{"id":22844,"date":"2021-03-24T13:16:57","date_gmt":"2021-03-24T16:16:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=22844"},"modified":"2021-03-24T14:00:07","modified_gmt":"2021-03-24T17:00:07","slug":"da-culpa-a-libertacao-critica-de-vulvas-de-quem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/da-culpa-a-libertacao-critica-de-vulvas-de-quem\/","title":{"rendered":"Da culpa \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o <br\/> Cr\u00edtica de Vulvas de quem?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_22849\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/da-culpa-a-libertacao-critica-de-vulvas-de-quem\/50982338162_2552122154_c\/\" rel=\"attachment wp-att-22849\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22849\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22849\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/50982338162_2552122154_c-e1616534831220.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"338\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22849\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rcia Cruz em cena no experimento Vulvas de quem?. Foto: Keity Carvalho<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>* A a\u00e7\u00e3o Satisfeita, Yolanda? <\/strong><strong>no Reside Lab \u2013 Plataforma PE <\/strong><strong>tem apoio do Sesc Pernambuco<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Selo_final-e1616114268818.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22778 alignleft\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Selo_final-e1616114268818.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"131\"><\/a><\/p>\n<p>No \u00faltimo domingo, 21 de mar\u00e7o, morreu Nawal El Saadawi, escritora eg\u00edpcia feminista, autora de mais de 50 livros, entre ensaios, romances e pe\u00e7as. Em <em>A face oculta de Eva<\/em>, Saadawi conta que, aos seis anos de idade, teve o clit\u00f3ris cortado. A m\u00e3e sorria. O cen\u00e1rio era o ch\u00e3o de um banheiro. Ao longo de sua trajet\u00f3ria como ativista, o combate \u00e0 circuncis\u00e3o feminina foi uma das suas principais causas. Numa entrevista \u00e0 Folha de S. Paulo, em 2016, a autora salientou a diversidade das mulheres e das suas lutas: \u201cVivemos em um mundo dominado por um sistema religioso, patriarcal e racista. Mas o n\u00edvel de opress\u00e3o varia de acordo com o tempo e de um lugar ao outro, segundo o grau de consci\u00eancia da maioria e os poderes pol\u00edticos das mulheres e homens lutando por liberdade, justi\u00e7a e dignidade\u201d.<\/p>\n<p>Esse grau de consci\u00eancia de que fala Saadawi tem se ampliado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, num movimento que \u00e9 complexo, porque as pautas feministas, assim como outras pautas sociais, s\u00e3o cooptadas pelo sistema capitalista, alienante por princ\u00edpio. De toda maneira, a discuss\u00e3o sobre feminismo explodiu fronteiras, ganhou dimens\u00e3o de debate p\u00fablico, embora ainda enfrente muitas distor\u00e7\u00f5es. Por exemplo: ontem \u00e0 noite, 23 de mar\u00e7o, o Brasil votou para que uma mulher que estava vivendo um relacionamento t\u00f3xico fosse eliminada do Big Brother Brasil. O principal oponente dela era um homem que fez piadas homof\u00f3bicas. O comportamento da mulher, taxada de trouxa aos quatro ventos do pa\u00eds, foi julgado, porque al\u00e9m de n\u00e3o perceber as armadilhas da rela\u00e7\u00e3o, ela ainda se ajoelhou e fez uma declara\u00e7\u00e3o de amor em rede nacional.<\/p>\n<p>Carla Diaz \u00e9 uma atriz que cresceu sob os holofotes da televis\u00e3o. Branca, loira, cabel\u00e3o liso, magra, menininha, cumpre os pr\u00e9-requisitos do estere\u00f3tipo de beleza padr\u00e3o. Ainda assim, n\u00e3o est\u00e1 a salvo do relacionamento abusivo. Nenhuma de n\u00f3s est\u00e1. Em qualquer idade, classe social, cumprindo ou n\u00e3o os padr\u00f5es, mais um degrau na escala da opress\u00e3o. A ressaca moral que, provavelmente, vai assombr\u00e1-la por um tempo, \u00e9 parecida com \u00e0quela da personagem de M\u00e1rcia Cruz em <em>Vulvas de quem?<\/em>, experimento c\u00eanico com dire\u00e7\u00e3o de Cira Ramos e texto de Ezter Liu, uma realiza\u00e7\u00e3o da Cia Maravilhas de Teatro.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, talvez seja mais apropriado dizer \u201cdas personagens\u201d. Sem seguir uma cronologia linear, M\u00e1rcia Cruz vai dos 7 aos 93 anos, explorando os mecanismos da rela\u00e7\u00e3o que se transforma em abuso, f\u00edsico, psicol\u00f3gico, moral. \u201cQuem vendou teus olhos com esse trapo sujo e depois te chamou de cega?\u201d. \u201cQuem queimou teu passaporte na pia do hotel e disse que ir n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o?\u201d. \u201cQuem passou tua autoestima no liquidificador?\u201d.<\/p>\n<p>A atriz trilha o caminho do reconhecimento, desse instante em que a mulher tem a coragem de se olhar, mergulhar em si, e admitir que caiu na esparrela do abusador. O cen\u00e1rio \u00e9 um banheiro, com a personagem de frente para o espelho, o p\u00fablico, que a acompanha nesse exerc\u00edcio de dor profunda. M\u00e1rcia \u00e9 uma atriz que passeia pelas filigranas da atua\u00e7\u00e3o \u2013 vai do choro e do grito rasgado ao riso de liberta\u00e7\u00e3o com desenvoltura de quem tem anos de experi\u00eancia e talento.<\/p>\n<div id=\"attachment_22853\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/da-culpa-a-libertacao-critica-de-vulvas-de-quem\/vulvasdequem_foto-morgananarjara-2\/\" rel=\"attachment wp-att-22853\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22853\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22853\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/VulvasDeQuem_FOTO.MorganaNarjara-2-scaled-e1616544894295.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"600\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22853\" class=\"wp-caption-text\">Personagens se olham no espelho e percebem relacionamentos abusivos. Foto: Morgana Narjara<\/p><\/div>\n<p>Como o cerne da quest\u00e3o \u00e9 identificar o abuso, o sentimento inicial que escorre desse texto, dessa personagem, \u00e9 o da culpa. Vulvas de quem? Culpa de quem? Como eu n\u00e3o percebi? Como n\u00e3o me dei conta? S\u00f3 que, como num ciclo vicioso, que atravessa o tempo e as gera\u00e7\u00f5es, como explicita a dramaturgia, \u00e9 muito dif\u00edcil se libertar, tanto do relacionamento quanto da culpa, que n\u00e3o deveria nem nos pertencer. H\u00e1 um limite t\u00eanue, tanto no experimento como na vida. Parem de nos culpabilizar. Paremos de nos culpabilizar.<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 enorme: mostrar a realidade da viol\u00eancia e da opress\u00e3o no teatro, num experimento c\u00eanico de poucos minutos, que envereda pela elabora\u00e7\u00e3o discursiva de um cen\u00e1rio fiel ao cotidiano. N\u00e3o h\u00e1 muitas permiss\u00f5es para a abstra\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da poesia crua do texto. O fluxo da jornada dessas personagens \u00e9 o da repeti\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que a m\u00fasica de Fla\u00edra Ferro irrompe no ambiente. Como um mantra, uma ora\u00e7\u00e3o que clama por cura. \u201cEu quero me curar de mim, quero me curar de mim\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma for\u00e7a, que se desprende do texto, da m\u00fasica e, principalmente da atua\u00e7\u00e3o, que \u00e9 do campo da catarse &#8211; tanto que refor\u00e7a a ideia da cura. Que nos alcan\u00e7a e nos fere diretamente pela identifica\u00e7\u00e3o. O espelho est\u00e1 escancarado, refletindo os rostos de todas n\u00f3s. Que, para al\u00e9m da consci\u00eancia da opress\u00e3o, venha a supera\u00e7\u00e3o. Porque, como diria Guimar\u00e3es Rosa, o que a vida quer da gente \u00e9 coragem. Antes que seja tarde.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Texto:<\/strong> Ezter Liu<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Cira Ramos<br \/>\n<strong>Elenco e produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> M\u00e1rcia Cruz<br \/>\n<strong>Sonoplastia:<\/strong> Fernando Lobo<br \/>\n<strong>M\u00fasica:<\/strong> Fla\u00edra Ferro<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o:<\/strong> Luciana Raposo<br \/>\n<strong>Fotos<\/strong>: Keity Carvalho<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o:<\/strong> Cia Maravilhas de Teatro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; * A a\u00e7\u00e3o Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab \u2013 Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco No \u00faltimo domingo, 21 de mar\u00e7o, morreu Nawal El Saadawi, escritora eg\u00edpcia feminista, autora de mais de 50 livros, entre ensaios, romances e pe\u00e7as. 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