{"id":23197,"date":"2021-07-07T17:34:49","date_gmt":"2021-07-07T20:34:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=23197"},"modified":"2021-07-07T17:34:51","modified_gmt":"2021-07-07T20:34:51","slug":"representatividade-e-resistencia-lgbtqia-entrevista-coletivo-de-danca-teatro-agridoce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/representatividade-e-resistencia-lgbtqia-entrevista-coletivo-de-danca-teatro-agridoce\/","title":{"rendered":"Representatividade e resist\u00eancia LGBTQIA+ <\/br> Entrevista || Coletivo de Dan\u00e7a-Teatro Agridoce"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_23203\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/representatividade-e-resistencia-lgbtqia-entrevista-coletivo-de-danca-teatro-agridoce\/dsc_0280\/\" rel=\"attachment wp-att-23203\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23203\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-23203 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/DSC_0280-scaled-e1625167410272.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"599\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23203\" class=\"wp-caption-text\">Coletivo Agridoce (da direita para a esquerda): Sophia, Nilo (camisa preta), Fl\u00e1vio (camisa branca), Igor e Aurora. Foto: Zito Junior\/ Studio Z Fotografia<\/p><\/div>\n<p>No intervalo de menos de seis meses, o espet\u00e1culo <em>O Evangelho segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u<\/em>, protagonizado pela atriz trans Renata Carvalho foi censurado duas vezes em Pernambuco: no Festival de Inverno de Garanhuns, em julho de 2018, e no Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos, na \u00e9poca do an\u00fancio da programa\u00e7\u00e3o, em dezembro do mesmo ano.<\/p>\n<p>Como os acontecimentos muitas vezes trazem consequ\u00eancias e conex\u00f5es que v\u00e3o se desdobrando, esses epis\u00f3dios de censura marcaram significativamente a trajet\u00f3ria de um grupo pernambucano, o Coletivo de Dan\u00e7a-Teatro Agridoce. Foi assim: pouco tempo depois daquele FIG, a atriz e bailarina trans Sophia Williams entendeu que havia chegado o momento de montar o pr\u00f3prio coletivo para produzir projetos autorais. E, como movimento de resposta \u00e0 censura no JGE, partiu desse coletivo a iniciativa de criar o festival Janeiro sem censura, que j\u00e1 teve tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com duas atrizes trans no elenco: Sophia William e Aurora Jamelo, o Agridoce fez sua estreia com a primeira temporada do espet\u00e1culo <em>Trans(Passar)<\/em>, em mar\u00e7o de 2019, no Teatro Hermilo Borba Filho. Em agosto do mesmo ano, estreou <em>Mar Fechado<\/em>. Tanto as quest\u00f5es de g\u00eanero quanto de ra\u00e7a permeiam os trabalhos do coletivo formado, al\u00e9m de Aurora e Sophia, por Fl\u00e1vio Moraes, Igor Cavalcanti e Nilo Pedrosa.<\/p>\n<p>No \u00faltimo m\u00eas de abril, o grupo participou do projeto Cena Agora, do Ita\u00fa Cultural, com <em>Rhizophora &#8211; Estudo n\u00ba1<\/em>, primeiro experimento do novo trabalho, baseado em Homens e Caranguejos, de Josu\u00e9 de Castro. A nossa conversa com o Agridoce tratou da trajet\u00f3ria do grupo, as lutas, os preconceitos e o teatro como ferramenta para transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p><strong>*&nbsp;Esta entrevista \u00e9 resultado de uma parceria entre o Satisfeita, Yolanda? e o Ita\u00fa Cultural no projeto Cena Agora, edi\u00e7\u00e3o Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas po\u00e9ticas, que incluiu media\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a escrita de quatro colunas para o site do Ita\u00fa Cultural e uma s\u00e9rie de entrevistas publicadas no Satisfeita, Yolanda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ENTREVISTA || COLETIVO DE DAN\u00c7A-TEATRO AGRIDOCE<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por que a escolha pelo teatro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Moraes: <\/strong>Acho que a escolha foi natural, n\u00e3o sei nem se podemos chamar de escolha. Nosso coletivo se intitula Coletivo de Dan\u00e7a-Teatro Agridoce. A dan\u00e7a est\u00e1 presente e foi, de certa forma, o ponto de in\u00edcio. Nunca foi s\u00f3 teatro, mas ele acabava vindo na frente ou tomando o lugar de foco. Somos amantes e adeptos de v\u00e1rias linguagens. N\u00f3s nos permitimos escrever, interpretar, levar o sil\u00eancio ao palco e, muitas vezes, a palavra n\u00e3o dita, o movimento.<\/p>\n<p>Nosso pr\u00f3ximo espet\u00e1culo tem a dan\u00e7a como alimento e tem sido muito louco entender esse corpo dan\u00e7ante em mim, entender que meu corpo, mesmo que eu n\u00e3o perceba, est\u00e1 carregado de marcas invis\u00edveis, de imposi\u00e7\u00f5es de posturas. Carregamos conosco um acumulado de &#8220;n\u00e3os&#8221;. Em mim, alguns deles est\u00e3o na cintura que n\u00e3o quebra, nos ombros travados, na m\u00e3o que apanhava quando \u201cdesmunhecava\u201d, na voz que tinha que ser grave, no \u201cn\u00e3o pode chorar\u201d, \u201cn\u00e3o poder ser fr\u00e1gil\u201d, \u201cn\u00e3o poder ser leve\u201d. Minha viv\u00eancia como ser humano, como homem, branco, gay, privilegiado e, principalmente, o reconhecimento desses privil\u00e9gios, associado \u00e0 minha viv\u00eancia junto a meus colegues do Agridoce, t\u00eam quebrado muitos n\u00e3os em mim.<\/p>\n<p><strong>Igor Cavalcanti: <\/strong>Acho que nunca houve mesmo esse momento de escolha ou de ruptura com outras linguagens. O Agridoce se apresenta como coletivo de teatro e dan\u00e7a, mas n\u00e3o seria exagero colocar o audiovisual, porque todos os nossos projetos de teatro possuem um derivado audiovisual. Estamos sempre fluindo entre as linguagens.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00eas se reuniram? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Moraes:<\/strong> Sophia j\u00e1 conhecia Aurora e eu morava com Nilo, em 2017. Nilo, Sophia e Aurora se encontraram no processo de um espet\u00e1culo e eu entrei para executar a luz. Criamos intimidade e afinidade, o que resultou num grupo de Whatsapp. Certo dia, em uma conversa mais calorosa, uma troca de shades (indiretas) entre Sophia e Nilo, Sophia mandou um risinho e Nilo respondeu com &#8220;adoro o teu humor Agridoce&#8221;. Virou o nome do grupo do Whatsapp e, dias depois, Aurora fez uma identidade visual com o nome e nossos rostos e colocou no perfil. Ent\u00e3o a gente j\u00e1 tinha nome e identidade visual, antes mesmo de se reconhecer de fato como grupo de teatro. Um tempo depois, ap\u00f3s voltar de uma viv\u00eancia com o Coletivo Lugar Comum, como ato de protesto \u00e0 censura sofrida por Renata Carvalho no Festival de Inverno de Garanhuns, Sophia marcou uma reuni\u00e3o. Ela prop\u00f4s que nos junt\u00e1ssemos para produzir nossos pr\u00f3prios trabalhos como grupo. A\u00ed veio um edital de ocupa\u00e7\u00e3o do Teatro Hermilo Borba Filho. Inscrevemos <em>Trans(Passar)<\/em>, uma performance de Sophia, um solo fruto do TCC dela. Para essa vers\u00e3o, foi feita a adapta\u00e7\u00e3o da performance com inser\u00e7\u00e3o de Aurora e alguns outros textos dela, o que levou a um formato e entendimento mais definido de espet\u00e1culo. A gente nem tinha ainda uma din\u00e2mica de grupo, uma estrutura, inclusive financeira, para dar suporte, mas fizemos acontecer. Nesse processo, pedimos uma ajuda a Igor, que era nosso amigo j\u00e1 de outros processos, na bilheteria. Foi um m\u00eas de temporada e da\u00ed Igor j\u00e1 n\u00e3o saiu mais e nem tinha como, j\u00e1 era um Agridoce.<\/p>\n<p><strong>Quais fatos s\u00e3o mais marcantes na trajet\u00f3ria enquanto companhia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Moraes: <\/strong>Acho cada passo uma grande conquista. Conseguir levar <em>Trans(Passar)<\/em> para um espa\u00e7o &#8220;tradicional&#8221; de teatro, com dois corpos trans em cena, suas hist\u00f3rias individuais e trazendo a de tantas outras meninas para o palco. Corpos marginalizados, agredidos de tantas e de todas as formas poss\u00edveis, de p\u00e9, em foco, em pauta durante um m\u00eas, foi um grande feito. Eu via o encerramento de <em>Trans(Passar)<\/em> da cabine de luz junto com Nilo e a cada semana tinha mais gente, e eu tinha um orgulho delas, um orgulho da gente. Eu sou bem suspeito para falar, sou o chor\u00e3o do grupo, choro para falar, choro vendo a gente em cena, choro vendo o apoio e o acolhimento que a gente vem recebendo durante nossa jornada, choro de raiva, \u00e0s vezes, porque faz parte tamb\u00e9m, n\u00e9? Choro por tudo.<\/p>\n<p>O Janeiro Sem Censura \u00e9 outro feito que considero bem importante, pelo movimento, pelos temas, pela mensagem de resist\u00eancia e pela forma como acontece e vem acontecendo com tanta gente querida e talentosa somando junto.<\/p>\n<p>Nosso segundo espet\u00e1culo, <em>Mar Fechado<\/em>, tamb\u00e9m foi nos levando a outros lugares, conseguimos um edital no Teatro Hermilo Borba Filho; conseguimos tamb\u00e9m no Teatro Barreto J\u00fanior, em mar\u00e7o do ano passado, mas foi cancelado devido \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Na pandemia, nesses tempos de dist\u00e2ncia, sil\u00eancios, aus\u00eancias, saber se entender e permanecer, juntos e produzindo, tamb\u00e9m foi um grande feito. E mais recentemente nossa participa\u00e7\u00e3o no Projeto Encruzilhada Nordeste, do Ita\u00fa Cultural, que foi uma surpresa muito feliz e nos deu um \u00e2nimo que est\u00e1vamos precisando.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">Uma cidade, um estado que censura uma atriz (Renata Carvalho) sucessivas vezes. (&#8230;) a gente se sentiu na obriga\u00e7\u00e3o de fazer algo no momento em que isso aconteceu, foi quando o Agridoce se uniu a outros grupos e teve a primeira edi\u00e7\u00e3o do Janeiro sem Censura.<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><strong>De que forma os lugares f\u00edsicos, a cidade, o estado, de onde voc\u00eas criam influenciam na trajet\u00f3ria\/pesquisa do grupo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nilo Pedrosa: <\/strong>Fiquei refletindo sobre essa pergunta e pensando sobre a nossa trajet\u00f3ria. Em <em>Trans(Passar)<\/em>, a motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 muito interior, a princ\u00edpio de Sofia e posteriormente de Aurora, que se soma na constru\u00e7\u00e3o desse roteiro e na produ\u00e7\u00e3o. E uma coisa interessante \u00e9 que s\u00f3 est\u00e3o as duas em cena, mas elas trazem v\u00e1rias outras mulheres recifenses para contar essa hist\u00f3ria, que se materializam atrav\u00e9s das vozes dentro do espet\u00e1culo. Isso \u00e9 trazer o espa\u00e7o f\u00edsico, atrav\u00e9s dessas pessoas que transitam e vivem nessa cidade. Depois vem <em>Mar Fechado<\/em>. Grande parte da cria\u00e7\u00e3o foi na praia, ensai\u00e1vamos em Boa Viagem, na areia. E talvez se a gente n\u00e3o morasse aqui, se a gente existisse como grupo noutro lugar, o nome da pe\u00e7a nem fosse <em>Mar Fechado<\/em> e nem falasse sobre o mar.<\/p>\n<p>Em 2019, fizemos uma a\u00e7\u00e3o num protesto do Ocupe Estelita, umas torres que est\u00e3o sendo constru\u00eddas no Cais Jos\u00e9 Estelita, e o movimento Ocupe Estelita \u00e9 contra essa constru\u00e7\u00e3o. Fizemos uma interven\u00e7\u00e3o art\u00edstica, colamos uns lambe-lambes e performamos. O nome da performance era <em>Tubar\u00e3o<\/em>, uma semente do que viria a ser <em>Rhizophor<\/em>a hoje, esse trabalho mais recente, que surge da minha inquieta\u00e7\u00e3o, dentro do meu mestrado, sou formado em engenharia civil, em sustentabilidade dentro das constru\u00e7\u00f5es. Da minha inquieta\u00e7\u00e3o de ver como o espa\u00e7o f\u00edsico desta cidade, do Recife, \u00e9 uma luta eterna de classes e de interesses. As cidades s\u00e3o idealizadas por pessoas de formas diferentes e como essas cidades se colocam de forma f\u00edsica e tamb\u00e9m de uma forma virtual, n\u00e3o-f\u00edsica, a cidade que existe na cabe\u00e7a de cada pessoa. <em>Rhizophora <\/em>fala sobre isso, \u00e9 o trabalho em que esse espa\u00e7o f\u00edsico da cidade do Recife est\u00e1 mais presente, a gente fala sobre o mangue, lembra que essa cidade foi constru\u00edda em cima do manguezal e que n\u00f3s somos esse mangue. E tudo vira mat\u00e9ria de trabalho porque a gente vive a cidade e esse trabalho \u00e9 sobre viver a cidade.<\/p>\n<p>E tem o Janeiro sem censura, que surgiu depois da censura sofrida por Renata Carvalho no festival Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos. Uma cidade, um estado que censura uma atriz sucessivas vezes. Ela foi censurada tamb\u00e9m em Garanhuns e a gente se sentiu na obriga\u00e7\u00e3o de fazer algo no momento em que isso aconteceu, foi quando o Agridoce se uniu a outros grupos e teve a primeira edi\u00e7\u00e3o do Janeiro sem Censura.<\/p>\n<div id=\"attachment_23200\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/representatividade-e-resistencia-lgbtqia-entrevista-coletivo-de-danca-teatro-agridoce\/mar-fechado_agridoce_anny-stone\/\" rel=\"attachment wp-att-23200\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23200\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23200\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Mar-Fechado_Agridoce_Anny-Stone-scaled-e1625166904291.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23200\" class=\"wp-caption-text\">Mar Fechado, segundo trabalho do Coletivo Agridoce, teve temporada cancelada no Barreto J\u00fanior por conta da pandemia. Foto: Anny Stone<\/p><\/div>\n<p><strong>Como voc\u00eas viveram a pandemia enquanto grupo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Moraes:<\/strong> Acho que tivemos dois momentos bem n\u00edtidos. Um distanciamento, um sil\u00eancio, um estranhamento carregado de incertezas a cada m\u00eas que a pandemia permanecia e as possibilidades pareciam cada vez mais distantes. Num segundo momento, voltamos a produzir, a entender possibilidades dentro do novo cen\u00e1rio das artes e desse mundo online. At\u00e9 por quest\u00f5es pr\u00e1ticas mesmo, como monetizar o grupo e repor os preju\u00edzos da temporada cancelada no Barreto J\u00fanior devido a pandemia, por exemplo. Desse levante, veio o edital do Sesc, Cultura em Rede, que passamos com o Conversando Pitangas, um circu\u00edto de 10 lives, em que tivemos oportunidade de conversar com grupos, artistas independentes e performers. Logo depois lan\u00e7amos um projeto de audioperformance, o Racontos, com 3 epis\u00f3dios inspirados na \u00e9poca de ouro das radionovelas. Come\u00e7amos a viabilizar nossos processos de cria\u00e7\u00e3o e ensaios remotamente. Chegamos a ensaiar coreografias de forma remota. Sophia, nossa core\u00f3grafa, teve essa miss\u00e3o de conduzir esses corpos dentro da realidade poss\u00edvel, de um quarto, uma sala, uma varanda. Conseguimos, junto a todes que nos apoiam e est\u00e3o firmes acreditando no nosso trabalho, fazer por mais um ano, sem incentivo algum, o Janeiro Sem Censura, todo online. Recebemos convites para festivais online, como o Luz Negra, do O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas, e mais recentemente o projeto do Ita\u00fa, Encruzilhada Nordeste.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o espa\u00e7o social, cultural e pol\u00edtico de atua\u00e7\u00e3o de um grupo de teatro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nilo Pedrosa:<\/strong> Para n\u00f3s do Agridoce, no \u00e2mbito social, tem muito a ver com representatividade, com estar presente, ser visto e servir de exemplo para outras pessoas como n\u00f3s. \u00c9 sobre criar nossas pr\u00f3prias oportunidades. Al\u00e9m disso, a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o. Os nossos trabalhos de uma certa forma educam nosso p\u00fablico, trazendo realidades que talvez eles n\u00e3o conhe\u00e7am. No \u00e2mbito cultural, acho que \u00e9 muito sobre nossas verdades, representar o que a gente vive, v\u00ea, pensa e trazer tudo isso para o nosso fazer art\u00edstico. No espa\u00e7o pol\u00edtico, nossa atua\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente na milit\u00e2ncia LGBT, sempre ser\u00e1 uma bandeira, porque somos LGBTs, todos os integrantes. E tem as quest\u00f5es de censura, que combatemos com veem\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 com discurso, mas com a\u00e7\u00f5es. Essa tentativa de combater a censura a todo custo e de n\u00e3o deixar que nos silenciem e n\u00e3o deixar que as pessoas \u00e0 nossa volta sejam silenciadas. Tudo isso resume o que \u00e9 o Agridoce.<\/p>\n<p><strong>Vivemos momentos de \u00f3dio e intoler\u00e2ncia. Como reverter esses sentimentos t\u00e3o ego\u00edstas e covardes? \u00d3dio se combate com \u00f3dio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sophia William:<\/strong> As pessoas est\u00e3o deixando suas m\u00e1scaras ca\u00edrem com mais frequ\u00eancia, n\u00e3o est\u00e3o fazendo quest\u00e3o de esconder seus \u00f3dios e intoler\u00e2ncias, talvez por termos um presidente que n\u00e3o faz quest\u00e3o de esconder e acha que seu \u00f3dio e intoler\u00e2ncia s\u00e3o opini\u00f5es, o que n\u00e3o \u00e9. \u00d3dio e intoler\u00e2ncia s\u00e3o completamente diferentes de opini\u00e3o. Enquanto fazedores de arte, n\u00f3s do Agridoce tentamos transformar nossas dores, ang\u00fastias e anseios em arte. Entendendo que, \u00e0s vezes, estar com uma flor na frente de um campo de batalha \u00e9 muito mais forte do que apontar uma arma para quem est\u00e1 apontando uma arma para voc\u00ea. Porque voc\u00ea n\u00e3o vai estar ensinando nada, s\u00f3 se desgastando para tentar fazer aquela pessoa te entender. Voc\u00ea vai estar gritando, a pessoa vai estar gritando e ningu\u00e9m vai se entender.<\/p>\n<p><strong>No contexto de viol\u00eancias que os corpos trans sofrem, como foi a cria\u00e7\u00e3o de Trans(Passar)?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sophia William:<\/strong> Eu, Sophia, enquanto corpo preto e trans, sofro viol\u00eancia diariamente. Essa viol\u00eancia me fez criar <em>Trans(Passar)<\/em>, por ter sofrido viol\u00eancia dentro da pr\u00f3pria arte, por n\u00e3o ser um corpo aceito, por ter tido professores de dan\u00e7a, diretores de dan\u00e7a e de teatro abusivos com o meu corpo, que n\u00e3o me aceitavam, que queriam que eu modificasse o meu corpo. Transmutei essa dor em estudo. Sou licenciada em Dan\u00e7a e n\u00e3o queria que os meus alunos sofressem o que sofri. Passei a estudar quest\u00f5es como a hist\u00f3ria do corpo, o que o corpo carrega, e a entender que cada pessoa tem a sua peculiaridade, sua viv\u00eancia, seu poder, sua for\u00e7a e seu corpo. O meu corpo dizia uma coisa e os meus professores e diretores queriam que o meu corpo dissesse outra coisa. Isso n\u00e3o ajudou em nada a me construir, s\u00f3 fez com que eu me retra\u00edsse e me afastasse, at\u00e9 que entendi o poder que o meu corpo poderia ter na arte.<\/p>\n<p>Comecei a me autoproduzir porque sabia que nenhum grupo de dan\u00e7a ou nenhum grupo da cidade iria abra\u00e7ar os meus trabalhos. Eu ainda fazia parte do DIG, D&#8217;Improvizzo Gang, que foi um grupo que me acolheu na minha transi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do DIG, eu fazia parte do Bal\u00e9 Popular do Recife, e entendendo que eu iria come\u00e7ar a minha transi\u00e7\u00e3o, entendendo a hist\u00f3ria do meu corpo, entendendo quem eu era, comecei a sair dos grupos. Porque eu sabia que eu n\u00e3o seria aceita em determinados grupos. Quando eu disse para o DIG que sairia porque come\u00e7aria uma transi\u00e7\u00e3o, que eu era uma mulher trans e que eu n\u00e3o me sentia mais confort\u00e1vel representando pap\u00e9is masculinos, o grupo me abra\u00e7ou: \u201cn\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o vai sair, voc\u00ea vai continuar fazendo a sua arte e a gente vai entender isso juntos, a gente vai fazer a transi\u00e7\u00e3o com voc\u00ea\u201d. E foi isso que aconteceu, o DIG acabou transicionando comigo e foi isso que me fez continuar na arte.<\/p>\n<p>Se eu n\u00e3o tivesse sido abra\u00e7ada pelo DIG no in\u00edcio da minha transi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teria tido o timing de convidar o pessoal do Agridoce para formar o grupo tempos depois, ap\u00f3s a minha transi\u00e7\u00e3o. E <em>Trans(Passar)<\/em> surge no momento em que eu queria colocar isso para fora, essas dores, essa viol\u00eancia, s\u00f3 que de outra forma. Queria provocar a sociedade a pensar e n\u00e3o simplesmente gritar, queria fazer com que a sociedade sentisse a minha dor atrav\u00e9s da minha arte. E \u00e9 isso que acontece, todas as vezes em que apresento <em>Trans(Passar)<\/em>, a gente sai sempre muito emocionado, todo mundo do grupo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de <em>Trans(Passar)<\/em>, quando entro em cena, vou diretamente ao p\u00fablico, perguntando \u00e0s pessoas se elas querem um peda\u00e7o de mim, porque \u00e9 isso que a sociedade espera e quer de uma pessoa trans ou travesti. Sempre quer um peda\u00e7o nosso. Querem nossos corpos nas esquinas, na prostitui\u00e7\u00e3o, na marginalidade, mas n\u00e3o querem ver os nossos corpos na arte. As rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o diversas. Muitas se assustam, muitas dizem n\u00e3o, outras dizem sim. Quando elas dizem sim, tiro do meu corpo partes de um poema escrito por Aurora. Como artistas, sempre tentamos transmutar esse \u00f3dio que nos arrebata diariamente. E fazer com que a arte seja tamb\u00e9m um mote educador. Eu como licenciada, como professora, vejo que a arte tamb\u00e9m \u00e9 um lugar para ensinar, um lugar completamente pol\u00edtico. N\u00e3o tem como dissociar. A arte sempre foi pol\u00edtica.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">Querem nossos corpos nas esquinas, na prostitui\u00e7\u00e3o,<br \/>\nna marginalidade, mas n\u00e3o querem ver<br \/>\nos nossos corpos nas artes.<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Voc\u00eas dizem que a arte \u00e9 um espa\u00e7o para ensinar as pessoas. Como lidar com isso? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sophia William:<\/strong> N\u00e3o precisamos gritar. A subjetividade \u00e0s vezes \u00e9 muito mais forte do que a objetividade. Precisamos fazer as pessoas pensarem sobre as informa\u00e7\u00f5es. Se entregamos as coisas de m\u00e3o beijada, as pessoas se tornam burras, ignorantes, porque elas n\u00e3o v\u00e3o mais atr\u00e1s. V\u00e3o estar sempre perguntando o que \u00e9 aquilo e n\u00f3s, como corpos dissidentes, n\u00e3o temos a obriga\u00e7\u00e3o de explicar o tempo todo quem somos. Precisamos cutucar a ferida, mostrando o que acontece com os corpos, a viol\u00eancia que a gente sofre, mas de outra forma, fazendo as pessoas pensarem, sentirem o que a gente sente e verem o que a sociedade faz e n\u00e3o simplesmente entregar de m\u00e3o beijada um assunto, sublinhando cada texto, cada fala, cada movimento, porque isso torna a sociedade burra. N\u00f3s entendemos esse lugar de forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico n\u00e3o s\u00f3 como querer atrair p\u00fablico, levar cada vez mais as pessoas aos espet\u00e1culos, mas fazer com que elas saiam do nosso espet\u00e1culo formadas, entendendo. Semear nelas uma coisa que elas v\u00e3o pesquisar depois, que v\u00e3o sair do espet\u00e1culo com aquele neg\u00f3cio na cabe\u00e7a e v\u00e3o querer ou n\u00e3o pesquisar, mas a semente foi deixada.<\/p>\n<p><strong>Como n\u00e3o cair na cilada do manique\u00edsmo, na arte, no teatro, na vida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sophia William: <\/strong>Acho que \u00e9 uma resposta muito simples: \u00e9 compreender que nada \u00e9 absoluto, nem na arte, nem no teatro, nem na vida. O que a gente sempre fala dos nossos espet\u00e1culos \u00e9 que eles nunca est\u00e3o finalizados. <em>Trans(Passar)<\/em> j\u00e1 teve quatro vers\u00f5es, por exemplo, exatamente porque nada \u00e9 s\u00f3 uma coisa. Nada \u00e9 s\u00f3 bem ou s\u00f3 mal, s\u00f3 isso ou aquilo. A gente vive e essa viv\u00eancia nos traz mudan\u00e7a e essa mudan\u00e7a n\u00f3s levamos para o nosso fazer art\u00edstico. Tudo \u00e9 mut\u00e1vel. A arte, o teatro e a vida s\u00e3o mut\u00e1veis. Nenhuma opini\u00e3o \u00e9 absoluta, porque n\u00f3s estamos mudando a todo instante e todos aqueles que acreditam que as suas opini\u00f5es s\u00e3o absolutas caem em suas pr\u00f3prias armadilhas, em armadilhas criadas pelo seu absolutismo. A gente n\u00e3o precisa viver nessa dualidade de bem e de mal. Tudo isso foi criado por uma sociedade crist\u00e3, hier\u00e1rquica, branca, elitista e que colocou a vida toda os brancos como seres divinos, os negros como seres demon\u00edacos e ainda continua a fazer isso.<\/p>\n<div id=\"attachment_23201\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/representatividade-e-resistencia-lgbtqia-entrevista-coletivo-de-danca-teatro-agridoce\/transpassar\/\" rel=\"attachment wp-att-23201\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23201\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23201\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Transpassar-e1625167085882.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23201\" class=\"wp-caption-text\">Trans(Passar), espet\u00e1culo de estreia, foi resposta po\u00e9tica \u00e0 viol\u00eancia contra corpos trans. Foto: Anny Stone<\/p><\/div>\n<p><strong>Na cena que voc\u00eas apresentaram no Ita\u00fa, voc\u00eas trouxeram o Recife que est\u00e1 erguido sob o mangue. Como foi esse processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sophia William: <\/strong>Visitamos a hist\u00f3ria do Recife, nossa ancestralidade, a ancestralidade da nossa cidade e em cima do que o Recife foi constru\u00eddo. Precisamos voltar ao passado, revisitar coisas. N\u00e3o constru\u00edmos o presente baseado apenas em quest\u00f5es do agora. Estudamos as fam\u00edlias que vinham do Sert\u00e3o em busca de emprego e acabavam n\u00e3o encontrando e vivendo em periferias. Como somos uma cidade cercada de \u00e1gua, uma cidade formada por v\u00e1rias ilhas, a maioria dessas comunidades s\u00e3o alagadi\u00e7as, vivem do que tiram do mangue, caranguejo, sururu, marisco. O quintal dessas pessoas \u00e9 o mangue, onde as crian\u00e7as brincam, as fam\u00edlias se re\u00fanem. E ali \u00e9 a casa deles, a morada deles. A gente precisou entender quest\u00f5es de leis, como a lei das Zeis (Zonas Especiais de Interesse Social), que \u00e9 uma lei criada para proteger essas zonas, e que hoje as grandes construtoras querem burlar, retirando as pessoas de suas comunidades para construir avenidas, construir pr\u00e9dios. V\u00e3o tirar essas pessoas e colocar elas onde? Jo\u00e3o, que \u00e9 o personagem principal de <em>Rhizophora<\/em>, vive essa dualidade, ele compreende os dois lados, mas acaba escolhendo um lado. Porque \u00e9 o lado em que a lei est\u00e1, o da comunidade, que \u00e9 algo para ser respeitado, que \u00e9 a lei das Zeis, que fala sobre a conserva\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os que s\u00e3o ocupados pela comunidade.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">Uma mulher n\u00e3o tem for\u00e7a? A gente carrega a sociedade h\u00e1 muito tempo, sempre carregamos os homens nas nossas costas. Por que ser questionada sobre<br \/>\nessa for\u00e7a feminina? Por que a mulher tem que ser leve,<br \/>\na que \u00e9 carregada, a que \u00e9 levantada?<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Como voc\u00ea se v\u00ea como core\u00f3grafa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sophia William: <\/strong>N\u00e3o sou uma core\u00f3grafa que est\u00e1 dentro do pensamento da estrutura est\u00e9tica do belo. Gosto de provocar. N\u00e3o sou uma core\u00f3grafa virtuosa. O virtuosismo \u00e9 algo que eu questiono automaticamente pelo meu corpo trans em cena. Na apresenta\u00e7\u00e3o do trabalho no Ita\u00fa, carrego um dos meninos do elenco e fomos questionados por isso. Porque n\u00e3o? Uma mulher n\u00e3o tem for\u00e7a? A gente carrega a sociedade h\u00e1 muito tempo, sempre carregamos os homens nas nossas costas. Ent\u00e3o por que ser questionada sobre essa for\u00e7a feminina? Por que a mulher tem que ser leve, a que \u00e9 carregada, a que \u00e9 levantada? Essa \u00e9 uma das coisas que eu questiono muito o grupo com as minhas coreografias.<\/p>\n<p>J\u00e1 fui questionada ao sair de um espet\u00e1culo, na \u00e9poca do DIG,<em> Cafe M\u00fcller<\/em>, por minha estrutura \u00f3ssea. Fui questionada muitas vezes por fazer pap\u00e9is de mulheres cis. Por que eu, enquanto mulher trans, sou questionada por fazer o papel de uma mulher cis, mas um homem quando faz o papel de uma mulher, como Paulo Gustavo, que passou a vida fazendo o papel de uma mulher, como o Magiluth, que \u00e9 um grupo formado por homens, e fazem pap\u00e9is femininos, n\u00e3o s\u00e3o questionados? E eu sou questionada porque tenho a for\u00e7a para carregar um homem em cena, porque a minha estrutura \u00f3ssea \u00e9 de determinada forma? Os nossos corpos est\u00e3o a\u00ed para quebrar esse manique\u00edsmo, esse virtuosismo, essa dualidade, de quem tem for\u00e7a, de quem n\u00e3o tem.<\/p>\n<div id=\"attachment_23226\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/representatividade-e-resistencia-lgbtqia-entrevista-coletivo-de-danca-teatro-agridoce\/rhizophora\/\" rel=\"attachment wp-att-23226\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23226\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23226\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Rhizophora-e1625249998936.jpg\" alt=\"Rhizophora - Estudo n\u00ba1\" width=\"600\" height=\"290\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23226\" class=\"wp-caption-text\">Rhizophora &#8211; Estudo n\u00ba1, foi apresentado no Cena Agora. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo<\/p><\/div>\n<p><strong>A autorrepresenta\u00e7\u00e3o e visibilidade de pessoas trans e travestis, nos v\u00e1rios setores e especificamente no mundo das artes, como voc\u00eas enxergam? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sophia William: <\/strong>N\u00f3s ainda sentimos uma grande escassez de pessoas trans e travestis no cen\u00e1rio art\u00edstico recifense. Infelizmente somos um dos poucos grupos com pessoas trans e travestis no elenco. E isso faz com que a gente perceba a falta de representatividade e visibilidade, porque artistas existem no Recife e n\u00f3s temos como provar. Como o trabalho, por exemplo, de Catarina Almanova, que lan\u00e7ou recentemente o curta <em>Tornar-se monstra ou humana?<\/em>, que foi um trabalho que eu fiz a produ\u00e7\u00e3o e tive a oportunidade de participar. N\u00e3o tem como negar que existem artistas trans e travestis na cidade do Recife. O que falta \u00e9 oportunidade. Na minha carreira, entendi que eu precisava abrir as portas para mim mesma. Porque al\u00e9m de eu ser uma pessoa trans, sou uma pessoa negra. Sou atriz, bailarina, core\u00f3grafa do Agridoce, mas tamb\u00e9m sou produtora. E tenho oportunidade de ver outros trabalhos e ver a escassez de pessoas trans trabalhando, seja na frente ou atr\u00e1s dos palcos, protagonizando ou na produ\u00e7\u00e3o de um filme, e isso para n\u00f3s \u00e9 algo muito triste. Porque a gente perde cada vez mais a vontade de fazer arte.<\/p>\n<p>Eu sempre digo que eu e Aurora entendemos a import\u00e2ncia de estarmos em cena. Porque ao nos verem em cena, outras meninas e meninos trans conseguem se enxergar. Essa \u00e9 a grande import\u00e2ncia da autorrepresentatividade e da visibilidade. Quando a gente chega e questiona o transfake, n\u00e3o estamos impedindo os artistas de exercerem a sua liberdade art\u00edstica e po\u00e9tica. Estamos pedindo apenas uma chance para que possamos pelo menos fazer e representar pap\u00e9is que falam sobre n\u00f3s. \u00c9 claro que a gente n\u00e3o quer fazer pap\u00e9is s\u00f3 de pessoas trans ou travestis, mas estamos pedindo o m\u00ednimo. E esse m\u00ednimo \u00e9 negado. Porque a arte continua refor\u00e7ando os estere\u00f3tipos que a sociedade j\u00e1 tem da gente, de que n\u00f3s somos homens travestidos de mulheres, ou mulheres travestidas de homens, e n\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 a nossa identidade, o que n\u00f3s somos.<\/p>\n<p>O que a gente v\u00ea por a\u00ed s\u00e3o v\u00e1rios trabalhos sendo feitos, falando de pessoas trans e travestis, escritos por homens, brancos, heteronormativos, cis e que t\u00eam privil\u00e9gios de passar em todos os editais, de ter contatos. E n\u00f3s, enquanto pessoas trans e travestis, n\u00e3o temos esses privil\u00e9gios. N\u00e3o temos essas oportunidades. Ent\u00e3o a autorrepresentatividade e a visibilidade para n\u00f3s pessoas trans e travestis, para n\u00f3s pessoas sexo dissidentes, para n\u00f3s ra\u00e7a-dissidentes \u00e9 muito importante. \u00c9 entender que n\u00f3s podemos estar ali, que queremos e devemos. E que n\u00e3o somos uma piada.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 ser um corpo pol\u00edtico numa sociedade heteronormativa, elitista e racista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sophia William: <\/strong>\u00c9 ser um corpo resistente, cansado de lutar, porque a gente cansa, mas precisamos estar ali, resistir, n\u00e3o podemos fraquejar, precisamos fazer com que outras pessoas trans e travestis, outras pessoas negras, entendam que elas podem estar ali. Que elas podem ocupar lugares, espa\u00e7os que s\u00e3o socialmente nossos.<\/p>\n<p>Esses dias conversando com uma amiga, est\u00e1vamos conversando sobre a quest\u00e3o da ra\u00e7a e entendendo que a sociedade n\u00e3o foi feita para acolher pessoas sexo-dissidentes, pessoas trans ou travestis, pessoas LGBTQIA+ ou pessoas negras, porque enquanto a sociedade estava sendo constru\u00edda, est\u00e1vamos vivendo em cativeiros, senzalas, hosp\u00edcios, porque as pessoas acreditavam que pessoas LGBTQIA+ eram loucas. Ent\u00e3o a sociedade n\u00e3o estava sendo constru\u00edda para n\u00f3s, para nos acolher, pelo contr\u00e1rio, estava sendo constru\u00edda para nos rejeitar, nos deixar em guetos, nos colocar no lugar marginal. Entender esse corpo pol\u00edtico hoje \u00e9 entender um corpo resistente, entender um corpo que pode e deve estar ali, ocupando o seu espa\u00e7o, que \u00e9 seu por direito. \u00c9 o espa\u00e7o que n\u00f3s contribu\u00edmos para a constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 ser um corpo que n\u00e3o precisa gritar para ser ouvido.<\/p>\n<p>Sempre falo que o fato de muitas vezes eu ir ao shopping e estar na pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o comendo com Aurora j\u00e1 \u00e9 um ato pol\u00edtico porque as pessoas n\u00e3o esperam ver um corpo trans e travesti transitando durante o dia. O que as pessoas querem \u00e9 ver os nossos corpos nas esquinas. O que as pessoas esperam \u00e9 ver os nossos corpos na prostitui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sentadas na pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o comendo e conversando. \u00c9 um lugar nosso por direito, um espa\u00e7o social, que devemos ocupar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ser um corpo pol\u00edtico \u00e9 ser um corpo resistente \u00e9 ser um corpo que ocupa, \u00e9 ser um corpo que fala por si s\u00f3, que n\u00e3o precisa estar gritando aos sete cantos do mundo e dizendo quem \u00e9 porque eu sou. Pelo contr\u00e1rio, eu apenas quero e preciso estar ao lado daqueles que v\u00e3o lutar comigo, daquelas que vieram antes de mim, constru\u00edram uma sociedade, que lutaram na ditadura, para que hoje eu pudesse fazer arte, para que hoje eu pudesse ocupar espa\u00e7os que antes elas n\u00e3o poderiam ocupar, pessoas trans e travestis, pessoas negras.<\/p>\n<div id=\"attachment_23205\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/representatividade-e-resistencia-lgbtqia-entrevista-coletivo-de-danca-teatro-agridoce\/processed-with-vsco-with-m3-preset\/\" rel=\"attachment wp-att-23205\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23205\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23205\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/12.-Coletivo-Agridoce_foto-Anny-Stone-e1625167547357.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23205\" class=\"wp-caption-text\">Coletivo Agridoce. Foto: Anny Stone<\/p><\/div>\n<p><strong>CONFIRA AS COLUNAS DO SATISFEITA, YOLANDA? NO SITE DO ITA\u00da CULTURAL:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/existe-teatro-nordestino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Existe um teatro nordestino?<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/teatro-grupo-nordeste-motivacoes-para-criar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teatro de grupo no Nordeste: motiva\u00e7\u00f5es para criar<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/todo-mundo-sotaque\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Todo mundo tem sotaque!<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/memorias-futuro-desejos-vida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mem\u00f3rias de futuro, desejos de vida<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No intervalo de menos de seis meses, o espet\u00e1culo O Evangelho segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u, protagonizado pela atriz trans Renata Carvalho foi censurado duas vezes em Pernambuco: no Festival de Inverno de Garanhuns, em julho de 2018, e no Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos, na \u00e9poca do an\u00fancio da programa\u00e7\u00e3o, em dezembro do mesmo ano. 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