{"id":22771,"date":"2021-03-18T22:00:45","date_gmt":"2021-03-19T01:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=22771"},"modified":"2021-03-18T22:29:56","modified_gmt":"2021-03-19T01:29:56","slug":"clara-e-conceicao-foram-ver-o-mar-critica-de-transbordando-marias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/clara-e-conceicao-foram-ver-o-mar-critica-de-transbordando-marias\/","title":{"rendered":"Clara e Concei\u00e7\u00e3o foram ver o mar <br \/>  Cr\u00edtica de Transbordando Marias"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_22780\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/clara-e-conceicao-foram-ver-o-mar-critica-de-transbordando-marias\/transbordando-marias-2\/\" rel=\"attachment wp-att-22780\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22780\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22780\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Transbordando-Marias-2-e1616114727219.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"334\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22780\" class=\"wp-caption-text\">Clara e Concei\u00e7\u00e3o Camarotti (foto) trabalham juntas em Transbordando Marias. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o de tela<\/p><\/div>\n<p><strong>* A a\u00e7\u00e3o Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab \u2013 Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/selo_final\/\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-22778\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Selo_final-e1616114268818.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"131\"><\/a>No meu corpo, sou muitas. As que vieram antes, as que vir\u00e3o depois. Carrego comigo todas elas. Em <em>Transbordando Marias<\/em>, espet\u00e1culo que abriu a programa\u00e7\u00e3o de encena\u00e7\u00f5es do festival Reside Lab \u2013 Plataforma PE, no corpo da atriz e bailarina Maria Clara Camarotti est\u00e3o imbricadas as viv\u00eancias da sua m\u00e3e e da sua av\u00f3, numa teia complexa que tra\u00e7a paralelos, coincid\u00eancias e viradas de rumo entre hist\u00f3rias temporalmente distintas, mas ligadas pela ancestralidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo, ando absorvida pela leitura do livro <em>Um defeito de cor<\/em>, de Ana Maria Gon\u00e7alves. Mergulhada na hist\u00f3ria de Kehinde, nascida em Savalu, no reino de Daom\u00e9, na \u00c1frica, em 1810. \u00c9 uma personagem forte, que sente a ancestralidade pulsando no corpo, nos sonhos, nas cren\u00e7as compartilhadas com o seu povo. <em>Transbordando Marias<\/em> me levou de volta \u00e0s primeiras p\u00e1ginas do livro.<\/p>\n<p>Kehinde era uma ib\u00eaji, como s\u00e3o chamados os g\u00eameos entre os povos iorub\u00e1s. Pela tradi\u00e7\u00e3o, ib\u00eajis eram s\u00edmbolo de boa sorte e de riqueza. Com Kehinde e Taiwo atadas ao pr\u00f3prio corpo, uma na frente e outra atr\u00e1s, a m\u00e3e das crian\u00e7as dan\u00e7ava no mercado para ganhar dinheiro. A primeira lembran\u00e7a de exist\u00eancia de Kehinde eram os olhos da Taiwo. \u201c\u00c9ramos pequenas e apenas os olhos ficavam ao alcance dos olhos, um par de cada lado do ombro da minha m\u00e3e, dois pares que pareciam ser apenas meus e que a Taiwo devia pensar que eram apenas dela. N\u00e3o sei quando descobrimos que \u00e9ramos duas, pois acho que s\u00f3 tive certeza disto depois que a Taiwo morreu. Ela deve ter morrido sem saber, porque foi s\u00f3 ent\u00e3o que a parte que ela tinha na nossa alma ficou somente para mim\u201d.<\/p>\n<p>Clara Camarotti dan\u00e7a, n\u00e3o no mercado, mas no espa\u00e7o de um casa, como se fosse a m\u00e3e de Kehinde. Com a m\u00e3e e a av\u00f3, que tamb\u00e9m podem significar casa. Assim como o corpo que habitamos, com todas as suas singularidades, casa. Sabe que n\u00e3o \u00e9 apenas uma. Tem consci\u00eancia de que s\u00e3o tr\u00eas. S\u00e3o v\u00e1rias, incont\u00e1veis, presentes ali naquela sala, atrav\u00e9s da sua dan\u00e7a.<\/p>\n<p>O elo entre as tr\u00eas mulheres \u00e9 o n\u00famero 9, aquele que simboliza o encerramento de ciclos. Que rompe com as estruturas de viol\u00eancia reproduzidas a cada gera\u00e7\u00e3o. A av\u00f3 foge dos maus-tratos do marido depois de nove anos, deixando a filha de nove anos, levando consigo apenas a mais nova, de nove meses. A m\u00e3e foge de casa com o circo, aos nove anos, porque queria ser atriz. A rejei\u00e7\u00e3o sofrida pelo grupo de amigas aos nove anos com a justificativa de que era uma crian\u00e7a feia.<\/p>\n<div id=\"attachment_22783\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/clara-e-conceicao-foram-ver-o-mar-critica-de-transbordando-marias\/transbordando-marias-1\/\" rel=\"attachment wp-att-22783\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22783\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22783\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Transbordando-Marias-1-e1616115042261.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"332\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22783\" class=\"wp-caption-text\">Clara Camarotti dan\u00e7a a hist\u00f3ria das mulheres da fam\u00edlia. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o de tela<\/p><\/div>\n<p>A perspectiva documental, autobiogr\u00e1fica, \u00e9 uma das pot\u00eancias do trabalho, que consegue estabelecer zonas fluidas entre fic\u00e7\u00e3o e realidade. Afinal, mem\u00f3ria tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00e7\u00e3o, (re)elabora\u00e7\u00e3o de sentidos e narrativas. Quando contamos, nos insurgimos contra o esquecimento. Damos uma oportunidade, tra\u00e7o de imensa generosidade, para que os outros tamb\u00e9m se apropriem da narrativa, carreguem consigo, passem adiante.<\/p>\n<p>Ao trazer para a cena a m\u00e3e, a atriz Concei\u00e7\u00e3o Camarotti, 67 anos, Clara entrega um presente precioso ao espectador. Concei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma atriz gigante, que preenche a tela, que instaura um tipo estranho e raro de cumplicidade imediata. Est\u00e1 em cena sendo questionada pela filha se gostaria de interpretar um papel, se preferia improvisar ou simplesmente ser ela mesma. Consegue fazer as tr\u00eas coisas. Ora provando o figurino, ora contando hist\u00f3rias deliciosas de uma jovem destemida numa sociedade patriarcal, sentada numa mesa, na cozinha de um s\u00edtio, ora reproduzindo, livremente, as falas da velha Maria Josefa, louca, m\u00e3e de Bernarda Alba, personagem c\u00e9lebre de Federico Garcia Lorca.<\/p>\n<div id=\"attachment_22781\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/clara-e-conceicao-foram-ver-o-mar-critica-de-transbordando-marias\/transbordando-marias-3\/\" rel=\"attachment wp-att-22781\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22781\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22781\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Transbordando-Marias-3-e1616114879372.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"352\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22781\" class=\"wp-caption-text\">Texto tem trechos inspirados na personagem Maria Josefa, de Lorca. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o de tela<\/p><\/div>\n<p>Nesta situa\u00e7\u00e3o de pandemia, quando morremos literalmente sem f\u00f4lego, numa met\u00e1fora materializada, triste e cruel da nossa realidade, Concei\u00e7\u00e3o pede que a filha abra a porta, que a deixe ver o mar. Assim como ela, a filha e os filhos da filha tamb\u00e9m ter\u00e3o cabelos brancos, como a espuma da onda do mar, bubuia, que \u00e9 doce, beija a praia, mas tem a for\u00e7a de levar tudo embora. O tema da velhice perpassa a dramaturgia como condi\u00e7\u00e3o inerente, espelho-tela refletindo a imagem da velha atriz preta, pot\u00eancia de vida, encarando o soco no est\u00f4mago das limita\u00e7\u00f5es trazidas pelos anos. Ao mesmo tempo, exist\u00eancia, resist\u00eancia.<\/p>\n<p><em>Transbordando Marias<\/em> foi criado em conjunto por uma equipe de artistas: al\u00e9m de Maria Clara Camarotti, Nan\u00e1 Sodr\u00e9, do grupo O Poste Solu\u00e7\u00f5es Luminosas, Maria Agrelli, Silvinha G\u00f3es e Conrado Falbo, esses \u00faltimos parceiros de Clara no Coletivo Lugar Comum. O trabalho foi poss\u00edvel gra\u00e7as ao edital emergencial Cultura em Rede do Sesc Pernambuco. Gestado durante a pandemia, as quest\u00f5es t\u00e9cnicas, desde a capta\u00e7\u00e3o das imagens e do som at\u00e9 a edi\u00e7\u00e3o, s\u00e3o o ponto mais fr\u00e1gil do trabalho. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que, embora tenha uma dramaturgia e uma atua\u00e7\u00e3o consistentes, com muitas possibilidades, trata-se ainda de uma semente, de um experimento que pode virar \u00e1rvore frondosa.<\/p>\n<p>D\u00e1 esperan\u00e7a pensar que podemos ter, em algum momento de um futuro que qui\u00e7\u00e1 nos seja pr\u00f3ximo, um espet\u00e1culo documental, Clara e Concei\u00e7\u00e3o Camarotti pisando o palco de um teatro. Ou um filme, j\u00e1 que as telas amam o talento de Concei\u00e7\u00e3o. Vou puxar a sardinha para o nosso lado, que venham logo, sem demora, as tr\u00eas batidas de estaca do Teatro de Santa Isabel, anunciando que a sess\u00e3o j\u00e1 vai come\u00e7ar.<\/p>\n<div id=\"attachment_22782\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/clara-e-conceicao-foram-ver-o-mar-critica-de-transbordando-marias\/transbordando-marias-4\/\" rel=\"attachment wp-att-22782\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22782\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22782\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Transbordando-Marias-4-e1616114957845.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"335\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22782\" class=\"wp-caption-text\">Clara Camarotti. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o de tela<\/p><\/div>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha T\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Concep\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o geral:<\/strong> Maria Clara Camarotti<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Concei\u00e7\u00e3o Camarotti e Maria Clara Camarotti<br \/>\n<strong>Texto livremente inspirado<\/strong> na personagem Maria Josefa, da pe\u00e7a <em>A Casa de Bernarda Alba<\/em>, de Federico Garc\u00eda Lorca<br \/>\n<strong>Equipe de cria\u00e7\u00e3o:<\/strong> Maria Clara Camarotti, Nana Sodr\u00e9, Maria Agrelli, Silvinha G\u00f3es, Conrado Falbo<br \/>\nTrabalho contemplado pelo edital emergencial Cultura em Rede do Sesc Pernambuco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* A a\u00e7\u00e3o Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab \u2013 Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco No meu corpo, sou muitas. As que vieram antes, as que vir\u00e3o depois. Carrego comigo todas elas. 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