{"id":24401,"date":"2022-10-24T20:24:27","date_gmt":"2022-10-24T23:24:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=24401"},"modified":"2022-10-24T20:24:27","modified_gmt":"2022-10-24T23:24:27","slug":"ledores-no-breucritica-dossie-aldeia-do-velho-chico-2022-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ledores-no-breucritica-dossie-aldeia-do-velho-chico-2022-5\/","title":{"rendered":"Ledores no breu<\/br>Cr\u00edtica <\/br>Dossi\u00ea Aldeia do Velho Chico 2022 <\/br>#5"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_24402\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim-scaled-e1664837997176.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24402\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24402\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim-scaled-e1664837997176.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24402\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Ledores no Breu <\/strong>foi apresentado no Teatro Dona Am\u00e9lia. Foto Andr\u00e9 Amorim \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24403\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_87-scaled-e1664838275965.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24403\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24403\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_87-scaled-e1664838275965.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24403\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em <strong>Ledores no Breu<\/strong>. Foto Andr\u00e9 Amorim \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Dinho Lima Flor \u00e9 um ator intenso, visceral. Sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 marcada pela entrega, pela emo\u00e7\u00e3o e pela sintonia fina com a plateia. Rebento do teatro Ventoforte, do saudoso Ilo Krugli, ele se doa apaixonante enquanto int\u00e9rprete. Sua Cia. do Tijolo foi tramada na conviv\u00eancia com Krugli. Essa trupe faz teatro contempor\u00e2neo alimentado pela seiva da cultura popular. Da melhor mistura de ethos e pathos, que conjuga o epos e a l\u00edrica, a depender do contexto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 no in\u00edcio a trupe paulistana seguiu os passos de Patativa do Assar\u00e9 nos repentes, na poesia, na vida do artista cearense para erguer o belo trabalho <strong><em>Concerto de Ispinho e Ful\u00f4<\/em><\/strong>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Al\u00e9m do lirismo, <strong><em>Cantata para um Bastidor de Utopias<\/em><\/strong> est\u00e1 carregada da por\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de liberta\u00e7\u00e3o. Para falar dos an\u00f4nimos em busca por justi\u00e7a, a pe\u00e7a junta tr\u00eas eixos hist\u00f3ricos: o enforcamento &#8211; em 1831 &#8211; de Mariana Pineda, jovem hero\u00edna que desafiou o autoritarismo do Rei Fernando VII bordando uma bandeira para os liberais; o assassinato de Federico Garc\u00eda Lorca em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola; e a ditadura militar brasileira (1964-1985) e suas repercuss\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Com <strong><em>O Avesso do Claustro<\/em><\/strong> o grupo leva ao palco a trajet\u00f3ria de Dom Helder Camara (1909-1999), o Bispo Vermelho, \u201cemblem\u00e1tica personagem nas hist\u00f3ricas lutas de resist\u00eancia pol\u00edtica durante o regime militar e na aproxima\u00e7\u00e3o da igreja cat\u00f3lica com as demandas dos movimentos sociais\u201d, como dizem os artistas do Tijolo, numa montagem que junta simbioticamente poesia, m\u00fasica e teatro.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_24404\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_159-scaled-e1664838473313.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24404\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24404\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_159-scaled-e1664838473313.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24404\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Dinho Lima Flor em <strong>Ledores no Breu<\/strong>. Foto: Andr\u00e9 Amorim<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24405\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_122-scaled-e1664838675768.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24405\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24405\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_122-scaled-e1664838675768.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24405\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Ledores no Breu<\/strong> participou da <strong>Aldeia do Velho Chico 2022<\/strong>. Foto: Andr\u00e9 Amorim \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24406\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_178-scaled-e1664839362830.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24406\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24406\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_178-scaled-e1664839362830.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24406\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Ledores no Breu. <\/strong>Foto Andr\u00e9 Amorim \/&nbsp; Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Em <strong><em>Ledores no Breu<\/em><\/strong> \u2013 solo do pernambucano de Tacaimb\u00f3 Dinho Lima Flor, sob dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo Mercadante \u2013 \u00e9 o corpo do ator que conduz a plateia pela escurid\u00e3o dos que n\u00e3o leem, uma esp\u00e9cie de cegueira para interpretar o mundo letrado e os feixes de luz que podem chegar com a alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Paulo Freire, Patativa do Assar\u00e9, Frei Betto, L\u00eado Ivo (com <strong><em>Os pobres na esta\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>), Guimar\u00e3es Rosa, Luis Fernando Ver\u00edssimo, Z\u00e9 da Luz e mais recentemente Maria Val\u00e9ria Rezende s\u00e3o convocades para a rede. E mais, sons e m\u00fasicas de Cartola, Jackson do Pandeiro, Chico C\u00e9sar, Manu Chao, <strong><em>Palavras<\/em><\/strong>, de Gonzaguinha e <strong><em>Samba da utopia<\/em><\/strong>, de Jonathan Silva (criado especialmente para a pe\u00e7a).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Can\u00e7\u00f5es, relatos, causos, epis\u00f3dios comp\u00f5em essa teia dramat\u00fargica de descobertas emocionadas das letras \u2013 caso de Joaquim que comp\u00f5e a primeira palavra, o nome da sua amada Nina, contada por Paulo Freire de sua experi\u00eancia em sala de aula. E o lance da menina proibida pelo pai de estudar por ser mulher, que enfrenta a implac\u00e1vel ordem paterna e decide aprender a ler com a ajuda de uma amiga, com graveto na areia em vez de l\u00e1pis e papel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Ou a narrativa de Patativa do Assar\u00e9 que diz que largou de ser \u201cmatador de passarinho\u201d, que fazia por divers\u00e3o como outros meninos da sua idade, e seguiu a imitar os cantos desses animais voadores. &nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Como uma atua\u00e7\u00e3o ardente, Dinho Lima Flor passeia por v\u00e1rios estilos interpretativos, transita pela comicidade popular, vai ao exagero, testa a sutileza, comenta temas atuais, se avizinha do tr\u00e1gico. Muito habilmente cria seu jogo na rela\u00e7\u00e3o com a plateia, assume a performance, convoca personagens, finge que encarna e sai. Cobra pelos \u00edndices de analfabetismo no Brasil em pleno s\u00e9culo 21.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 uma exuber\u00e2ncia de muitos teatros. Cumplicidade \u00edntima com o p\u00fablico magnetizado na troca de afetos, dan\u00e7as e abra\u00e7os carinhosos, materiais e simb\u00f3licos. Com a prosa\/verso e o corpo desse ator, a palavra encanta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O figurino branco vai sendo enodoado de carv\u00e3o no decorrer da cena, o mesmo carv\u00e3o que serve para escrever e provocar rea\u00e7\u00f5es sensoriais. Carteiras escolares fazem parte da composi\u00e7\u00e3o. &nbsp;Rolos grandes de papel pardo s\u00e3o desenrolados para formar estradas e suportes para a escrita. A dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo Mercadante estimula ritmos, andamentos, revolucionando emo\u00e7\u00f5es do ator e agitando as sensibilidades do p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Mulheres portam faixam com express\u00f5es como \u201cMais escolas e menos cadeias\u201d, em um v\u00eddeo de manifesta\u00e7\u00f5es. &nbsp;Sabemos que o analfabetismo, o n\u00e3o letramento, \u00e9 uma estrat\u00e9gia de subjuga\u00e7\u00e3o dos governos n\u00e3o democr\u00e1ticos. Isso \u00e9 um problema, diria at\u00e9 um crime, um confisco de direitos dos mais pobres \u2013 causa e consequ\u00eancia da falta de oportunidades; uma pol\u00edtica de opress\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios muitas vezes associada a desvios de recursos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Na <em><strong>Aldeia do Velho Chico<\/strong><\/em>, realizado em Petrolina no m\u00eas de agosto, no palco do Teatro Dona Am\u00e9lia, do Sesc, com os espectadores tamb\u00e9m no tablado, magnetizados, a sess\u00e3o n\u00e3o utilizou os recursos dos v\u00eddeos, mas eles fazem parte da obra. &nbsp;<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_24494\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_188-scaled-e1665742217386.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24494\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24494\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_188-scaled-e1665742217386.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24494\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">A palavra escrita com carv\u00e3o em <strong>Ledores do Breu<\/strong>. Foto: Andr\u00e9 Amorim<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_24496\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_37-scaled-e1665747618482.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-24496\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-24496\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/26.08-Ledores-no-Breu-Foto-Andre-Amorim_37-scaled-e1665747618482.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-24496\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Ledores no Breu<\/strong> &#8211; Foto Andr\u00e9 Amorim<\/span><\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Marcas de tirania &#8211; O iletrado <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Deixei para analisar por derradeiro o eixo da pe\u00e7a que tem por texto <strong><em>Confiss\u00e3o de Caboclo<\/em><\/strong>, do poeta Z\u00e9 da Luz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 escrevi outra <a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/critica-ledores-do-breu\/\">cr\u00edtica Ledores no Breu<\/a> e segui o caminho da grandeza de Paulo Freire e da interpreta\u00e7\u00e3o de Dinho Lima Flor, como fa\u00e7o at\u00e9 aqui. Mas tinha algo que me incomodava no espet\u00e1culo, que dessa vez ficou evidente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Por n\u00e3o saber ler, um homem comete um crime contra sua companheira. Desde que foi publicado, o poema <strong><em>Confiss\u00e3o de Caboclo<\/em><\/strong>, de Z\u00e9 da Luz, \u00e9 reiteradamente lido \/ interpretado dessa forma. A ignor\u00e2ncia aparece como a causadora da morte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Mais al\u00e9m do analfabetismo que \u00e9 apontado com o grande mal a ser combatido, o poema de Z\u00e9 da Luz &#8211; um dos pilares do espet\u00e1culo &#8211; precisa de uma atualiza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dentro da encena\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"text-decoration: line-through;\">A ignor\u00e2ncia de uma determinada regra n\u00e3o \u00e9 suficiente para inocentar quem a viola<\/span>. As mulheres historicamente sofreram \/ sofrem opress\u00f5es e viol\u00eancias de v\u00e1rias naturezas, em v\u00e1rias grada\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 absolutamente insustent\u00e1vel que a cruel, odiosa e desumana tese de leg\u00edtima defesa da honra tenha sido usada durante tanto tempo para proteger os homens acusados\/autores de feminic\u00eddio. Foi sim usada como argumento por advogados que desdenharam os princ\u00edpios da dignidade humana, da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, da igualdade de g\u00eanero (que infelizmente ainda n\u00e3o existe em sua plenitude).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Muitos homens foram absorvidos com esse escudo ap\u00f3s matar uma mulher, sob alega\u00e7\u00e3o do t\u00e9rmino ou trai\u00e7\u00e3o em uma vincula\u00e7\u00e3o afetiva.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O poeta Severino de Andrade Silva, mais conhecido como Z\u00e9 da Luz (1904 &#8211; 1965)&nbsp;foi um poeta popular paraibano, que publicava em forma de cordel. Escreveu entre outros <strong><em>Brasi Cab\u00f4co<\/em><\/strong>, <strong><em>A Cacimba<\/em><\/strong>, <strong><em>As Fl\u00f4 de Puxinan\u00e3<\/em><\/strong>, <strong><em>A Terra Caiu no Ch\u00e3o<\/em><\/strong>, <strong><em>Ai! Se S\u00easse!&#8230;<\/em><\/strong>, <strong><em>Sert\u00e3o em carne e osso<\/em><\/strong>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>Confiss\u00e3o de Caboclo<\/em> <\/strong>encerra com a express\u00e3o &#8220;que crime n\u00e3o saber ler&#8221;, depois que o narrador descobre que Rosa Maria n\u00e3o o traiu, motivo que ele explica ao delegado de ter tirado a vida da mulher que ele diz que amava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Alguns estudiosos apontam que o poema trata do analfabetismo como um crime social. \u00c9 preciso mudar essa lente de leitura. Existe um crime de feminic\u00eddio. E o n\u00e3o letramento da personagem que mata n\u00e3o pode ser atenuante para o assassinato. Mulher n\u00e3o \u00e9 objeto que pode ser descartada \/ assassinada quando n\u00e3o corresponde \u00e0s expectativas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">No espet\u00e1culo <em><strong>Ledores no Breu<\/strong> <\/em>o narrador confessa que matou Rosa Maria por suspeita que ela o tra\u00eda com Chico Faria, seu antigo noivo. N\u00e3o existe prova da trai\u00e7\u00e3o. Apenas uma carta que o personagem-narrador n\u00e3o sabe decifrar. Por tr\u00e1s dessa carta \u00e9 urdida a defesa dessa figura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A personagem de Z\u00e9 da Luz \u00e9 apresentada como um homem bom, trabalhador e apaixonado por sua esposa. &nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A quest\u00e3o que se apresenta \u00e9 que o ator defende sua personagem como um homem que, que guiado por fortes emo\u00e7\u00f5es (\u201cCego de raiva e paix\u00e3o\u201d), assassina a mulher do poema com um fac\u00e3o. E isso \u00e9 feito em camadas de envolvimento emocional com a plateia. Sua personagem \u00e9 defendida com garra, recebendo os componentes mais humanizados, o que faz com que o feminic\u00eddio da fic\u00e7\u00e3o se torne um ato naturalizado dentro do contexto exposto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Um feminic\u00eddio \u00e9 um feminic\u00eddio. Falta essa dobra dentro do espet\u00e1culo. Pois todo o abra\u00e7amento em favor do autor da a\u00e7\u00e3o \u00e9 narrado pelo ponto de vista do assassino. O espet\u00e1culo \u00e9 composto de fragmentos e esse epis\u00f3dio da <strong><em>Confiss\u00e3o de caboclo<\/em><\/strong> est\u00e1 est\u00e1 dividido em dois momentos, entrecortados por outras situa\u00e7\u00f5es e m\u00fasicas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>Ledores no Breu<\/em><\/strong> \u00e9 uma pe\u00e7a que estreou em 2014. Muitos avan\u00e7os na esteira dos direitos da mulher ocorreram. E fica dif\u00edcil receber o caboclo narrador apenas com o sofrimento que ele passa, sem fazer um giro de perspectiva desse <em>pathos<\/em> para a Rosa Maria assassinada. Algo de <em>epos<\/em> para problematizar a cena ou algum outro procedimento. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A cumplicidade amorosa, o envolvimento na pe\u00e7a n\u00e3o pode suplantar o fato de que uma mulher foi assassinada. N\u00e3o existem motivos para uma mulher ser morta. E isso n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. A personagem marido n\u00e3o pode receber a indulg\u00eancia da plateia enquanto o olhar para a mulher \u00e9 de que essas coisas acontecem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Ent\u00e3o, creio que <strong><em>Ledores no Breu<\/em> <\/strong>precisa de uma pequena revis\u00e3o para honrar o que o grupo representa no cen\u00e1rio teatral e saudar os valores que s\u00e3o defendidos em seus espet\u00e1culos. O patriarcado continua ainda hoje, s\u00e9culo 21, a naturalizar assassinatos de mulheres (cis e trans) feitos por homens rejeitados e desequilibrados, que encontram pretextos reais ou imagin\u00e1rios para suas terr\u00edveis atitudes. Mas n\u00e3o d\u00e1 para deixar que arte comprometida com o humanismo fa\u00e7a romantiza\u00e7\u00e3o de um assassinato.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o sei como isso poder\u00e1 ser executado em cena. \u00c9 contigo Mercadante. \u00c9 contigo Lima Flor. \u00c9 contigo Cia. do Tijolo. Romper com o que Paulo Freire chamou de \u201ccultura do sil\u00eancio\u201d e transformar os analfabetos em protagonistas de suas hist\u00f3rias \u00e9 tamb\u00e9m expor a responsabilidade do relacionamento com o mundo ao redor.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dinho Lima Flor \u00e9 um ator intenso, visceral. Sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 marcada pela entrega, pela emo\u00e7\u00e3o e pela sintonia fina com a plateia. Rebento do teatro Ventoforte, do saudoso Ilo Krugli, ele se doa apaixonante enquanto int\u00e9rprete. Sua Cia. do Tijolo foi tramada na conviv\u00eancia com Krugli. 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