{"id":23120,"date":"2021-05-11T14:47:45","date_gmt":"2021-05-11T17:47:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=23120"},"modified":"2021-05-11T14:47:46","modified_gmt":"2021-05-11T17:47:46","slug":"as-motivacoes-para-a-criacao-artistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/as-motivacoes-para-a-criacao-artistica\/","title":{"rendered":"As motiva\u00e7\u00f5es para a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica"},"content":{"rendered":"<p>Lan\u00e7amos para alguns artistas que trabalham em grupos a provoca\u00e7\u00e3o sobre o que os inspira a fazer arte e se h\u00e1 diferen\u00e7a que essa labuta art\u00edstica seja gestada no Nordeste do Brasil. Essas reflex\u00f5es nos ajudaram a escrever o texto <strong>Teatro de grupo no Nordeste: motiva\u00e7\u00f5es para criar<\/strong>, a segunda coluna do <em>Satisfeita, Yolanda?<\/em> no site do Ita\u00fa Cultural.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/teatro-grupo-nordeste-motivacoes-para-criar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Confira aqui a coluna Teatro de grupo no Nordeste: motiva\u00e7\u00f5es para criar <\/a><\/p>\n<p>Conversamos com artistas do O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas (PE), Casa de Zo\u00e9 (RN), Coletivo de Teatro Alfenim (PB), Grupo Ninho de Teatro (CE), Cia Biruta de Teatro (PE) e Magiluth (PE).<br \/>\nReunimos aqui todas as respostas desses criadores na \u00edntegra. Foram conversas por mensagens de \u00e1udio e de texto, que revelam min\u00facias do entendimento sobre arte, Nordeste e posicionamento no mundo que vivemos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.itaucultural.org.br\/existe-teatro-nordestino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Confira aqui a primeira coluna do Satisfeita, Yolanda? no site do Ita\u00fa Cultural<\/a><\/p>\n<p><strong>ENTREVISTAS<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_23124\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/as-motivacoes-para-a-criacao-artistica\/foto-arlison-vilas-boas\/\" rel=\"attachment wp-att-23124\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23124\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23124\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/foto-Arlison-Vilas-Boas-scaled-e1620697958858.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23124\" class=\"wp-caption-text\">Nan\u00e1 Sodr\u00e9, Samuel Santos e Agrinez Melo, criadores do O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas. Foto: Arlison Vilas B\u00f4as<\/p><\/div>\n<p><strong>SAMUEL SANTOS, diretor do grupo O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas, do Recife, Pernambuco<\/strong><\/p>\n<p>O que me inspira \u00e9 a vida. A possibilidade de construir na arte, no teatro, aquele momento de condensa\u00e7\u00e3o entre a realidade, o sonho, a poesia, para gerar reflex\u00e3o. Criar, conceber, estar no teatro, \u00e9 um processo de evolu\u00e7\u00e3o e de cura. Quando penso nessas inspira\u00e7\u00f5es vem as transpira\u00e7\u00f5es, o respirar e o fazer respirar com trabalho feito com a arte, pela arte, para o p\u00fablico. O teatro \u00e9 por natureza concebido para o outro, pede a participa\u00e7\u00e3o, a frui\u00e7\u00e3o do outro e os outros estarem em n\u00f3s. Acredito que o teatro me salvou, me transformou e \u00e9 com esses princ\u00edpios que sigo em inspira\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o acreditar que a arte que fa\u00e7o pode salvar ou transformar algu\u00e9m, como fez comigo, n\u00e3o h\u00e1 motivo para continuar. E continuo&#8230;<\/p>\n<p>Faz toda diferen\u00e7a criar no Nordeste. Todas as minhas ra\u00edzes s\u00e3o daqui. Toda a minha constru\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica, filos\u00f3fica e ancestral vem desses Nordestes. Vem das matrizes africanas e ind\u00edgena. Sou filho de uma descendente de ind\u00edgena da Para\u00edba, sou recifense, sou da periferia da Zona Norte, sou filho de um homem do interior de Pernambuco. Todas as minhas ra\u00edzes est\u00e3o fincadas aqui. Claro que o meu filtro maior \u00e9 dessa regi\u00e3o, \u00e9 da minha na\u00e7\u00e3o. Mas o trabalho que fa\u00e7o com o meu grupo, O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas, tem como po\u00e9tica a antropologia teatral, a transculturalidade, tendo como base a pesquisa de um corpo dentro das matrizes de religi\u00e3o africana, como o candombl\u00e9 e a umbanda. Criamos aqui a primeira escola de Antropologia Teatral, a Escola O Poste de Antropologia Teatral, onde temos disciplinas como: Capoeira no jogo do ator, Tradi\u00e7\u00f5es da Mata: Cavalo Marinho e Maracatu de Baque Solto na constru\u00e7\u00e3o do ator, Dramaturgia dos orix\u00e1s &#8211; Pr\u00e1ticas de Treinamento Ancestral para o Ator, disciplina essa que surgiu dentro da pesquisa \u201cO corpo ancestral dentro da Cena Contempor\u00e2nea\u201d, desenvolvida pelo Grupo O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas dentro dos terreiros de matriz africana. Toda essa rela\u00e7\u00e3o das disciplinas com a cultura preta, nordestina, tem um prop\u00f3sito de ser: o de decolonizar, colocar tamb\u00e9m o nosso olhar como construtores para a forma\u00e7\u00e3o do ator.<\/p>\n<p>Temos aqui um espa\u00e7o cultural, o Espa\u00e7o O Poste, onde fazemos as nossas forma\u00e7\u00f5es, apresentamos os nossos espet\u00e1culos e oferecemos o espa\u00e7o para que outros grupos se apresentem. \u00c9 um espa\u00e7o de frui\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o e interc\u00e2mbio. Pelo Espa\u00e7o O Poste j\u00e1 passaram artistas da Argentina, Portugal, Col\u00f4mbia, Fran\u00e7a, Angola. E por aqui esteve Eugenio Barba e Julia Varley, do Odin Teatret, da Dinamarca.<\/p>\n<p>Fora isso, os espet\u00e1culos do nosso repert\u00f3rio j\u00e1 viajaram pelo Brasil e pelos principais festivais internacionais. Os nossos espet\u00e1culos j\u00e1 se apresentaram na Dinamarca, no Uruguai. C<em>ordel do Amor sem Fim<\/em> foi apresentado em 22 cidades ribeirinhas banhadas pelo Rio S\u00e3o Francisco. Apresentamos por todo o Nordeste. Fomos pouco para o Sudeste.<\/p>\n<p>\u00c9 uma lacuna que n\u00e3o preenchemos ainda e claro que isso conta no quesito visibilidade, proje\u00e7\u00e3o. Mas a nossa proje\u00e7\u00e3o est\u00e1 naquilo que objetivamos: levar o teatro a comunidades que raramente s\u00e3o pensadas ou cogitadas nos projetos de circula\u00e7\u00e3o ou forma\u00e7\u00e3o. Fomos! Projetamos e visibilizamos o teatro na sua forma mais plena e democr\u00e1tica. Isso nos orgulha. Talvez se n\u00e3o f\u00f4ssemos da regi\u00e3o Nordeste, n\u00e3o ter\u00edamos essa preocupa\u00e7\u00e3o ou objetivo. Sou grato, sou gratid\u00e3o e ax\u00e9.<\/p>\n<div id=\"attachment_23127\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/as-motivacoes-para-a-criacao-artistica\/titina-medeiros-da-casa-de-zoe-foto-brunno-martins\/\" rel=\"attachment wp-att-23127\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23127\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23127\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Titina-Medeiros-da-Casa-de-Zoe-Foto-Brunno-Martins-scaled-e1620698193822.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"630\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23127\" class=\"wp-caption-text\">Titina Medeiros, da Casa de Zo\u00e9. Foto: Brunno Martins<\/p><\/div>\n<p><strong>TITINA MEDEIROS, atriz do grupo Casa de Zo\u00e9, de Natal, Rio Grande do Norte<\/strong><\/p>\n<p>O que me inspira a criar e fazer arte \u00e9 a nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia, nossas conex\u00f5es com outros seres, com o mist\u00e9rio e com as incertezas. A arte, al\u00e9m de me dar oportunidade de ter voz, tamb\u00e9m me permite o del\u00edrio.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que sempre fiz teatro no Nordeste, em um estado que n\u00e3o tem tradi\u00e7\u00e3o de boas pol\u00edticas para a cultura, e penso que essa realidade nos faz ter ainda mais consci\u00eancia da import\u00e2ncia de permanecermos no Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>Sou de uma gera\u00e7\u00e3o de artistas de teatro que resolveu ficar. Que se negou a ir para o Sudeste tentar a vida. Nossa l\u00f3gica era: precisamos fomentar o teatro no nosso estado para que nossos conterr\u00e2neos nos conhe\u00e7am e conhe\u00e7am nossas obras. Era importante para n\u00f3s essa representatividade. Daquele tempo para c\u00e1 j\u00e1 se passaram quase trinta anos, e acredito que nossa estrat\u00e9gia foi e continua valiosa. Agora tudo isso s\u00f3 foi poss\u00edvel devido ao teatro de grupo, que nos uniu por uma causa comum.<\/p>\n<div id=\"attachment_23129\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/as-motivacoes-para-a-criacao-artistica\/coletivo-de-teatro-alfenim_foto-alessandro-potter\/\" rel=\"attachment wp-att-23129\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23129\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23129\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Coletivo-de-Teatro-Alfenim_Foto-Alessandro-Potter-scaled-e1620698389180.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23129\" class=\"wp-caption-text\">Coletivo de Teatro Alfenim. Foto: Alessandro Potter<\/p><\/div>\n<p><strong>M\u00c1RCIO MARCIANO, diretor e dramaturgo do Coletivo Alfenim, de Jo\u00e3o Pessoa, Para\u00edba <\/strong><\/p>\n<p>Como artista, sinto necessidade de dar um testemunho cr\u00edtico sobre as contradi\u00e7\u00f5es de meu tempo. O que me inspira \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que o ser humano, apesar de seus temores, mis\u00e9rias, baixezas e vilanias, \u00e9 capaz de ser solid\u00e1rio na luta por um mundo mais habit\u00e1vel para todas e todos. Fazer arte \u00e9 imaginar, no campo simb\u00f3lico, o ensaio dessa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da perspectiva dos vencidos, todo campo \u00e9 um campo de luta poss\u00edvel. N\u00e3o se trata de idealismo ou de uma no\u00e7\u00e3o romantizada do fazer art\u00edstico. Mas da constata\u00e7\u00e3o de que \u00e9 necess\u00e1rio travar a guerra em todas as frentes. Nesse sentido, apesar das diferen\u00e7as de ordem econ\u00f4mica e de circula\u00e7\u00e3o da forma mercadoria \u2013 e n\u00e3o podemos esquecer que a arte \u00e9 tamb\u00e9m uma mercadoria \u2013, todo lugar tem seu espa\u00e7o poss\u00edvel de interlocu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>MONIQUE CARDOSO, atriz do Grupo Ninho de Teatro, do Crato, Cear\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>Eu parto desse termo teatro nordestino, que j\u00e1 me inquieta bastante, porque eu n\u00e3o escuto por exemplo, teatro sulista ou teatro sudestino. Existe um termo forjado, e n\u00e3o por n\u00f3s, nordestines, mas por outres, que tem a ver com todo o processo hist\u00f3rico desse pa\u00eds, de nos colocar numa posi\u00e7\u00e3o de inferioridade na maioria das vezes. Para mim, o teatro nordestino \u00e9 o teatro do mundo, que pode ser feito aqui ou em qualquer outro lugar. Que sim, carrega muito dos nossos corpos, das nossas mem\u00f3rias, dos nossos territ\u00f3rios, das nossas experi\u00eancias, como qualquer outro teatro, como qualquer outro processo criativo feito por sujeitos. Isso n\u00e3o nos difere dos demais.<\/p>\n<p>Independente das escolhas est\u00e9ticas, \u00e9ticas, pol\u00edticas que s\u00e3o feitas no processo criativo, num trabalho montado por artistes nordestines sempre vai haver esse r\u00f3tulo, essa chancela do teatro nordestino. Ali\u00e1s, espero que n\u00e3o haja sempre, mas sempre h\u00e1 essa tend\u00eancia a rotular. Espero que os debates, os tr\u00e2nsitos, os di\u00e1logos, fa\u00e7am com que a gente v\u00e1 desmistificando, descontruindo uma s\u00e9rie de estere\u00f3tipos que foram criados, de ideias do que \u00e9 uma arte produzida no Nordeste, que tem sempre como refer\u00eancia a ideia de seca, de fome, de mis\u00e9ria, de retrocesso. E essa \u00e9 uma vis\u00e3o muito limitada do que \u00e9 o Nordeste, do que seria o Nordeste, uma vis\u00e3o constru\u00edda pela m\u00eddia e refor\u00e7ada por tantos, desde pol\u00edticos a empresas, a grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Percebo um movimento para que a gente possa criar narrativas, ampliar essa percep\u00e7\u00e3o. Acho que essa coisa, de n\u00e3o ouvirmos teatro sudestino, teatro sulista, acho que existe um lugar, no pr\u00f3prio segmento da arte, no pr\u00f3prio nicho de mercado, de colocar o teatro produzido no Nordeste num outro lugar, um lugar inferior, um lugar quase unificado, no sentido de que haveria uma unidade, uma uniformidade no que \u00e9 produzido aqui. E n\u00e3o \u00e9 isso, a gente fala de um Nordeste que \u00e9 imenso, que tem v\u00e1rios Nordestes, v\u00e1rios sotaques, v\u00e1rias experi\u00eancias, v\u00e1rios territ\u00f3rios, corpos, ideias distintas. Ent\u00e3o \u00e9 muito pequeno limitar a um termo, teatro nordestino. Acho que o teatro nordestino \u00e9 o teatro do mundo, o teatro que \u00e9 produzido aqui ou em qualquer lugar do mundo, que parte da rela\u00e7\u00e3o de um corpo com o espa\u00e7o, mas que ganha dimens\u00f5es muitas, camadas muitas. Que ganha uma dimens\u00e3o a partir do encontro com o outro, da experi\u00eancia do outro, como qualquer processo art\u00edstico, como qualquer encontro com uma obra de arte, independentemente de onde ela \u00e9 produzida.<\/p>\n<div id=\"attachment_23130\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/as-motivacoes-para-a-criacao-artistica\/edceu-barboza-ator-do-grupo-ninho-de-teatro-no-processo-de-criacao-do-espetaculo-cabral-foto_elizieldon-dantas\/\" rel=\"attachment wp-att-23130\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23130\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23130\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Edceu-Barboza-ator-do-grupo-Ninho-de-Teatro-no-processo-de-criacao-do-espetaculo-Cabral.-Foto_Elizieldon-Dantas-scaled-e1620698458321.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"600\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23130\" class=\"wp-caption-text\">Edceu Barboza, ator do grupo Ninho de Teatro, no processo de cria\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo Cabral. Foto: Elizieldon Dantas<\/p><\/div>\n<p><strong>EDCEU BARBOZA, diretor e ator no Grupo Ninho de Teatro, do Crato, Cear\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>O que me inspira a criar e fazer arte \u00e9 a possibilidade de dialogar por meio das artes da presen\u00e7a, das artes da cena com o p\u00fablico. E esse p\u00fablico, para mim, \u00e9 uma microesfera da sociedade. Toda vez que eu, como artista, grupo, me encontro com os espectadores &#8211; como coletivo de espectadores e espectadoras &#8211; numa audi\u00eancia teatral, entendo que ali tem uma microesfera da sociedade e que aquela troca pode, em alguma medida, mover, movimentar os sentidos das coisas todas que est\u00e3o postas. Penso que a gente tem na arte esse campo de provoca\u00e7\u00e3o. De provocar poss\u00edveis deslocamentos. E um olhar de curiosidade para aquilo que est\u00e1 ou estava naturalizado, at\u00e9 ent\u00e3o. Um espet\u00e1culo ou qualquer obra de outra linguagem, pode ser esse despertador. E, portanto, vai impulsionando as pessoas e a sociedade a desnaturalizar as coisas todas que est\u00e3o a\u00ed, desde as rela\u00e7\u00f5es de poder ou mesmo quest\u00f5es mais \u00edntimas, do p\u00fablico para o privado, do privado para o p\u00fablico. Isso \u00e9 o que me inspira a fazer arte.<\/p>\n<p>E quando eu me penso nesse lugar de fazer arte no Nordeste do Brasil, n\u00e3o encontro diferen\u00e7as no sentido do estar e do ser artista. N\u00e3o \u00e9 ser nordestino ou estar na geografia Nordeste que me d\u00e1 algo de menos ou algo de mais. Apenas sou. Tudo que produzi, sim, \u00e9 afetado por isso, tudo diverso, por isso tudo m\u00faltiplo, por isso tudo contradit\u00f3rio, por isso tudo de tradi\u00e7\u00e3o, por isso tudo de contempor\u00e2neo, de moderno, que \u00e9 o Nordeste, que sou eu.<br \/>\n\u00d3bvio que, por conta de um projeto que foi pensado para o Nordeste, dentro de uma perspectiva do poder geopol\u00edtico, orquestrado pelo Sudeste, pelo Sul\/Sudeste do pa\u00eds, a gente encontra algumas dificuldades do ponto de vista de pol\u00edticas p\u00fablicas. Mas, para al\u00e9m disso, n\u00e3o vejo diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando se pensa o interior do Nordeste entramos nessa mesma quest\u00e3o. Acho que a grande diferen\u00e7a \u00e9 uma dificuldade ainda maior \u2013 e quando eu digo ainda maior \u00e9 porque entendo que um pa\u00eds como o Brasil, onde a pol\u00edtica p\u00fablica de Cultura \u00e9 ineficiente para o tamanho do pa\u00eds, quando se est\u00e1 nos interiores do Nordeste, ou outros interiores do Brasil, a dificuldade se amplia, esse abismo fica ainda maior, comparado, por exemplo, \u00e0s grandes metr\u00f3poles. N\u00e3o que as grandes metr\u00f3poles n\u00e3o tenham as suas dificuldades. Acredito que elas acabam sendo diferentes, sobretudo no acesso.<\/p>\n<p>Esse Nordeste que se espera, ou esse Nordeste inventado, como diz o Durval (Muniz de Albuquerque J\u00fanior), n\u00e3o \u00e9 o Nordeste que n\u00f3s operamos cotidianamente. Por exemplo, a regi\u00e3o do Cariri cearense, onde o Grupo Ninho de Teatro atua, \u00e9 um territ\u00f3rio verde, que pulsa \u00e1gua de nascente, cachoeiras, rios, com uma chapada imensa, com a reserva paleontol\u00f3gica importante pro mundo inteiro, com a diversidade, com a pluralidade de tradi\u00e7\u00e3o popular, com mestres e mestras, com uma produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea riqu\u00edssima. Nesse sentido, estamos pulsando numa mesma ambi\u00eancia, digamos, de muitos outros espa\u00e7os do restante do Brasil. Mas que se diferencia disso que inventaram para a gente, que \u00e9 essa imagem est\u00e1tica, amarelada, seca, rachada, com bichos e gente morrendo. Essa \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o projeto inventado, e querem nos encaixotar, mas a gente sabe que, estando aqui, existe um Nordeste diferente a cada cidade, a cada bairro de uma cidade. \u00c9 um pouco por a\u00ed.<\/p>\n<div id=\"attachment_23131\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/as-motivacoes-para-a-criacao-artistica\/cristiane-crispim-da-cia-biruta-de-teatro_foto-_rayra\/\" rel=\"attachment wp-att-23131\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23131\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23131\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Cristiane-Crispim-da-Cia-Biruta-de-Teatro_Foto-_Rayra-e1620698560809.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23131\" class=\"wp-caption-text\">Cristiane Crispim, da Cia Biruta de Teatro. Foto: Rayra<\/p><\/div>\n<p><strong>CRISTIANE CRISPIM, atriz Cia Biruta de Teatro, de Petrolina, Pernambuco<\/strong><\/p>\n<p>Penso que o que me inspira a criar e a fazer arte, a mim e ao meu grupo, nesse processo coletivo, colaborativo, \u00e9 uma coincid\u00eancia com o que afeta todo e qualquer artista em qualquer lugar do mundo. A gente cria, somos motivados a criar, a partir do que nos afeta, das coisas que atravessam a nossa vida, as coisas com as quais a gente se relaciona, para entender a nossa exist\u00eancia. E isso tudo existe dentro de um contexto. Nossa exist\u00eancia no mundo se relaciona com um contexto. \u00c9 uma viv\u00eancia atravessada muito pelo sentido de comunidade, de coletividade, no nosso caso. Nunca foi individual, nunca foi um processo s\u00f3 pessoal. Muito por minha forma\u00e7\u00e3o tanto na igreja, pela Pastoral da Juventude, Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, quanto passando a ter contato com os estudos culturais, com as ci\u00eancias sociais, com a milit\u00e2ncia pol\u00edtica, isso tudo vai nos afetando, me afetando, e a gente cria muito motivado por isso, porque isso \u00e9 o que atravessa a nossa exist\u00eancia, nossa caminhada no mundo. Parte desse lugar de se perceber quem \u00e9, se entender nessa exist\u00eancia e entender que essa exist\u00eancia faz parte de um processo hist\u00f3rico e cultural.<\/p>\n<p>Sobre as diferen\u00e7as desse fazer no Nordeste, al\u00e9m de pensarmos esse lugar hist\u00f3rico e social que a gente ocupa, na pr\u00e1tica, sabemos que tem semelhan\u00e7as com diversos outros lugares, mas tamb\u00e9m diferen\u00e7as, que partem desse contexto. Porque esse contexto \u00e9 marcado por uma constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social, que centraliza recursos, or\u00e7amento p\u00fablico, no Sul e Sudeste, e isso afeta obviamente a nossa produ\u00e7\u00e3o, as dificuldades que a gente enfrenta para criar, para produzir, al\u00e9m das quest\u00f5es de identidade que a gente problematiza. Mas a dificuldade \u00e9 a falta de recursos, de condi\u00e7\u00f5es. \u00c9 a ideia de que se relegou \u00e0 regi\u00e3o Nordeste menos recursos, mais precariedade em tudo. A forma como se entendeu, inclusive na produ\u00e7\u00e3o cultural, o Nordeste como um lugar de explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra barata, nega a gente a ideia de um lugar de desenvolvimento de cidadanias diversas, m\u00faltiplas. Al\u00e9m disso temos uma constru\u00e7\u00e3o interna mesmo, de uma l\u00f3gica colonialista, de nega\u00e7\u00e3o das presen\u00e7as ind\u00edgenas, dos movimentos sociais, dos quilombolas, e tudo isso afeta a cria\u00e7\u00e3o, porque como eu te disse, se pensamos esse nosso lugar, essa nossa exist\u00eancia, vamos acabar fazendo todas essas rela\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 enquanto tem\u00e1tica, mas enquanto produ\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia, enquanto grupo teatral. E, ao mesmo tempo que isso nos afeta gerando dificuldades, gerando restri\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m nos motiva a criar formas de resist\u00eancia, que motivam essa produ\u00e7\u00e3o. Acaba sendo muito em torno disso, da luta por existir.<\/p>\n<p>E a\u00ed quando pensamos interior do Nordeste, vamos para outras camadas dessa l\u00f3gica colonialista e centralizadora. Temos a situa\u00e7\u00e3o de marginaliza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o Nordeste diante de um \u201ccentro\u201d do pa\u00eds, que seria o Sul e o Sudeste, e dentro do Nordeste existem tamb\u00e9m as capitais, que acabam ocupando esse lugar do centro, e o interior. Essas coisas acabam se multiplicando, essas nega\u00e7\u00f5es acabam se acumulando no processo, porque vai tendo um afunilamento. E \u00e9 a periferia da periferia da periferia, a margem da margem da margem. Voc\u00ea tem uma reitera\u00e7\u00e3o o tempo todo desse processo, exigindo ainda mais mobiliza\u00e7\u00e3o, ainda mais articula\u00e7\u00e3o, ainda mais projeto de resist\u00eancia, porque \u00e9 uma tend\u00eancia em reproduzir a l\u00f3gica internamente.<\/p>\n<p>Quando falo que h\u00e1 essa rela\u00e7\u00e3o com a coletividade, com a comunidade, n\u00e3o \u00e9 nunca em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa, ao sujeito. Mas \u00e9 saber que essa pessoa, com as suas subjetividades, que n\u00e3o devem ser negadas, pelo contr\u00e1rio, tamb\u00e9m devem ser estimuladas, para compor essa multiplicidade, essa diversidade. Essas subjetividades devem ser o tempo todo convocadas. Elas s\u00e3o atravessadas por rela\u00e7\u00f5es, por ser nosso, do ser humano mesmo e n\u00e3o \u00e9 uma briga, o individual e o comunit\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 pra ser. \u00c9 s\u00f3 uma consci\u00eancia desse corpo, que se coloca no palco e na vida, e que est\u00e1 sempre em rela\u00e7\u00e3o. Nunca \u00e9 s\u00f3 uma dor individual. Mesmo que seja individual, \u00e9 sempre resultado de um processo maior e negar isso \u00e9 a gente ceder a uma l\u00f3gica de pensamento individualista, neoliberal.<\/p>\n<p>Vamos no sentido de n\u00e3o descolar esse subjetivo do coletivo, do comunit\u00e1rio. Mas de forma alguma desconsiderando, inclusive produzindo as tens\u00f5es que a gente precisa produzir o tempo todo nesse entendimento, nessa caminhada no mundo, de ser, estar e criar.<\/p>\n<div id=\"attachment_23133\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/as-motivacoes-para-a-criacao-artistica\/grupo-magiluth_-foto-pedro-escobar\/\" rel=\"attachment wp-att-23133\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-23133\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23133\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grupo-Magiluth_-Foto-Pedro-Escobar-scaled-e1620698880712.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-23133\" class=\"wp-caption-text\">Grupo Magiluth. Foto: Pedro Escobar<\/p><\/div>\n<p><strong>GIORDANO CASTRO, ator do Grupo Magiluth, do Recife, Pernambuco<\/strong><\/p>\n<p>O que inspira a gente a criar e fazer arte \u00e9 observar a vida. E a\u00ed quando falo de observar a vida n\u00e3o \u00e9 nesse sentido po\u00e9tico. \u00c9 observar o que acontece, as coisas que nos afetam. E a\u00ed come\u00e7amos a entender que, de fato, a gente est\u00e1 completamente conectado. Pensamentos revolucion\u00e1rios, progressistas e emancipat\u00f3rios, por exemplo, s\u00e3o pensamentos que atingem uma Primavera \u00c1rabe e um movimento como o Ocupe Estelita. As coisas est\u00e3o conectadas. E a\u00ed temos que ver como \u00e9 que essas coisas nos afetam, como \u00e9 que a gente se coloca perante essas coisas e entender que problemas que s\u00e3o universais, s\u00e3o problemas tamb\u00e9m dentro do nosso quintal. \u00c9 estar atento \u00e0 vida, \u00e0s coisas que est\u00e3o acontecendo, estar atento ao movimento natural das coisas. Isso \u00e9 o que nos motiva a estar criando, dialogar com o nosso tempo, que \u00e9 universal.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz diferen\u00e7a nenhuma criar em S\u00e3o Paulo, criar em Recife, criar num s\u00edtio no interior. A diferen\u00e7a, eu acho, \u00e9 o depois de criar. \u00c9 fazer com que esse trabalho se mantenha e, de alguma forma, seja bem remunerado por isso. E a\u00ed a gente n\u00e3o tem como negar que S\u00e3o Paulo, principalmente, existe muito mais investimento, injeta muito mais dinheiro nisso, do que outros lugares, at\u00e9 pelo tamanho da cidade, pelo pr\u00f3prio movimento. Mas enquanto criar n\u00e3o faz muita diferen\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 somente uma diferen\u00e7a geogr\u00e1fica, estar criando em S\u00e3o Paulo. \u00c9 onde est\u00e1 minha cabe\u00e7a criadora quando eu estou em S\u00e3o Paulo. E a minha cabe\u00e7a criadora est\u00e1 sempre em Recife, de alguma forma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lan\u00e7amos para alguns artistas que trabalham em grupos a provoca\u00e7\u00e3o sobre o que os inspira a fazer arte e se h\u00e1 diferen\u00e7a que essa labuta art\u00edstica seja gestada no Nordeste do Brasil. Essas reflex\u00f5es nos ajudaram a escrever o texto Teatro de grupo no Nordeste: motiva\u00e7\u00f5es para criar, a segunda coluna do Satisfeita, Yolanda? no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[4249],"tags":[6750,6740,6756,4883,6526,6758,648,304,301,6757,1314,3381,6759,1061,114,6491,6755,617],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23120"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23120"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23120\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23139,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23120\/revisions\/23139"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}