{"id":23179,"date":"2021-07-04T16:59:18","date_gmt":"2021-07-04T19:59:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=23179"},"modified":"2021-07-04T18:08:52","modified_gmt":"2021-07-04T21:08:52","slug":"o-brasil-precisa-prestar-contas-com-seu-passado-enfrentar-seus-mortos-para-desenterrar-o-futuro-entrevista-marcio-marciano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-brasil-precisa-prestar-contas-com-seu-passado-enfrentar-seus-mortos-para-desenterrar-o-futuro-entrevista-marcio-marciano\/","title":{"rendered":"&#8220;O Brasil precisa prestar contas com seu passado, <br\/>enfrentar seus mortos para desenterrar o futuro&#8221; <br\/> Entrevista || M\u00e1rcio Marciano"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_23185\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/01-11-19-Desertores_foto_Alessandro-Potter_056-scaled-e1625058816306.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23185\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23185\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/01-11-19-Desertores_foto_Alessandro-Potter_056-scaled-e1625058816306.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23185\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Desertores, <\/strong>pe\u00e7a de 2019, do Coletivo Alfenim de Teatro, com dire\u00e7\u00e3o de M\u00e1rcio Marciano, que deve voltar aos palcos ap\u00f3s a pandemia. Foto: Alessandro Potter \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23183\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ODF-Rafael-Saes-2-e1625059015503.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23183\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23183\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ODF-Rafael-Saes-2-e1625059015503.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23183\" class=\"wp-caption-text\"><strong>O Deus da Fortuna.<\/strong> Foto: Rafael Saes<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23182\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Helenas-por-Tarciana-Gomes1-scaled-e1625059126275.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23182\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23182\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Helenas-por-Tarciana-Gomes1-scaled-e1625059126275.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23182\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Helenas<\/strong>. Foto Tarciana Gomes<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_23184\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/MDC-Karen-Montija-e1625059209228.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23184\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23184\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/MDC-Karen-Montija-e1625059209228.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23184\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Mem\u00f3rias de um c\u00e3o<\/strong>. Foto: Karen Montija<\/p><\/div>\n<p>Pensar, tocar, incendiar o mundo atrav\u00e9s da arte. \u00c9 um jeito de existir. De expandir horizontes. De buscar sentidos. O paulistano M\u00e1rcio Marciano, encenador e dramaturgo do Coletivo de Teatro Alfenim, de Jo\u00e3o Pessoa, na Para\u00edba, est\u00e1 implicado contra a opress\u00e3o. \u201cO teatro surgiu em minha vida como um apelo e uma arma\u201d, conta ele nesta longa e importante entrevista, que \u00e9 um dos frutos de uma colabora\u00e7\u00e3o do <strong><em>Satisfeita, Yolanda?<\/em><\/strong> para o Ita\u00fa Cultural no projeto <em><strong>Cena Agora<\/strong><\/em>, edi\u00e7\u00e3o <em><strong>Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas po\u00e9ticas<\/strong><\/em>. A iniciativa incluiu media\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a escrita de quatro colunas para o site do Ita\u00fa Cultural e uma s\u00e9rie de entrevistas publicadas no <strong>Satisfeita, Yolanda?.<\/strong><\/p>\n<p>Com <strong><em>Pequeno Invent\u00e1rio das Afinidades Nordestinas<\/em><\/strong>, um experimento documental e l\u00edrico, em linguagem h\u00edbrida entre o teatro e o cinema, o Alfenim participou do programa <em><strong>Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas po\u00e9ticas<\/strong><\/em>. A a\u00e7\u00e3o do Palco Virtual do Ita\u00fa Cultural reuniu trabalhos de 15 minutos de 28 grupos teatrais do Nordeste, do Norte e do Sudeste, que flexionaram sobre as constru\u00e7\u00f5es estereotipadas ou colonizadas das identidades nordestinas, tendo como disparador a capa da revista Veja S\u00e3o Paulo, que publicou uma edi\u00e7\u00e3o especial elegendo S\u00e3o Paulo como a capital do Nordeste.<\/p>\n<p>A cena criada e dirigida por M\u00e1rcio Marciano e Murilo Franco investiu na experi\u00eancia de nordestinidade conectada a uma mem\u00f3ria mais afetiva e com dobraduras sobre a atualidade de espa\u00e7o e tempo no contexto da pandemia.<\/p>\n<p>O grupo paraibano \u2013 formado por paulistanos, paraibanos, cariocas, mineiros, goianos e cearenses \u2013 buscou na leitura po\u00e9tica e cr\u00edtica desse <strong><em>Pequeno Invent\u00e1rio <\/em><\/strong>alargar o arrolamento de ideias e sentidos para a quest\u00e3o. Participaram do quadro que explorou as contradi\u00e7\u00f5es e afetos dessa composi\u00e7\u00e3o m\u00faltipla do Nordeste as\/os artistas Zezita Matos, Adriano Cabral, Edson Albuquerque, Lara Torrezan, Mayra Ferreira, Murilo Franco, Paula Coelho, Ver\u00f4nica Cavalcanti, Victor Dess\u00f4 e V\u00edtor Blam.<\/p>\n<div id=\"attachment_23236\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/WhatsApp-Image-2021-06-30-at-14.19.30-e1625259813390.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23236\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23236\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/WhatsApp-Image-2021-06-30-at-14.19.30-e1625259813390.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23236\" class=\"wp-caption-text\">O diretor do Alfenim em um momento de ensaio. Foto: Bruno Vinelli \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Marciano \u00e9 um dos fundadores da Companhia do Lat\u00e3o, de S\u00e3o Paulo, onde atuou por 10 anos, antes de se mudar para a capital paraibana. \u00c9 um pensador, dramaturgo e encenador \u201cpoliticamente posicionado no contexto da luta de classes\u201d. Para ele, fazer teatro tamb\u00e9m \u00e9 um enfrentamento constante e incans\u00e1vel contra o capitalismo seus efeitos. Suas argutas reflex\u00f5es amplificam as percep\u00e7\u00f5es sobre a pol\u00edtica e a arte, abra\u00e7am o sentimento de estar junto, questionam de que teatro estamos falando, cobram as responsabilidades constitucionais do poder p\u00fablico de garantir apoio \u00e0 arte e da cultura que vem sendo negadas, e ressaltam as necess\u00e1rias e urgentes pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds t\u00e3o injusto.<\/p>\n<p>O projeto \u201cpo\u00e9tico-pol\u00edtico-pedag\u00f3gico\u201d, um termo brechtiano que distingue o percurso do Coletivo Alfenim, est\u00e1 refletido nos espet\u00e1culos do grupo. Num trajeto de 14 anos e na conviv\u00eancia com quatro gera\u00e7\u00f5es de artistas, o Alfenim montou, entre outros, <strong><em>Quebra-Quilos <\/em><\/strong>(2007), sobre uma revolta popular situada no sert\u00e3o da Para\u00edba no final do s\u00e9culo XIX; <strong><em>Milagre Brasileiro<\/em><\/strong> (2010), que investiga a figura do desaparecido pol\u00edtico durante a ditadura militar, <strong><em>O Deus da Fortuna<\/em><\/strong> (2011), sobre o processo de financeiriza\u00e7\u00e3o do capital; o solo <strong><em>Brevidades<\/em><\/strong> (2013), com Zezita Matos; <strong><em>Mem\u00f3rias de um c\u00e3o<\/em><\/strong> (2015) e <strong><em>Helenas<\/em> <\/strong>(2018). Com o edital do RUMOS Ita\u00fa Cultural, a trupe deu in\u00edcio \u00e0 pesquisa de <em>Complexo Fatzer<\/em> (2018), de Brecht, que derivou na encena\u00e7\u00e3o <strong>Desertores<\/strong> (2019), que volta \u00e0 cena presencial ap\u00f3s a pandemia.<\/p>\n<p>A tarefa coletiva mais urgente para artistas e cidad\u00e3os, na vis\u00e3o de M\u00e1rcio Marciano, \u201c\u00e9 confrontar e desbaratar o projeto miliciano de poder que est\u00e1 se imiscuindo em todas as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas do pa\u00eds\u201d. Essa luta \u00e9 incontorn\u00e1vel.<\/p>\n<h1>ENTREVISTA || M\u00c1RCIO MARCIANO<\/h1>\n<div id=\"attachment_23193\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-30-at-14.19.19.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23193\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23193\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-30-at-14.19.19.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-30-at-14.19.19.jpeg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-30-at-14.19.19-300x169.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-23193\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rcio Marciano. Foto: Lenise Pinheiro \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Como o teatro entrou na sua vida?<\/strong><\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de campanhas de populariza\u00e7\u00e3o do teatro. Quando adolescente, na virada da d\u00e9cada de 1970 para a d\u00e9cada de 1980, eu era metal\u00fargico e morava num bairro oper\u00e1rio de S\u00e3o Paulo, a Mooca. L\u00e1 existe um teatro da prefeitura, o Arthur Azevedo, que recebia espet\u00e1culos que haviam feito temporadas de sucesso e eram apresentados a pre\u00e7os populares. Tive a chance de ver montagens hist\u00f3ricas como <em>Na carreira do divino<\/em>, <em>O homem elefante<\/em>, <em>Pegue e n\u00e3o pague<\/em>, <em>Muro de arrimo<\/em>, entre outros.<\/p>\n<p><strong>E ficou por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, nunca havia entrado num teatro. Foi uma descoberta saber que era poss\u00edvel juntar num mesmo espa\u00e7o e num mesmo tempo tanta gente interessada em pensar o mundo atrav\u00e9s da Arte. Vi no Teatro uma s\u00edntese viva de v\u00e1rias formas de express\u00e3o, com a vantagem de que tudo acontecia ao alcance das m\u00e3os, a poesia materializada em ato, mentes e corpos em converg\u00eancia. Para quem j\u00e1 pensava que o mundo andava fora dos eixos e que era preciso denunciar todas as formas de opress\u00e3o, o teatro surgiu em minha vida como um apelo e uma arma. Mas somente mais tarde, depois de cursar jornalismo, me pus o desafio de estudar e fazer teatro. Passei um tempo no curso de Artes C\u00eanicas da ECA (USP), mas o teatro me convocou e fui trabalhar como cenot\u00e9cnico e operador de luz no Teatro do Ornitorrinco, grupo que eu admirava por ter me posto em contato com a obra de Brecht. Pouco tempo depois, participei da funda\u00e7\u00e3o da Companhia do Lat\u00e3o (SP), na qual permaneci por 10 anos.<\/p>\n<p><strong>Na sua trajet\u00f3ria, quais os epis\u00f3dios que considera mais relevantes?<\/strong><\/p>\n<p>Penso que para a grande maioria de artistas engajados num teatro n\u00e3o hegem\u00f4nico, politicamente posicionado no contexto da luta de classes, toda estreia \u00e9 um marco relevante na luta, mais ainda sua perman\u00eancia em repert\u00f3rio. No meu caso particular, destaco os primeiros experimentos da Companhia do Lat\u00e3o, quando ocupamos por quatro anos o hist\u00f3rico Teatro de Arena, em S\u00e3o Paulo, assim como as v\u00e1rias apresenta\u00e7\u00f5es do grupo em assentamentos do MST Brasil afora, e nossa participa\u00e7\u00e3o no F\u00f3rum Mundial Social, em Porto Alegre (2003). J\u00e1 no Coletivo de Teatro Alfenim, ressalto nossa participa\u00e7\u00e3o no Festival Latino-americano de Teatro de Grupo de S\u00e3o Paulo, em 2009, a inaugura\u00e7\u00e3o de nossa sede em Jo\u00e3o Pessoa, a Casa Amarela, com a estreia de <strong><em>Mem\u00f3rias de um c\u00e3o<\/em><\/strong>, em 2015, e o Festival Internacional da Utopia, em Maric\u00e1 (RJ), em 2016.<\/p>\n<p><strong>Poderia contar um pouco da trajet\u00f3ria do grupo?<\/strong><\/p>\n<p>O Coletivo de Teatro Alfenim surgiu em 2007, quando eu e Paula Coelho, minha companheira, nos mudamos de S\u00e3o Paulo para Jo\u00e3o Pessoa. Ela acabara de ingressar como professora no Departamento de Teatro da UFPB. Minha inten\u00e7\u00e3o era dar continuidade ao projeto de desenvolvimento de uma dramaturgia autoral a partir de temas brasileiros, iniciada na Companhia do Lat\u00e3o. O grupo foi formado por atrizes e atores convidados e estudantes de teatro que conheci em oficinas que ministrei na cidade. Esse encontro de gera\u00e7\u00f5es \u00e9 uma das marcas do Coletivo. Da funda\u00e7\u00e3o participaram atrizes de carreira consolidada como Zezita Matos, Ver\u00f4nica Cavalcanti e Soia Lira, que permanecem atuando no grupo, juntamente com jovens atores e atrizes que conhecemos em oficinas oferecidas regularmente nesses 14 anos de atividade.<\/p>\n<p>O Coletivo Alfenim estreou oficialmente no Festival Recife de Teatro Nacional, em 2007, com a leitura encenada de <strong><em>Quebra-Quilos<\/em><\/strong>, seu primeiro espet\u00e1culo. Em 2009, o grupo participou da Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo de S\u00e3o Paulo. A pe\u00e7a trata de uma revolta popular que ocorreu no sert\u00e3o da Para\u00edba no final do s\u00e9culo XIX contra a implanta\u00e7\u00e3o do sistema m\u00e9trico decimal. A segunda montagem, <strong><em>Milagre Brasileiro<\/em><\/strong>, de 2011, aborda o per\u00edodo mais sombrio da Ditadura Militar, ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o do AI-5, tendo seu foco na figura do \u201cdesaparecido pol\u00edtico\u201d. O espet\u00e1culo foi indicado ao Pr\u00eamio Shell na categoria M\u00fasica. Em 2012, o Coletivo montou <strong><em>O Deus da Fortuna<\/em><\/strong>, uma par\u00e1bola em chave c\u00f4mica sobre o processo de financeiriza\u00e7\u00e3o do capital. A pe\u00e7a se passa numa China m\u00edtica, pr\u00e9-capitalista. O espet\u00e1culo circulou pelo pa\u00eds com o projeto SESC- Palco Girat\u00f3rio, em 2014. Tamb\u00e9m em 2012 estreou <strong><em>Brevidades<\/em><\/strong>, um solo de Zezita Matos, que narra a trajet\u00f3ria de uma atriz acometida pelo Mal de Alzheimer. Recolhida a uma cl\u00ednica, ela relembra em meio aos constantes lapsos de mem\u00f3ria, os pap\u00e9is marcantes de sua carreira.<\/p>\n<p>Em 2013, o Alfenim foi contemplado pelo Programa de Patroc\u00ednio da Petrobras com o projeto <strong><em>Figura\u00e7\u00f5es Brasileiras<\/em><\/strong>. Al\u00e9m de circular com seu repert\u00f3rio por v\u00e1rias capitais do pa\u00eds, o grupo montou em 2015 <strong><em>Mem\u00f3rias de um c\u00e3o<\/em><\/strong>. Em 2017, o espet\u00e1culo foi selecionado pelo programa de circula\u00e7\u00e3o da BR Distribuidora. Em 2018, o Coletivo estreou <strong><em>Helenas<\/em><\/strong>, que permanece em repert\u00f3rio. A pe\u00e7a foi escrita a partir da obra <em>Minha vida de menina<\/em>, de Helena Morley, que viveu em Diamantina, no final do s\u00e9culo XIX. Retrata o processo de descoberta e de forma\u00e7\u00e3o da personalidade por que passa a autora ao entrar na adolesc\u00eancia. Apesar da dist\u00e2ncia de mais de um s\u00e9culo, as observa\u00e7\u00f5es agudas de Helena revelam as contradi\u00e7\u00f5es da sociabilidade brasileira dos dias atuais.<\/p>\n<p>Em 2018, o Alfenim foi contemplado pelo RUMOS Ita\u00fa Cultural para iniciar o processo de estudos do <em><strong>Complexo Fatzer<\/strong>,<\/em> a monumental obra inacabada de Bertolt Brecht. Esse estudo resultou na montagem do espet\u00e1culo <strong><em>Desertores<\/em><\/strong>, que estreou em 2019 na Casa Amarela, sede do grupo em Jo\u00e3o Pessoa, e permanece em cartaz \u00e0 espera de retomar as apresenta\u00e7\u00f5es presenciais ap\u00f3s a pandemia. Ao longo de 14 anos de atividades ininterruptas, o Alfenim participou dos principais Festivais e Mostras de Teatro do pa\u00eds, al\u00e9m de ocupa\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os da Funarte em S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro e dos Espa\u00e7os da Caixa Cultural de Bras\u00edlia, Rio e Curitiba. Em 2018, lan\u00e7ou seu primeiro CD <em>Can\u00e7\u00f5es de Cena<\/em>, com composi\u00e7\u00f5es musicais de seus tr\u00eas primeiros espet\u00e1culos. Atualmente, prepara o lan\u00e7amento de um novo CD com as can\u00e7\u00f5es de cena de <em>Desertores<\/em>.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">Pode soar meio anacr\u00f4nico,<br \/>\nmas temos a convic\u00e7\u00e3o de que<br \/>\no Teatro deve ser uma arte p\u00fablica,<br \/>\ncoletiva e popular.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">A for\u00e7a de nosso trabalho<br \/>\nvem justamente dessa forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nque re\u00fane quatro gera\u00e7\u00f5es de artistas.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">Uma marca do Alfenim<br \/>\n\u00e9 a pluralidade que se reflete<br \/>\nno modo colaborativo de produ\u00e7\u00e3o da cena<\/h2>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_23255\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Marcio-Marciano-Coletivo_de_Teatro_Alfenim_Foto_Alessandro_Potter-e1625334185478.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23255\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-23255 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Marcio-Marciano-Coletivo_de_Teatro_Alfenim_Foto_Alessandro_Potter-e1625334185478.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"323\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23255\" class=\"wp-caption-text\">Coletivo Alfenim de Teatro. Foto: Alessandro_Potter<\/p><\/div>\n<p><strong>Como sobreviver enquanto coletivo?<\/strong><\/p>\n<p>Nomear o Alfenim como \u201ccoletivo\u201d foi uma decis\u00e3o program\u00e1tica, num momento em que a tend\u00eancia era a de esfacelamento dos grupos em dire\u00e7\u00e3o a produ\u00e7\u00f5es solo, muito em fun\u00e7\u00e3o da falta de alternativas para a manuten\u00e7\u00e3o de projetos de pesquisa continuada. Ainda hoje, o termo inc\u00f4modo \u00e9 quase uma profiss\u00e3o de f\u00e9 na busca de modos coletivos de produ\u00e7\u00e3o da cena, contra a preval\u00eancia da especializa\u00e7\u00e3o e da divis\u00e3o social do trabalho em moldes capitalistas. Pode soar meio anacr\u00f4nico, mas temos a convic\u00e7\u00e3o de que o Teatro deve ser uma arte p\u00fablica, coletiva e popular. Essa escolha acarreta um custo, sobretudo no que se refere \u00e0 circula\u00e7\u00e3o do grupo, uma vez que se torna cada vez mais invi\u00e1vel viajar com uma equipe de 14 ou 15 pessoas. Contudo, apesar das dificuldades, n\u00e3o temos d\u00favida de que a for\u00e7a de nosso trabalho vem justamente dessa forma\u00e7\u00e3o que re\u00fane quatro gera\u00e7\u00f5es de artistas.<\/p>\n<p>Uma das peculiaridades do Alfenim, para o bem e para o mal, \u00e9 que a grande maioria dos integrantes tem uma atividade profissional paralela. S\u00e3o professores universit\u00e1rios, professores de cursos t\u00e9cnicos de teatro, professores de artes, enfim, atividades complementares ao fazer teatral. Se, por um lado, essa condi\u00e7\u00e3o limita o per\u00edodo de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0s atividades do grupo, por outro, proporciona uma alternativa de sobreviv\u00eancia nos momentos de aus\u00eancia de cobertura financeira, seja atrav\u00e9s da venda de espet\u00e1culos, seja com base nas verbas de editais.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o que mant\u00e9m a unidade do Coletivo (afora os fundadores, a maioria de seus integrantes est\u00e1 no grupo h\u00e1 mais de 10 anos) \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o de seu projeto \u201cpo\u00e9tico-pol\u00edtico-pedag\u00f3gico\u201d, tomando emprestado um termo de Brecht. Com o tempo, estamos aprendendo a assimilar e p\u00f4r em pr\u00e1tica os desejos de pesquisa e experimenta\u00e7\u00e3o de cada artista em particular. Essa pluralidade se reflete no modo colaborativo de produ\u00e7\u00e3o da cena, outra marca do Alfenim. Do ponto de vista material, o grupo deve sua exist\u00eancia \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas de fomento \u00e0 pesquisa em artes. A funda\u00e7\u00e3o e a trajet\u00f3ria do Alfenim coincidem com o per\u00edodo mais efetivo dessas pol\u00edticas, tanto no que se refere a editais em n\u00edvel municipal, estadual e regional, como aos editais federais de manuten\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de grupos. Apesar da excel\u00eancia t\u00e9cnica e art\u00edstica reconhecidas que o Alfenim vem desenvolvendo ao longo de 14 anos de atividades continuadas, ainda n\u00e3o conseguimos nenhum tipo de patroc\u00ednio ou apoio da iniciativa privada, com exce\u00e7\u00e3o do Ita\u00fa Cultural.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 necess\u00e1rio para fazer arte no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil de hoje, \u00e9 necess\u00e1rio, antes de tudo, confrontar e desbaratar o projeto miliciano de poder que est\u00e1 se imiscuindo em todas as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas do pa\u00eds. Essa \u00e9 a tarefa coletiva mais urgente. Contudo, dialeticamente, sabemos que a arte se alimenta da mat\u00e9ria negativa, de tudo o que \u00e9 adverso. Sendo assim, apesar dos atuais \u201ctempos de fezes\u201d, como diz Drummond, a arte se fortalece na luta. Por\u00e9m, a arte, como toda atividade humana que requer esfor\u00e7o e trabalho, precisa de condi\u00e7\u00f5es minimamente favor\u00e1veis para se desenvolver em sua plenitude. Num mundo pautado pela forma mercadoria, essas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ficar dependentes das \u201cleis do mercado\u201d, como prega a liturgia neoliberal. Est\u00e1 previsto na Constitui\u00e7\u00e3o do Brasil, que a arte e a cultura s\u00e3o direitos fundamentais do povo brasileiro, portanto, cabe ao poder p\u00fablico criar mecanismos de apoio e de desenvolvimento da arte e da cultura em todos os n\u00edveis de express\u00e3o, com \u00eanfase para pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o dedicadas exclusivamente aos segmentos que historicamente v\u00eam sofrendo as mais b\u00e1rbaras formas de alijamento e discrimina\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, \u00e9 necess\u00e1rio que a arte no Brasil de hoje se engaje na luta por transforma\u00e7\u00f5es estruturais com vista \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais igualit\u00e1rio e habit\u00e1vel por todas e todos.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea pode nos dizer do seu xar\u00e1, Marcio Meirelles, do Teatro dos Novos, da Bahia?<\/strong><\/p>\n<p>Evo\u00e9, Marcio Meirelles! Tive o prazer de conhecer Marcio, pessoalmente, em 2001, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me trai, quando a Companhia do Lat\u00e3o esteve no Teatro Vila Velha apresentando <em>A Com\u00e9dia do Trabalho<\/em>. Naquela ocasi\u00e3o, pudemos conversar sobre teatro e, principalmente sobre Brecht e a vinda de Peter Palitzsch, seu assistente no Berliner Ensemble. O diretor alem\u00e3o viria ao Brasil para dar uma oficina \u00e0 Companhia do Lat\u00e3o, em S\u00e3o Paulo, e para acompanhar a montagem de <em>Material Fatzer<\/em>, por Marcio, com o elenco do Teatro Vila Velha, em Salvador, a convite do Instituto Goethe. Os descaminhos do teatro n\u00e3o me levaram a assistir \u00e0 montagem, mas em 2002, quando o texto com tradu\u00e7\u00e3o de Christine R\u00f6hrig e colabora\u00e7\u00e3o de Marcio foi publicado, pude entender seu entusiasmo ao falar da obra inacabada de Brecht. Quase 20 anos ap\u00f3s esse encontro com <em>Fatzer<\/em>, atrav\u00e9s de Marcio Meirelles, pude revisitar a obra de Brecht, agora com a tradu\u00e7\u00e3o na \u00edntegra de Pedro Mantovani, o que resultou na montagem de <strong><em>Desertores<\/em><\/strong>, que o Alfenim estreou em 2019, na Casa Amarela, em Jo\u00e3o Pessoa.<\/p>\n<div id=\"attachment_23189\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Quebra-Quilos-2016-Coletivo-de-Teatro-Alfenim_RafaelPassos-44-scaled-e1625059711349.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23189\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23189\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Quebra-Quilos-2016-Coletivo-de-Teatro-Alfenim_RafaelPassos-44-scaled-e1625059711349.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23189\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Quebra-Quilos<\/strong>. Foto: Rafael Passos<\/p><\/div>\n<p><strong>Quais as motiva\u00e7\u00f5es para erguer um espet\u00e1culo?<\/strong><\/p>\n<p>Um espet\u00e1culo acaba por ser sempre a s\u00edntese de uma experi\u00eancia em processo, um feixe de desejos e urg\u00eancias, um modo de confronta\u00e7\u00e3o da realidade, uma imposi\u00e7\u00e3o do engajamento na luta de classes e o testemunho de nossa capacidade de imaginar um mundo mais habit\u00e1vel. O que motiva um espet\u00e1culo do Alfenim \u00e9 a necessidade de prestarmos, enquanto artistas e sujeitos hist\u00f3ricos, um depoimento cr\u00edtico, l\u00facido e po\u00e9tico em face das contradi\u00e7\u00f5es de nossa vida em sociedade. Ainda que, \u00e0s vezes, sob pena de falar para um n\u00famero restrito de espectadores.<\/p>\n<blockquote>\n<h2>A qualidade primordial do teatro \u00e9 o encontro presencial, sua capacidade de gerar um acontecimento social irreproduz\u00edvel. A virtualidade desloca esse fen\u00f4meno para uma nova modalidade de experi\u00eancia.<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Vivemos um momento em que o Teatro foi obrigado a se adaptar ao mundo virtual. No in\u00edcio houve uma discuss\u00e3o se isso seria ou n\u00e3o teatro. Essa quest\u00e3o foi superada?<\/strong><\/p>\n<p>Penso que a quest\u00e3o est\u00e1 posta e ainda levar\u00e1 um bom tempo para ser superada. N\u00e3o considero que o teatro tenha sido obrigado a se adaptar ao mundo virtual. Quem foi obrigado fomos n\u00f3s, os fazedores de teatro, os trabalhadores que se viram de repente instados a utilizar novas ferramentas. E o resultado desse embate ainda est\u00e1 em processo de desdobramento e consolida\u00e7\u00e3o. A qualidade primordial do teatro \u00e9 o encontro presencial, sua capacidade de gerar um acontecimento social irreproduz\u00edvel. A virtualidade desloca esse fen\u00f4meno para uma nova modalidade de experi\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 nisso um ju\u00edzo de valor, mas a constata\u00e7\u00e3o de um fato. A virtualidade suprime do teatro seu poder de celebra\u00e7\u00e3o e engajamento coletivo, o que a meu ver reduz seu potencial de mobiliza\u00e7\u00e3o social. Num momento hist\u00f3rico de individua\u00e7\u00e3o radical, de limita\u00e7\u00e3o de nossas faculdades greg\u00e1rias, a impossibilidade do encontro presencial nos confina ao simulacro da experi\u00eancia social, o que num certo sentido nos desumaniza.<\/p>\n<div id=\"attachment_23191\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ODF-Rafael-Saes-10-e1625060008389.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23191\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23191\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ODF-Rafael-Saes-10-e1625060008389.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"600\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23191\" class=\"wp-caption-text\"><strong>O Deus da Fortuna<\/strong>, Foto: Rafael Saes<\/p><\/div>\n<p><strong>O teatro que \u00e9 transmitido pelas redes derrubou barreiras geogr\u00e1ficas, permitiu que pessoas de v\u00e1rias partes do mundo pudessem compartilhar o trabalho virtual. Como voc\u00ea percebe essa experi\u00eancia, dos artistas e da recep\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>De fato, o teatro, enquanto capital simb\u00f3lico, ganhou uma volatilidade semelhante ao capital financeiro. Parece n\u00e3o haver barreiras para sua circula\u00e7\u00e3o. Contudo, essa modalidade de acesso virtual, est\u00e1 longe da experi\u00eancia de frui\u00e7\u00e3o que o teatro presencial promove. Para usar a distin\u00e7\u00e3o marxiana cl\u00e1ssica entre valor de uso e valor de troca, me parece que nessa virtualiza\u00e7\u00e3o o teatro sai perdendo enquanto experi\u00eancia de conv\u00edvio social, apesar de preservar algo de sua natureza est\u00e9tica. Tanto para os artistas quanto para o p\u00fablico, me parece que h\u00e1 uma exagera\u00e7\u00e3o falsificadora de sua capacidade de circula\u00e7\u00e3o em detrimento de sua pot\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o. Se pensarmos o teatro somente enquanto linguagem, acredito que esse novo suporte acabar\u00e1 por proporcionar o surgimento de formas h\u00edbridas e inovadoras, com alta complexidade est\u00e9tica, baseadas em avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. Mas algo se perde nessa privatiza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno art\u00edstico, que, a meu ver, s\u00f3 se realiza enquanto interc\u00e2mbio social irreproduz\u00edvel. Est\u00e1 acontecendo com o teatro hoje algo que de modo semelhante j\u00e1 acontece com as formas de reprodu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica. Uma coisa \u00e9 ouvir uma \u00f3pera ou um show de rock num teatro ou num est\u00e1dio, outra muito diferente, \u00e9 ouvir essa mesma m\u00fasica na sala de sua casa, ainda que a qualidade do som seja impec\u00e1vel.<\/p>\n<div id=\"attachment_23188\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Memorias-de-um-cao-Karen-Montija-e1625059593994.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23188\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23188\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Memorias-de-um-cao-Karen-Montija-e1625059593994.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"551\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23188\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Mem\u00f3rias de um c\u00e3o<\/strong>. Foto: Karen Montija<\/p><\/div>\n<p><strong>Qual \u00e9 o espa\u00e7o social, cultural e pol\u00edtico de atua\u00e7\u00e3o de um grupo de teatro?<\/strong><\/p>\n<p>Desde sua mais remota origem, \u00e9 da natureza do teatro ocupar um espa\u00e7o social, cultural e pol\u00edtico. Nesse sentido, um grupo de teatro sempre pode se tornar um elo importante na constitui\u00e7\u00e3o de nossa sociabilidade. Onde houver vida humana, haver\u00e1 pessoas se unindo em torno do desafio de figurar sua pr\u00f3pria experi\u00eancia e entendimento do mundo atrav\u00e9s do teatro. Naturalmente, ao longo da hist\u00f3ria, o teatro teve momentos de maior ou menor relev\u00e2ncia social, cultural ou pol\u00edtica. \u00c0s vezes, pode predominar um aspecto sobre os demais, e o teatro atender a demandas espec\u00edficas, contudo, o social, o cultural e o pol\u00edtico s\u00e3o elementos que n\u00e3o se dissociam. Ressalte-se que o teatro tem sua capacidade de interven\u00e7\u00e3o potencializada quando um grupo teatral assume programaticamente, para si mesmo e para seu p\u00fablico, a tarefa de colocar sua arte a servi\u00e7o da transforma\u00e7\u00e3o social. Essa escolha implica o compromisso de ultrapassar a fronteira da investiga\u00e7\u00e3o puramente est\u00e9tica em busca de formas mais efetivas de comunica\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o social. Esse me parece ser o grande desafio de um grupo de teatro: alcan\u00e7ar o mais alto padr\u00e3o t\u00e9cnico sem descuidar do car\u00e1ter pedag\u00f3gico de sua arte, no sentido de contribuir no plano simb\u00f3lico para uma verdadeira a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com vista \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Quais motores de ordem art\u00edstica, profissional, ideol\u00f3gica e pol\u00edtica determinam ou influenciam o trajeto de um grupo teatral?<\/strong><\/p>\n<p>Num pa\u00eds como o Brasil, cuja tradi\u00e7\u00e3o teatral \u00e9 feita de descontinuidades, a primeira impress\u00e3o \u00e9 que todo grupo de teatro que surge tem alguma coisa de pioneiro ou inaugural. O di\u00e1logo produtivo com a tradi\u00e7\u00e3o fica relegado ao plano da curiosidade hist\u00f3rica ou, o que \u00e9 pior, ao plano das peculiaridades e exotismos. Talvez isso seja um reflexo tardio do gosto modernista pela inova\u00e7\u00e3o ou certa avers\u00e3o por tudo o que represente o passado. E n\u00e3o podemos esquecer que, do ponto de vista da forma mercadoria, o apelo \u00e0 novidade \u00e9 a marca do sucesso. Nesse contexto, me parece que a despeito do esfor\u00e7o de um grupo em desenvolver um projeto art\u00edstico consequente e criar uma identidade pr\u00f3pria, o que determina seu trajeto s\u00e3o fatores fortuitos, muito mais identificados com o apelo \u201cmercadol\u00f3gico\u201d de suas produ\u00e7\u00f5es. N\u00e3o raro, espet\u00e1culos com novidades formais, ou que abordam temas pol\u00eamicos que est\u00e3o na ordem do dia fazem sucesso mete\u00f3rico e adquirem chancela de qualidade e legitimidade, desde que n\u00e3o afrontem o \u201cbom-gostismo\u201d burgu\u00eas. E isso influencia ou determina a trajet\u00f3ria desses grupos. N\u00e3o h\u00e1 mal nenhum em fazer sucesso, ao contr\u00e1rio, a quest\u00e3o \u00e9 quando a energia produtiva do grupo acaba se adequando aos apelos da circula\u00e7\u00e3o. Quando o grupo passa a fazer concess\u00f5es \u00e0 forma mercadoria.<\/p>\n<div id=\"attachment_23239\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Brevidades-Zezzita-Matos.-foto-Bruno-Vinelli-scaled-e1625261349325.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23239\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23239\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Brevidades-Zezzita-Matos.-foto-Bruno-Vinelli-scaled-e1625261349325.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23239\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Brevidades<\/strong>, com Zezita Matos. Foto Bruno Vinelli \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Marciano, voc\u00ea havia falado que \u201c\u00e9 preciso reconquistar para a arte e, atrav\u00e9s dela pr\u00f3pria, seu valor de uso, seu car\u00e1ter formativo e pedag\u00f3gico\u201d. Como isso pode ser feito na pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p>A arte sempre se valeu do recurso da metalinguagem para refletir sobre sua pr\u00f3pria raz\u00e3o de existir. Trata-se n\u00e3o apenas de um poderoso instrumento de an\u00e1lise das contradi\u00e7\u00f5es do processo de composi\u00e7\u00e3o da obra, como tamb\u00e9m de um convite \u00e0 recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do que \u00e9 apresentado ao p\u00fablico. Autores modernos e contempor\u00e2neos v\u00eam desenvolvendo formas cada vez mais incisivas de utiliza\u00e7\u00e3o desse mecanismo de modo a revelar n\u00e3o apenas a estrutura interna que sustenta a obra de arte, como tamb\u00e9m as inten\u00e7\u00f5es que presidem sua composi\u00e7\u00e3o. Essa pr\u00e1tica, apesar do risco de resultar em puro exibicionismo narcisista, o que ocorre com frequ\u00eancia, pode ser um importante meio de aprendizagem da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Nos \u201ccoment\u00e1rios\u201d que acompanham o <strong><em>Complexo Fatzer<\/em><\/strong>, obra monumental de Brecht sobre o travamento da revolu\u00e7\u00e3o e a ascens\u00e3o do fascismo, o dramaturgo alem\u00e3o observa que \u00e9 preciso almejar o \u201cmais alto padr\u00e3o t\u00e9cnico\u201d. Ele se refere \u00e0 busca de uma cena dial\u00e9tica capaz de propiciar o acesso \u00e0 grande pedagogia, ou seja, ao aprendizado da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Para seus detratores isso equivale a proselitismo manique\u00edsta, quando, na verdade, Brecht prop\u00f5e a utiliza\u00e7\u00e3o de procedimentos dramat\u00fargicos que permitam aos artistas envolvidos no processo de montagem refletir acerca de seu posicionamento de classe na cena narrada. Esse objetivo vai al\u00e9m do desvelamento da estrutura interna da cena, das inten\u00e7\u00f5es que a presidem ou de suas limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. O que esse mecanismo metalingu\u00edstico proporciona ultrapassa a verifica\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o do artista na cena em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do artista enquanto sujeito pol\u00edtico no contexto da luta de classes. \u00c9 nessa perspectiva que a arte pode reconquistar seu valor de uso, como elemento constitutivo de uma \u201cPedagogia da Autonomia\u201d, para usar os termos de Paulo Freire e, assim, recuperar seu car\u00e1ter formativo.<\/p>\n<p><strong>O teatro tem, ou deveria ter, um papel de conscientiza\u00e7\u00e3o social?<\/strong><\/p>\n<p>Certamente tem e, mais do que nunca, deve ter na atual conjuntura social e pol\u00edtica brasileira. Mas n\u00e3o basta a \u201cconsci\u00eancia de classe\u201d se essa consci\u00eancia se fetichiza e se limita a seu valor de troca, quando n\u00e3o ultrapassa o circuito frequentado pela classe m\u00e9dia bem pensante. N\u00f3s, os fazedores de teatro, precisamos encarar o desafio de levar nossa arte para a periferia do sistema, levar o teatro ao encontro daqueles que det\u00eam o que Eric Hobsbawm denomina como o \u201cconhecimento de classe\u201d. Ou seja, \u00e9 preciso pensar um projeto verdadeiramente amplo de circula\u00e7\u00e3o das obras teatrais para que estas atinjam as popula\u00e7\u00f5es que est\u00e3o alijadas do processo usual de circula\u00e7\u00e3o de bens culturais. Como diz L\u00eanin, o movimento vem da margem, l\u00e1 se encontra a vanguarda de toda verdadeira transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<h2>Tentar ganhar a vida dignamente<br \/>\nfazendo Teatro no Brasil<br \/>\n\u00e9 um projeto de alto risco.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>H\u00e1 um tipo de Teatro que sobe no trap\u00e9zio sem rede de prote\u00e7\u00e3o. Para os artistas dessa estirpe, n\u00e3o h\u00e1 tempo de pensar no risco, j\u00e1 que o salto \u00e9 a \u00fanica coisa que importa.<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><strong>O que \u00e9 o risco no teatro? O que \u00e9 um teatro sem risco?<\/strong><\/p>\n<p>Toda empreitada teatral comporta um certo grau de risco. Mas h\u00e1 esp\u00e9cies diferentes de risco no teatro. Antes de tudo, \u00e9 preciso distinguir o tipo de teatro a que nos referimos. Se for ao teatro voltado para o entretenimento, o risco maior est\u00e1 no fracasso da bilheteria, ou na aus\u00eancia da circula\u00e7\u00e3o patrocinada, quando seu valor de troca n\u00e3o se realiza conforme o planejado. Em todo o caso, n\u00e3o \u00e9 um risco de ordem art\u00edstica, mas empresarial. H\u00e1 no Brasil in\u00fameros profissionais de alt\u00edssima compet\u00eancia tentando exercer bravamente seu of\u00edcio em circunst\u00e2ncias pouco favor\u00e1veis. Tentar ganhar a vida dignamente fazendo Teatro no Brasil \u00e9 um projeto de alto risco. Para se viabilizarem financeiramente, essas produ\u00e7\u00f5es optam por caminhos j\u00e1 trilhados, dentro de uma margem maior de seguran\u00e7a, de modo a conquistar a ades\u00e3o das plateias. N\u00e3o tratam de temas pol\u00eamicos e n\u00e3o se aventuram em experimentalismos formais. Isso n\u00e3o as torna a priori atra\u00e7\u00f5es vulgares ou \u201cca\u00e7a-n\u00edqueis\u201d, resultando muitas vezes em produtos de alta compet\u00eancia t\u00e9cnica. Por\u00e9m, em que pese a dedica\u00e7\u00e3o e o profissionalismo dos artistas envolvidos, em grande parte acabam por ser montagens politicamente equivocadas, quando n\u00e3o francamente reacion\u00e1rias. J\u00e1 as empreitadas teatrais que priorizam a experimenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, quando superam o risco de sucumbir antes da estreia, t\u00eam que se haver com outra esp\u00e9cie de risco, o risco da incompreens\u00e3o. N\u00e3o falo da incompreens\u00e3o do p\u00fablico, j\u00e1 que esse obst\u00e1culo pode ser artisticamente uma conquista e n\u00e3o um fracasso. Muitas vezes, essa incompreens\u00e3o \u00e9 na verdade puro preconceito, e \u00e9 necess\u00e1rio que o teatro confronte toda esp\u00e9cie de atraso. Mas me refiro \u00e0 incompreens\u00e3o dos pr\u00f3prios artistas quanto ao que seja de fato uma experimenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica genu\u00edna e n\u00e3o uma reprodu\u00e7\u00e3o acr\u00edtica de um modelo em evid\u00eancia. Muitas vezes, essas produ\u00e7\u00f5es t\u00eam a convic\u00e7\u00e3o de que est\u00e3o alargando os limites da arte, quando na verdade est\u00e3o apenas \u201cperfumando a rosa\u201d, como diz Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, j\u00e1 que esse refinamento est\u00e9tico n\u00e3o vislumbra nenhuma transforma\u00e7\u00e3o social. Mas h\u00e1 um tipo de teatro que sobe no trap\u00e9zio sem rede de prote\u00e7\u00e3o. Para os artistas dessa estirpe, n\u00e3o h\u00e1 tempo de pensar no risco, j\u00e1 que o salto \u00e9 a \u00fanica coisa que importa.<\/p>\n<p><strong>Nossos representantes s\u00e3o horr\u00edveis, cafonas, ignorantes, um atraso de vida. Como a arte pode mudar esse quadro de homens brancos heteronormativos, preconceituosos, no comando?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos vivendo um momento de retrocesso sem tamanho, os abutres do atraso aproveitaram uma oportunidade hist\u00f3rica de abrir a caixa de Pandora da mis\u00e9ria nacional, mas eles se esqueceram de vasculhar o fundo e n\u00e3o perceberam que l\u00e1 restou a esperan\u00e7a. Quando vejo as muitas candidaturas coletivas que surgiram nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, penso que o modelo caduco da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica eleitoral pode se renovar com iniciativas dessa natureza. \u00c9 muito pouco, mas \u00e9 um ind\u00edcio de que \u00e9 poss\u00edvel fazer algo de fora para dentro, que a sociedade possa ela pr\u00f3pria pautar reformas que o parlamento jamais faria sem press\u00e3o popular. N\u00e3o \u00e0 toa, essas candidaturas t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o umbilical com algum movimento social ou art\u00edstico. Essa aproxima\u00e7\u00e3o entre artistas e movimentos sociais pode se tornar relevante no enfrentamento do atraso.<\/p>\n<p><strong>O Brasil ser\u00e1 sempre o pa\u00eds do futuro?<\/strong><\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de pa\u00eds, ou de Estado-Na\u00e7\u00e3o est\u00e1 em crise. Portanto, pensar o Brasil nessa perspectiva necessariamente implica pensar a crise global, sendo essa crise associada \u00e0 crise maior do sistema capitalista. Desde sua origem, o territ\u00f3rio a que chamamos Brasil vem exercendo fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas no sistema de reprodu\u00e7\u00e3o global do capital. Nesse sentido, o Brasil ser\u00e1 sempre o futuro do capitalismo, enquanto esse sistema n\u00e3o for destru\u00eddo.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">\u00c9 preciso destacar o car\u00e1ter democr\u00e1tico,<br \/>\npopular e de inclus\u00e3o do per\u00edodo Lula\/Dilma,<br \/>\napesar de suas contradi\u00e7\u00f5es estruturais.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">A parcela endinheirada aproveitou a crise<br \/>\nda representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para eleger<br \/>\na canalha miliciana e terraplanista como<br \/>\nquem vende um produto no com\u00e9rcio on-line<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><strong>De quem \u00e9 a culpa desse retrocesso que vivemos?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCulpa\u201d \u00e9 um termo crist\u00e3o que n\u00e3o alcan\u00e7a a complexidade da situa\u00e7\u00e3o atual. Em primeiro lugar, n\u00e3o podemos perder de vista que o mundo globalizado sofre as consequ\u00eancias de uma severa crise na reprodu\u00e7\u00e3o do capital, sendo que as novas estrat\u00e9gias de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica buscam se adequar a essa conjuntura. A volatilidade do capital, bem como a volatilidade das intera\u00e7\u00f5es sociais, via internet, afetam a pr\u00e1tica pol\u00edtica como a conhecemos, uma vez que as rela\u00e7\u00f5es materiais de produ\u00e7\u00e3o parecem pulverizadas e desimportantes. Nesse contexto, o retrocesso pol\u00edtico e suas deriva\u00e7\u00f5es comportamentais retr\u00f3gradas e fascistas v\u00eam ganhando espa\u00e7o mundo afora. No Brasil, a situa\u00e7\u00e3o parece ainda mais grave. A Rep\u00fablica surgiu de um golpe militar. De l\u00e1 at\u00e9 hoje, passando pelos frequentes per\u00edodos ditatoriais, o pa\u00eds vem tentando construir o que n\u00e3o passa de um simulacro de democracia, cujas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o a servi\u00e7o de uma elite econ\u00f4mica bo\u00e7al por defini\u00e7\u00e3o. A crise da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que acontece mundo afora ganha aqui tra\u00e7os de cruel caricatura. Nos raros per\u00edodos de estabilidade democr\u00e1tica, o Brasil n\u00e3o deixou de avan\u00e7ar, ainda que timidamente, no que se refere \u00e0s pol\u00edticas de inclus\u00e3o social. Nesse sentido, \u00e9 preciso destacar o car\u00e1ter democr\u00e1tico, popular e de inclus\u00e3o do per\u00edodo Lula\/Dilma, apesar de suas contradi\u00e7\u00f5es estruturais. Os avan\u00e7os inquestion\u00e1veis desse per\u00edodo, marcado pela inclus\u00e3o das minorias, geraram o ressentimento ignorante de parcela expressiva da popula\u00e7\u00e3o. A parcela endinheirada, receosa de perder seu espa\u00e7o de Poder, espertamente aproveitou a crise da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para eleger a canalha miliciana e terraplanista como quem vende um produto no com\u00e9rcio on-line. Fez isso de modo t\u00e3o \u00e1gil que s\u00f3 nos restou a perplexidade melanc\u00f3lica de quem acreditava que a democracia estava consolidada.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 que ponto nossa realidade \u00e9 uma obra-prima da TV Globo?<\/strong><\/p>\n<p>A Globo pode ser considerada a face mais vis\u00edvel e brilhante de um monstro de muitos tent\u00e1culos. Ela tem uma capacidade incr\u00edvel de se adaptar \u00e0 conjuntura sem perder o verniz de civilidade. O projeto de poder atual n\u00e3o est\u00e1 de bem com a Globo, mas a Globo j\u00e1 demonstrou em outras ocasi\u00f5es que os governos passam e ela fica. Para manter seu lugar de proemin\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio, a Globo tem investido maci\u00e7amente em outras plataformas virtuais. Ela sabe que est\u00e1 perdendo terreno para as r\u00e1dios e TVs pentecostais e precisa reagir. Mas por tr\u00e1s dessa disputa pelo imagin\u00e1rio, todas essas emissoras se irmanam na preserva\u00e7\u00e3o de seus privil\u00e9gios no que toca ao marco regulador das comunica\u00e7\u00f5es no pa\u00eds. Pensar a democracia no Brasil implica necessariamente pensar a quebra desse monop\u00f3lio.<\/p>\n<p><strong>O que o teatro pode provocar ainda hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 uma tend\u00eancia de positiva\u00e7\u00e3o do termo \u201cprovocar\u201d, mas provocar n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma virtude. O teatro tem incont\u00e1veis recursos de provoca\u00e7\u00e3o que podem redundar em reacionarismo. Muito do teatro atual opera nesse n\u00edvel de est\u00edmulo a respostas emocionais, reatualizando a velha e boa no\u00e7\u00e3o de \u201ccatarse\u201d. Penso que o teatro tem o dever de provocar o pensamento cr\u00edtico, mas n\u00e3o numa perspectiva iluminista, linear, mecanicista. O teatro precisa agu\u00e7ar o sentido da contradi\u00e7\u00e3o, desenvolver no p\u00fablico o gosto de pensar dialeticamente. Precisa encontrar formas de transformar a provoca\u00e7\u00e3o em mobiliza\u00e7\u00e3o efetiva. Parafraseando Paulo Freire, o teatro n\u00e3o faz a Revolu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o h\u00e1 Revolu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel sem o Teatro.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"padding-left: 80px;\">Ficamos indignados com os gestos expl\u00edcitos<br \/>\nde sordidez e frieza da mil\u00edcia<br \/>\nque cada vez mais se apodera<br \/>\ndas inst\u00e2ncias do poder<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Vivemos momentos de \u00f3dio, intoler\u00e2ncia&#8230; Como reverter esses sentimentos t\u00e3o ego\u00edstas e covardes? \u00d3dio se combate com \u00f3dio?<\/strong><\/p>\n<p>Num pa\u00eds como o Brasil, onde o passado escravocrata perdura at\u00e9 o presente, sentimentos como o \u00f3dio e a intoler\u00e2ncia constituem nossa sociabilidade. Acontece que para a grande maioria de p\u00e1rias que comp\u00f5e a sociedade brasileira, entre os quais me incluo, a impunidade que acoberta os atos pusil\u00e2nimes parecia ser um privil\u00e9gio dos endinheirados. Por\u00e9m, a vit\u00f3ria eleitoral das elites mais retr\u00f3gradas parece que deu a senha para que tamb\u00e9m os miser\u00e1veis se sentissem \u00e0 vontade para praticar toda esp\u00e9cie de viol\u00eancia e covardia. Aos desavisados como n\u00f3s, que t\u00ednhamos a prec\u00e1ria ilus\u00e3o de que viv\u00edamos numa democracia consolidada, com institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, e que caminh\u00e1vamos com passos firmes rumo \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o e ao processo irrevers\u00edvel de distribui\u00e7\u00e3o de direitos, resta o choque e a ina\u00e7\u00e3o. Estamos perplexos diante da barb\u00e1rie e incapacitados de uma rea\u00e7\u00e3o organizada. Hoje, ficamos indignados com os gestos expl\u00edcitos de sordidez e frieza da mil\u00edcia que cada vez mais se apodera das inst\u00e2ncias do Poder. Nestes momentos em que parece n\u00e3o haver sa\u00edda, tendo a pensar numa das leis da dial\u00e9tica, aquela que diz que a quantidade se torna qualidade. A Hist\u00f3ria \u00e9 c\u00edclica, ap\u00f3s um momento de regress\u00e3o vir\u00e1 outro de supera\u00e7\u00e3o. Em nosso espet\u00e1culo <em>Desertores<\/em>, h\u00e1 uma fala do coro que diz: \u201cE o que fazer? Sentar \u00e0 margem das cidades e ficar \u00e0 espera do novo animal que surgir\u00e1 para substituir o homem?\u201d Esse novo animal n\u00e3o surgir\u00e1, n\u00f3s mesmos \u00e9 que teremos que encarar o problema de frente. L\u00eanin dizia que a viol\u00eancia \u00e9 a parteira da Hist\u00f3ria. O Brasil precisa prestar contas com seu passado, enfrentar seus mortos para desenterrar o futuro. Esse enfrentamento do passado urge acontecer agora, sob pena de adiarmos o futuro indefinidamente.<\/p>\n<p><strong>Como n\u00e3o cair na cilada do manique\u00edsmo, na arte, no teatro, na vida?<\/strong><\/p>\n<p>Em momentos hist\u00f3ricos de acirramento das contradi\u00e7\u00f5es, temos a impress\u00e3o de que se acabam as sutilezas, as nuances e ambiguidades, que tudo se divide em dois campos de luta cerrada. Por\u00e9m, essa \u00e9 uma vis\u00e3o reducionista e paralisante. \u00c9 preciso pensar dialeticamente e agir, ainda que sem esperan\u00e7a. Por mais que as sutilezas sejam temporariamente deixadas de lado, o momento exige um posicionamento claro, sem temor de suas consequ\u00eancias. Brecht lamenta num poema dirigido \u201caos que vir\u00e3o\u201d que \u201cem tempos sombrios, falar de \u00e1rvores chega a ser quase um crime, pois isso implica silenciar sobre tantas outras barbaridades\u201d. Talvez nossa tarefa hist\u00f3rica seja n\u00e3o silenciar, ainda que nossos gritos encubram todas as nuances.<\/p>\n<p><strong>Daqui a 500 anos, haver\u00e1 teatro? No exerc\u00edcio de esticar os sentidos para o futuro, como ser\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>O teatro pode ser privado de tudo, menos da capacidade intr\u00ednseca ao ser humano de fabular sua experi\u00eancia. Enquanto houver seres humanos, e acredito firmemente que haver\u00e1 daqui a 500 anos, sentiremos a necessidade vital de narrar nossa hist\u00f3ria uns aos outros. Quando se referia \u00e0 vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 chegada da \u201cera cient\u00edfica\u201d, Brecht dizia que talvez o Teatro como o conhecemos se tornasse desnecess\u00e1rio e se transmutasse em outra coisa a que poder\u00edamos chamar \u201cTaetro\u201d. Talvez seja esse o nome que a humanidade dar\u00e1 \u00e0 nossa arte daqui a 500 anos, mas certamente continuar\u00e1 como uma cr\u00f4nica de seu tempo.<\/p>\n<p><strong>Qual a pergunta urgente neste momento?<\/strong><\/p>\n<p>Tomo emprestadas as palavras de Brecht: \u201cE o que fazer? Sentar \u00e0 margem das cidades e ficar \u00e0 espera do novo animal que surgir\u00e1 para substituir o homem?\u201d<\/p>\n<p><strong>CONFIRA AS COLUNAS DO SATISFEITA, YOLANDA? NO SITE DO ITA\u00da CULTURAL:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/existe-teatro-nordestino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Existe um teatro nordestino?<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/teatro-grupo-nordeste-motivacoes-para-criar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teatro de grupo no Nordeste: motiva\u00e7\u00f5es para criar<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/todo-mundo-sotaque\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Todo mundo tem sotaque!<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/memorias-futuro-desejos-vida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mem\u00f3rias de futuro, desejos de vida<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensar, tocar, incendiar o mundo atrav\u00e9s da arte. \u00c9 um jeito de existir. De expandir horizontes. De buscar sentidos. 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