{"id":23245,"date":"2021-07-10T12:44:40","date_gmt":"2021-07-10T15:44:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=23245"},"modified":"2021-07-10T12:44:41","modified_gmt":"2021-07-10T15:44:41","slug":"contra-a-colonizacao-da-cultura-dos-corpos-e-desejos-entrevista-jessica-teixeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/contra-a-colonizacao-da-cultura-dos-corpos-e-desejos-entrevista-jessica-teixeira\/","title":{"rendered":"Contra a coloniza\u00e7\u00e3o da cultura, dos corpos e desejos <\/br> Entrevista || J\u00e9ssica Teixeira*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_23246\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/contra-a-colonizacao-da-cultura-dos-corpos-e-desejos-entrevista-jessica-teixeira\/jessica-teixeira_arquivo-pessoal-2\/\" rel=\"attachment wp-att-23246\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23246\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23246\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/JESSICA-TEIXEIRA_ARQUIVO-PESSOAL-2-e1625270175165.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"428\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23246\" class=\"wp-caption-text\">J\u00e9ssica Teixeira, atriz, diretora, dramaturga e produtora nascida em Fortaleza. Foto: Autoretrato<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi no Sesc Pompeia, na zona Oeste de S\u00e3o Paulo, numa noite de sexta-feira fria pr\u00e9-pandemia-apocalipse, que nos deparamos com o trabalho de <strong>J\u00e9ssica Teixeira<\/strong>. Era um espet\u00e1culo impactante por v\u00e1rias raz\u00f5es, mas principalmente pela qualidade dramat\u00fargica e pelo talento daquela atriz. A defici\u00eancia f\u00edsica de J\u00e9ssica estava imbricada \u00e0s desestabiliza\u00e7\u00f5es provocadas pelo texto do solo <em>E.L.A<\/em>, que confrontava os padr\u00f5es de normalidade atribu\u00eddos aos corpos e a constru\u00e7\u00e3o do que chamamos de beleza e senso est\u00e9tico por v\u00e1rios vieses, inclusive o hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Atriz, diretora, dramaturga e produtora, a cearense de 28 anos, nascida em Fortaleza, n\u00e3o consegue passar despercebida. \u201cNunca consegui, por mais que tenha tentado. Vou na padaria, no restaurante, e sinto a dificuldade das pessoas em lidar comigo, desviando olhares, cochichando\u201d. Desde que come\u00e7ou a fazer teatro, ainda na inf\u00e2ncia, a menina de muita energia acumulada &#8211; que al\u00e9m das li\u00e7\u00f5es de teatro tinha aulas de dan\u00e7a, viol\u00e3o, teclado, futebol e v\u00f4lei &#8211; notava como o p\u00fablico reagia ao seu corpo. \u201cEle\u201d, diz ela, referindo-se ao corpo na terceira pessoa, \u201csempre chega primeiro\u201d.<\/p>\n<p>Em <strong><i>Lugar de falta<\/i><\/strong>, seu trabalho mais recente, apresentado no<strong> Cena Agora<\/strong>, edi\u00e7\u00e3o <em>E<\/em><strong><i>ncruzilhada Nordeste (s): (contra)narrativas po\u00e9ticas<\/i><\/strong>, a atriz diz sobre as aus\u00eancias e os vazios que vamos tentando preencher, sem ao menos parar para compreender quais coisas estamos tentando substituir, encaixar nos buracos, soterrando os sentidos. No v\u00eddeo, J\u00e9ssica evidencia como as pessoas reagem ao corpo que destoa do que seria um padr\u00e3o como um fardo a ser carregado, at\u00e9 um castigo por algum malfeito em vidas passadas.<\/p>\n<p>Essa entrevista foi respondida entre Porto Alegre e S\u00e3o Paulo, nos intervalos de grava\u00e7\u00e3o de dois filmes: <i>Possa Poder<\/i>, de Victor Di Marco e M\u00e1rcio&nbsp;Picoli, e outro ainda sem nome definido, que tem roteiro de J\u00e9ssica, dire\u00e7\u00e3o de Estela Lapponi e \u201cum monte de artistas deficientes no elenco e na ficha t\u00e9cnica\u201d. Na nossa conversa, J\u00e9ssica relembra a inf\u00e2ncia em Fortaleza, fala sobre o movimento teatral da cidade, a decis\u00e3o de enveredar por produ\u00e7\u00f5es solo no teatro, a descoloniza\u00e7\u00e3o de corpos e desejos, os artistas com defici\u00eancia e as lutas de futuro.<\/p>\n<p><b><strong>*&nbsp;Esta entrevista \u00e9 resultado de uma parceria entre o Satisfeita, Yolanda? e o Ita\u00fa Cultural no projeto Cena Agora, edi\u00e7\u00e3o Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas po\u00e9ticas, que incluiu media\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a escrita de quatro colunas para o site do Ita\u00fa Cultural e uma s\u00e9rie de entrevistas publicadas no Satisfeita, Yolanda?<\/strong><\/b><\/p>\n<p><b>ENTREVISTA \/\/ J\u00c9SSICA TEIXEIRA<\/b><\/p>\n<p><b>Voc\u00ea come\u00e7ou nas artes c\u00eanicas ainda crian\u00e7a. O que a arte fez por sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia? Como se deu a escolha pelo teatro, j\u00e1 mais adulta?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante a minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia diziam que eu era hiperativa, mas eu e minha fam\u00edlia nunca ligamos muito. O fato \u00e9 que chegava na escola \u00e0s 7h e, algumas vezes, sa\u00eda \u00e0s 19h, e outras, sa\u00eda \u00e0s 22h. Fazia dan\u00e7a, teatro, viol\u00e3o, teclado, futebol, v\u00f4lei. Eu tinha muita energia e precisava investir essa energia em algo para ter uma noite tranquila de sono. Sempre levei mais a s\u00e9rio o teatro e a dan\u00e7a. Buscava leituras, refer\u00eancias. Aos 12, parei de fazer aulas de jazz, bal\u00e9 e dan\u00e7a de rua, pois tive um momento muito dif\u00edcil de dores fortes em uma costela. Parei de fazer aulas de dan\u00e7a, mas nunca deixei de dan\u00e7ar. Fui percebendo que a dan\u00e7a poderia ser dan\u00e7a no meu pr\u00f3prio ritmo e tempo. Comecei a sentir que a dan\u00e7a poderia tamb\u00e9m ser muito prazerosa, porque por um tempo, atrelava a dan\u00e7a a algo doloroso. J\u00e1 no teatro, n\u00e3o parei de fazer aulas e, perto de fazer 15 anos, j\u00e1 sabia que encararia o teatro como profiss\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na escola, eu j\u00e1 conseguia perceber as aberturas profissionais que o teatro tinha para al\u00e9m da cena. O teatro para mim n\u00e3o era s\u00f3 o fato de eu ser atriz. Tinha muito estudo de humanidade envolvida. Al\u00e9m disso, eu gostava de estar em v\u00e1rios lugares da cadeia produtiva do teatro: assistia a montagem de luz; ficava ao lado do operador de luz e, \u00e0s vezes, at\u00e9 operava a luz; operava o som; sentava ao lado do diretor e prestava aten\u00e7\u00e3o nas provoca\u00e7\u00f5es, sugest\u00f5es; corria atr\u00e1s das demandas de produ\u00e7\u00e3o; fazia contrarregragem. Fazia de tudo um pouco, mas, principalmente, assistia muito teatro. Eu era uma espectadora ass\u00eddua. Quando sa\u00eda da escola mais cedo, era pra ir ao teatro. Eu brincava que a minha missa\/culto do domingo era no teatro. Acho que, por isso, encarei cedo como profiss\u00e3o. Aos 16, prestei vestibular para a primeira turma de Licenciatura em Teatro que tinha aberto na Universidade Federal do Cear\u00e1 e passei! E, assim que entrei no curso, era aquela aluna que j\u00e1 fazia todas as cadeiras poss\u00edveis, porque queria terminar logo essa etapa universit\u00e1ria. Ent\u00e3o, aos 20, estava graduada em Teatro e trabalhando com v\u00e1rios grupos daqui de Fortaleza.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">\u00c9 muito conflituoso o olhar do poder p\u00fablico,<br \/>\nda gest\u00e3o e at\u00e9 da pr\u00f3pria sociedade civil<br \/>\npara encarar o artista como uma profiss\u00e3o.<\/h2>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">Essa precariedade com a profiss\u00e3o artista<br \/>\nn\u00e3o acontece s\u00f3 aqui em Fortaleza.<\/h2>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">&nbsp;A cena art\u00edstica cresceu, mas os incentivos e o poder p\u00fablico n\u00e3o est\u00e3o conseguindo acompanhar.<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Como \u00e9 o contexto de produ\u00e7\u00e3o do teatro em Fortaleza? H\u00e1 incentivos? Grupos e artistas que te inspiram?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O contexto de produ\u00e7\u00e3o em Fortaleza \u00e9 muito complexo. Acho que n\u00e3o teve um s\u00f3 ano durante esse meu percurso que eu n\u00e3o pensei em desistir de ser artista ou de sair daqui. \u00c9 muito conflituoso o olhar do poder p\u00fablico, da gest\u00e3o e at\u00e9 da pr\u00f3pria sociedade civil para encarar o artista como uma profiss\u00e3o. A verdade \u00e9 que esse conflito, ou melhor, essa precariedade com a profiss\u00e3o artista n\u00e3o acontece s\u00f3 aqui em Fortaleza. Mas aqui h\u00e1 uma realidade de valores de cach\u00eas, or\u00e7amentos, fomentos, tempos de execu\u00e7\u00e3o ainda muito prec\u00e1ria. Temos muitos equipamentos culturais em Fortaleza e no Cear\u00e1, isso n\u00e3o tenho do que reclamar. Mas o que falta \u00e9 manuten\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica p\u00fablica continuada e gente trabalhando para que as coisas aconte\u00e7am como um dia eu vi acontecerem. A cena art\u00edstica cresceu a passos largos, principalmente com os cursos t\u00e9cnicos e com a chegada dos cursos de teatro, dan\u00e7a, cinema, entre outros nas universidades, mas os incentivos e o poder p\u00fablico n\u00e3o est\u00e3o conseguindo acompanhar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui tenho grandes artistas e amigos que me inspiram muito. Aos 14, numa dessas sa\u00eddas da escola para o teatro, assisti a Silvero Pereira em cena, e, desde ent\u00e3o, tem sido uma chama acesa dentro de mim, tanto pela qualidade art\u00edstica que ele sempre buscou e fez acontecer, como tamb\u00e9m pela firmeza de postura para fazer o que ele acredita da forma mais pol\u00edtica e sens\u00edvel poss\u00edvel. Yuri Yamamoto, Ricardo Guilherme, Maria Vit\u00f3ria, Gra\u00e7a Freitas tamb\u00e9m fazem parte desses artistas que eu pude conhecer quando era adolescente e carrego sempre comigo.<\/span><\/p>\n<p><b>Como foi a sua trajet\u00f3ria de trabalhos em grupos e quando voc\u00ea percebeu que era a hora de enveredar por uma carreira solo?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A minha trajet\u00f3ria em grupos e coletivos foi intensa e de muito aprendizado. Mas chegou um momento em que eu n\u00e3o me sentia segura quanto aos posicionamentos, pois muita coisa era decidida coletivamente e eu era s\u00f3 uma no meio de tantos. At\u00e9 que precisei abrir m\u00e3o desses grupos e coletivos, pois o que acredito precisava ser dito e mostrado com urg\u00eancia, de uma forma est\u00e9tica e pol\u00edtica, e eu percebia que n\u00e3o cabiam essas minhas urg\u00eancias quando o assunto era \u201ccoletivo\u201d ou quando o assunto era \u201ca maioria vota e decide\u201d. As pessoas estranhas como eu s\u00e3o solit\u00e1rias at\u00e9 nessas horas democr\u00e1ticas de vota\u00e7\u00f5es e consensos, por incr\u00edvel que pare\u00e7a. Ent\u00e3o, para me sentir mais segura com os meus posicionamentos e para que eles escapassem do meu pr\u00f3prio corpo, sendo esse meu corpo a minha principal mat\u00e9ria prima de trabalho, decidi, em 2018, quando tinha acabado de finalizar o meu mestrado em Artes na UFC, que iniciaria o processo criativo do meu primeiro solo, <em>E.L.A.,<\/em> que estreou em fevereiro de 2019, no Cineteatro S\u00e3o Luiz, em Fortaleza.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/contra-a-colonizacao-da-cultura-dos-corpos-e-desejos-entrevista-jessica-teixeira\/jessica-teixeira_arquivo-pessoal-1\/\" rel=\"attachment wp-att-23247\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23247\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/JESSICA-TEIXEIRA_ARQUIVO-PESSOAL-1-e1625270445350.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"360\"><\/a><\/p>\n<p><b>Voc\u00ea diz que seu corpo \u00e9 um elemento que sempre chega primeiro na rela\u00e7\u00e3o com as outras pessoas. Como lidar com isso no palco?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 tracei v\u00e1rias dramaturgias para isso. Depende do que a obra pede. No caso do espet\u00e1culo <em>E.L.A<\/em>. escolhi me apresentar, no in\u00edcio, com o teatro todo escuro, aparecendo apenas a minha voz rouca e o meu sotaque cearense. Antes, eu sentia que quando entrava em cena, eu precisava de um tempo em sil\u00eancio antes de falar qualquer coisa, pois o meu corpo j\u00e1 falava demais com os espectadores. Ent\u00e3o esperava e sentia com calma o tempo de falar para que em algum momento ele, o meu corpo, e a minha fala, dialogassem mais \u201charmonicamente\u201d. Para isso, percebi tamb\u00e9m que precisava trabalhar muito a voz, ent\u00e3o estudei e treinei as t\u00e9cnicas vocais mais diversas poss\u00edveis, porque \u00e9 muito curioso como o meu corpo fala. \u00c9 muito forte. E eu digo isso porque d\u00e1 pra ver nas express\u00f5es faciais e corporais de quem assiste. E a minha voz n\u00e3o poderia ficar aqu\u00e9m do meu corpo, n\u00e9? Ent\u00e3o trabalhei muito esse corpo\/voz de forma \u201cunida\u201d e \u201charm\u00f4nica\u201d, mas tamb\u00e9m \u201cisolada\u201d e \u201cdeslocada\u201d.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/corpo-estranho-lirico-e-politico-critica-do-espetaculo-e-l-a\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>CONFIRA A CR\u00cdTICA DE IVANA MOURA A PARTIR DO ESPET\u00c1CULO E.L.A<\/strong><\/a><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">&nbsp;Desejo \u00e9 um dos pontos cruciais, tanto para uma boa rela\u00e7\u00e3o consigo mesmo, como para que um dia a gente consiga derrubar v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es sociais capacitistas, racistas, transf\u00f3bicas, homof\u00f3bicas, gordof\u00f3bicas, mis\u00f3ginas.<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Como descolonizar os nossos corpos e desejos?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sendo curioso, curiosa, parando de consumir o \u00f3bvio, o formatado, o mesmo de sempre. Olhando para si, cuidando de si. A cada dia que passa o nosso corpo muda, se transforma, envelhece. A gente possui um infinito dentro da gente e eu me pergunto o motivo pelo qual muitas pessoas ainda insistem nas mesmas coisas, se n\u00f3s estamos em constante mudan\u00e7a. Precisamos acompanhar nossas mudan\u00e7as para que os nossos corpos sejam uma \u00f3tima companhia para a gente. E possam desejar muito al\u00e9m de uma forma, possam ser desejados, se permitam ser desejados. Acho que o desejo \u00e9 um dos pontos cruciais, tanto para uma boa rela\u00e7\u00e3o consigo mesmo, como tamb\u00e9m para que um dia a gente consiga derrubar v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es sociais capacitistas, racistas, transf\u00f3bicas, homof\u00f3bicas, gordof\u00f3bicas, mis\u00f3ginas.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><strong>As dramaturgias t\u00eam um lugar essencial, porque s\u00e3o as constru\u00e7\u00f5es de sentidos ou provoca\u00e7\u00f5es que o artista quer fazer, o lugar aonde ele quer chegar, ampliar ou expandir.<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Qual a import\u00e2ncia da escrita dramat\u00fargica no seu trabalho? Que lugar isso ocupa?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Falar de dramaturgia \u00e9 falar de tudo. Corpo, movimento, elementos de cena, objetos, luz, cores, texto. Acho um dos lugares mais interessantes hoje para criar em teatro, cinema, dan\u00e7a, artes visuais. N\u00e3o consigo pensar em uma cria\u00e7\u00e3o sem falar de dramaturgia, porque ela \u00e9 uma teia que vai conectando tudo. Pode ser um universo inteiro num corpo pintado num pequeno quadro emoldurado ou um mundo dentro de uma caixa preta com v\u00e1rios corpos amontoados \u2013 ou com ningu\u00e9m. As dramaturgias t\u00eam um lugar essencial, porque s\u00e3o as constru\u00e7\u00f5es de sentidos ou provoca\u00e7\u00f5es que o artista quer fazer, o lugar aonde ele quer chegar, ampliar ou expandir, e isso ganha uma infinidade de possibilidades de cria\u00e7\u00e3o a partir das nossas escolhas art\u00edsticas. Ent\u00e3o, prezo muito pelas diversas dramaturgias e pela escrita dramat\u00fargica. Tenho gostado, cada vez mais, de escrever meus pr\u00f3prios textos, pois sei que muitos dos textos que eu atuei durante a minha vida, consegui compreender a regi\u00e3o\/territ\u00f3rio em que o texto se passava e que o artista habitava, seus lugares de fala, dos personagens e do artista, todo o contexto que envolvia a obra. Mas, hoje, sinto que preciso, de vez em quando, escrever a partir do meu contexto e do meu ponto de vista, que ainda passa por certos apagamentos e invisibilidades, infelizmente.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">Acho que ser um corpo com defici\u00eancia neste pa\u00eds<br \/>\nainda \u00e9 pesado, infelizmente&#8230;<strong><br \/>\nporque n\u00e3o d\u00e1 para passar despercebida nunca.<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Quais lutas fazem J\u00e9ssica se engajar e desejar futuros melhores?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A primeira luta \u00e9 a de poder ter uma vida simples, banal e corriqueira, como qualquer outra, sem ser tratada de forma especial, com cuidados extremos. Viver uma vida sem tanto carregamento dos outros sobre mim. Acho que ser um corpo com defici\u00eancia neste pa\u00eds ainda \u00e9 pesado, infelizmente. Hoje mesmo estava conversando com uma amiga e falei pra ela sobre um meme que vi que dizia assim: \u201c\u00e9 tanta luta, que eu j\u00e1 t\u00f4 ficando agressiva\u201d. Falei rindo, num tom de brincadeira, mas acaba sendo s\u00e9rio, porque n\u00e3o d\u00e1 para passar despercebida. Pelo menos nunca consegui, por mais que tenha tentado. Vou na padaria, no restaurante e sinto a dificuldade das pessoas em lidar comigo, desviando olhares, cochichando. Desaprendem a falar e encontram problema onde n\u00e3o tem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra luta que acredito \u00e9 tirar os mist\u00e9rios, os tabus, o eufemismo, quando a gente for falar sobre essas pautas afirmativas, porque eu gostaria profundamente que essas palavras fossem normalizadas nos vocabul\u00e1rios das pessoas: capacitismo, luta anticapacitista, pessoa com defici\u00eancia, pessoa de pele preta, negro, pessoa gorda, pessoa cega, surda, travesti, trans, ind\u00edgena. \u00c0s vezes, as pessoas ainda sentem receio de falar sobre ou de errar. Mas como a gente avan\u00e7a com medo ou criando mist\u00e9rios e tabus sobre esses corpos? Acredito que existem muitas coisas que a gente s\u00f3 aprende errando, infelizmente, mas se a gente n\u00e3o falar e discutir sobre tudo isso, n\u00e3o caminhamos para esse futuro melhor, mais digno e menos cansativo para todes.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/contra-a-colonizacao-da-cultura-dos-corpos-e-desejos-entrevista-jessica-teixeira\/jessica-teixeira_arquivo-pessoal-3\/\" rel=\"attachment wp-att-23248\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-23248\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/JESSICA-TEIXEIRA_ARQUIVO-PESSOAL-3-e1625270499809.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"560\"><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\"><strong>A cultura brasileira \u00e9 muito vasta e rica, mas parte dela ainda \u00e9 patriarcal, elitista, clientelista, heteronormativa, b\u00edpede, sim\u00e9trica e supostamente branca. A nossa cultura tamb\u00e9m \u00e9 def, ind\u00edgena, LGBTQIAP+.<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><b>Falamos muito em acessibilidade nas artes, mas nos parece que ainda temos pouqu\u00edssimos artistas com defici\u00eancia nos palcos. O que voc\u00ea acha e como podemos mudar as coisas?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acredito que n\u00e3o \u00e9 que temos poucos artistas com defici\u00eancia nos palcos deste pa\u00eds, acho at\u00e9 que temos muitos. O problema est\u00e1 em n\u00f3s mesmos, que n\u00e3o nos damos conta desses artistas, que est\u00e3o espalhados por a\u00ed, construindo seus pr\u00f3prios espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o. O nosso olhar ainda est\u00e1 muito voltado para uma produ\u00e7\u00e3o art\u00edstico-cultural quase intoc\u00e1vel pelo seu \u201cselo de qualidade\u201d: padr\u00e3o, clean, normativo, linear, fino, classe A, cheio de clarezas e esclarecimentos. A cultura brasileira \u00e9 muito vasta e rica,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">mas parte dela ainda \u00e9<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">patriarcal, elitista, clientelista, heteronormativa, b\u00edpede, sim\u00e9trica e supostamente branca. A nossa cultura tamb\u00e9m \u00e9 def, ind\u00edgena, LGBTQIAP+, mas por que insistimos em refor\u00e7ar e acompanhar essa cultura brasileira segregacionista e seletiva?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste \u00faltimo ano, pude me aproximar de 40 artistas com defici\u00eancia que est\u00e3o atuando h\u00e1 muitos anos no setor cultural. Com alguns desses artistas, criei profundas afinidades e, inclusive, conseguimos trabalhar juntos, ainda que virtualmente. E foi a partir desses encontros que percebi o quanto os nossos corpos produzem linguagem, discursos, est\u00e9ticas, que, por muito tempo, n\u00e3o eram reconhecidas pelas pessoas sem defici\u00eancia como pesquisa e produ\u00e7\u00e3o art\u00edstico cultural. A nossa pesquisa, cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o era vista apenas como cota ou como crit\u00e9rio de pontua\u00e7\u00e3o em editais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A mudan\u00e7a da minha compreens\u00e3o aconteceu quando convers\u00e1vamos sobre os signos que escolh\u00edamos para colocar nas nossas obras e sobre as nossas constru\u00e7\u00f5es de discursos, e percebemos como esses signos e esses discursos se encontravam e se repetiam, ainda que de formas diferentes. Afinal, somos corpos estranhos, mas muito singulares entre o nosso \u201cmeio em comum\u201d. Digo meio em comum, porque ainda n\u00e3o consigo dizer se somos uma comunidade exatamente, por tantas especificidades e singularidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da\u00ed acredito que a mudan\u00e7a s\u00f3 vai acontecer quando houver uma virada na compreens\u00e3o dos fazedores, cr\u00edticos, curadores e consumidores das artes. N\u00f3s somos cultura viva tamb\u00e9m. Uma latente e estranha forma de sobreviver, de se comunicar, de se manifestar, de se vestir, de escrever e de performar neste mundo.<\/span><\/p>\n<p><b>Em <em>Lugar de falta<\/em>, voc\u00ea fala muito sobre as coisas que nos faltam e que n\u00f3s n\u00e3o paramos para perceb\u00ea-las. O que nos falta como artistas de teatro no Nordeste do Brasil?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A falta \u00e9 territ\u00f3rio presente em nossos corpos e nas nossas regi\u00f5es. O que falta num, n\u00e3o falta noutro, porque o que falta neste outro, j\u00e1 \u00e9 outra coisa. Lugar de falta \u00e9 lugar de contradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, porque \u00e9 demais. Falta muito e, \u00e0s vezes, sinto que a gente tenta esconder ou desviar aten\u00e7\u00e3o dessas faltas. Parece que \u00e9 preciso que estejamos sempre muito preenchidos, cheios de respostas, muito completos, inteiros e preparados. Mas a gente sabe que n\u00e3o \u00e9 assim. Ent\u00e3o, acho que a maior falta nossa \u00e9 a consci\u00eancia dessas faltas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No <em>Lugar de Falta<\/em>, quando vou falar sobre as pessoas \u201cinteiras\u201d, falo exatamente das pessoas que acham que s\u00e3o inteiras, que acham que t\u00eam tudo. Porque pessoas que t\u00eam tudo simplesmente nem existem. A hegemonia do belo, do padr\u00e3o, do saud\u00e1vel \u00e9 uma grande utopia, porque nunca ser\u00e1 alcan\u00e7ada tal e qual idealizamos. Mas, infelizmente, ainda existem bilh\u00f5es de pessoas buscando fazer parte dessa hegemonia do sucesso e precisando de corpos notoriamente n\u00e3o hegem\u00f4nicos para depositar as suas pr\u00f3prias faltas, que se esfor\u00e7am para esconder todos os dias.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que realmente nos falta \u00e9 olhar para n\u00f3s mesmos. Acho que essa \u00e9 a principal falta. Conseguirmos nos escutar e nos percebermos de diversas formas. Conseguir acolher, cuidar e alimentar este corpo cheio de sensa\u00e7\u00f5es que carregamos todos os dias. Com certeza, isso vai fazer toda a diferen\u00e7a na nossa rela\u00e7\u00e3o conosco, com o outro, com o mundo e tamb\u00e9m vai refletir diretamente na nossa cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o art\u00edstico cultural.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/contra-a-colonizacao-da-cultura-dos-corpos-e-desejos-entrevista-jessica-teixeira\/jessica-teixeira_arquivo-pessoal-4\/\" rel=\"attachment wp-att-23249\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-23249\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/JESSICA-TEIXEIRA_ARQUIVO-PESSOAL-4-e1625270579523.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"533\"><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONFIRA AS COLUNAS DO SATISFEITA, YOLANDA? NO SITE DO ITA\u00da CULTURAL:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/existe-teatro-nordestino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Existe um teatro nordestino?<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/teatro-grupo-nordeste-motivacoes-para-criar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teatro de grupo no Nordeste: motiva\u00e7\u00f5es para criar<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/todo-mundo-sotaque\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Todo mundo tem sotaque!<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/memorias-futuro-desejos-vida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mem\u00f3rias de futuro, desejos de vida<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi no Sesc Pompeia, na zona Oeste de S\u00e3o Paulo, numa noite de sexta-feira fria pr\u00e9-pandemia-apocalipse, que nos deparamos com o trabalho de J\u00e9ssica Teixeira. 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