{"id":23431,"date":"2021-11-14T16:44:15","date_gmt":"2021-11-14T19:44:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=23431"},"modified":"2021-11-14T16:44:15","modified_gmt":"2021-11-14T19:44:15","slug":"o-genial-cerebro-do-escritor-pisoteado-critica-do-espetaculo-traga-me-a-cabeca-de-lima-barreto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-genial-cerebro-do-escritor-pisoteado-critica-do-espetaculo-traga-me-a-cabeca-de-lima-barreto\/","title":{"rendered":"O genial c\u00e9rebro do escritor pisoteado <\/br> Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <\/br> Traga-me a cabe\u00e7a de Lima Barreto"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_23432\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/traga-me-foto-kaian-alves3-1-e1636915290720.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23432\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23432\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/traga-me-foto-kaian-alves3-1-e1636915290720.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23432\" class=\"wp-caption-text\">Ator baiano Hilton Cobra, da Cia. dos Comuns, do Rio de Janeiro. Foto: Kaian Alves<\/p><\/div>\n<p>Sexta-feira fui assistir presencialmente ao espet\u00e1culo <em><strong>Traga-me a cabe\u00e7a de Lima Barreto<\/strong><\/em>, solo magistralmente defendido pelo ator baiano Hilton Cobra. Estava acompanhada do ator recifense Carlos Ata\u00edde, do elenco de <em>As Conchambran\u00e7as de Quaderna<\/em>. No Centro Cultural S\u00e3o Paulo encontramos com Bruna Recchia, tamb\u00e9m do <em>Quaderna<\/em>. Sentei-me na primeira fileira (os mais chegados sabem desse meu toque!, ou \u00e9 tique?), eles subiram para a terceira fileira.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia visto <em><strong>Traga-me a cabe\u00e7a de Lima Barreto<\/strong><\/em> online, e sabia da pot\u00eancia do espet\u00e1culo. Mas ao vivo, realmente!!!, \u00e9 outra magia!<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o circula h\u00e1 quatro anos, celebrada por onde passa. Tantas carnes, tantos nervos, tantas humilha\u00e7\u00f5es e resist\u00eancias em um pe\u00e7a de uma hora de dura\u00e7\u00e3o. Foi em 2017, quando completou 40 anos de carreira que Jos\u00e9 Hilton Santos Almeida \u2013 o grande Hilton Cobra \u2013 ergueu essa montagem potente, criativa, decolonial, com dramaturgia de inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e pol\u00edtica de Luiz Marfuz e dire\u00e7\u00e3o apaixonante, precisa, ousada e aguerrida de Onissaj\u00e9 (Fernanda J\u00falia).<\/p>\n<p><em><strong>Traga-me a cabe\u00e7a de Lima Barreto<\/strong><\/em> nos atravessa com quest\u00f5es mais que urgentes, da reafirma\u00e7\u00e3o do protagonismo negro, combate a deprecia\u00e7\u00e3o intelectual hist\u00f3rica e ainda vigente da figura do negro, engajamento militante da Cia dos Comuns (formado majoritariamente por artistas negros) e o empenho de Hilton Cobra, entre muitas outras coisinhas mi\u00fadas.<\/p>\n<p>O racismo e a eugenia s\u00e3o for\u00e7as confrontadas na pe\u00e7a. O termo eugenia (ou eugenismo) foi cunhado, em 1883, por Francis Galton (1822-1911), para designar \u2018bem-nascido\u2019, uma falsa ci\u00eancia. A \u2018eugenia nazista\u2019, fez parte da ign\u00f3bil ideia de \u2018pureza racial\u2019, que conduzida por Adolf Hitler desembocou no Holocausto.<\/p>\n<p>O texto fict\u00edcio de Marfuz apresenta um congresso com os eugenistas exigem a exuma\u00e7\u00e3o do cad\u00e1ver do escritor Lima Barreto (1881-1922), para uma aut\u00f3psia, a fim de esclarecer \u201ccomo um c\u00e9rebro inferior poderia ter produzido tantas obras liter\u00e1rias \u2013 romances, cr\u00f4nicas, contos, ensaios e outros alfarr\u00e1bios \u2013 se o privil\u00e9gio da arte nobre e da boa escrita \u00e9 das ra\u00e7as superiores?\u201d<\/p>\n<p>O monologo \u00e9 guiado pelos textos de&nbsp; Barreto, em especial <em>Di\u00e1rios \u00edntimos<\/em> e <em>Cemit\u00e9rio dos Vivos<\/em>. A a\u00e7\u00e3o se instala em quatro movimentos: <em>O col\u00f3quio<\/em> (a personagem se dirige \u00e0 plateia e a linguagem tergiversa, estica-se e retarda para encontrar a cumplicidade no tempo presente do espectador), <em>Foro \u00edntimo<\/em> (lugar indeterminado em que ocorrem as conversas \u00edntimas de Lima Barreto, em tom confessional, como se ele estivesse no quarto, na cama, no ambiente do hosp\u00edcio, a dizer coisas que n\u00e3o diriam em p\u00fablico, de viva voz), <em>Roda de del\u00edrios<\/em> (espa\u00e7o dos di\u00e1logos imagin\u00e1rios do escritor com interlocutores ausentes, ou com suas vozes interiores, provavelmente atribu\u00eddos a crises de <em>delirium tremus<\/em> da personagem, derivadas do \u00e1lcool, dos internamentos no sanat\u00f3rio e do estado de pen\u00faria; \u00e9 tamb\u00e9m o espa\u00e7o do escarro, da linguagem indom\u00e1vel, que se expressa por uma via p\u00fablica), e o <em>Espa\u00e7o metamorfo<\/em> (os diversos lugares onde ocorre o Congresso Brasileiro de Eugenia (antec\u00e2mara, t\u00e1bua de disseca\u00e7\u00e3o, mesa do congresso, audi\u00eancia, sess\u00e3o de debates, p\u00falpito. etc.).<\/p>\n<p>Peguei esses detalhes da dramaturgia de artigo da pesquisadora Luiza Severo Arruda e Silva, mestranda na Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (mulher negra, estudante e moradora da periferia de Aparecida de Goi\u00e2nia), intitulado <em>Hist\u00f3ria e Teatro: A Deprecia\u00e7\u00e3o Da Intelectualidade Negra Por Meio Da Pe\u00e7a <strong>Traga-Me A Cabe\u00e7a De Lima Barreto<\/strong><\/em>. S\u00e3o indica\u00e7\u00f5es do autor Luiz Marfuz no texto.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>\u201cOra, o contexto \u00e9 o contexto. O contexto s\u00f3 existe na cabe\u00e7a de vossas indol\u00eancias. O \u00fanico contexto que tem aqui \u00e9 o seguinte: sou preto, pobre e escritor e estou sendo julgado n\u00e3o pelo m\u00e9rito de minhas obras, mas sim pelo fato de assim eu ter nascido\u201d<br \/>\nTrecho da dramaturgia de <strong><em>Traga-me a Cabe\u00e7a de Lima Barreto<\/em><\/strong><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Lima Barreto n\u00e3o teve sua obra reconhecida em vida. Na pe\u00e7a ele reivindica seu lugar revolucion\u00e1rio da literatura. E transita entre passado e presente com uma propriedade impressionante para nos jogar na cara que o que mudou, pouco mudou. N\u00f3s todos estamos devendo uma cadeira na Academia Brasileira de Letras para Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, e quando ele sobrevoa nesse tema \u00e9 de cortar os pulsos.<\/p>\n<p>Muito j\u00e1 foi falado e escrito sobre essa pe\u00e7a, a genialidade de Lima Barreto, as m\u00faltiplas facetas de sua personalidade, a loucura, a pobreza, alcoolismo, o desd\u00e9m por sua obra, as tristezas, o racismo, a fam\u00edlia, a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>O Brasil desse tamanho tem muitos artistas incr\u00edveis, que fazem trabalhos de grandeza no teatro. Hilton Cobra, ator de 65 anos, \u00e9 um er\u00ea iluminado no palco. Sua partitura corporal e os lugares \/ tempos que ele leva seu corpo v\u00e3o da \u00c1frica ao futuro para desafiar as certezas. A insubordina\u00e7\u00e3o, deboche, irrever\u00eancia contra o que est\u00e1 posto, as fagulhas de seus personagens <strong><em>, <\/em><\/strong>\u2018a sua p\u00e1tria est\u00e9tica\u2019 (os pisoteados, ou loucos, os privados de liberdade) ocupam a cena numa comunidade quilombola de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>C\u00e1ustico ferino mordaz, ir\u00f4nico contra eugenistas de todos os tempos, contra racistas disfar\u00e7ados e orgulhosos, ele destila seu veneno contra os opressores. A personagem faz um jogo com o nome de Machado de Assis e as inst\u00e2ncias e processos de consagra\u00e7\u00e3o. \u00c9 um espet\u00e1culo genial. Que nos oferece uma dose forte de vida.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Senhores m\u00e9dicos da nova ra\u00e7a, senhores eugenistas de plant\u00e3o: t\u00e3o logo soube que me queriam o corpo, vim de livre e espont\u00e2nea vontade; submeter-me ao acurado exame de vosso positivismo eug\u00eanico. Nem precisariam me arrancar do breu dos tempos. \u201cFui testemunha e exemplo vivo de que a capacidade mental dos negros \u00e9 sempre discutida a priori e a dos brancos, a posteriori.\u201d<i><br \/>\n(Rea\u00e7\u00f5es indignadas dos congressistas)<\/i>.<br \/>\nVejo aqui uma justa oportunidade de defender minhas ideias, obras e personagens, pouco vistas, jamais reconhecidas. Assim, posso expectorar as s\u00edlabas silenciadas em meu c\u00e9rebro, estado de j\u00fabilo tal que sa\u00ed \u00e0s pressas e nem tive tempo de me banhar nas \u00e1guas do orix\u00e1 que me guarda, l\u00e1, onde descansava.&nbsp;<br \/>\nPalavras de Lima Barreto<\/h3>\n<\/blockquote>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<p>N\u00e3o tenho por h\u00e1bito cumprimentar os atores ap\u00f3s as apresenta\u00e7\u00f5es. Por pura timidez. Mas com Hilton Cobra n\u00e3o resisti. Fomos os tr\u00eas. Algumas pessoas estavam na fila. Primeiro foi Ata\u00edde, que ouviu de Hilton que esses abra\u00e7os fortes e em sil\u00eancio s\u00e3o os melhores. Meu abra\u00e7o com Cobra tamb\u00e9m foi forte, sussurrei ao seu ouvido que ele \u00e9 maravilhoso, ele respondeu que trocamos em cena. Fiquei emocionada. Ele disse: Hamilton vai sair em primeiro. E me aconselhou a ir para casa ou tomar uma Heineken.<\/p>\n<p>Fomos, eu e Ata\u00edde, rumo \u00e0 Santa Cec\u00edlia, no percurso, no metr\u00f4, Ata\u00edde euf\u00f3rico convocou quatro ou cinco professoras da sua escola para irem ver a brilhante cabe\u00e7a, sem falta. Conversamos com entusiasmo sobre as conex\u00f5es que a pe\u00e7a tra\u00e7a do racismo e repress\u00e3o do tempo de Lima Barreto com o nosso momento atual. Os olhos brilhantes, o sangue fervendo, o cora\u00e7\u00e3o a mil. Como \u00e9 bom ver teatro! Tomamos uma Heineken, cada um. Depois chegou Tay Lopez, o nosso gal\u00e3, que preferiu uma Coca zero. A conversa foi seguido outros rumos, das del\u00edcias do amor. Eita que esses artistas da pe\u00e7a de Lima Barreto sabem fazer a cabe\u00e7a da gente. Deixam a vida em ebuli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Espet\u00e1culo Traga-me a cabe\u00e7a de Lima Barreto!<\/strong><\/p>\n<p>Ficha T\u00e9cnica:<br \/>\nAtor: Hilton Cobra<br \/>\nDramaturgia: Luiz Marfuz \u2013<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o: Onissaj\u00e9 (Fernanda J\u00falia) \u2013<br \/>\nCen\u00e1rio: Vila de Taipa (Laborat\u00f3rio de Investiga\u00e7\u00e3o de Espa\u00e7os do Teatro Vila Velha), Erick Saboya, Igor Liberato e M\u00e1rcio Meireles<br \/>\nDesenho de Luz: Jorginho de Carvalho e Valmyr Ferreira<br \/>\nFigurino: Biza Vianna<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o de Movimentos: Zebrinha<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o Musical: Jarbas Bittencourt<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo: David Aynan<br \/>\nDesign gr\u00e1fico: Bob Siqueira e G\u00e1,<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o executiva: Elaine Bortolanza e J\u00falio Coelho<br \/>\nFotos: Adeloya Magnoni e Valmyr Ferreira<br \/>\nOp. c\u00e2mera: L\u00edlis Soares<br \/>\nOp. \u00e1udio e v\u00eddeo: Duda Fonseca<br \/>\nOperador de luz: Lucas Barbalho.<br \/>\nParticipa\u00e7\u00f5es especiais (voz em off): L\u00e1zaro Ramos, Caco Monteiro, Frank Menezes, Harildo Deda, Hebe Alves, Rui Manthur e Stephane Bourgade<\/p>\n<p>Qando: S\u00e1bado, \u00e0s 21h e domingos, \u00e0s 20h<br \/>\nIngressos: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia-entrada para estudantes e professores)<br \/>\nCompra na bilheteria e pelo sympla.com.br\/corporastreado<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 60 minutos<br \/>\nRecomenda\u00e7\u00e3o: 14 anos<br \/>\nCapacidade: 50 lugares<br \/>\nLocal: CCSP \u2013 Sala Ademar Guerra \u2013 Rua Vergueiro, n\u00b0 1000, Para\u00edso, S\u00e3o Paulo\/SP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta-feira fui assistir presencialmente ao espet\u00e1culo Traga-me a cabe\u00e7a de Lima Barreto, solo magistralmente defendido pelo ator baiano Hilton Cobra. 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