{"id":23932,"date":"2022-04-27T11:26:36","date_gmt":"2022-04-27T14:26:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=23932"},"modified":"2022-04-27T19:09:37","modified_gmt":"2022-04-27T22:09:37","slug":"um-beckett-memoravel-em-sao-paulo-critica-de-esperando-godot-por-dirce-waltrick-do-amarante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/um-beckett-memoravel-em-sao-paulo-critica-de-esperando-godot-por-dirce-waltrick-do-amarante\/","title":{"rendered":"Um Beckett memor\u00e1vel em S\u00e3o Paulo  <\/br>Cr\u00edtica de &#8220;Esperando Godot&#8221;<br> por Dirce Waltrick do Amarante*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_23974\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/L3190025-scaled-e1651065684180.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23974\" loading=\"lazy\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"wp-image-23974 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/L3190025-scaled-e1651065684180.jpg\" alt=\"<strong><p id=\"caption-attachment-23974\" class=\"wp-caption-text\">Esperando Godot<\/strong>, montagem do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Foto Ivana Moura&#8221; width=&#8221;600&#8243; height=&#8221;338&#8243;><\/a> <strong>Esperando Godot<\/strong>, montagem do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Fotos Ivana Moura<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23967\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Godot-ivmoura_auto_x2-scaled-e1651023094339.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23967\" loading=\"lazy\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"wp-image-23967 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Godot-ivmoura_auto_x2-scaled-e1651023094339.jpg\" alt=\"<strong><p id=\"caption-attachment-23967\" class=\"wp-caption-text\">Esperando Godot<\/strong>, montagem do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Foto Ivana Moura&#8221; width=&#8221;600&#8243; height=&#8221;400&#8243;><\/a> Tony Reis (\u00e0 direita) faz o malandro Z\u00e9 Pelintra<\/p><\/div>\n<p>Escrita em apenas quatro meses, no ano de 1949, <em>Esperando Godot<\/em>, a pe\u00e7a mais conhecida do escritor irland\u00eas Samuel Beckett, estreou somente em 1953, no Th\u00e9\u00e2tre de Babylone, em Paris. Desde ent\u00e3o, h\u00e1 mais de sessenta anos esperamos Godot, mas parece (ou parecia) que n\u00e3o h\u00e1 \u201cnada a fazer\u201d, como diz uma frase que retorna regularmente \u00e0 boca das personagens, pois Godot n\u00e3o vem, e a espera \u00e9 o grande tema da pe\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n<p>Em dois atos, Estragon (Gogo) e Vladimir (Didi) esperam em v\u00e3o e a eles se juntam Lucky, Pozzo e um menino. Ainda que nada aconte\u00e7a, Beckett considerava <em>Godot<\/em> \u201cuma obra muito movimentada, um tipo de <em>western<\/em>\u201d<em>. <\/em>Essa \u00e9 a movimenta\u00e7\u00e3o que se v\u00ea na nova adapta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, a terceira do Teat(r)o Oficina, dirigida por Z\u00e9 Celso, que ritualizou Beckett, devorou, literalmente, Godot e o expeliu em <em>terra brasilis<\/em>.&nbsp;<\/p>\n<p>A pe\u00e7a, que recentemente esteve em cartaz no Sesc Pompeia, mas retorna de 5 de maio a 3 de junho, de quinta a domingo, no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, inicia com raios e trov\u00f5es. Mas, por aqui, depois da tempestade n\u00e3o vem a bonan\u00e7a, para me valer de um clich\u00ea t\u00e3o pr\u00f3prio da linguagem de <em>Esperando Godot.<\/em> O que se v\u00ea \u00e9 a \u00e1rvore seca do cen\u00e1rio beckettiano e um peda\u00e7o de muro ou parede no lugar da pedra do cen\u00e1rio original.&nbsp; \u00c9 a cena de uma hecatombe dos dias atuais e poderia aludir a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, quando, depois de tempestades, o que se v\u00ea s\u00e3o inunda\u00e7\u00f5es e destrui\u00e7\u00e3o de todas as ordens. A natureza j\u00e1 est\u00e1 destru\u00edda, n\u00e3o h\u00e1 mais \u201cnada a fazer\u201d. Na adapta\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Celso as guerras recentes tamb\u00e9m s\u00e3o lembradas. O mundo n\u00e3o teria mudado muito desde 1949. Por isso, uma das frases de Didi, repetida nessa montagem, segue sendo bastante atual: \u201cSer\u00e1 que dormi, enquanto os outros sofriam? Ser\u00e1 que durmo agora? Amanh\u00e3, quando pensar que estou acordando, o que direi desta jornada?\u201d.&nbsp;<\/p>\n<p>Os atores est\u00e3o \u00e0 vontade nesse universo que exige uma atua\u00e7\u00e3o bastante particular diante dos lugares-comuns que devem proferir e da banalidade das situa\u00e7\u00f5es. Como diz o cr\u00edtico canadense Hugh Kenner, \u201ca ess\u00eancia da pe\u00e7a \u00e9, para ser breve, uma experi\u00eancia humana t\u00e3o banal quanto h\u00e1\u201d.&nbsp; O par principal, Didi e Gogo, interpretado por Alexandre Borges e Marcelo Drummond, respectivamente, n\u00e3o se furta a improvisar. Ricardo Bittercourt, no papel de Pozzo\/ Bozo (numa alus\u00e3o ao atual presidente do Brasil), vestido de palha\u00e7o e com uma farda do ex\u00e9rcito carregada de medalhas, \u00e9 mais en\u00e9rgico e violento do que os outros dois, fazendo o contraponto \u00e0 dupla central. Pozzo, tanto na vers\u00e3o original quanto na de Z\u00e9 Celso, leva um criado\/ um escravo amarrado pelo pesco\u00e7o, o qual est\u00e1 encarregado de levar as bagagens. No <strong><em>Godot<\/em> <\/strong>brasileiro, Lucky (Afortunado), interpretado por Roderick Himeros, chama-se Felizardo, cuja bagagem inclui uma mochila como a dos <em>motoboys<\/em>, t\u00e3o imprescind\u00edveis na nossa sociedade, principalmente na pandemia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>A maior novidade da pe\u00e7a \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o da personagem \u201cmenino\u201d por um mensageiro negro, o malandro Z\u00e9 Pelintra, uma figura de terno e chap\u00e9u brancos da umbanda. A interpreta\u00e7\u00e3o impag\u00e1vel dessa personagem \u00e9 de Tony Reis.&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cNa cosmogonia do terreiro\u201d, como afirma Sidnei Barreto Nogueira, no libreto da pe\u00e7a, \u201cn\u00f3s nunca estamos aguardando um Messias, um salvador. Porque n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o temos algu\u00e9m para culpar. Quer dizer, a cultura cosmog\u00f4nica Iorub\u00e1 que est\u00e1 no terreiro Iorub\u00e1, Fon, \u00c8f\u00f2n, Bantu, \u00e9 uma cultura de autorresponsabilidade\u201d, ou melhor, \u201cExiste uma corresponsabilidade e uma responsabilidade coletiva, mas n\u00f3s n\u00e3o temos nessa cultura uma entidade para culpar por nossos males\u201d.&nbsp; N\u00e3o h\u00e1, portanto, bodes expiat\u00f3rios nessa cultura, na qual, a nosso ver, n\u00e3o s\u00f3 <strong><em>Esperando Godot <\/em><\/strong>precisaria ser reescrita, como o foi agora, mas tamb\u00e9m <strong><em>\u00c9dipo Rei<\/em><\/strong>, o pilar do teatro no Ocidente, que tamb\u00e9m ganharia outros contornos.&nbsp;<\/p>\n<p>Vale destacar que o mensageiro brasileiro fala ingl\u00eas, talvez porque a l\u00edngua de Shakespeare inspire em n\u00f3s, colonizados, mais confian\u00e7a para falar de assuntos importantes do que a l\u00edngua de Machado de Assis.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 montagens de <strong><em>Godot<\/em> <\/strong>para todos os gostos: houve uma em um pres\u00eddio nos Estados Unidos, com os pr\u00f3prios detentos atuando; outra, bem mais recentemente, na Sarajevo dividida e sitiada; e uma terceira durante o <em>apartheid<\/em>, em Johanesburgo, na \u00c1frica do Sul, s\u00f3 com negros no elenco. A montagem de Z\u00e9 Celso engrossa a lista de adapta\u00e7\u00f5es memor\u00e1veis, e em tempos de comemora\u00e7\u00e3o do Centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna, nada como matar Godot para faz\u00ea-lo renascer em outra cultura e em outra religi\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_23972\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/godot-puroamor-scaled-e1651063103715.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23972\" loading=\"lazy\" width=\"600\" height=\"354\" class=\"wp-image-23972 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/godot-puroamor-scaled-e1651063103715.jpg\" alt=\"<strong><p id=\"caption-attachment-23972\" class=\"wp-caption-text\">Esperando Godot<\/strong>, montagem do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Foto Ivana Moura&#8221; width=&#8221;600&#8243; height=&#8221;354&#8243;><\/a> Marcelo Drummond e Alexandre Borges<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23973\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/godot-vale1-e1651064526429.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23973\" loading=\"lazy\" width=\"600\" height=\"362\" class=\"wp-image-23973 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/godot-vale1-e1651064526429.jpg\" alt=\"<strong><p id=\"caption-attachment-23973\" class=\"wp-caption-text\">Esperando Godot<\/strong>, montagem do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Fotos Ivana Moura&#8221; width=&#8221;600&#8243; height=&#8221;362&#8243;><\/a> Vladimir (Didi)&nbsp;e Estragon (Gogo), interpretados por Alexandre Borges e Marcelo Drummond&nbsp;<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23975\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/L3180627-e1651066686200.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23975\" loading=\"lazy\" width=\"600\" height=\"339\" class=\"wp-image-23975 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/L3180627-e1651066686200.jpg\" alt=\"<strong><p id=\"caption-attachment-23975\" class=\"wp-caption-text\">Esperando Godot<\/strong>, montagem do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Foto Ivana Moura&#8221; width=&#8221;600&#8243; height=&#8221;339&#8243;><\/a> Ricardo Bittercourt (ao fundo \u00e0 direita), no papel de Pozzo\/ Bozo , o palha\u00e7o com farda do ex\u00e9rcito e Roderick Himeros (ao centro), com a mochila como a dos <em>motoboys<\/em>&nbsp;<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23939\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/L3180698-scaled-e1650590827627.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23939\" loading=\"lazy\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"wp-image-23939 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/L3180698-scaled-e1650590827627.jpg\" alt=\"<strong><p id=\"caption-attachment-23939\" class=\"wp-caption-text\">Esperando Godot<\/strong>, montagem do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Foto Ivana Moura&#8221; width=&#8221;600&#8243; height=&#8221;338&#8243;><\/a> Em maio, <strong>Esperando Godot<\/strong> entra em cartaz no Teatro Oficina, depois de uma temporada no Sesc Pompeia<\/p><\/div>\n<blockquote>\n<h5>* Professora do Curso de Artes C\u00eanicas na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de Quando elas esperam, dramaturgia feminista baseada em Esperando Godot.<\/h5>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrita em apenas quatro meses, no ano de 1949, Esperando Godot, a pe\u00e7a mais conhecida do escritor irland\u00eas Samuel Beckett, estreou somente em 1953, no Th\u00e9\u00e2tre de Babylone, em Paris. 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