferidos. Sinto que sou muito obcecada por essa cria\u00e7\u00e3o. A gente falou na Jana leite e lembro de quando ela foi participar de um debate sobre <strong><em>Lobo<\/em><\/strong> \u2013 depois de uma apresenta\u00e7\u00e3o que eu a tinha convidado para ser provocadora dessa conversa \u2013 e ela disse que quando ela assistia aos nossos trabalhos, ela sentia que um mundo muito particular era criado. E eu uso essas palavras dela agora para refletir sobre esse mundo particular, como isso opera. O meu desejo de que atrav\u00e9s do teatro seja poss\u00edvel manifestar algum tipo de inven\u00e7\u00e3o, de como esse imagin\u00e1rio se manifesta.<\/p>\n<p>Eu sinto que isso come\u00e7a a partir da escrita. Estou falando isso porque a minha dramaturgia, a minha escrita, tem uma particularidade de imagens, de como essas imagens v\u00e3o acontecendo, dessas associa\u00e7\u00f5es. Acho que esse j\u00e1 seria o primeiro passo. Quando estou compartilhando informa\u00e7\u00f5es, eu n\u00e3o s\u00f3 compartilho informa\u00e7\u00f5es, mas tem alguma coisa ali que vai parar dentro de outra coisa, na maneira como escrevo. Por isso o espet\u00e1culo tem que ser em portugu\u00eas. A gente est\u00e1 rodando com um espet\u00e1culo de duas horas e meia, com texto do come\u00e7o ao fim, onde as pessoas v\u00e3o ter que ler, e \u00e9 isso, o espet\u00e1culo \u00e9 em portugu\u00eas. Tem uma coisa dessa po\u00e9tica, que vem. Esse \u00e9 o exerc\u00edcio de linguagem n\u00famero 1, a escrita.&nbsp;<\/p>\n<p>E, a partir dessa escrita, como a gente manifesta na cena, junto com a minha companhia Cara de Cavalo, como n\u00f3s manifestamos na cena \u2013 atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas que a gente vem desenvolvendo \u2013 como a gente se aproxima, como a gente d\u00e1 corpo, como a gente manifesta essas ideias. \u00c9 como voc\u00ea falou, n\u00e3o \u00e9 o assunto, o assunto a gente j\u00e1 sabe, n\u00e3o \u00e9 isso. A pe\u00e7a para mim \u00e9 sobre isso, sobre linguagem. Tem essa pergunta: \u201c\u00c9 poss\u00edvel criar algo que seja t\u00e3o violento quanto o ato em si?\u201d. A pe\u00e7a \u00e9 uma tentativa. Como se esse corpo estivesse sempre tentando se aproximar, tentando desvendar um enigma imposs\u00edvel. Sinto que isso \u00e9 a linguagem.<\/p>\n<p>Poder ter essa cena, onde existe o musical dentro do carro, que est\u00e1 misturada a outras coisas, com esse rasgo do real que \u00e9 a performance, com esse ac\u00famulo infinito de camadas, isso est\u00e1 conectado com essa cria\u00e7\u00e3o de uma linguagem.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea surpreende quem pensa que a pe\u00e7a fica na parte da palestra. Depois vem uma produ\u00e7\u00e3o complexa, do carro, todas aquelas coisas, a movimenta\u00e7\u00e3o. Da palestra para a coisa mais representacional e por que voc\u00ea fez essas escolhas?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que tem a ver com esse fio dramat\u00fargico: a palestra era para compartilhar as informa\u00e7\u00f5es sobre a vida e as hist\u00f3rias dessas artistas. E eu n\u00e3o poderia fazer isso de outra forma. Essas informa\u00e7\u00f5es precisavam ser compartilhadas. Ent\u00e3o, a performance vem como gesto de aproxima\u00e7\u00e3o dessas hist\u00f3rias de viol\u00eancia. Estou falando de uma performer que foi assassinada (Pippa Bacca); como falar, como me aproximar dessa hist\u00f3ria? Ent\u00e3o tamb\u00e9m coloco meu corpo em vulnerabilidade para conseguir chegar a essas hist\u00f3rias. Acho que, por outro lado, na segunda parte, o teatro vem reclamar o seu espa\u00e7o completo; porque depois que voc\u00ea toma o \u201cboa noite cinderela\u201d, para onde n\u00f3s vamos? A gente vai para o teatro. A gente precisa ir para essa representa\u00e7\u00e3o alucinante.&nbsp; Acho que essa era a \u00fanica maneira que tinha de seguir elaborando. O teatro precisa vir com essa possibilidade de elucubrar, como espa\u00e7o de sustenta\u00e7\u00e3o, o teatro precisa sustentar a sequ\u00eancia desse acontecimento. Eu preciso do teatro para tornar poss\u00edvel essa aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<h3><em>&#8220;Esse trabalho tem<br \/>\nque ser \u00e1rduo num pacto<br \/>\ncom o espectador. N\u00f3s n\u00e3o<br \/>\npodemos falar de viol\u00eancia<br \/>\ne sair daqui numa <\/em>nice&#8221;<em>.<\/em><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou que o teatro n\u00e3o \u00e9 um lugar seguro. E na pe\u00e7a voc\u00ea fala que h\u00e1 um outro tetro que n\u00e3o se arrisca. Gostaria que voc\u00ea desenvolvesse essa ideia do teatro ser um lugar inseguro e dos riscos que voc\u00ea resolve, escolhe e vai por esse caminho. E outra coisa \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 desbravando, est\u00e1 inventando a cada passo.<\/strong><\/p>\n<p>Para mim \u00e9 muito importante dizer \u2013 e essa pergunta est\u00e1 dentro do texto da pe\u00e7a, quando falo com o qu\u00ea o teatro tem que se parecer.&nbsp; Eu n\u00e3o acho que os teatros tenham que ser iguais, s\u00e3o muitos teatros. E acho que essa \u00e9 a grande beleza da exist\u00eancia do teatro. Eu sou uma pessoa que ama o teatro. Mas o teatro que estamos fazendo nesse coletivo, n\u00f3s sim acreditamos que o teatro \u00e9 o espa\u00e7o da instabilidade. Se a gente est\u00e1 falando de viol\u00eancia sexual \u2013 e acho que estamos sempre falando em nossos trabalhos de alguma maneira disso \u2013 o teatro precisa ser um espa\u00e7o da instabilidade, ele precisa colocar em jogo um trabalho \u00e1rduo. Encarar isso \u00e9 um trabalho \u00e1rduo e esse trabalho n\u00e3o pode ser \u00e1rduo s\u00f3 para mim, ele tem que ser \u00e1rduo num pacto com o espectador. Vamos juntos nessa jornada olhar para isso. N\u00f3s n\u00e3o podemos falar de viol\u00eancia e sair daqui <em>numa nice<\/em>. &nbsp;<\/p>\n<p>Acho que por isso o &#8220;<em>Fuck Catharsis&#8221;<\/em><em>. <\/em>A gente sabe que esse tipo de experi\u00eancia n\u00e3o tem cura. Eu sei que esse tipo de experi\u00eancia n\u00e3o tem cura. Voc\u00ea n\u00e3o vai superar, mas voc\u00ea vai entender, vai ficar olhando para ela e entender: \u201cOk, como eu fa\u00e7o, quais as minhas ferramentas para entender, como fui lidando com elas ao longo dos anos?\u201d. E, nesse sentido, o teatro, n\u00e3o \u00e9 que ele precise de riscos, colocar coisas em risco, mas o teatro \u00e9 um espa\u00e7o que n\u00e3o \u00e9 seguro no sentido de que ele precisa atravessar voc\u00ea de alguma maneira, algo precisa se mover, algo precisa acontecer.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acredito que o teatro vai mudar o mundo, que porque estreei essa pe\u00e7a, 10 mil feminic\u00eddios v\u00e3o acontecer a menos. Isso \u00e9 uma bobagem, n\u00e3o acredito nisso. Mas acredito que algum movimento pode ser feito, se esses espectadores que est\u00e3o assistindo \u00e0 pe\u00e7a sa\u00edrem um pouco perturbados, isso no pr\u00f3prio corpo, algo aconteceu. Esse algo a gente precisa deixar no mundo, para ver o que acontece depois.<\/p>\n<p><strong><em>Fuck Catharsis<\/em><\/strong> <strong>\u00e9 um conceito?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, mas n\u00e3o um conceito, digamos, te\u00f3rico. Ele \u00e9 um conceito da experi\u00eancia. Num momento em que voc\u00ea vive uma viol\u00eancia sexual,&nbsp; porque eu sinto assim que tem muito esse papo, eu vejo outras pe\u00e7as que abordam o mesmo tema que adotam muito esse slogan \u201ca vida depois disso, a cura, a supera\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o tem supera\u00e7\u00e3o! Fudeu! E a\u00ed o grande trabalho da sua vida \u00e9 dizer \u201ce agora ?\u201d. A\u00ed tem que buscar ferramentas para lidar com a viol\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 dizer \u201cassim, gente, estou curada do estupro que sofri, t\u00f4 de boas, a pe\u00e7a me ajudou\u201d. Porque tem muita essa ideia na pe\u00e7a autobiogr\u00e1fica de quando voc\u00ea vai l\u00e1 e exp\u00f5e seu problema com o p\u00fablico e o p\u00fablico te aplaude, chora, se pensa, a\u00ed Catharsis, pronto, ficou para tr\u00e1s. N\u00e3o ficou para tr\u00e1s! Todos os dias voc\u00ea vai carregar consigo os efeitos disso. O que come\u00e7a a acontecer \u00e9 que voc\u00ea vai encontrando formas de lidar, de articular isso.<\/p>\n<p><strong>Na pe\u00e7a voc\u00ea fala que n\u00e3o existe amor, s\u00f3 ternura. Como \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia \u00e0 uma viol\u00eancia sexual implica em algo que confunde completamente a linha do tempo. E por isso, claro, \u00e9 precisa inventar uma maneira de se relacionar com o desejo, com o amor, com as rela\u00e7\u00f5es pessoais. Nesse sentido, esse amor que n\u00e3o existe na pe\u00e7a \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que depois de um ato t\u00e3o violento n\u00e3o se entende o que \u00e9 o amor. Mas h\u00e1 a ternura, e a\u00ed tem outro ponto chave do trabalho que \u00e9 entender qual o papel da amizade. O espet\u00e1culo termina com uma carta a uma amiga. Qual o papel da amizade? Como a amizade pode sustentar, a amizade entre as mulheres sobretudo, essa continuidade, esse seguir vivendo? Por isso o <em>Fuck Catharsis<\/em>, porque n\u00e3o \u00e9 cura. A&nbsp; gente tem que entender o que fazer, articular e descobrir como seguir.<\/p>\n<p><strong>Qual o poder do teatro?<\/strong><\/p>\n<p>Eu diria que uma das coisas mais importantes do teatro \u00e9 o seu processo coletivo, a coletiviza\u00e7\u00e3o das coisas, a coletiviza\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es, a experi\u00eancia coletiva. Desde o grupo at\u00e9 o encontro com o p\u00fablico, a experi\u00eancia de coletivizar algo. Ainda mais no caso de <em>A Noiva e o Boa noite Cinderela<\/em>, que traz experi\u00eancias que deveriam ser abafadas, pertencer ao lugar privado; o que significa colocar essas experi\u00eancias l\u00e1, por isso \u00e9 que \u00e9 confuso, por isso s\u00e3o essas camadas que quase d\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de que a gente n\u00e3o suporta mais, porque essas hist\u00f3rias v\u00eam como uma avalanche, ela s\u00f3 pode vir assim como uma grande tempestade de merda. Porque n\u00e3o tem como, a gente precisa falar. E a\u00ed tem esse grande trabalho a\u00ed que \u00e9 a escuta. Como \u00e9 que a gente escuta essas hist\u00f3rias, como \u00e9 que a gente conta? &nbsp;<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/viagem-ao-abismo-critica-da-peca-a-noiva-e-o-boa-noite-cinderela-de-carolina-bianchi-e-do-coletivo-cara-de-cavalo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leia a cr\u00edtica do espet\u00e1culo A Noiva e o Boa Noite Cinderela &#8211; Cap\u00edtulo 1 da Trilogia Cadela For\u00e7a, de Carolina Bianchi e do coletivo Cara de Cavalo.<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A norte-americana Emilie Dickinson (1830-1886) intrigou e chocou seus contempor\u00e2neos com sua poesia \u201cexplosiva e espasm\u00f3dica\u201d. Dickinson \u00e9 uma das grandes inspira\u00e7\u00f5es de arte para a encenadora, atriz, dramaturga e performer Carolina Bianchi. A diretora do coletivo Cara de Cavalo, de S\u00e3o Paulo, com quem criou as pe\u00e7as O Tremor Magn\u00edfico (2020), Lobo (2018), Quiero [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[4249],"tags":[7448,7492,5163,7493,7452,3989,7494],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25101"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25101"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25101\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25127,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25101\/revisions\/25127"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}