{"id":23301,"date":"2021-07-19T10:01:10","date_gmt":"2021-07-19T13:01:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=23301"},"modified":"2021-07-19T10:01:12","modified_gmt":"2021-07-19T13:01:12","slug":"uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/","title":{"rendered":"Uma conversa sobre Nordeste, teatro de grupo e pol\u00edtica <\/br> Entrevista || Magiluth e No Barraco da Const\u00e2ncia Tem!*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_23306\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/pedroescobar-4451\/\" rel=\"attachment wp-att-23306\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23306\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23306\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/PedroEscobar-4451-scaled-e1626022885289.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23306\" class=\"wp-caption-text\">Grupo Magiluth. Foto: Pedro Escobar<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23312\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/veja\/\" rel=\"attachment wp-att-23312\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23312\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23312\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Veja-e1626030326942.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"313\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23312\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Veja s\u00f3<\/strong>. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o de tela<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23317\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/piragem-etnografica-do-complexo_foto-edouard_fraipont_02-de-julho-de-2015\/\" rel=\"attachment wp-att-23317\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23317\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23317\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Piragem-etnografica-do-complexo_Foto-Edouard_Fraipont_02-de-julho-de-2015-scaled-e1626184675499.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"401\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23317\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Piragem etnogr\u00e1fica do complexo<\/strong>, espet\u00e1culo do grupo No Barraco da Const\u00e2ncia Tem!. Foto Edouard Fraipont<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23323\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/frame-jangadeiro-jacare-no-barraco-da-constancia-tem-1\/\" rel=\"attachment wp-att-23323\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23323\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23323\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/FRAME-Jangadeiro-Jacare-No-barraco-da-Constancia-tem-1-e1626185574639.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"338\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23323\" class=\"wp-caption-text\"><strong>O Desaparecimento do Jangadeiro Jacar\u00e9 em Alc\u00e1cer-Quibir<\/strong>. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o de tela<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o sabemos dizer ao certo se acontece noutras regi\u00f5es do pa\u00eds, mas no Nordeste, o telejornalismo tem uma certa fixa\u00e7\u00e3o por buracos. O desejo de estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o com as popula\u00e7\u00f5es geralmente mais perif\u00e9ricas das cidades faz com que problemas que afetam o cotidiano das pessoas, como os buracos das ruas, ocupem bastante espa\u00e7o na programa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria das emissoras. A partir desse mote e das met\u00e1foras infind\u00e1veis que pode desencadear, o grupo cearense <strong>No Barraco da Const\u00e2ncia Tem!<\/strong> criou <em>O desaparecimento do Jangadeiro Jacar\u00e9 em Alc\u00e1cer-Quibir<\/em>, experimento audiovisual apresentado no <strong>Cena Agora<\/strong>, do Ita\u00fa Cultural, edi\u00e7\u00e3o <strong>Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas po\u00e9ticas<\/strong>.<\/p>\n<p>Sabe o cubo m\u00e1gico? A edi\u00e7\u00e3o de texto e v\u00eddeo desse trabalho \u00e9 como essa quebra-cabe\u00e7as com assuntos que aparentemente n\u00e3o teriam liga\u00e7\u00e3o, mas fazem todo o sentido. O trabalho resgata a hist\u00f3ria de Manuel Ol\u00edmpio Meira, um pescador que lidera um grupo numa viagem de jangada de Fortaleza rumo ao Rio de Janeiro para reivindicar direitos trabalhistas ao presidente Get\u00falio Vargas. A empreitada \u00e9 bem-sucedida e vira at\u00e9 mat\u00e9ria na revista <em>Time<\/em>, despertando o interesse de Orson Welles, que vem ao Brasil para filmar a hist\u00f3ria dos pescadores. Mas, durante as filmagens, h\u00e1 um acidente e Manuel Jacar\u00e9 desaparece no mar.<\/p>\n<p>O experimento imbrica o sebastianismo \u2013 foi o rei D. Sebasti\u00e3o quem desapareceu na Batalha de Alc\u00e1cer-Quibir, em 1578 \u2013, \u00e0 hist\u00f3ria do pescador, \u00e0 percep\u00e7\u00e3o que os nordestinos t\u00eam de suas cidades (h\u00e1 um trecho \u00f3timo com supostas entrevistas de crian\u00e7as europeias, mas usando o \u00e1udio de um v\u00eddeo com crian\u00e7as nordestinas, falando sobre a rela\u00e7\u00e3o delas com o Crato e se elas gostariam de permanecer na cidade quando crescessem), e at\u00e9 ao turismo ufol\u00f3gico no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Como n\u00f3s, <strong>Yolandas<\/strong>, adoramos proporcionar encontros e interc\u00e2mbios, enviamos o link desse v\u00eddeo para algumas pessoas, inclusive para Giordano Castro, do Magiluth. E, como a gente esperava, o grupo pirou com a ideia do <em>No Barraco&#8230;<\/em> para discutir o Nordeste. Resolvemos ent\u00e3o promover esta conversa entre esses dois coletivos que nunca se encontraram pessoalmente, mas poderiam dar match.<\/p>\n<p>O trabalho que o <strong>Magiluth<\/strong> apresentou no mesmo evento, Cena Agora, est\u00e1 dispon\u00edvel no Instagram e no YouTube do grupo. <em>Veja s\u00f3&#8230;<\/em> \u00e9 uma leitura comentada da mat\u00e9ria publicada na Veja S\u00e3o Paulo, que incitou a discuss\u00e3o sobre Nordeste pelo Ita\u00fa Cultural, e anunciava em sua manchete: S\u00e3o Paulo \u2013 Capital do Nordeste. Foi a primeira vez que os atores do Magiluth leram a publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O grupo No Barraco da Const\u00e2ncia Tem! \u00e9 formado por Ana Carla de Souza, Felipe Damasceno, Hon\u00f3rio F\u00e9lix, Renan Capivara, Sarah Nastroyanni e William Pereira Monte. Damasceno, Hon\u00f3rio, Renan e Sarah participaram da entrevista &#8220;coletiva&#8221;. J\u00e1 do Magiluth, que junta Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, M\u00e1rio S\u00e9rgio Cabral e Pedro Wagner, participaram Giordano e Erivaldo. Foram quase tr\u00eas horas de conversa e nem tinha uma cerveja gelada na media\u00e7\u00e3o, o que certamente vai acontecer no pr\u00f3ximo encontro, seja na Mamede Sim\u00f5es, no Recife, ou na Instituto do Cear\u00e1, em Fortaleza.<\/p>\n<p><b><strong>*Esta entrevista \u00e9 resultado de uma parceria entre o Satisfeita, Yolanda? e o Ita\u00fa Cultural no projeto Cena Agora, edi\u00e7\u00e3o Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas po\u00e9ticas, que incluiu media\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a escrita de quatro colunas para o site do Ita\u00fa Cultural e uma s\u00e9rie de entrevistas publicadas no Satisfeita, Yolanda?<\/strong><\/b><\/p>\n<p><b>ENTREVISTA || MAGILUTH E NO BARRACO DA CONST\u00c2NCIA TEM!<\/b><\/p>\n<p><b>Pollyanna Diniz: Como era o cen\u00e1rio de teatro no Recife e em Fortaleza quando voc\u00eas decidiram criar o Magiluth e o No Barraco da Const\u00e2ncia Tem!, respectivamente? Por que se juntar em grupo?<\/b><\/p>\n<p><b>Giordano Castro:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Quando a gente surge, era muita coisa acontecendo aqui em Recife, dinheiro jorrando, o estado investindo. Mentira! Mas a gente tinha um cen\u00e1rio teatral local bem melhor do que nos \u00faltimos seis anos. O Magiluth surge em 2004. Entramos na universidade e quatro pessoas que faziam parte daquele grupo tinham mais interesse na pr\u00e1tica do que na licenciatura. Come\u00e7amos a entender que estar em grupo era a sa\u00edda para furar uma bolha da cidade. \u00c9 natural, v\u00e3o se formando blocos e agrupamentos e o pessoal mais novo sempre tem um pouco de dificuldade. Depois que come\u00e7amos a fazer, buscamos exemplos e inspira\u00e7\u00f5es noutros coletivos, grupos, alguns at\u00e9 contempor\u00e2neos. Mas estar em grupo foi uma forma de sobreviver, na cidade do Recife, onde o mercado \u00e9 escasso, em que n\u00e3o tem dinheiro, onde o estado investe minimamente nas coisas.&nbsp;<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Estar em grupo foi <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">uma forma de sobreviver, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">na cidade do Recife, onde o mercado \u00e9 escasso, em que n\u00e3o tem dinheiro, onde o estado investe minimamente nas coisas.<br \/>\n<strong>Giordano Castro &#8211; Magiluth<\/strong><\/span><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Hon\u00f3rio F\u00e9lix: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">O No barraco da Const\u00e2ncia tem! surgiu em 2012. Estou desde o come\u00e7o. Temos agora outra configura\u00e7\u00e3o de grupo, mas l\u00e1 no come\u00e7o \u00e9ramos eu, Tayana Tavares e Ariel Volkova. Eles n\u00e3o sa\u00edram, mas estamos passando por um momento de transi\u00e7\u00e3o, de entendimento de como est\u00e1 funcionando esse coletivo. O Barraco surgiu porque eu, Tayana e Ariel trabalh\u00e1vamos juntos, mas t\u00ednhamos uma urg\u00eancia de criar um agrupamento para trabalhar coisas que a gente n\u00e3o via na cidade. E n\u00e3o \u00e9 porque a gente n\u00e3o admirava as pessoas, mas olh\u00e1vamos ao redor e t\u00ednhamos vontade de fazer uma coisa que n\u00e3o estava ali. T\u00ednhamos vontade de pautar e de estabelecer a nossa pr\u00f3pria po\u00e9tica, mesmo n\u00e3o sabendo muito bem o que era isso.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Trabalhamos muito entre o teatro e a dan\u00e7a, mas tamb\u00e9m partilhamos outras zonas de interesse. Esse grupo movimenta uma s\u00e9rie de pessoas em projetos e cria\u00e7\u00f5es diversas. Temos essa caracter\u00edstica de ter um n\u00facleo, digamos assim, mas estamos sempre nos juntando com algu\u00e9m, trabalhando com uma s\u00e9rie de pessoas que est\u00e3o ao nosso redor.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O No Barraco surge de uma urg\u00eancia de criar um agrupamento para trabalhar coisas que a gente<br \/>\nn\u00e3o via em Fortaleza. T\u00ednhamos vontade de pautar<br \/>\ne de estabelecer a nossa pr\u00f3pria po\u00e9tica.<br \/>\n<strong>Hon\u00f3rio F\u00e9lix &#8211;&nbsp;<\/strong><\/span><strong>No Barraco da Const\u00e2ncia tem! <\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Pollyanna: Fiquei curiosa com o nome do grupo. Qual a hist\u00f3ria?<\/b><\/p>\n<p><b>Hon\u00f3rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> A const\u00e2ncia tem a ver com a qualidade de ser constante, de construir essa const\u00e2ncia na cria\u00e7\u00e3o, na elabora\u00e7\u00e3o, no exerc\u00edcio po\u00e9tico. E o barraco tem a ver com esse lugar que \u00e9 acochado, mas que cabe, e tem uma rela\u00e7\u00e3o de \u201cbarraquear\u201d, de bater o p\u00e9, de chutar a porta, de barraco, de confus\u00e3o, de contenda. A\u00ed o Barraco \u00e9 um pouco esse pandem\u00f4nio, cabe muita coisa, muita gente, e se faz na elabora\u00e7\u00e3o constante.<\/span><\/p>\n<p><b>Renan Capivara: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Fa\u00e7o parte de uma leva mais recente que ingressou no Barraco, junto com Felipe e Sara em 2018. Entramos por ocasi\u00e3o do projeto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Delirantes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Era de montagem, mas tamb\u00e9m se desdobrou e continuamos produzindo e criando mais coisas. E \u00e9 interessante que essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o come\u00e7ou em 2018, porque eu conhecia Hon\u00f3rio h\u00e1 muito tempo e conhecia William h\u00e1 um tempo. Conheci Hon\u00f3rio no curso t\u00e9cnico em Dan\u00e7a em 2013 e acredito que trabalhar com ele agora vem um pouco dessa rela\u00e7\u00e3o, que vem de um espa\u00e7o formativo, e isso \u00e9 muito importante de sublinhar.<\/span><\/p>\n<p><b>Felipe Damasceno: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Sou artista da dan\u00e7a, minha forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 da dan\u00e7a, mas como o Barraco trabalha com teatro, dan\u00e7a, e outras linguagens, n\u00e3o sei se faz mais sentido dizer que sou da Dan\u00e7a. J\u00e1 nem sei mais de onde \u00e9 que eu sou! Minha forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa pela universidade, pela estrutura acad\u00eamica, formal, institucional. A minha forma\u00e7\u00e3o foi sempre embasada nessa coisa de coletivo. Naquela \u00e9poca, ainda n\u00e3o existia faculdade de dan\u00e7a, ent\u00e3o a forma\u00e7\u00e3o da maioria das pessoas era muito dentro dessa l\u00f3gica dos agrupamentos. Voc\u00ea est\u00e1 neste grupo tal e esse grupo, coletivamente, descobre como \u00e9 que forma as pessoas, que caminhos tem que seguir. A coisa era meio entrela\u00e7ada, forma\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>Sarah Nastroyanni:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Tenho crush no Barraco desde 2016, quando assisti <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Marlene<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> pela primeira vez. A\u00ed a gente passou um tempinho se paquerando, se queixando, at\u00e9 eu me tornar barraqueira em 2018 junto com Damas e Renan. E quando a gente se juntou, Renan falou um pouco de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Delirantes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, um dos projetos que a gente j\u00e1 se jogou, mas quando a gente se juntou mesmo, eu e Hon\u00f3rio, foi para enviar cartas para artistas e espa\u00e7os de exposi\u00e7\u00e3o na cidade, apelando a autoria do mict\u00f3rio (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">), aquela obra que \u00e9 atribu\u00edda formalmente ao Marcel Duchamp, ao fantasma da baronesa falida Elsa von Freytag-Loringhoven, que \u00e9 a verdadeira autora . E come\u00e7ou com essa a\u00e7\u00e3o da gente escrever anonimamente cartas, mas se desdobrou. \u00c9 um babado que est\u00e1 rolando at\u00e9 hoje, das cartas passou para exposi\u00e7\u00e3o, v\u00eddeos em artes visuais, em diversas linguagens. E \u00e9 um prazer conhecer voc\u00eas pessoalmente, do jeito que d\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><strong>Pollyanna: Se voc\u00eas pudessem escolher um trabalho marcante, uma virada de chave na trajet\u00f3ria do grupo, qual seria?<\/strong><\/p>\n<p><b>Erivaldo Oliveira:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Para mim, a virada de chave, muito simb\u00f3lica, foi em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Aquilo que o meu olhar guardou para voc\u00ea<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">: a possibilidade de a gente trabalhar a partir do teatro, a partir do grupo. O espet\u00e1culo surgiu em 2011, num projeto tamb\u00e9m do Ita\u00fa, chamado Rumos Teatro, a primeira edi\u00e7\u00e3o. E esse foi o primeiro edital que a gente recebeu uma grana, tinha a possibilidade de ter uma sede, um espa\u00e7o onde a gente pudesse trabalhar. O grupo se modificou muito a partir daquele momento. Largamos os outros trabalhos e voltamos a entender que era dali que a gente podia se unir, ter for\u00e7as, no sentido de sobreviv\u00eancia, no sentido de viver daquilo que a gente veio ao mundo para fazer. Tem essa chave de estrutura\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_23307\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/magiluth-1-2\/\" rel=\"attachment wp-att-23307\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23307\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23307\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/magiluth-1-scaled-e1626022977429.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23307\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Aquilo que o meu olhar guardou para voc\u00ea<\/strong>. Foto: Blenda Souto Maior<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23308\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/l1220795\/\" rel=\"attachment wp-att-23308\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23308\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23308\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/L1220795-scaled-e1626023089314.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23308\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Um torto<\/strong>, solo do Magiluth. Foto: Pollyanna Diniz<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23309\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/viuva-porem-honesta-fotos-vitor-juca-35\/\" rel=\"attachment wp-att-23309\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23309\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23309\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Viuva-porem-Honesta-Fotos-Vitor-Juca-35-e1626023246633.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"401\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23309\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Vi\u00fava, por\u00e9m honesta<\/strong>. Foto: Victor Juc\u00e1<\/p><\/div>\n<p><b>Giordano:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Vou subverter, Polly, vou dizer tr\u00eas trabalhos que marcam coisas bem diferentes e s\u00e3o bem importantes. O primeiro \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Um torto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, um solo do grupo, que d\u00e1 uma guinada nessa busca po\u00e9tica que Hon\u00f3rio falou, que eles n\u00e3o sabiam ainda quando surgiram, a gente tamb\u00e9m, a mesma coisa, me vejo muito nesse lugar. Mas acho que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Um torto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, por mais verde que seja, faz uma quebra nos trabalhos que a gente tinha feito. Depois dessa quebra, seguimos essa avenida que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Um torto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> abriu de pesquisa e pensamento. O segundo trabalho \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Vi\u00fava, por\u00e9m honesta<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Deixando a mod\u00e9stia um pouco de lado, foi um trabalho de sucesso, de lotar casas, de fazer com que a gente entrasse nos principais circuitos. J\u00e1 frequent\u00e1vamos circuitos de festivais, mas com <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Vi\u00fava<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, ele chuta a porta e ele \u00e9 mais do que a gente, \u00e9 o pr\u00f3prio trabalho que se imp\u00f5e. E o trabalho depois desse, logo em seguida, \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O ano em que sonhamos perigosamente<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que \u00e9 o trabalho dentro da nossa trajet\u00f3ria que, se a gente pensar em quest\u00f5es de receptividade, pode ser considerado um fracasso. Mas, para o grupo, para tudo que significa e o que aconteceu, acho que \u00e9 um dos trabalhos mais fodas e interessantes que a gente fez, enquanto pesquisa de linguagem. \u00c9 um trabalho que surge de um desses momentos que, como Hon\u00f3rio falou, voc\u00eas est\u00e3o vivendo uma renova\u00e7\u00e3o, acho que isso acontece muito e v\u00e1rias vezes dentro de um coletivo, a gente passou por v\u00e1rias guinadas. Uma guinada de amadurecimento se d\u00e1 por causa desse trabalho, durante esse trabalho.<\/span><\/p>\n<p><b>Hon\u00f3rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Vou falar dos mais antigos. Acho que o primeiro trabalho que \u00e9 uma virada de chave \u00e9 o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Piragem etnogr\u00e1fica do complexo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2013), que constru\u00edmos despretensiosamente e que nos levou&nbsp; para v\u00e1rios lugares. \u00c9 um trabalho curto, de meia-hora, mas viajamos, fizemos um bocado de canto, faz\u00edamos desde p\u00e1tio de universidade at\u00e9 apresenta\u00e7\u00e3o em galeria, em festival de performance. Foi um trabalho que nos colocou noutra perspectiva: \u201cacho que a gente pode realmente investir nisso, n\u00e9? Vamos continuar trabalhando?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tem uma coisa interessante que rolou no Cena Agora, nesse \u00faltimo trabalho, que foi <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O desaparecimento do Jacar\u00e9 Alc\u00e1cer-Quibir<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Ivana perguntou como a gente pensa montagem e edi\u00e7\u00e3o no nosso trabalho durante o debate. E logo depois Ariel, um dos membros do coletivo, me telefonou para falar sobre o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Jacar\u00e9<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que foi incr\u00edvel, que o debate foi lindo, e que ele ficou com isso martelando na cabe\u00e7a, a pergunta da Ivana. E ele falou assim: \u201cHon\u00f3rio, na verdade a gente funciona muito por essa coisa de montagem, de edi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse sentido, outra virada de chave foi quando entramos no Porto Iracema das Artes, uma escola daqui do Cear\u00e1 voltada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e pesquisa, no laborat\u00f3rio de pesquisa teatral com o projeto<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Encena\u00e7\u00f5es contracenadas \u2013 entre o distanciar e o invadir<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. T\u00ednhamos dois anos de grupo e fizemos esse projeto que era super ousado: convidar cinco encenadores de Fortaleza para que cada um dirigisse uma cena de cinco minutos com a gente e, a partir de como eles trabalhavam procedimentos de dire\u00e7\u00e3o, a gente ia ver como fazia uma edi\u00e7\u00e3o, misturar essas cinco po\u00e9ticas e \u201croubar\u201d a autoria deles. A gente vai roubar isso aqui, vai se apropriar, hackear os procedimentos e inventar uma maneira de colocar essas rela\u00e7\u00f5es diferentes para contracenar. Deu um trabalho medonho, porque realmente d\u00e1 trabalho editar esse material, cenas muito diferentes entre si. E gerou um trabalho chamado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Nada como quando come\u00e7ou<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Piragem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> era um grande sucesso e era conhecido pelo deboche. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Nada <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o tinha essa caracter\u00edstica de deboche, mas tinha uma caracter\u00edstica de atrevimento e, em certo sentido, era um trabalho que levantou uma suspeita sobre as pessoas: o que \u00e9 que eles est\u00e3o fazendo? Era um grupo que n\u00e3o \u00e9 nem de teatro, nem de dan\u00e7a, est\u00e1 fazendo uma coisa esquisita, misturando um monte de gente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E outra virada de chave, que meio que resvala at\u00e9 onde estamos agora, s\u00e3o dois trabalhos:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Marlene \u2013 disseca\u00e7\u00e3o do corpo do espet\u00e1culo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2016) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Rara<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2017). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Marlene<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 um espet\u00e1culo que foi um sucesso, mas demorou a engatar. \u00c9 um trabalho longo, de duas horas, com v\u00e1rias mudan\u00e7as de atmosfera, meio grandioso, quase oper\u00edstico, e tem essa caracter\u00edstica de decad\u00eancia. Mas ali a gente foi entendendo e trabalhando esses procedimentos de montagem, de edi\u00e7\u00e3o, de costura, de mistura, vou por ali, vou aqui, vou misturar essa hist\u00f3ria que tem a ver com teatro de Fortaleza com uma hist\u00f3ria de Hollywood dos anos 1950 e daqui eu vou l\u00e1 para as divas do jazz. \u00c9 um trabalho que vai falando um pouco sobre essa rela\u00e7\u00e3o da decad\u00eancia, da diva, da hist\u00f3ria do teatro e do porqu\u00ea a gente perpetua esse imagin\u00e1rio. Acho que \u00e9 uma virada de chave junto com <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Rara<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, nosso trabalho de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Come\u00e7amos a entender uma zona de interesse, n\u00e3o estabelecer uma metodologia de trabalho, mas realizar uma cria\u00e7\u00e3o em camadas, misturar assuntos. A gente entendeu nesses dois trabalhos que isso era o que a gente fazia, foi uma tomada de consci\u00eancia e de que seria interessante continuar investindo nisso.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_23318\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/nada-como-quando-comecou_foto-de-luiz-alves-11\/\" rel=\"attachment wp-att-23318\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23318\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23318\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Nada-como-quando-comecou_Foto-de-Luiz-Alves-11-e1626184852757.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23318\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Nada como quando come\u00e7ou<\/strong>. Foto de Luiz Alves<\/p><\/div>\n<div class=\"mceTemp\">&nbsp;<\/div>\n<div id=\"attachment_23319\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/marlene-dissecacao-do-corpo-do-espetaculo-foto-de-toni-benvenutti\/\" rel=\"attachment wp-att-23319\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23319\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23319\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Marlene-Dissecacao-do-corpo-do-espetaculo-Foto-de-Toni-Benvenutti-scaled-e1626184970765.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23319\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Marlene &#8211; Disseca\u00e7\u00e3o do corpo do espet\u00e1culo<\/strong>. Foto de Toni Benvenutti<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23320\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/rara_luiz-alves-4\/\" rel=\"attachment wp-att-23320\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23320\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23320\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Rara_Luiz-Alves-4-scaled-e1626185154658.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"397\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23320\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Rara<\/strong>. Foto: Luiz Alves<\/p><\/div>\n<p><b>Sarah: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Vou falar de um trabalho marcante de um ponto de vista bem pessoal que, para mim, mobiliza muitas das caracter\u00edsticas do nosso fazer, que \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Auto de Dana\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que foi feito no fim do ano passado, uma performance por WhatsApp, oriunda de uma resid\u00eancia. Quando falo que mobiliza certas caracter\u00edsticas, \u00e9 de const\u00e2ncia, porque vem de uma pesquisa de 2018, que teve uma s\u00e9rie de desdobramentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dan\u00e7a macabra e quest\u00f5es de fantasmagoria, uma coisa muito recorrente nos trabalhos do Barraco. Quis mencionar esse porque voc\u00eas tamb\u00e9m t\u00eam um trabalho, que \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo que coube numa VHS<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que voc\u00eas mobilizam plataformas e dispositivos. Sobre essa correla\u00e7\u00e3o e esses pontos de encontro e de abandono que estamos conversando aqui, fico curiosa para saber de voc\u00eas como \u00e9 que foi esse processo de <\/span><i>Tudo que coube numa VHS<\/i>, e o que voc\u00eas est\u00e3o pensando e produzindo agora, como foi se inventar a partir dessas plataformas?<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><strong><i>Auto de Dana\u00e7\u00e3o<\/i><\/strong><i>, <\/i><span style=\"font-weight: 400;\">uma performance por WhatsApp,&nbsp;<\/span><i><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">mobiliza muitas das caracter\u00edsticas do nosso fazer, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">uma s\u00e9rie de desdobramentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dan\u00e7a macabra e quest\u00f5es de fantasmagoria. Voc\u00eas tamb\u00e9m t\u00eam um trabalho, que \u00e9 <\/span><strong><i>Tudo que coube numa VHS<\/i><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, que voc\u00eas mobilizam plataformas e dispositivos. \u00c9 sobre essa correla\u00e7\u00e3o e esses pontos de encontro e de abandono que estamos conversando aqui. <\/span><b>Sarah &#8211;&nbsp;<\/b><strong>No Barraco da Const\u00e2ncia tem!<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Giordano:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Sarah, esse trabalho nasce do desespero e do medo da morte. No ano de 2019, pr\u00e9-pandemia, estreamos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Apenas o fim do mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, um trabalho bem recebido pela cr\u00edtica, entramos nas premia\u00e7\u00f5es nacionais. Mas o Magiluth vive, financeiramente, de participa\u00e7\u00e3o em festival e bilheteria. Isso \u00e9 quase 60 a 70% da nossa grana. A menor parte \u00e9 de edital, apesar de muita gente aqui no Recife achar que o Magiluth \u00e9 um grupo rico. Vendo que os festivais estavam fudidos, porque muitos j\u00e1 estavam convidando a gente, mas faziam: \u201cah, a gente est\u00e1 meio sem grana e tal\u201d, decidimos investir num espa\u00e7o nosso aqui no Recife. Se tudo desse errado, far\u00edamos espet\u00e1culo de domingo a domingo e tirar\u00edamos a grana da bilheteria, o que, obviamente, n\u00e3o seria essas coisas, mas ir\u00edamos nos mantendo, fazendo o nosso trabalho. A\u00ed, Sarah, a gente se fudeu. Toda a grana que t\u00ednhamos em caixa, investimos neste Casar\u00e3o. Dois meses do Casar\u00e3o, pandemia. E todos os festivais que a gente ia participar, que iriam ajudar a repor a grana, foram caindo. Tamb\u00e9m far\u00edamos uma estreia em cima do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Morte e Vida Severina<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que caiu. Em abril, Erivaldo nos disse que a gente tinha mais um m\u00eas e meio de grana. Fudeu, v\u00e9i. Foi quando come\u00e7amos a pensar em criar: ser\u00e1 que a gente adapta algum trabalho? Fomos esbarrando em quest\u00f5es. A internet da gente \u00e9 uma bosta, as c\u00e2meras s\u00e3o ruins, n\u00e3o vamos conseguir fazer um trabalho online. A\u00ed conversei com os meninos e disse que estava com uma ideia. E nasceu <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo que coube numa VHS<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. N\u00e3o foi uma pesquisa, n\u00e3o era algo que a gente j\u00e1 estava pensando. As primeiras ideias eram: como fazer um trabalho que levasse em considera\u00e7\u00e3o a maneira como a gente tem se comunicado, atrav\u00e9s dessas plataformas, um trabalho que fosse seguro tecnologicamente, que eu n\u00e3o ficasse na m\u00e3o de uma internet muito boa, que as pessoas que participassem tamb\u00e9m n\u00e3o precisassem disso, que fosse simples. E as outras coisas fomos entendendo. A gente entendeu, por exemplo, que o trabalho n\u00e3o poderia ser muito longo. E, resumindo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo que coube numa VHS <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">salvou as nossas vidas.<\/span><\/p>\n<p><b>Erivaldo:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Esse trabalho veio no sentido de nos salvar financeiramente e tamb\u00e9m a nossa sanidade porque, como Gio falou, no come\u00e7o era muito assustadora a possibilidade de n\u00e3o trabalhar, de n\u00e3o existir o encontro, os perigos que esse encontro poderia provocar. E o fato de ficar todo mundo dentro de casa, grana acabando, festival caindo, Casar\u00e3o fechado, isso tudo d\u00e1 um bug na cabe\u00e7a. Parece que, pela primeira vez na hist\u00f3ria mundial, o teatro vai morrer. Morremos, vamos morrer. Era tudo muito assustador. Essa qualidade est\u00e9tica criada a partir da tecnologia, do digital, foi sendo aprimorada com o passar do tempo. Lembro que a gente teve uma reuni\u00e3o com Lubi (Luiz Fernando Marques), porque quer\u00edamos fazer <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Apenas o fim do mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, porque ele \u00e9 constitu\u00eddo de muitos mon\u00f3logos, ent\u00e3o pensamos: todo mundo est\u00e1 nas suas casas, vamos fazer os mon\u00f3logos e criar uma atmosfera para isso. E a\u00ed na reuni\u00e3o, Lubi disse: \u201cgente, teatro n\u00e3o existe, n\u00e3o vai existir durante esse tempo de pandemia, porque o teatro requer presen\u00e7a\u201d. E a\u00ed esse neg\u00f3cio, de que o teatro de fato requer presen\u00e7a, foi o que mais nos pegou. Como \u00e9 que, mesmo nessa dist\u00e2ncia da tela, conseguimos estabelecer presen\u00e7a, no momento real? E o experimento, no momento que foi criado, tinha um frescor, a possibilidade de estar em cena. N\u00e3o pod\u00edamos ir ao teatro, mas as nossas casas viraram palco. Ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 no meio de uma pandemia, de segunda a segunda, fazendo pe\u00e7a? A gente fazia 10 apresenta\u00e7\u00f5es por noite, de segunda a segunda. Voc\u00ea tem uma ocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixa de lado os problemas, mas d\u00e1 uma ressignificada, para ter sanidade e continuar acreditando na nossa pot\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o, na nossa arte. O experimento trouxe essa fagulha de esperan\u00e7a e de incentivo para n\u00f3s, fazedores, que foi important\u00edssimo, para al\u00e9m da seguran\u00e7a financeira. Na pandemia, diante de tudo que est\u00e1 acontecendo, milhares de amigos tendo que fechar as portas, n\u00e3o tendo como sobreviver, a gente tem que agradecer a uma jun\u00e7\u00e3o do cosmo que fez esse trabalho existir, a partir da necessidade, do desespero.&nbsp;<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"font-weight: 400;\"> O Magiluth vive, financeiramente, de participa\u00e7\u00e3o em festival e bilheteria. Isso \u00e9 quase 60 a 70% da nossa grana. A menor parte \u00e9 de edital, apesar de muita gente aqui no Recife achar que o Magiluth \u00e9 um grupo rico.&nbsp;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Giordano Castro &#8211; Magiluth<\/strong><\/span><\/h2>\n<h2>&nbsp;<\/h2>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Tudo que coube numa VHS<\/strong> <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">salvou as nossas vidas <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">financeiramente e tamb\u00e9m a nossa sanidade.&nbsp; No come\u00e7o da pandemia, era muito assustadora a possibilidade de n\u00e3o trabalhar, de n\u00e3o existir o encontro, os perigos que esse encontro poderia provocar. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">O experimento trouxe essa fagulha de esperan\u00e7a e de incentivo para n\u00f3s.&nbsp;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><b>Erivaldo Oliveira &#8211;&nbsp;<\/b><\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Magiluth<\/strong><\/span><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Ivana Moura: Voc\u00eas acham que o teatro ocupa o lugar que deveria nas cidades de voc\u00eas?<\/b><\/p>\n<p><b>Felipe: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">o teatro n\u00e3o se encontra numa posi\u00e7\u00e3o de import\u00e2ncia, n\u00e3o tem um protagonismo. O que fazer para que isso mude? \u00c9 acabar com o capitalismo! A louca! \u00c9 pensar essas estruturas de difus\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o e a circula\u00e7\u00e3o do teatro, da dan\u00e7a, das artes visuais, do cinema. Dentro do bojo c\u00eanicas, tem uma concentra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica em Fortaleza na Praia de Iracema, Centro, Benfica, Aldeota, Meireles, que tem um acesso direto, geogr\u00e1fico, a espa\u00e7os culturais, enquanto o resto da cidade n\u00e3o tem tanta facilidade. Estamos falando, claro, de espa\u00e7os institucionais, mas existe uma for\u00e7a muito grande de espa\u00e7os alternativos, que fomentam uma produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Mas, mesmo assim, tudo se concentra numa parte espec\u00edfica da cidade, que acho que n\u00e3o \u00e9 muito diferente noutras cidades do Brasil. Estou me sentindo um pol\u00edtico. Porque \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio, pelo menos para mim, acho que para todos que est\u00e3o aqui, \u00e9 uma pauta \u00f3bvia.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que Fortaleza tem de iniciativa p\u00fablica cultural n\u00e3o foi dado, tudo \u00e9 luta. Direito cultural \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o, gente que, nos anos 1980, 1990, pautou que dever\u00edamos ter uma escola de dan\u00e7a na cidade, para rivalizar com essa l\u00f3gica privada de academias de dan\u00e7a, ent\u00e3o precisava ter um curso de dan\u00e7a, um col\u00e9gio de dan\u00e7a, que depois se transformou no curso t\u00e9cnico em dan\u00e7a. Acho que passa pela po\u00e9tica da arte, mas est\u00e1 mais atrelado \u00e0 l\u00f3gica pol\u00edtica de como \u00e9 que a classe art\u00edstica de cada cidade e de um pa\u00eds se organiza para fazer essa reivindica\u00e7\u00e3o. E \u00e9 sempre muito dif\u00edcil, porque lidamos com o individualismo. Estamos sempre competindo, essa l\u00f3gica de edital j\u00e1 incita que s\u00f3 um ou dois v\u00e3o ganhar. Tem um ponto que sai da po\u00e9tica, da cria\u00e7\u00e3o, e passa por um vi\u00e9s pol\u00edtico de organiza\u00e7\u00e3o da classe.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O teatro n\u00e3o se encontra numa posi\u00e7\u00e3o de import\u00e2ncia. O que fazer para que isso mude? \u00c9 pensar essas estruturas de difus\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o do teatro, da dan\u00e7a, das artes visuais, do cinema. O que Fortaleza tem de iniciativa p\u00fablica cultural n\u00e3o foi dado, tudo \u00e9 luta.&nbsp;<br \/>\n<\/span><strong>Felipe &#8211; No Barraco da Const\u00e2ncia tem!<\/strong><\/h2>\n<h2>&nbsp;<\/h2>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O espa\u00e7o que o teatro ocupa no Recife \u00e9 o espa\u00e7o do investimento. N\u00e3o tem como n\u00e3o pensar nessa equa\u00e7\u00e3o. Por que o cinema pernambucano \u00e9 t\u00e3o forte? Porque se investe grana. N\u00e3o \u00e9 a \u00e1gua daqui do Recife.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Giordano Castro &#8211; Magiluth<\/strong><\/span><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Giordano:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Mas eu acho, Felipe, que \u00e9 pol\u00edtico mesmo. O espa\u00e7o que o teatro ocupa no Recife \u00e9 o espa\u00e7o do investimento. N\u00e3o tem como n\u00e3o pensar nessa equa\u00e7\u00e3o. Porque o cinema pernambucano \u00e9 t\u00e3o forte? Porque se investe grana. N\u00e3o \u00e9 a \u00e1gua daqui do Recife. Kleber toma uma \u00e1gua maravilhosa e o filme dele \u00e9 premiado. Obviamente tem a parte art\u00edstica, do pensamento, do fazer, mas esse pensamento e esse artista s\u00f3 acontecem quando tem investimento. Se n\u00e3o, ele vai ficar pensando dentro da casa dele, ele vai ser genial dentro da casa dele. Tivemos momentos em que o teatro aqui teve uma visibilidade e ocupou um lugar forte no cen\u00e1rio nacional. Na \u00e9poca da gest\u00e3o de Peixe (Jo\u00e3o Roberto Peixe, secret\u00e1rio de Cultura da cidade do Recife de 2001 a 2008), por exemplo, tivemos festivais de teatro que recebiam o que tinha de mais interessante, daqui e de fora. Hoje temos um momento muito dif\u00edcil, porque desde que come\u00e7amos a viver dentro do cl\u00e3 Campos, nessa pol\u00edtica do PSB daqui, que se destruiu tudo que foi constru\u00eddo durante um tempo de gest\u00e3o e a cultura virou evento, n\u00e3o virou uma pol\u00edtica p\u00fablica de manuten\u00e7\u00e3o, mas sim evento. E o PSB trabalha com medalh\u00f5es dentro das secretarias, coloca um Ariano Suassuna para ser o secret\u00e1rio de Cultura, coloca uma Leda Alves para ser secret\u00e1ria. S\u00e3o pessoas fofas, maravilhosas, que t\u00eam uma hist\u00f3ria. Colocam essas pessoas como bode expiat\u00f3rio. E a\u00ed voc\u00ea chega no Recife, no aeroporto, e a primeira coisa que voc\u00ea v\u00ea \u00e9 um caboclo de lan\u00e7a e um passista, fotos maravilhosas, e essa galera est\u00e1 fudida, porque essa galera s\u00f3 \u00e9 boa para fazer foto, como imagem, mas n\u00e3o tem manuten\u00e7\u00e3o para essas figuras.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><b>Hon\u00f3rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Em Fortaleza, temos um investimento forte em forma\u00e7\u00e3o, t\u00e9cnica, b\u00e1sica, e tamb\u00e9m de gradua\u00e7\u00e3o, em diversos espa\u00e7os e linguagens. E, quando se investe em forma\u00e7\u00e3o, existe muita cria\u00e7\u00e3o. Mas os espa\u00e7os de escoamento dessa produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o sucateados e sem investimentos. Houve um movimento, infelizmente veio a pandemia, de juntar os f\u00f3runs de v\u00e1rias linguagens atrav\u00e9s do F\u00f3rum de Linguagens e a gente produziu uma carta que falava de todos os equipamentos do Cear\u00e1, alguns at\u00e9 em desuso. Por exemplo, o Teatro Carlos C\u00e2mara, tem toda uma equipe l\u00e1, e n\u00e3o acontece nada, porque eles criam um mecanismo, o edital de ocupa\u00e7\u00e3o. Vai l\u00e1 uma produtora, se inscreve, passa dois anos tentando criar uma programa\u00e7\u00e3o, acaba essa ocupa\u00e7\u00e3o, a produtora sai, abre um novo edital, passa um ano o neg\u00f3cio fechado at\u00e9 que saia o resultado de uma nova ocupa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E, como o Felipe falou, essa coisa da centraliza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dificulta a cria\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito de ir ao teatro. Existem outros problemas, como a mobilidade urbana e a cultura do medo, que vem de um movimento chamado \u201cFortaleza apavorada\u201d, que quer reivindicar o lugar da seguran\u00e7a, uma coisa esquisita, a seguran\u00e7a ligada a uma ideia policialesca e de que a cidade \u00e9 perigosa. Das pessoas criarem um medo e uma inseguran\u00e7a de estarem nas ruas, de quererem ser vigiadas, isso \u00e9 muito forte. Foi tamb\u00e9m isso que nos mobilizou a criar essa pesquisa <em>Delirantes<\/em>, que come\u00e7ou em 2018 e rendeu o espet\u00e1culo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Delirantes e mals\u00e3s<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quer\u00edamos criar um espet\u00e1culo nas pra\u00e7as p\u00fablicas, a partir da epidemia de dan\u00e7a de Estrasburgo. Em junho de 1518, uma mulher come\u00e7ou a dan\u00e7ar no meio da rua, num vilarejo, e daqui a pouco todo mundo estava dan\u00e7ando, passaram dois meses dan\u00e7ando, e a maioria dessas pessoas morreram de tanto dan\u00e7ar. Vieram padres para exorcizar aquelas pessoas e tamb\u00e9m come\u00e7aram a dan\u00e7ar, bandas de m\u00fasica, mas a galera se \u201ccontaminava\u201d e dan\u00e7ava. N\u00e3o existe uma comprova\u00e7\u00e3o do que causou isso, o porqu\u00ea aconteceu, mas tinha a ver com aquele ambiente de final da Idade M\u00e9dia come\u00e7o da Idade Moderna, totalitarismo e fortalecimento das monarquias absolutistas. Nos 500 anos desse fato, resolvemos fazer essa pesquisa. Ir\u00edamos estrear em mar\u00e7o de 2020, com essa ideia de contamina\u00e7\u00e3o, de mobilizar uma multid\u00e3o nas pra\u00e7as e a\u00ed acabou que mobilizou uma pandemia!&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><b>&nbsp;Giordano: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">T\u00e1 vendo? Foram voc\u00eas que ficaram pedindo epidemia!<\/span><\/p>\n<p><b>&nbsp;Felipe:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Prof\u00e9tico! Invocou esse tro\u00e7o, s\u00f3 pode!<\/span><\/p>\n<p><b>&nbsp;Erivaldo:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> E foi forte, n\u00e9? Porque voc\u00eas pediram s\u00f3 para Fortaleza, mas veio para o mundo todo!<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_23321\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/delirantes-e-malsas_foto-toni-benvenutti-2\/\" rel=\"attachment wp-att-23321\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23321\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23321\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Delirantes-e-malsas_Foto-Toni-Benvenutti-2-scaled-e1626185309210.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"368\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23321\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Delirantes e mals\u00e3s<\/strong>. Foto Toni Benvenutti<\/p><\/div>\n<p><b>Hon\u00f3rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Quando a situa\u00e7\u00e3o melhorou, cautelosamente come\u00e7amos a ensaiar nas pra\u00e7as, entendendo o distanciamento social. No come\u00e7o foi apavorante, entender como se juntar de novo, inclusive para adaptar o trabalho e recri\u00e1-lo do ponto de vista do distanciamento. Estreamos em outubro de 2020, fizemos uma circula\u00e7\u00e3o por sete pra\u00e7as em Fortaleza e teve p\u00fablico assistindo com distanciamento, num momento mais brando da pandemia. O trabalho est\u00e1 a\u00ed, mas s\u00f3 Deus sabe quando vamos dan\u00e7ar de novo. Tamb\u00e9m \u00e9 doido entender como \u00e9 que fica o nosso repert\u00f3rio. Ser\u00e1 que vamos fazer algum dia? \u00c9 uma coisa que tem me atormentado.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><b>Sarah: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Fiquei com vontade de comentar uma coisa. N\u00e3o \u00e9 exatamente uma pergunta, mas \u00e9 porque tem um trabalho de voc\u00eas, do Magiluth, que parte da Primavera \u00c1rabe e estamos falando das quest\u00f5es pol\u00edticas que permeiam os trabalhos. Fiquei me lembrando como esse nosso imagin\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma do pol\u00edtico tem se transformado. Vamos considerar dez anos para c\u00e1 &#8211; pego esse recorte porque foi mais ou menos o tempo em que comecei a militar no movimento estudantil secundarista. Em 2013, tivemos o grande babado de junho, Copa do Mundo, tudo mais, a\u00ed visualizamos o que era uma multid\u00e3o na rua, coisa que h\u00e1 muitos anos n\u00e3o t\u00ednhamos, os tensionamentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda, black bloc e tal, e ningu\u00e9m nunca imaginou que no fim das contas ia dar em Bolsonaro, quanto mais em n\u00e3o ver mais multid\u00e3o na rua de jeito nenhum! Ent\u00e3o, quando voc\u00eas fazem essa pesquisa que parte da Primavera \u00c1rabe, que passa pelas Jornadas de junho e agora todas as quest\u00f5es concretas de produzir na pandemia, como \u00e9 que a gente est\u00e1 pensando, e eu fico curiosa para ouvir, a forma do pol\u00edtico no teatro?<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Acho que fomos cooptados de uma forma muito equivocada a partir daquelas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, n\u00e3o entendemos que est\u00e1vamos criando o ovo da serpente. E por que fomos cooptados? Porque a gente n\u00e3o discutia pol\u00edtica. N\u00e3o entendemos que est\u00e1vamos criando uma cama perfeita para que a extrema direita deitasse.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Giordano Castro &#8211; Magiluth<\/strong><\/span><\/h2>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre as Jornadas de junho, \u00e9 muito doido como percebemos de v\u00e1rias maneiras. A ideia do cooptado foi muito vendida, mas esse movimento me chega como uma insurg\u00eancia popular, um levante. Mas a gente tem uma m\u00eddia complicada e, durante esse processo, ela cooptou esse movimento. Mas o movimento em si tem um bravejar de coisas. N\u00e3o percebo como um protofascismo.<br \/>\n<b>Felipe &#8211; <\/b><\/span><strong>No Barraco da Const\u00e2ncia tem!<\/strong><\/h2>\n<h2>&nbsp;<\/h2>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_23310\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/uma-conversa-sobre-nordeste-teatro-de-grupo-e-politica-entrevista-magiluth-e-no-barraco-da-constancia-tem\/magiluth-o-ano-em-que-sonhamos-perigosamente-renata-pires-6-3\/\" rel=\"attachment wp-att-23310\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23310\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-23310 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Magiluth-O-ano-em-que-sonhamos-perigosamente-Renata-Pires-6-scaled-e1626023385912.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"604\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23310\" class=\"wp-caption-text\"><strong>O ano em que sonhamos perigosamente<\/strong>. Foto: Renata Pires<\/p><\/div>\n<p><b>Giordano: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Acho t\u00e3o foda essa pergunta. Acho que fomos cooptados de uma forma muito equivocada a partir daquelas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, n\u00e3o entendemos que est\u00e1vamos criando o ovo da serpente. E por que fomos cooptados? Porque a gente n\u00e3o discutia pol\u00edtica. N\u00e3o entendemos que est\u00e1vamos criando uma cama perfeita para que a extrema direita deitasse. Isso \u00e9 uma coisa muito maior, mas em movimentos menores, muita coisa aconteceu, como o Ocupe Estelita, que foi um movimento pol\u00edtico organizado. Naturalmente, por tudo isso que estamos vivendo, os nossos trabalhos foram desembocando nessas quest\u00f5es, por sermos pessoas que tentam dialogar e falar coisas referentes ao nosso tempo e as coisas que nos atravessam. Ent\u00e3o naturalmente os nossos trabalhos foram ficando mais pol\u00edticos. Mas, individualmente, cada pessoa foi sendo atravessada por essa pol\u00edtica e por isso de uma forma diferente. Hoje, confesso que j\u00e1 come\u00e7o a pensar noutro lugar. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o que tem passado muito por n\u00f3s. No come\u00e7o da cria\u00e7\u00e3o do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Morte e vida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, ficamos nos questionando como fazer com que esse trabalho pol\u00edtico tamb\u00e9m fosse po\u00e9tico. Como conseguir equilibrar? Houve momentos em que cheguei para os meninos dizendo: aqui, Karl Marx na mesa. \u00c9 isso que a gente tem que falar. E hoje penso absolutamente diferente, por estar dialogando, criando em coletivo. A gente t\u00e1 trabalhando e Erivaldo vem com os cortadores de cana dan\u00e7ando no meio do canavial. E a gente faz \u201cuau!\u201d. Isso \u00e9 bonito e isso \u00e9 pol\u00edtico. E como equilibrar?&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><b>Felipe:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Como n\u00e3o sou acad\u00eamica, posso fazer an\u00e1lises da realidade sem me obrigar a ter refer\u00eancias e nem notas de rodap\u00e9. Acho que, ap\u00f3s 2010, eu sentia muito um movimento de evitar esse campo pol\u00edtico, essa estrutura manifesto, evitar o Karl Marx na mesa. E a\u00ed depois teve aquela fase de trabalhos que falavam do fim do mundo. Veio a pandemia, o fim do mundo chegou e a gente vai fazer o qu\u00ea? Sobrevive, n\u00e9? E agora vejo umas coisas mais po\u00e9ticas. Est\u00e1 dado: o mundo acabou e eu vou ser po\u00e9tica.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre essa coisa das Jornadas de junho, \u00e9 muito doido como percebemos de v\u00e1rias maneiras. A ideia do cooptado foi muito vendida, mas esse movimento me chega como uma insurg\u00eancia popular, um levante. Mas a gente tem uma m\u00eddia complicada e, durante esse processo, ela cooptou esse movimento. Mas o movimento em si tem um bravejar de coisas, de pessoas querendo menos R$ 0,20 nas passagens, direitos trabalhistas. N\u00e3o percebo como um protofascismo. O fascismo est\u00e1 posto h\u00e1 muito tempo aqui.<\/span><\/p>\n<p><b>Giordano:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Concordo com voc\u00ea. O que eu estou querendo dizer \u00e9 que aquelas marchas foram muito confusas porque existia uma pauta a princ\u00edpio: come\u00e7ou por causa do aumento de passagem, mas n\u00e3o era somente isso. Depois virou tudo. E nesse \u201cvirar tudo\u201d come\u00e7amos a criar o campo que a direita precisava: o povo est\u00e1 na rua, n\u00e3o aguenta mais, temos que come\u00e7ar a derrubar essa pessoa da\u00ed, essa mulher, no caso. Aqueles movimentos tinham que ser muito mais do que simplesmente invadir as ruas, tinham que se tornar movimentos pol\u00edticos, \u00e9 o que Mujica falava muito. Eu achava de uma sabedoria muito grande quando ele dizia: \u201cok que as pessoas est\u00e3o na rua. E quando \u00e9 que isso vira pol\u00edtica?\u201d&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><b>Pollyanna: Como foi pensar o Nordeste, essa ideia proposta pelo Ita\u00fa Cultural no projeto Cena Agora?<\/b><\/p>\n<p><b>Felipe:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Tive muita dificuldade porque encarei a proposta como tema: Nordeste. A\u00ed imediatamente lembro da \u00c1frica. Ah, tem Mo\u00e7ambique, Egito, Madagascar, \u00c1frica do Sul, Marrocos, 54 pa\u00edses, mas a gente encara assim, Nordeste. Eita, vixe! Mas, durante o processo, senti que come\u00e7amos a subverter essas percep\u00e7\u00f5es do que \u00e9 esse Nordeste. Fomos desenvolvendo essas puxadas de tapete entre n\u00f3s mesmos, como processo dramat\u00fargico, como po\u00e9tica. O trabalho \u00e9 deboche, \u00e9 pol\u00edtico, alfineta, passa por todos esses campos.<\/span><\/p>\n<p><b>Hon\u00f3rio: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Para mim foi o contr\u00e1rio. Fiquei empolgado com a \u201ctag\u201d: temos um lugar para brincar, isso aqui para jogar. Tem uma coisa muito forte em termos de montagem, que aconteceu no processo de edi\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo, mas tamb\u00e9m de constru\u00e7\u00e3o de roteiro. Criamos um roteiro e depois fomos realocando as coisas, isso vem para c\u00e1, isso vai pra l\u00e1, porque faz mais sentido. A\u00ed Felipe fala: \u201cvamos pelo buraco\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>Giordano:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Como voc\u00eas acharam tanto v\u00eddeo de buraco?<\/span><\/p>\n<p><b>Felipe:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Tem uma recorr\u00eancia de mat\u00e9ria de buraco nesses jornais da Globo. Fortaleza tem tanta not\u00edcia e a pessoa vai falar de buraco? A\u00ed joga no Youtube: \u201cburaco\u201d e vai de tag.<\/span><\/p>\n<p><b>Giordano:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Achei genial! Mas o meu primeiro bug nessa proposta foi o livro do Durval, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A inven\u00e7\u00e3o do Nordeste<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que li no processo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Morte e vida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que deixa claro que quem inventou o Nordeste foi o Nordeste. E agora? Que botei essa bomba na m\u00e3o? Fico achando que \u00e9 uma discuss\u00e3o t\u00e3o grande, que volto l\u00e1 para 2013, ser\u00e1 que estamos atirando para o lugar certo? O que estamos discutindo? Volto para a primeira quest\u00e3o: por que tantos artistas saem do Recife? Porque Recife n\u00e3o d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para esses artistas. A\u00ed \u00e9 fudido isso. Nessa encruzilhada Nordeste \u00e9 que eu me encontro. A gente n\u00e3o cuida da gente mesmo, quando voc\u00ea pensa que durante anos se manteve a pol\u00edtica da seca, pelos pol\u00edticos nordestinos, todos eles, o cearense, o pernambucano, o maranhense, porque isso gerava muita grana. Quando voc\u00ea come\u00e7a a puxar uma \u00e1rvore geneal\u00f3gica da pol\u00edtica pernambucana e v\u00ea que o atual prefeito do Recife estava brigando com a prima dele, que tamb\u00e9m era candidata. O prefeito que antecedeu ele \u00e9 casado com uma prima de Eduardo Campos e o governador estudou com a mulher de Eduardo Campos. Est\u00e1 na m\u00e3o de uma pessoa s\u00f3, de uma fam\u00edlia s\u00f3, um brigando com o outro, as mesmas pessoas! Em Natal est\u00e3o brigando os Rosados contra os Alves, essas mesmas fam\u00edlias, e eles se casam entre si. Ser\u00e1 que n\u00e3o estou errando o foco dessa discuss\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><strong>Ivana: O capitalismo \u00e9 implac\u00e1vel em qualquer esfera. As elites n\u00e3o se diferenciam muito. As elites do Nordeste n\u00e3o s\u00e3o mais boazinhas, mais gentis, menos perversas do que as elites de outros lugares, elas sentam na mesma mesa no banquete.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><b>Giordano:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Sabe quando a gente tem aquele bolo de fio de telefone no ch\u00e3o e est\u00e1 querendo tirar s\u00f3 o fio vermelho, mas ele est\u00e1 enrolado em tanta outra coisa? N\u00e3o tem como discutir o capitalismo sem discutir pautas identit\u00e1rias. O preconceito contra nordestino est\u00e1 ligado a quest\u00f5es econ\u00f4micas, n\u00e3o tem como falar de uma coisa e n\u00e3o falar de outra. Caralho! Quando me deram essa bomba, eu disse: \u201cn\u00e3o sei o que fazer!\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>Hon\u00f3rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Tem v\u00e1rias pegadinhas, cascas de banana, voc\u00ea puxa uma coisa e vem outra junto. No nosso processo li um poema que tem muito a ver com o que voc\u00ea est\u00e1 falando. \u00c9 de um escritor daqui, chamado Talles Azigon. Ele publicou no facebook em outubro de 2020: \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Nordeste\/os coron\u00e9is, os padres, os gringos\/ o ridejaneirosampaulo\/ n\u00e3o te mataram, nem matar\u00e3o\/ nordeste\/ escritoras simp\u00e1ticas amigas de ditadores,\/ mulheres que montam cavalo e usam peixeira\/ mulheres mais modernas que artistas pl\u00e1sticos do MoMA,\/ machos que matam mulheres\/ nordeste,\/ terra de ferocidades imensas,\/ terra de revolu\u00e7\u00f5es,\/ bra\u00e7os e cu do Brasil\/ nordeste,\/ onde ladr\u00f5es s\u00e3o pol\u00edticos, literatos\/ donos de grandes bibliotecas privadas,\/ e bebem suco de manga com a\u00e7\u00facar\/ lavrado com sangue dos pretos\/ o nordestino \u00e9 antes de tudo um forte:\/ forte dos reis&nbsp; magos,\/ forte schoonenborch,\/ forte santo antonio,\/ forte de santa cruz,\/ e mesmo assim\/ at\u00e9 hoje\/ invadido por europeus\/ nordeste,\/ quantos pa\u00edses precisaremos erguer\/ para conseguirmos ouvir nossa voz,\/de nosso sotaque?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acho foda porque ele vai colocando as contradi\u00e7\u00f5es do que \u00e9 esse Nordeste, dos coron\u00e9is, dessas mulheres maravilhosas que andam de cavalo e usam peixeira, mas est\u00e3o sendo assassinadas por esses machos. O grande escritor cearense, literato, est\u00e1 ligado aos movimentos contra abolicionistas, \u00e9 tudo muito bizarro. A gente sabe que Gilberto Freyre foi important\u00edssimo para entender o regionalismo, para fortalecer a ideia de uma arte regional, e servir a quem?<\/span><\/p>\n<p><strong>Ivana: Durval Muniz, na abertura do Cena Agora, a partir dessa hist\u00f3ria que Giordano falou dos la\u00e7os familiares, da influ\u00eancia e da import\u00e2ncia de Gilberto Freyre, que apadrinhou Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><b>Giordano: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">A gente vai abrindo portas sem fim. Mas eu sou uma das pessoas do Magiluth bem contra Ariano Suassuna.<\/span><\/p>\n<p><strong>Ivana: Ai, ai, ai. Fa\u00e7o todas as cr\u00edticas, mas uma coisa \u00e9 a cabe\u00e7a, outra o cora\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><b>Giordano:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Ivana, fui pra fazenda dele comer queijo com ele, conversar, ele era um velho engra\u00e7ad\u00edssimo, maravilhoso. Mas acho uma escrotid\u00e3o o movimento armorial. Um movimento que nunca existiu, que ele criou tudo, como tinha que ser o desenho, como tinha que ser a dan\u00e7a. Foi ele quem criou, ent\u00e3o \u00e9 um movimento que n\u00e3o existiu. Acho isso um egocentrismo e \u00e9 muito doido porque Pernambuco compra isso, compra o movimento armorial. Mas se eu falar isso aqui, eu t\u00f4 fudido, mas \u00e9 isso a\u00ed. T\u00e1 vendo? \u00c9 dif\u00edcil para mim fazer esse trabalho.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acho que a gente precisa ter p\u00e9 no ch\u00e3o, olhar essas pessoas nos olhos. N\u00e3o tenho que ficar endeusando Ariano Suassuna, tenho que saber quem \u00e9 Ariano Suassuna. Ele pode criar o conto de fadas dele, fazer o que ele quiser &#8211; e eu acho que, enquanto criador de literatura, dramaturgo, ele \u00e9 muito foda. Mas n\u00e3o tenho que comprar a mentira dele e nem derrub\u00e1-lo. N\u00e3o sou dessas pessoas que acreditam que tenho que acabar com o legado, desmascarar Ariano Suassuna.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o, eu n\u00e3o tenho que desmascarar Ariano Suassuna! N\u00e3o tenho que desmascarar Karol Conk\u00e1, minha gente! N\u00e3o tenho problemas com Karol Conk\u00e1! Se Karol Conk\u00e1 foi escrota a vida dela toda, e vai continuar sendo escrota, para mim o problema \u00e9 dela. Agora eu tenho que saber que, num momento das nossas vidas, enquanto eu assistia ao Big Brother e ela me dava um Big Brother, naquele momento tivemos choques de interesses. E depois a vida continua. Entendesse? Tenho choques de interesse com Ariano Suassuna quando ele quer, por exemplo, fundar um ideal de cultura pernambucana, o armorial. N\u00e3o compro essa ideia, n\u00e3o quero que ele dite a minha forma de fazer, mas acho massa que ele criou o conto de fadas dele, t\u00e1 ligado? N\u00e3o quero derrubar as coisas dele, deixa ele l\u00e1, como n\u00e3o quero derrubar Gilberto Freyre.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tenho que olhar para Gilberto Freyre e saber que ele criou uma grande fal\u00e1cia, naquela ideia de mistura pac\u00edfica de ra\u00e7a. Mistura pac\u00edfica de ra\u00e7a? O caralho! Ningu\u00e9m estava estuprando ele. \u00c9 nesse lugar. A\u00ed tenho que falar com ele e dizer: \u201cei, brother, na boa, tu escreveu <em>Casa-grande &amp; senzala<\/em>, olha, parab\u00e9ns por essa fic\u00e7\u00e3o\u201d. Vou falar com ele desse lugar.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><strong>CONFIRA AS COLUNAS DO SATISFEITA, YOLANDA? NO SITE DO ITA\u00da CULTURAL:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/existe-teatro-nordestino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Existe um teatro nordestino?<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/teatro-grupo-nordeste-motivacoes-para-criar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teatro de grupo no Nordeste: motiva\u00e7\u00f5es para criar<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/todo-mundo-sotaque\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Todo mundo tem sotaque!<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/memorias-futuro-desejos-vida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mem\u00f3rias de futuro, desejos de vida<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sabemos dizer ao certo se acontece noutras regi\u00f5es do pa\u00eds, mas no Nordeste, o telejornalismo tem uma certa fixa\u00e7\u00e3o por buracos. 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