{"id":22595,"date":"2021-02-10T22:13:40","date_gmt":"2021-02-11T01:13:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=22595"},"modified":"2021-02-10T22:18:23","modified_gmt":"2021-02-11T01:18:23","slug":"dificil-realidade-brasileira-contos-em-dor-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/dificil-realidade-brasileira-contos-em-dor-maior\/","title":{"rendered":"Dif\u00edcil realidade brasileira <br \/> Cr\u00edtica de Contos em Dor Maior"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_22597\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Totonha-fiandeiros-foto-fotojanela-e1612653272885.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22597\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22597\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Totonha-fiandeiros-foto-fotojanela-e1612653272885.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"515\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22597\" class=\"wp-caption-text\">Totonha, com Karla Pimentel, um dos quadros de <strong><em>Contos em Dor Maior, <\/em><\/strong><em>da <\/em><em>Escola de Teatro Fiandeiros<\/em>&nbsp;. Foto: fotojanela<\/p><\/div>\n<p>Timidez ou solid\u00e3o, ego\u00edsmo, medo do futuro ou fantasmas do passado. Teatro serve para tudo. Para quem quer ser artista ou para quem vai abra\u00e7ar outra carreira, estudar teatro \u00e9 um bom passo, seja qual o for o caminho a seguir. \u00c9 um treinamento muito especial do que h\u00e1 de mais humano em n\u00f3s.<\/p>\n<p>A Escola de Teatro Fiandeiros, do Recife, \u00e9 tocada por artistas-pesquisadores vocacionados. Os diretores Andr\u00e9 Filho e Daniela Travassos est\u00e3o nessa labuta h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, tecendo aprendizado \/experimenta\u00e7\u00e3o dos alunos-atores com cuidado e delicadeza.<\/p>\n<p>No ano passado, devido \u00e0 pandemia do Coronav\u00edrus, as aulas ocorreram de forma virtual. O trabalho de conclus\u00e3o da Turma de Inicia\u00e7\u00e3o Teatral, n\u00edvel 1, da Escola de Teatro Fiandeiros, ministrada pela professora Daniela Travassos, rendeu o espet\u00e1culo&nbsp;<strong><em>Contos em Dor Maior<\/em><\/strong>. Trata-se de uma composi\u00e7\u00e3o dos contos do escritor Marcelino Freire, em mon\u00f3logos sequenciados, de tem\u00e1tica variada.<\/p>\n<p>Os aprendizes d\u00e3o os primeiros passos. E que bom que seja com Marcelino Freire, que carrega uma prosa po\u00e9tica, com muitas castas de reflex\u00f5es. A grava\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a foi exibida na programa\u00e7\u00e3o do Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos deste ano.&nbsp;<\/p>\n<p>A obra de Marcelino Freire aparenta ser f\u00e1cil de levar \u00e0 cena. Por uma teatralidade que pulsa na composi\u00e7\u00e3o dos textos. Pelo tom coloquial. Mas ela exige uma dedica\u00e7\u00e3o maior ao se apropriar das feridas sociais e imprimir algum sentido no palco. H\u00e1 complexidade ao tratar de opress\u00e3o em v\u00e1rios campos: sexualidade, racismo, discrimina\u00e7\u00e3o, machismo, patriarcado, milit\u00e2ncia, experi\u00eancias e perspectivas sobre si e o outro. E mesmo que pare\u00e7a colar em algum clich\u00ea, tra\u00e7a um deslocamento para provocar uma fissura profunda, um pequeno abalo s\u00edsmico, que infla a pot\u00eancia da fala, do corpo, do pensamento. &nbsp;<\/p>\n<p>As rimas dentro da prosa de Marcelino Freire se mostram um desafio.&nbsp;Em alguns casos de <strong><em>Contos em Dor Maior<\/em><\/strong> h\u00e1 uma dificuldade de se apropriar do universo da cena, as a\u00e7\u00f5es psicof\u00edsicas clamam por um treinamento exaustivo do ator. E a articula\u00e7\u00e3o das palavras precisam ser saboreadas, mastigadas, introjetadas.<\/p>\n<p>A linguagem contempor\u00e2nea de Freire aponta a complexidade da vida destes tempos, com os dramas do cotidiano, os protestos, o acordar para uma consci\u00eancia cr\u00edtica nas contradi\u00e7\u00f5es. A tens\u00e3o da linguagem no espa\u00e7o de opress\u00e3o social nos mostra coisas muito mais diretas que as teorias.<\/p>\n<p>Quando Marcelino Freire investe, por exemplo, nos traumas de personagens homossexuais \/ bissexuais \/ transexuais n\u00e3o \u00e9 para salientar os estere\u00f3tipos, usados como entretenimento raso nos programas televisivos humor\u00edsticos. Mas para falar da humanidade daquela personagem e de quem a julga. Ou quando o autor salienta os efeitos do passado colonial e escravocrata refletidos no discurso das figuras, ele exp\u00f5e as frustra\u00e7\u00f5es movidas pela discrimina\u00e7\u00e3o contra as pessoas negras, pobres, perif\u00e9ricas. \u00c9 preciso sutileza nessas falas diretas.<\/p>\n<div id=\"attachment_22596\" style=\"width: 635px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/contos-de-amor-e-dor-e1612653376537.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22596\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-22596\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/contos-de-amor-e-dor-e1612653364576-1024x668.jpg\" alt=\"\" width=\"625\" height=\"408\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22596\" class=\"wp-caption-text\">Na\u00e7\u00e3o Zumbi, com o ator Ariel Sobral. Foto Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Ao todo, 14 cenas formam <strong><em>Contos em Dor Maior<\/em><\/strong>. Seis de <em>Contos Negreiros<\/em> (2005): <em>Na\u00e7\u00e3o Zumbi<\/em>, <em>Vanicl\u00e9ia<\/em>, <em>Totonha<\/em>, <em>Pol\u00edcia e Ladr\u00e3o<\/em>, <em>Curso Superior<\/em> e <em>Cora\u00e7\u00e3o<\/em>. Uma de <em>Angu de Sangue<\/em> (2002): <em>Mo\u00e7a de Fam\u00edlia<\/em>. Tr\u00eas de <em>Amar \u00e9 Crime<\/em> (2011): <em>Vestido Longo<\/em>, <em>Ir Embora<\/em> e <em>Irm\u00e3os<\/em>. Quatro de <em>Rassif \u2013 Mar que arrebenta<\/em> (2006): <em>O Amigo do Rei<\/em>, <em>Maracabul<\/em>, <em>Roupa Suja<\/em> e <em>Ponto.Com.Ponto<\/em>.<\/p>\n<p>Come\u00e7a com o conto&nbsp;<em>Na\u00e7\u00e3o Zumbi<\/em>, com o ator Ariel Sobral. Nele, um homem preto e pobre acertou vender um rim. Como o tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os no pa\u00eds \u00e9 ilegal, algo d\u00e1 errado e a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se realiza. A personagem problematiza a mis\u00e9ria, a fome, a falta de oportunidades, a sa\u00fade p\u00fablica no Brasil, e os limites de pertencimento do pr\u00f3prio corpo. \u201cE o rim n\u00e3o \u00e9 meu? Logo eu que ia ganhar dez mil, ia ganhar.\u201d, pergunta. \u201cSe fosse para livrar minha barriga da mis\u00e9ria at\u00e9 cego eu ficaria\u201d. A caracteriza\u00e7\u00e3o (roupas rasgadas e sujas, e um saco de tecido \u00e0s costas) sugere o papel de um mendigo ou morador de rua. A pensar! O int\u00e9rprete faz modula\u00e7\u00f5es interessantes do epis\u00f3dio que vai render ao personagem muita pancada nos rins.<\/p>\n<p>\u201cCapim sabe ler? Escrever? J\u00e1 viu cachorro letrado, cient\u00edfico? J\u00e1 viu ju\u00edzo de valor? Em qu\u00ea? N\u00e3o quero aprender, dispenso\u201d, se posiciona Totonha, personagem do conto hom\u00f4nimo. E desafia a mocinha que tenta convenc\u00ea-la a ser alfabetizada. \u201cO governo me d\u00ea o dinheiro da feira. O dente o presidente. E o vale-doce e o vale-lingui\u00e7a. Quero ser bem ignorante. Aprender com o vento, t\u00e1 me entendendo?\u201d. Karla Pimentel valoriza a revolta, ironia e reflex\u00f5es da personagem no quadro bem composto.<\/p>\n<p>Silvia Raquel corporifica a funcion\u00e1ria da lavanderia que arma plano mirabolante para conquistar um cliente em&nbsp;<em>Roupa suja<\/em>. Ela imprime sensualidade ao relato dessa aventura amorosa e preenche com gra\u00e7a suas retic\u00eancias. \u201cMaria, nem sei por onde come\u00e7ar. A contar. A minha hist\u00f3ria de amor. Quando ele, Meu Deus, entrou na lavanderia. Parecia propaganda de sab\u00e3o. Tudo \u00e0 minha volta ficou limpo, l\u00edmpido, esse mundo c\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><em>Ponto.Com.Ponto<\/em>&nbsp;segue a ep\u00edgrafe e toca um trecho da m\u00fasica&nbsp;<em>Carinhoso<\/em>&nbsp;de Pixinguinha e Jo\u00e3o de Barro. An\u00fancio de um encontro amoroso no parque. O quadro, com Yuri Campelo exp\u00f5e a expectativa de um jovem apaixonado. O ator traz uma leveza cativante, traduzida em gestos infantilizados. E deixa entrever os ardis de sentidos proposto pelo texto.<\/p>\n<p>Um pai, fissurado em futebol, fica intrigado porque o filho n\u00e3o tem habilidade com a bola. E gosta de poesia. Em&nbsp;<em>Amigo do Rei,&nbsp;<\/em>Gerson Alves consegue extrair humor da ignor\u00e2ncia do personagem que deduz que o filho est\u00e1 apaixonado por um tal de Manuel Bandeira, que ele n\u00e3o sabe se mora nas vizinhan\u00e7as.<\/p>\n<p>O machismo da sociedade brasileira atravessa todas as classes, com suas arma\u00e7\u00f5es de superioridade\/ inferioriza\u00e7\u00e3o. A mulher da cena&nbsp;<em>Vanicl\u00e9ia<\/em>&nbsp;\u00e9 pobre e negra, casada com um marido agressor. Sem perspectiva de vida, ela sonha para sua filha uma vida que j\u00e1 teve, como prostituta e o tratamento \u201cmais humano\u201d dos estrangeiros em rota de turismo sexual no Brasil. B\u00e1rbara Lav\u00ednia passeia por lembran\u00e7as e indigna\u00e7\u00f5es da personagem.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma musicalidade na cena&nbsp;<em>Ir embora<\/em>, com Paloma Aires. H\u00e1 extratos de beleza sobre despedida, sobre d\u00favidas da mudan\u00e7a da Chapada das Mangabeiras para uma cidade mais \u201cdesenvolvida\u201d.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo&nbsp;<em>Contos em Dor Maior<\/em>&nbsp;distingue potencialidades dos alunos, alguns com mais desenvoltura no trabalho. E o cuidado da diretora Daniela Travassos ao respeitar as circunst\u00e2ncias de cada um deles. Que sigam, que o teatro faz bem.<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong><em>Contos em Dor Maior<\/em><\/strong><br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Daniela Travassos.<br \/>\n<strong>Dramaturgia<\/strong>: Marcelino Freire.<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o<\/strong>: Charly Jadson.<br \/>\n<strong>Elenco<\/strong>: Ana Gouveia, Ariel Sobral, B\u00e1rbara Lav\u00ednia, Edu Leandro, Gerson Alves, Karla Pimentel, Marcos J\u00fanior, Matheus Travassos, Melquizedeque Lagos, Paloma Aires, Rafael Neves, Silvia Raquel, Tony Macedo, Yuri Campelo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Timidez ou solid\u00e3o, ego\u00edsmo, medo do futuro ou fantasmas do passado. Teatro serve para tudo. Para quem quer ser artista ou para quem vai abra\u00e7ar outra carreira, estudar teatro \u00e9 um bom passo, seja qual o for o caminho a seguir. \u00c9 um treinamento muito especial do que h\u00e1 de mais humano em n\u00f3s. 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