{"id":24417,"date":"2022-10-12T23:46:49","date_gmt":"2022-10-13T02:46:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=24417"},"modified":"2022-10-12T23:46:49","modified_gmt":"2022-10-13T02:46:49","slug":"minha-pequena-maratona-pelos-bosques-do-mirada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/minha-pequena-maratona-pelos-bosques-do-mirada\/","title":{"rendered":"Minha pequena maratona pelos bosques do Mirada"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_24472\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Erupcao_Matheus-Jose-Maria-1536x1233-1-e1665571276180.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24472\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24472\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Erupcao_Matheus-Jose-Maria-1536x1233-1-e1665571276180.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"482\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24472\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Erup\u00e7\u00e3o \u2013 O levante ainda n\u00e3o terminou, <\/strong>da ColetivA Ocupa\u00e7\u00e3o, de SP. Foto: Matheus Jos\u00e9 Maria \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24462\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Fuck-Me-Difusion-7-foto-de-DIEGO-ASTARITA-1536x1024-1-e1665343110925.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24462\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-24462 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Fuck-Me-Difusion-7-foto-de-DIEGO-ASTARITA-1536x1024-1-e1665343110925.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24462\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Fuck me<\/strong>, espet\u00e1culo da argentina Marina Otero. Foto: Diego Astarita \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24469\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/hamlet2.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24469\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24469\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/hamlet2-e1665570975466.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24469\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Hamlet<\/strong>, montagem com artistas com S\u00edndrome de Down da Teatro La Plaza, de Lima, Peru. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o&nbsp;&nbsp;<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24470\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/CuandoPasesSobreMiTumba2022-Ensayo01-DIEZfinales-7113-1536x1024-1-e1665571002456.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24470\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24470\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/CuandoPasesSobreMiTumba2022-Ensayo01-DIEZfinales-7113-1536x1024-1-e1665571002456.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24470\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cuando Pases Sobre Mi Tumba, <\/strong>do dramaturgo e diretor franco-uruguaio S\u00e9rgio Blanco. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24471\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/la-mujer-que-soy3-e1665571041621.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24471\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24471\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/la-mujer-que-soy3-e1665571041621.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24471\" class=\"wp-caption-text\"><strong>La Mujer que soy, <\/strong>do Teatro Bomb\u00f3n, da Argentina. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Fiz minha pequena maratona pelos bosques do Mirada. 13 espet\u00e1culos <strong>+<\/strong> um e uma abertura de processo em seis dias, de 12 a 17 de setembro. Minha curadoria particular seguiu alguns crit\u00e9rios. Montagens com maior dificuldade de ver depois, visto que n\u00e3o desceriam a serra ou pouco provavelmente circulariam pelo Brasil. Alguns grupos que j\u00e1 conhecia, interesse pela tem\u00e1tica, disponibilidade de ingresso e intui\u00e7\u00e3o, ou seja, apostar no que a produ\u00e7\u00e3o estava vendendo como espet\u00e1culo. Dessa forma consegui assistir pe\u00e7as de Portugal, Brasil, Argentina, Bol\u00edvia, Chile, Col\u00f4mbia, M\u00e9xico, Peru e Uruguai.<\/p>\n<p>O <em><strong>Mirada \u2013 Festival Ibero-Americano de Artes C\u00eanicas<\/strong><\/em> ocorreu entre 9 e 18 de setembro. Cheguei no quarto dia de festival e fui embora antes do fim. Acho que tenho algum problema com essa ideia de fim.<\/p>\n<p>No <em><strong>Mirada<\/strong> <\/em>acontecem tantas coisas ao mesmo tempo, com choques de hor\u00e1rios, que \u00e9 humanamente imposs\u00edvel acompanhar tudo. Ent\u00e3o existem muitos Miradas dentro do <strong><em>Mirada<\/em><\/strong>, como ocorre com grandes festivais pelo mundo. Performances, a\u00e7\u00f5es formativas, lan\u00e7amento de livros, etc. etc. etc.&nbsp; S\u00f3 de espet\u00e1culos programados foram 36.&nbsp; Alguns n\u00e3o verei jamais e espero que n\u00e3o sejam os que me tocariam profundamente. Mas isso a gente nunca saber\u00e1. Parecem ideias t\u00e3o abstratas como as possibilidades de encontros n\u00e3o concretizadas.<\/p>\n<p>Foi um percurso irregular em meio a essa profus\u00e3o de vozes que projetam, talvez, o recorte mais cintilante da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea das artes c\u00eanicas ibero-americanas.<\/p>\n<p>De gratas surpresas e pequenos desapontamentos (mas isso \u00e9 porque de algum modo havia expectativa), confirma\u00e7\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5es. A vida \u00e9 um pouco assim, n\u00e9?!!!<\/p>\n<p>No ano que marca o bicenten\u00e1rio da \u201cIndepend\u00eancia\u201d do Brasil, Portugal \u00e9 o pa\u00eds homenageado. Independ\u00eancia com muitas aspas, mas a data \u00e9 oficial. \u00c9 uma provoca\u00e7\u00e3o pensar sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses. Isso foi posto em cena de alguma forma. N\u00f3s que avan\u00e7amos de col\u00f4nia \u00e0 monarquia at\u00e9 chegar \u00e0 Rep\u00fablica, j\u00e1 passamos por tanta coisa: \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d, elei\u00e7\u00f5es restritas, ditaduras, golpes, ditaduras, elei\u00e7\u00f5es amplas, democracia, golpe, de-mo-o-qu\u00ea?, a &#8220;invas\u00e3o&#8221; de Portugal por brasileiros que fugiram desse estado de coisas dos \u00faltimos quatro anos. N\u00e3o sei se assisti aos mais impactantes espet\u00e1culos portugueses. Mas muitas redes foram tran\u00e7adas, vi de longe.<\/p>\n<p>Farei um passeio pelos espet\u00e1culos que acompanhei desse evento produzido pelo Sesc S\u00e3o Paulo, por ordem das pe\u00e7as que assisti, mas isso pode mudar ao longo do caminho.&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_24418\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/la-mujer-que-soy2-e1665012617403.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24418\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24418\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/la-mujer-que-soy2-e1665012617403.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24418\" class=\"wp-caption-text\">As atrizes Mayra Homar e Maiamar Abrodos est\u00e3o no espet\u00e1culo <em><strong>La Mujer que Soy. <\/strong><\/em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>La Mujer que soy, Teatro Bomb\u00f3n<\/strong><\/p>\n<p>O sagu\u00e3o do hist\u00f3rico Atl\u00e2ntico Hotel, situado defronte do mar de Santos ficou animado para as apresenta\u00e7\u00f5es da pe\u00e7a <strong><em>La Mujer que Soy<\/em><\/strong>, uma produ\u00e7\u00e3o do festival argentino Teatro Bomb\u00f3n, de Buenos Aires, Argentina, que se tornou o xod\u00f3 do <strong><em>Mirada<\/em><\/strong>, com todas as sess\u00f5es lotadas. &nbsp;O n\u00famero reduzido de espectadores, o local fora do teatro (a pe\u00e7a foi criada para ocorrer em site specific), a simultaneidade da encena\u00e7\u00e3o em dois apartamentos exibindo duas perspectivas da mesma hist\u00f3ria, talvez, tenham sido o chamariz.<\/p>\n<p>As surpresas positivas ainda s\u00e3o maiores no jogo c\u00eanico. Escolhi come\u00e7ar pelo lado B, Martha&#8217;s, um ap\u00ea s\u00f3brio, que traduz o estilo de vida da moradora. Num pequeno espa\u00e7o, com cerca de 30 espectadores \u201cmuito unidos\u201d, a personagem Cecilia, a filha (Mayra Homar) chega com a namorada (Daniela Pal) na casa de Marta, a m\u00e3e (Silvia Villazur), para passar uma temporada. Marta, e a plateia, suspeitam que a namorada \u00e9 uma tremenda aproveitadora, disposta a dar uns golpes enquanto faz declara\u00e7\u00f5es de amor.<\/p>\n<p>No lado A, Mercedes\u2019, um ap\u00ea vibrante, de tem\u00e1tica queer; Marta tenta reconquistar o carinho do ex-marido, a travesti Mercedes que fez a transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ap\u00f3s o div\u00f3rcio, vivida pela atriz transexual Maiamar Abrodos. \u00c9 inspiradora como \u00e9 conduzida na pe\u00e7a uma rela\u00e7\u00e3o amorosa entre uma mulher trans e outra cisg\u00eanero, sem conota\u00e7\u00f5es estranhas ou discriminat\u00f3rias: um exerc\u00edcio amoroso no fluxo de vida.&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria de gente comum, \u00e0s voltas com seus dramas ordin\u00e1rios, movida pela busca de felicidade, contada de forma emotiva e com uma proximidade desconcertante. A dramaturgia e dire\u00e7\u00e3o de Nelson Valente equalizam as tens\u00f5es com maestria.<\/p>\n<p>Para mim se destacam nesta montagem as corpas insubmissas aos padr\u00f5es de beleza, a bulir de desejo e que v\u00e3o \u00e0 luta para conquistar o que querem.<\/p>\n<p><em><strong>La Mujer que Soy<\/strong><\/em> me ganhou pelas interpreta\u00e7\u00f5es fortes, com intensidade e entrega e vibra\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, marcadas de uma <em>jeita<\/em> argentina de ser, algo que vai do estridente \u00e0 delicadeza. E como destaque dessa cena, a atua\u00e7\u00e3o de Silvia Villazur com sua presen\u00e7a intensa, com capacidade de dizer muito com um levantar de sobrancelhas ou um pequeno gesto com a cabe\u00e7a. Fez o cora\u00e7\u00e3o do p\u00fablico pulsar em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Essa lente de aumento para uma determinada realidade que o Teatro Bomb\u00f3n prop\u00f5e \u00e9 super interessante. Criado em 2014 enquanto festival de arte <em>site-specific<\/em> de obras curtas, o programa j\u00e1 chegou a dez edi\u00e7\u00f5es, com mais de &nbsp;60 obras originais de teatro, dan\u00e7a e performance. Com curadoria de Monina Bonelli, Cristian Scotton e Sol Salinas, o Teatro Bomb\u00f3n ativa o sentido comunit\u00e1rio do fazer teatral, que, ao que parece, tem resultados excelentes de reconex\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A Produ\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 assinada pela OFF Produ\u00e7\u00f5es Culturais, com Andr\u00e9 Cajaiba, Celso Curi, Heloisa Andersen e Wesley Kawaai.<\/p>\n<p><em><strong>La Mujer que Soy<\/strong> <\/em>foi um dos melhores momentos do meu percurso neste sexto <em><strong>Festival Ibero-Americano de Artes C\u00eanicas<\/strong><\/em> do Sesc, o <strong><em>Mirada 2022<\/em><\/strong>.<\/p>\n<div id=\"attachment_24473\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/orgia_fot_raquel-balsa_-e1665571595575.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24473\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24473\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/orgia_fot_raquel-balsa_-e1665571595575.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24473\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Orgia, Pasolini, <\/strong>montagem portuguesa com dire\u00e7\u00e3o de Nuno M Cardoso. Foto: Raquel Balsa \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>ORGIA, PASOLINI Teatro Nacional 21&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma radicalidade na encena\u00e7\u00e3o de <strong><em>Orgia, Pasolini<\/em><\/strong>, do diretor portugu\u00eas Nuno M Cardoso, que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de entrar, ou de ficar. A densidade do texto exige muita aten\u00e7\u00e3o e disponibilidade da plateia. A a\u00e7\u00e3o c\u00eanica \u00e9 rara, quase ausente. Os elementos da encena\u00e7\u00e3o s\u00e3o reduzidos. O diretor j\u00e1 disse que se espera que plateia ou\u00e7a mais que veja.<\/p>\n<p>O palco se transforma em altar sacrificial, um c\u00edrculo de muitas toneladas de argila preta onde os atores se confundem com o material \u2013 uma instala\u00e7\u00e3o da artista Ivana Sehic. Um territ\u00f3rio enlameado combina viol\u00eancia, culpa e obsess\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria pornogr\u00e1fica ou erotizada. O figurino negro, a luz baixa, os elementos s\u00e3o combinados para saturar o trajeto noturno.<\/p>\n<p><em><strong>Orgia<\/strong> <\/em>ocorre num domingo de P\u00e1scoa. Um homem j\u00e1 morto vai ao teatro contar sobre os momentos finais da sua vida e elucidar o motivo do suic\u00eddio. Uma voz p\u00f3stuma, entre narrador e protagonista a \u201crebobinar a exist\u00eancia\u201d. Ele e uma mulher buscam se entregar aos prazeres sadomasoquistas, mas a moral hip\u00f3crita da sociedade produz a esquizofrenia, que pressiona a mulher a se suicidar. O homem vai atr\u00e1s de outra parceira, mas ele se suicida.,<\/p>\n<p>Teatro da palavra, protagonismo da palavra, <em><strong>Orgia<\/strong> <\/em>\u00e9 reflex\u00e3o densa, profunda sobre Eros e T\u00e2natos. \u00c9 arma contra o pensamento prec\u00e1rio destes tempos.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a adentra pelos rituais de continuidade em repeti\u00e7\u00e3o. As figuras s\u00e3o ideias a serem ouvidas durante uma hora e meia. Tr\u00eas int\u00e9rpretes (Albano Jer\u00f3nimo, Beatriz Batarda e Marina Leonardo) se deslocam no palco. Albano Jer\u00f3nimo e Beatriz Batarda lutam, sem f\u00faria. Os movimentos s\u00e3o contidos, a velocidade \u00e9 lenta. Mas a palavra fere.<\/p>\n<div id=\"attachment_24421\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Festa-de-Inauguracao_Credito_Diego-Bresani-2-1367x2048-1-e1665013793222.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24421\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24421\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Festa-de-Inauguracao_Credito_Diego-Bresani-2-1367x2048-1-e1665013793222.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"577\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Festa-de-Inauguracao_Credito_Diego-Bresani-2-1367x2048-1-e1665013793222.jpeg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Festa-de-Inauguracao_Credito_Diego-Bresani-2-1367x2048-1-e1665013793222-300x289.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-24421\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Festa de inaugura\u00e7\u00e3o, <\/strong>do Teatro do Concreto, com dire\u00e7\u00e3o de Francis Wilker<\/em>&nbsp;Foto: Diego Bresani<\/p><\/div>\n<p><strong>Festa de inaugura\u00e7\u00e3o&nbsp; &#8211; Teatro do concreto<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, com predomin\u00e2ncia das narrativas dos vencedores, ou seja, da elite, \u00e9 o que performa o Teatro do Concreto na sua <strong><em>Festa de inaugura\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>, apresentada na Casa da Frontaria Azulejada. Mas de vez em quando os subalternos driblam essa regra. A pe\u00e7a foi inspirada numa reforma por infiltra\u00e7\u00e3o no teto do Sal\u00e3o Verde do Congresso Nacional, em 2011. Foram encontradas no local mensagens (para o futuro) escritas a l\u00e1pis, nas paredes que ficam entre o forro e a laje, pelos oper\u00e1rios que constru\u00edram o pr\u00e9dio em 1959.<\/p>\n<p>Entre os registros, o de Jos\u00e9 Silva Guerra, datado de 22 de abril: \u201cQue os homens de amanh\u00e3 que aqui vierem tenham compaix\u00e3o dos nossos filhos e que a lei se cumpra\u201d.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo, com Gleide Firmino, Micheli Santini, Adilson Diaz e Diego Borges, trabalha o ciclo constante da humanidade de constru\u00e7\u00e3o-destrui\u00e7\u00e3o-constru\u00e7\u00e3o para irradiar com humor corrosivo, \u00e0s vezes com melancolia, ou at\u00e9 fa\u00edscas de esperan\u00e7a, a rela\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado, o que de p\u00fablico \u00e9 realmente usufru\u00eddo pelo coletivo e o confisco da coisa p\u00fablica por alguns privados. &nbsp;<\/p>\n<p>A dramaturgia de Jo\u00e3o Turchi e a dire\u00e7\u00e3o de Francis Wilker manejam em quadros performativos os conte\u00fados soterrados que emergem em algum apontamento da hist\u00f3ria pela a\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p>A plateia participa ativamente dos momentos de quebrar e do ajuste de compor os destro\u00e7os para a pr\u00f3xima sess\u00e3o. H\u00e1 algo de esperan\u00e7ar nesse performar ru\u00ednas.<\/p>\n<div id=\"attachment_24420\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/hamlet-e1665013436305.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24420\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-24420 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/hamlet-e1665013436305.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"394\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24420\" class=\"wp-caption-text\">Uma alegria assistir a essa montagem em que o microfone da pe\u00e7a e a coroa do pr\u00edncipe de Shakespeare s\u00e3o revezados pelos atores. Um <strong>Hamlet<\/strong> inesquec\u00edvel. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Levar ao palco uma vis\u00e3o de mundo revigorada por jovens e adultos com S\u00edndrome de Down foi o que o grupo peruano Teatro La Plaza fez no espet\u00e1culo <em><strong>Hamlet<\/strong><\/em>. A experi\u00eancia dessas pessoas preenche algumas lacunas da m\u00e1quina da fic\u00e7\u00e3o e desloca outras brechas para criar diferentes percursos para o cl\u00e1ssico de William Shakespeare.<\/p>\n<p>Sem pudores nem autocomplac\u00eancia, a turma segue e subverte as pulsa\u00e7\u00f5es do pr\u00edncipe da Dinamarca, potencializa Ofelia, cria outras armadilhas para Claudio. Ao falar direto com a plateia sobre a condi\u00e7\u00e3o deles, algum tipo de comprometimento intelectual ou dificuldade motora, o elenco revela sobre a singularidade de cada artista, de forma engra\u00e7ada e apaixonante. E mais, o elenco reafirma como \u00e9 dif\u00edcil e prazeroso fazer teatro.<\/p>\n<p>Com irrever\u00eancia, originalidade e eco pop, a montagem &#8211; assinada pela peruana Chela De Ferrari com dramaturgismo com Claudia Tangoa, Jonathan Oliveros e Luis Alberto Le\u00f3n &#8211;&nbsp; prop\u00f5e algumas subvers\u00f5es. Dificuldades de fala e linguagem, problemas de habilidades sensoriais e perceptivas s\u00e3o levantados para apontar que <em>nosotros<\/em> \/ <em>nosotras<\/em> temos algo quebrado, insuficiente, qualquer um e como \u00e9 dif\u00edcil reconhecer.<\/p>\n<p>Ao combater o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o com uma onda el\u00e9trica de humanidade, pela via do teatro, os artistas do La Plaza sinalizam para quem quiser ver e ouvir que como \u00e9 baixa nossa v\u00e3 filosofia sobre normalidade e arte.<\/p>\n<div id=\"attachment_24422\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/erupcao-o-levante-e1665044615707.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24422\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-24422 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/erupcao-o-levante-e1665578759615.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/erupcao-o-levante-e1665578759615.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/erupcao-o-levante-e1665578759615-300x233.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-24422\" class=\"wp-caption-text\">Vida longa \u00e0 ColetivA Ocupa\u00e7\u00e3o, de S\u00e3o Paulo e a sua <em><strong>Erup\u00e7\u00e3o \u2013 O levante ainda n\u00e3o terminou<\/strong>, que estreou no Mirada. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p><\/div>\n<p><strong>Erup\u00e7\u00e3o \u2013 O levante ainda n\u00e3o terminou<\/strong><\/p>\n<p>Estreia disputada do espet\u00e1culo <em><strong>Erup\u00e7\u00e3o \u2013 O levante ainda n\u00e3o terminou<\/strong>,&nbsp;<\/em>da ColetivA Ocupa\u00e7\u00e3o, de S\u00e3o Paulo, com dire\u00e7\u00e3o de Martha Kiss Perrone. &nbsp;A montagem foi gestada da indaga\u00e7\u00e3o: \u201cO que \u00e9 o fim do mundo para mundos que j\u00e1 terminaram h\u00e1 muito tempo?\u201d. A exist\u00eancia \u00e9 luta no trabalho desses jovens artistas que carregam a cena de revolu\u00e7\u00e3o, festa, guerra, subvers\u00e3o no tempo espiralado entre passado e futuro, numa perspectiva decolonial. As corpas cis e trans fervem e desse calor s\u00e3o tra\u00e7adas coreografias, experimentados breves virtuosismos da dan\u00e7a urbana, numa insubordina\u00e7\u00e3o da Terra que borbulha e gente se revolta.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma mistura de bruxaria negra, levante dos Mal\u00eas, Revolu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Domingos e uma energia concentrada de que a guerra \u00e9 contra todos aqueles que <strong>os<\/strong> querem matar, fisicamente, intelectualmente, psicologicamente, e de outros jeitos. &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>A coletivA \u00e9 feita por jovens artistas que buscam o protagonismo de suas hist\u00f3rias com sede de liberdade. &nbsp;<strong>Erup\u00e7\u00e3o <em>\u2013 O levante ainda n\u00e3o terminou<\/em><\/strong> \u00e9 a segunda pe\u00e7a da companhia que chegou chegando com <em>Quando Quebra Queima<\/em>&nbsp;(2017), erguida nas ocupa\u00e7\u00f5es de escolas p\u00fablicas em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a quente dessas garotas e desses garotos nesta segunda pe\u00e7a da ColetivA Ocupa\u00e7\u00e3o projeta-se vibrante e ut\u00f3pica. Em <em>Quando quebra queima<\/em>, o elenco transpirava arte com um jeito meio desengon\u00e7ado das corpas desequilibradamente de adolescentes em&nbsp; crescimento, aquela fase de transi\u00e7\u00e3o em que h\u00e1 desajustes de dom\u00ednio. Em <strong>Erup\u00e7\u00e3o <em>\u2013 O levante ainda n\u00e3o terminou,<\/em><\/strong> a trupe chega com carga total de horm\u00f4nios. E ainda destreza das corpas, ousadia e uma beleza coletiva contagiante, numa mostra de que a vida que importa \u00e9 poesia, e essa po\u00e9tica se traduz em revolu\u00e7\u00e3o. A montagem cruza temas como colonialidade, quest\u00f5es ambientais, genoc\u00eddios e antirracismo. Vida longa e for\u00e7a na luta para a ColetivA Ocupa\u00e7\u00e3o, de S\u00e3o Paulo e seu espet\u00e1culo <em><strong>Erup\u00e7\u00e3o \u2013 O levante ainda n\u00e3o terminou<\/strong>. Evo\u00e9!!!<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_24461\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/tijuana-e1665328037458.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24461\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24461\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/tijuana-e1665328037458.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/tijuana-e1665328037458.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/tijuana-e1665328037458-300x213.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-24461\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Tijuana<\/strong>, com o ator L\u00e1zaro Gabino Rodr\u00edguez. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A crise de representatividade como quest\u00e3o da pol\u00edtica, e do teatro, \u00e9 tensionada pelo coletivo mexicano Lagartijas Tiradas ao Sol, no espet\u00e1culo <strong><em>Tijuana<\/em><\/strong>. Nele, o ator L\u00e1zaro Gabino Rodr\u00edguez conta e performa sua experi\u00eancia quando adotou \/ inventou a identidade, por quase seis meses, de Santiago Ram\u00edrez, um cidad\u00e3o que vai morar em Tijuana (Baja California, na fronteira com os Estados Unidos), para ganhar um sal\u00e1rio-m\u00ednimo numa f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Com essa experi\u00eancia, o artista buscou explorar as possibilidades de representa\u00e7\u00e3o. \u201cViver\u201d a vida de outra pessoa, isso seria atuar? Essa \u00e9 uma pergunta constante no trabalho.<\/p>\n<p>Santiago Ramirez \u201cescolheu\u201d morar numa das regi\u00f5es mais pobres da cidade, onde alugou um quarto numa casa de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Gabino Rodriguez \u00e9 um ator com bom tr\u00e2nsito no circuito dos festivais internacionais. Em <em><strong>Tijuana<\/strong> <\/em>ele exp\u00f5e seus arquivos de texto e v\u00eddeo, narra o que passou e embaralha o status de verdade. A fam\u00edlia que lhe alugou o quarto aceita t\u00e3o plenamente o disfarce como real que Ramirez \u00e9 agregado nos almo\u00e7os de domingo.<\/p>\n<p>O int\u00e9rprete viveu esse tempo apartado do seu mundo de classe m\u00e9dia e mergulhou na dureza da vida oper\u00e1ria. N\u00e3o atingiu os seis meses com 3,5\u20ac euros por dia, desafio que tinha se proposto. Pesaram as dores nas costas, o medo de ser desmascarado e agredido por n\u00e3o ser quem dizia ser at\u00e9 a morte, a press\u00e3o do bairro, a falta de \u00e1gua quente. A rotina massacrante comprometeu, aos poucos, sua condi\u00e7\u00e3o emocional.<\/p>\n<p>Essa dramaturgia baseada em pr\u00e1ticas dos teatros do real, document\u00e1rio e performativo desloca a percep\u00e7\u00e3o do espectador. Os procedimentos do real e do ficcional s\u00e3o borrados durante a encena\u00e7\u00e3o provocando desequil\u00edbrios constantes na apreens\u00e3o cognitiva e percep\u00e7\u00e3o sensorial do espectador.&nbsp;<\/p>\n<p>A pe\u00e7a integra um ousado projeto chamado <em>La Democracia in Mexico<\/em> e prev\u00ea a cria\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de espet\u00e1culos na inten\u00e7\u00e3o de conjeturar acerca da realidade mexicana e suas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_24467\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Fuckme_Foto_SalvatorePastore_S2A8177.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24467\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24467\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Fuckme_Foto_SalvatorePastore_S2A8177-e1665570905319.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24467\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Fuck me<\/strong>, espet\u00e1culo de Marina Otero com cinco bailarinos. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A argentina Marina Otero realmente me desconcertou com seu com <strong><em>Fuck me<\/em><\/strong>. Sa\u00ed atordoada do espet\u00e1culo, sem saber o que pensar nos primeiros momentos. Sotero aparece em cena andando com dificuldade e convence que se arrebentou na lida da dan\u00e7a radical, nos traumas e tombos, nas quedas de quebrar ossos.&nbsp; Mas em <strong><em>Fuck me<\/em><\/strong>, a fraqueza \u00e9 apenas uma m\u00e1scara da bailarina imponente.<\/p>\n<p>A artista levou seu corpo ao limite humano em prol de seus projetos. Esse equipamento de carne-nervos-sangue-ossos submetido a tantos choques e aberturas aparece danificado na cena. Prejudicada com seu instrumento de trabalho, ela convoca cinco bailarinos, belos, musculosos e dispostos a tomar o lugar de sacrif\u00edcio para substitu\u00ed-la na cena, na derradeira parte de um autorretrato criado por Otero.<\/p>\n<p>S\u00e3o cinco Pablos, nome escolhido pela dan\u00e7arina e core\u00f3grafa argentina, entregues \u00e0 causa narcisista de Marina Otero. Cada um deles narra um peda\u00e7o da trajet\u00f3ria dela. Marina dan\u00e7a desde a inf\u00e2ncia. \u00c9 uma obsess\u00e3o desde l\u00e1. E ela revela mais de sua vida, a filha de pai militar, e a repercuss\u00e3o da trajet\u00f3ria da ditadura que devastou seu pa\u00eds, a misoginia e o machismo de homens com os quais se envolveu. A viol\u00eancia que sempre atravessou seu corpo.<\/p>\n<p>Marina \u00e9 convincente e os arquivos de sua vida pregressa comprovam as manobras corporais feitas pela artista, que beiram a autodestrui\u00e7\u00e3o, alguns espet\u00e1culos, suas mem\u00f3rias familiares e os registros do hospital que d\u00e3o testemunho de sua espinha estragada. O sofrimento, a opera\u00e7\u00e3o, a dan\u00e7a que cai.<\/p>\n<p>Foi numa cama de hospital que ela concebeu essa \u00faltima parte da s\u00e9rie auto fict\u00edcia <strong><em>Recordar para Vivir<\/em><\/strong>, iniciada em 2012 com <strong><em>Andrea<\/em><\/strong>, seguida em 2014 com <em><strong>Recordar 30 A\u00f1os para Vivir 65 Minutos<\/strong>.<\/em> Ela lembra uma Frida Kahlo do s\u00e9culo 21, \u00e0s voltas em expressar com arte suas dores de corpo quebrado, de ser ela pr\u00f3pria arte apesar de toda ru\u00edna. \u00c9 impactante, desafiador.<\/p>\n<p>Essa pe\u00e7a-catarse remete para qualquer coisa de amodovariana na exposi\u00e7\u00e3o desses destro\u00e7os, desses elementos que a artista leva para o palco, da cria\u00e7\u00e3o feita enquanto se recuperava de uma grave les\u00e3o na coluna, ocorrida em 2019. O acidente a deixou sem caminhar, dan\u00e7ar e trepar, que em sua pr\u00e1tica est\u00e1 tudo relacionado.<\/p>\n<p>Marina embaralha os tempos presente e passado. Mesmo quando se apresenta como uma velhinha com limita\u00e7\u00f5es motoras, ela se mostra altiva a exigir de seus bailarinos uma doa\u00e7\u00e3o m\u00e1xima. Sem poder dan\u00e7ar, ela passa para eles a miss\u00e3o de executar movimentos ousados, extravagantes, numa multiplica\u00e7\u00e3o dela mesma.<\/p>\n<p>Essa pe\u00e7a arrebatadora ati\u00e7a nas suas camadas os efeitos do passar do tempo. Traz um desempenho deslumbrante dos bailarinos Augusto Chiappe, Cristian Vega, Fred Raposo, Mat\u00edas Rebossio, Miguel Valdivieso. \u00c9 poss\u00edvel lembrar da autoflagela\u00e7\u00e3o de Angelica Liddell. Mas Marina Otero tem um percurso todo seu, deslumbrante na oscila\u00e7\u00e3o do tragic\u00f4mico. E acima de tudo admir\u00e1vel e imprevis\u00edvel em sua cena final. &nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_24465\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/CuandoPasesSobreMiTumba2022-Ensayo01-DIEZfinales-7352-1536x1024-1-e1665360117848.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24465\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24465\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/CuandoPasesSobreMiTumba2022-Ensayo01-DIEZfinales-7352-1536x1024-1-e1665360117848.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24465\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cuando Pases Sobre Mi Tumba<\/strong>, com dramaturgia e dire\u00e7\u00e3o de Sergio Blanco. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>\u201cA verdade tamb\u00e9m se inventa\u201d,<\/strong>&nbsp; \u00e9 uma frase do espet\u00e1culo <em><strong>Tijuuana<\/strong><\/em>, do coletivo mexicano Lagartijas Tiradas ao Sol, mas que cabe muito bem em outras pe\u00e7as.<\/p>\n<p>As pistas falsas tra\u00e7am os fios no jogo da autofic\u00e7\u00e3o do dramaturgo franco-uruguaio S\u00e9rgio Blanco na pe\u00e7a <strong><em>Cuando pases sobre mi tumba<\/em>.<\/strong> Mais uma vez ele narra sua pr\u00f3pria morte de forma fict\u00edcia e nesta montagem Blanco \u00e9 interpretado por Sebasti\u00e1n Serantes. Ele decide morrer e para isso recorre ao suic\u00eddio assistido, em uma cl\u00ednica em Genebra, na Su\u00ed\u00e7a. Faz uma consulta com o Dr. Godwin (Gustavo Saffores). O \u00faltimo desejo de Sergio \u00e9 que seu corpo, depois de enterrado, seja violado por um jovem necr\u00f3filo iraniano (Felipe Ipar).<\/p>\n<p>Blanco faz uma aut\u00f3psia do desejo de poder decidir sobre o t\u00e9rmino da exist\u00eancia. E explica na encena\u00e7\u00e3o a diferen\u00e7a entre a morte assistida e a eutan\u00e1sia. O tema \u00e9 tabu e quem j\u00e1 viu alguma coisa da trajet\u00f3ria do artista prossegue encantada com sua capacidade de criar tramas t\u00e3o inventivas, que n\u00e3o sabemos o que \u00e9 real e o que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;Blanco, que assina o texto e a dire\u00e7\u00e3o, tem um estilo \u00fanico de misturar elementos, de ajustar a progress\u00e3o dram\u00e1tica, mexer com&nbsp; gr\u00e1ficos projetados, utilizar interven\u00e7\u00f5es musicais, manejar com precis\u00e3o drama pesado com momentos engra\u00e7ados.&nbsp;<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o \u00e9 din\u00e2mica e encantadora, intensa e maneja bem as emo\u00e7\u00f5es. Blanco \u00e9 expert em manter a plateia entusiasmada por suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<div id=\"attachment_24464\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/LA-LUNA-EN-EL-AMAZONAS-8@FOTOGRAFO-ROLF-ABDERHALDEN-1536x1044-1-e1665359777919.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24464\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24464\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/LA-LUNA-EN-EL-AMAZONAS-8@FOTOGRAFO-ROLF-ABDERHALDEN-1536x1044-1-e1665359777919.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"408\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24464\" class=\"wp-caption-text\"><strong>La Luna en El Amazonas<\/strong>, do Mapa Teatro, da Col\u00f4mbia. Foto: Rolf Abderhalden \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong><em>La Luna en el Amazonas &#8211; Mapa Teatro<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso apressar o passo desse passeio. E serei mais suscita nas pr\u00f3ximas paragens. Espero.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo <strong><em>La Luna en el Amazonas<\/em><\/strong>, dirigido pelos irm\u00e3os Heidi Abderhalden e Rolf Abderhalden, do grupo Mapa Teatro, de Bogot\u00e1, faz conex\u00f5es da realidade atual com epis\u00f3dio do s\u00e9culo 19, sobre uma comunidade ind\u00edgena que se isolou em virtude da violenta invas\u00e3o ao seu territ\u00f3rio na Amaz\u00f4nia colombiana.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo faz refer\u00eancias ao filme&nbsp;<em>Mem\u00f3ria&nbsp;<\/em>(2021)<em>, <\/em>do diretor tailand\u00eas Apichatpong Weerasethakul, gravado na Col\u00f4mbia e com atua\u00e7\u00e3o de dois atores da pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Para erguer a montagem eles fizeram uma cuidadosa pesquisa cruzando textos &nbsp;cient\u00edficos e ficcionais, articulando potente material visual, sons eletr\u00f4nicos e m\u00fasica ao vivo e o resultado \u00e9 uma enxurrada de imagens, arranjadas em variadas velocidades e combina\u00e7\u00f5es que se assemelha a uma viagem lis\u00e9rgica.<\/p>\n<p>&nbsp;S\u00e3o muito graves den\u00fancias de destrui\u00e7\u00e3o, assassinatos, apropria\u00e7\u00f5es que o grupo faz com no espet\u00e1culo. A trupe fala em resist\u00eancia po\u00e9tica das \u00e1reas da floresta contra uma poss\u00edvel nova coloniza\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o consegui abra\u00e7ar em plenitude o excesso de informa\u00e7\u00f5es, imagens, jogos visuais e gr\u00e1ficos, dramaturgia desse quase-manifesto.<\/p>\n<div id=\"attachment_24478\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/6_BRASA-de-Tiago-CAdete_BoCa2021_\u00a9brunosimao_-1536x1024-1-e1665593259647.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24478\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24478\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/6_BRASA-de-Tiago-CAdete_BoCa2021_\u00a9brunosimao_-1536x1024-1-e1665593259647.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24478\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Brasa, <\/strong>de Tiago Cadete. Foto: Bruno Sim\u00e3o \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Brasa &#8211; Tiago Cadete\/Co-Pacabana<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e9culos se passaram desde a chegada dos portugueses ao que hoje chamamos de Brasil. Depois disso, sabemos agora com mais consci\u00eancia (tor\u00e7o), vieram a coloniza\u00e7\u00e3o, evangeliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, escraviza\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios e dos trazidos for\u00e7osamente da \u00c1frica, tudo isso realizado com muita viol\u00eancia e incalcul\u00e1vel n\u00famero de mortos. Tiago Cadete \u00e9 um criador lus\u00f3fono que investiga os impactos desses processos e as rela\u00e7\u00f5es entre Brasil e Portugal atualmente.<\/p>\n<p><em><strong>Brasa<\/strong><\/em>, de Cadete examina essas negocia\u00e7\u00f5es atuais desse ato de cruzar os oceanos de antigos colonizadores e colonizados, agora motivado por outras ordens e o aumento das migra\u00e7\u00f5es de brasileiros para Portugal.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Tiago Cadete vivenciou esse tr\u00e2nsito entre entre Lisboa e Rio de Janeiro nos \u00faltimos oito anos. Artista performativo e visual, o portugu\u00eas veio ao Brasil para cursar p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ao lado de cocriadores migrantes dos dois pa\u00edses &#8211; Isab\u00e9l Zuaa, Julia Salem, Keli Freitas, Magnum Alexandre Soares, Ana Lobato, Dori Nigro, Gustavo Cir\u00edaco e Raquel Andr\u00e9 -, Cadete constr\u00f3i sua <strong><em>Brasa<\/em> <\/strong>de cr\u00edtica hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Na pe\u00e7a ele exp\u00f5e atritos de percep\u00e7\u00f5es e converg\u00eancias e tenta aprofundar a an\u00e1lise em algumas perspectivas. Leva \u00e0 cena com doses de humor a \u201cCarta do Achamento do Brasil\u201d, do Pero Vaz Caminha, desdobrada em outras sequ\u00eancias em que s\u00e3o exploradas quest\u00f5es de xenofobia e a\u00e7\u00f5es antidemocr\u00e1ticas de v\u00e1rios tipos, em graus ampliados.<\/p>\n<p>A plateia \u00e9 alojada em um dos dois espa\u00e7os cenogr\u00e1ficos e acompanha imagens de uma floresta em chamas, dan\u00e7a das caveiras, refer\u00eancias ao futebol, \u00e0 l\u00edngua, aos sentimentos &nbsp;para fazer arder um pensamento cr\u00edtico sem subservi\u00eancia. &nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_24483\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Discurso-de-Promocion_Yuyachkani_Musuk-Nolte-22-1536x1024-1-e1665598743736.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24483\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24483\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Discurso-de-Promocion_Yuyachkani_Musuk-Nolte-22-1536x1024-1-e1665598743736.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24483\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Discurso de Promocion<\/strong>, com o Grupo Yuyachkani. Foto:Musuk Nolte \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24484\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Discurso-de-Promocion.-Yuyachkani.-Foto-Musuk-Nolte.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24484\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-24484 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Discurso-de-Promocion.-Yuyachkani.-Foto-Musuk-Nolte-e1665598800711.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24484\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Discurso de Promocion<\/strong>, com o Grupo Yuyachkani. Foto:Musuk Nolte \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Discurso de Promocion &#8211; <\/strong>Grupo Yuyachkani<\/p>\n<p>O grupo peruano Yuyachkani explora uma linha memorial\u00edstica em seus trabalhos e em <strong><em>Discurso de promoci\u00f3n<\/em> <\/strong>(Festa de formatura) passa em cena o bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Peru, agenciando criticamente as heran\u00e7as coloniais. Existe uma exuber\u00e2ncia na cena que beira o ca\u00f3tico e o exagero para apresentar v\u00e1rios per\u00edodos hist\u00f3ricos e a cr\u00edtica a esses momentos. A trupe teatral nascida em 1971 tem uma import\u00e2ncia indiscut\u00edvel para o mapa das artes do seu pa\u00eds, tanto por sua atua\u00e7\u00e3o coletiva quanto pelas escolhas pol\u00edticas, das teatralidades peruanas e das tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>O Yuyachkani utiliza nas suas obras arquivo documental, fotografia, instala\u00e7\u00e3o, dan\u00e7a e jogo, valoriza\u00e7\u00e3o do corpo no espa\u00e7o e ativismo cidad\u00e3o, como eles chamam. Sob a dire\u00e7\u00e3o de Miguel Rubio Zapata, <em><strong>Discurso de promoci\u00f3n <\/strong><\/em>tem de tudo isso um pouco, de forma muito intensa. Entre a\u00e7\u00f5es performativas, envolvendo cultura popular e dispositivos do teatro document\u00e1rio s\u00e3o mais de duas horas.<\/p>\n<p>Apresentado no Herval 33, uma esp\u00e9cie de grande galp\u00e3o em Santos, a a\u00e7\u00e3o se deslocava no espa\u00e7o c\u00eanico e o p\u00fablico precisava acompanhar as andan\u00e7as, ora sentando-se no ch\u00e3o, ora ficando em p\u00e9, o que provocou um cansa\u00e7o desnecess\u00e1rio. H\u00e1 de ter outras solu\u00e7\u00f5es menos inc\u00f4modas para a frui\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o passa por v\u00e1rios estados \u2013 do festivo ao f\u00fanebre \u2013 e come\u00e7a com uma esp\u00e9cie de quermesse em que estudantes com um civismo cego exaltam o bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia e com apresenta\u00e7\u00f5es amadoras buscam arrecadar dinheiro para a formatura da turma, que ser\u00e1 comemorada com uma excurs\u00e3o a Machu Picchu, cidade edificada pelos incas.<\/p>\n<p>O segundo ato d\u00e1 uma guinada para a revis\u00e3o cr\u00edtica dos her\u00f3is oficiais e de outras representa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. S\u00e3o muitos dados espec\u00edficos da contesta\u00e7\u00e3o dos atos emancipat\u00f3rios e da ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os de liberta\u00e7\u00e3o por homens brancos com algum destaque pol\u00edtico ou religioso e a representa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria do povo. \u00c9 extremamente louv\u00e1vel essa cr\u00edtica e autocritica no trato da hist\u00f3ria. Mas h\u00e1 dificuldade de recep\u00e7\u00e3o para a cena, principalmente para quem n\u00e3o \u00e9 do pa\u00eds do Yuyachkani.<\/p>\n<p><div id=\"attachment_24487\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/FRONTEIRA_FRACASSO-Rafael-Telles-_-47-1536x1024-1-e1665614321694.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24487\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24487\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/FRONTEIRA_FRACASSO-Rafael-Telles-_-47-1536x1024-1-e1665614321694.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24487\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Fronte[i]ra |Fracas[s]o, <\/strong>parceria do Teatro de Los Andes e Clowns de Shakespeare Foto: Rafael Telles&nbsp; \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div><strong>Fronte[i]ra |Fracas[s]o &#8211; Teatro de Los Andes e Clowns de Shakespeare<\/strong><\/p>\n<p>Da parceria de duas importantes trupes c\u00eanicas de pesquisa, o Teatro de Los Andes, de Yotala, na Bol\u00edvia, com os brasileiros do Clowns de Shakespeare, de Natal (RN), nasceu o trabalho c\u00eanico <em><strong>Fronte[i]ra |Fracas[s]o<\/strong><\/em>, que come\u00e7ou a ser gestado no ambiente digital.<\/p>\n<p>Parece-me um espet\u00e1culo com muito caminho pela frente, de reajustes dos procedimentos escolhidos. Na primeira parte, no p\u00e1tio do espa\u00e7o Arcos do Valongo, os atores exp\u00f5em o processo criativo das trupes, dividindo a plateia em grupos menores para escutar as hist\u00f3rias das pesquisas de campo nas cidades de Brasil\u00e9ia, no Acre, e Cobija, no Departamento de Pando, na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>O procedimento dos pequenos deslocamentos no local, at\u00e9 a a\u00e7\u00e3o de pular corda mostrou-se como muito esfor\u00e7o para pouca frui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No segundo momento \u00e9 apresentada uma f\u00e1bula que orbita em torno do pren\u00fancio da divis\u00e3o territorial de um vilarejo fict\u00edcio. Com presen\u00e7as mornas no palco e um cansa\u00e7o evidente por toda a luta empreendida, o espet\u00e1culo n\u00e3o empolgou na apresenta\u00e7\u00e3o de estreia no Mirada.<\/p>\n<p>Todo e qualquer rev\u00e9s registrado na cena, na minha opini\u00e3o, \u00e9 reflexo das garras insaci\u00e1veis do capitalismo. As nefastas a\u00e7\u00f5es (ou desa\u00e7\u00f5es) de pol\u00edticas culturais que v\u00eam tentando sufocar os artistas, no Brasil e em outros pa\u00edses, tem repercuss\u00f5es no corpo individual e no corpo de cada conjunto.<\/p>\n<p>Na encena\u00e7\u00e3o, o elenco fala que outros atores e atrizes foram embora, largaram os grupos, ou at\u00e9 mesmo deixaram (espero que momentaneamente) o teatro para conseguirem sobreviver em outra fun\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 muito grave e al\u00e9m das quest\u00f5es pol\u00edticas dos territ\u00f3rios, o que me chamou mais aten\u00e7\u00e3o foram esses relatos dilu\u00eddos em meio \u00e0 f\u00e1bula. A sobreviv\u00eancia dos artistas, a integridade de seus grupos, \u00e9 uma quest\u00e3o urgente a se pensar.<\/p>\n<div id=\"attachment_24486\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/DRAGON-CREDITO-EUGENIA-PAZ-1-1536x1025-1-e1665613942299.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24486\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24486\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/DRAGON-CREDITO-EUGENIA-PAZ-1-1536x1025-1-e1665613942299.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24486\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Drag\u00f3n, <\/strong>de Guillermo Calder\u00f3n. Foto: Eugenia Paz \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Drag\u00f3n<\/strong>, do dramaturgo chileno Guillermo Calder\u00f3n leva para a cena uma crise art\u00edstica. Enquanto articula o pr\u00f3ximo projeto, o coletivo teatral Drag\u00f3n \u2013 que se re\u00fane periodicamente no restaurante Plaza Italia, na regi\u00e3o central de Santiago &#8211; v\u00ea emergir um conflito interno incontorn\u00e1vel entre seus integrantes. Eles tinham elegido o tema da trai\u00e7\u00e3o e o motivo se transforma em contexto. Qual a posi\u00e7\u00e3o da arte nas batalhas pol\u00edticas?<\/p>\n<p>O historiador negro Walter Rodney (1942-1980), da Guiana, um panafricanista, e ativista pol\u00edtico, morto v\u00edtima de atentado \u00e0 bomba, em 1980, aos 38 anos, \u00e9 uma das inspira\u00e7\u00f5es da dramaturgia. Ele \u00e9 citado nas conversas do coletivo. As t\u00e9cnicas do teatro do oprimido, mais especificamente a do teatro invis\u00edvel, do diretor Augusto Boal (1931-2009) est\u00e3o entre as refer\u00eancias como m\u00e9todo de a\u00e7\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n<p>Falso e verdadeiro em tempos de fake News.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a prop\u00f5e um debate \u00e9tico sobre o que artistas podem apresentar e quem eles podem representar e de que forma. A maneira, a inflex\u00e3o, acentua\u00e7\u00e3o, modula\u00e7\u00e3o. Configura-se que o grupo cai na pr\u00f3pria armadilha. Ao deixar o Chile e escolher a Am\u00e9rica Latina como cen\u00e1rio, na sess\u00e3o que vi no Mirada o grupo adota o Brasil como territ\u00f3rio das suas refer\u00eancias. N\u00e3o foi bom, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Calder\u00f3n j\u00e1 havia dito em alguma entrevista sobre <strong><em>Drag\u00f3n<\/em> <\/strong>que procurou \u201cum novo sentido de humor, uma renovada ideia de com\u00e9dia\u201d.<\/p>\n<p>O tom das refer\u00eancias ao Brasil \u2013 de deboche e de esc\u00e1rnio \u2013 faz perguntar at\u00e9 onde pode ir um artista ao formular enunciados ou tomar o lugar da representa\u00e7\u00e3o. Em uma cena, algu\u00e9m do elenco utiliza uma peruca para falar de cotas para negros no Brasil. Isso foi incendi\u00e1rio. &nbsp;<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Com racismo entranhado nas estruturas deste pa\u00eds, me parece que Calder\u00f3n n\u00e3o tinha o direito de fazer esse tratamento. Com o Brasil tingido de sangue principalmente dos negros e uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deplor\u00e1vel, \u00e9 inaceit\u00e1vel determinadas alus\u00f5es.<\/p>\n<p>Para fazer uma exposi\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es latentes o autor precisaria ter mais propriedade de fala. O humor \u00e1cido n\u00e3o \u00e9 um salvo-conduto para enfiar um pa\u00eds nas suas experimenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O breve e acalorado debate que se seguiu \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o no Mirada trouxe a tona a indigna\u00e7\u00e3o de parte da plateia com os procedimentos levados ao palco, que chegaram como zombaria, esc\u00e1rnio. Ou uma atitude t\u00e3o arrogante de um artista que mostrou desprezo, desconsidera\u00e7\u00e3o ou insensibilidade com as linhas t\u00eanues do que \u00e9 poss\u00edvel performar e representar na casa alheia. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Ou, como diz Pollyanna Diniz, a pe\u00e7a reproduz no palco o que a gente condena na arte. <em><strong>Drag\u00f3n<\/strong> <\/em>explicita (e \u00e9) uma arte branca, falsamente engajada, que n\u00e3o sabe se posicionar de modo efetivo, mas faz barulho. A cena conduz a cr\u00edtica a partir da reprodu\u00e7\u00e3o do modelo criticado. E o tra\u00eddo \u00e9 o espectador. Ser\u00e1 que para criticar o modo como fazemos arte precisamos insistir nos mesmos moldes? Vamos tentar ampliar para problematizar as escolhas: ser\u00e1 que, para criticar o machismo, \u00e9 necess\u00e1rio reproduzir o machismo em cena? Para criticar uma viol\u00eancia, \u00e9 preciso reproduzir viol\u00eancia? Neste caso, o espectador \u00e9 o tra\u00eddo, aquele que encontrou no palco uma dramaturgia, entendida de modo ampliado, que apenas reitera o que critica.<\/p>\n<div id=\"attachment_24489\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/cosmos_redes-sociaisc2a9filipe-ferreira2-e1665615764749.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24489\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-24489 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/cosmos_redes-sociaisc2a9filipe-ferreira2-e1665615764749.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"364\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24489\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cosmos<\/strong>, Cleo Di\u00e1ra, Isab\u00e9l Zuaa, N\u00e1dia Yracema. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong><em>Cosmos &#8211;<\/em>&nbsp;Cleo Di\u00e1ra, Isab\u00e9l Zuaa, N\u00e1dia Yracema <\/strong><\/p>\n<p>Dois momentos do espet\u00e1culo Cosmos ficaram acesos na mem\u00f3ria, a da vibra\u00e7\u00e3o do corpo coletivo, da grandeza para fazer a revolu\u00e7\u00e3o, com pot\u00eancia para inventar novos mundos.<\/p>\n<p>A jornada interplanet\u00e1ria de <strong><em>Cosmos<\/em><\/strong>, das artistas Cleo Di\u00e1ra, Isab\u00e9l Zuaa, N\u00e1dia Yracema e elenco \u00e9 feita de feixes de luz para transportar personagens entre guerras, atravessar fome e pandemia, enfrentar o capitalismo selvagem e o racismo e seguir em busca de liberdade.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a fala de cria\u00e7\u00e3o de um novo mundo, mas que existem outros antecedentes. As artistas de linhagens cabo-verdiana, angolana e portuguesa buscam na mitologia africana e no afrofuturismo as sustenta\u00e7\u00f5es do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Desse trajeto pelo <strong><em>Mirada<\/em><\/strong>, os sinais emanados do palco que chegam \u00e9 que as democracias est\u00e3o sempre em risco. \u00c9 disso que o teatro est\u00e1 falando. Que o mundo \u00e9 \/ est\u00e1 desumano, n\u00f3s j\u00e1 sabemos. Mas mesmo com todo o hist\u00f3rico de coloniza\u00e7\u00e3o, golpes de estado, e viol\u00eancia h\u00e1 sempre inje\u00e7\u00f5es de \u00e2nimos na veia pol\u00edtica, como prop\u00f5e <strong><em>Erup\u00e7\u00e3o<\/em> <\/strong>e da po\u00e9tica como investe <em><strong>Hamlet<\/strong><\/em>. At\u00e9 o pr\u00f3ximo festival <em><strong>Mirada!<\/strong><\/em><\/p>\n<ul>\n<li><strong>A jornalista e cr\u00edtica Ivana Moura viajou a convite da organiza\u00e7\u00e3o<\/strong> <strong>do Mirada 2022 \u2013 Festival Ibero-Americano de Artes C\u00eanicas e do Sesc S\u00e3o Paulo<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiz minha pequena maratona pelos bosques do Mirada. 13 espet\u00e1culos + um e uma abertura de processo em seis dias, de 12 a 17 de setembro. Minha curadoria particular seguiu alguns crit\u00e9rios. Montagens com maior dificuldade de ver depois, visto que n\u00e3o desceriam a serra ou pouco provavelmente circulariam pelo Brasil. 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